Wednesday, August 01, 2007

Gerardo, o Integralismo e a mediocridade do preconceito ideológico


Por Victor Emanuel Vilela Barbuy

Nem bem Gerardo Mello Mourão – o genial poeta da trilogia “Os peãs” e de “Invenção do mar” e igualmente genial romancista de “O valete de espadas” e ensaísta de “A invenção do saber” – deixava este Mundo, na esperança da ressurreição, e jornalistas medíocres já escreviam artigos de uma total parcialidade, na tentativa de denegrir seu nome.
Gerardo é um dos mais conhecidos e respeitados autores brasileiros no exterior, havendo sido indicado ao Prêmio Nobel em 1979 e sido admirado por poetas da envergadura de um Octavio Paz, um Pablo Neruda, um Efrain Tomás Bó, um Michel Deguy e mesmo de um Ezra Pound, para quem o “poeta do País dos Mourões” teria escrito, no seu “poema espantoso”, tudo o que ele, o “Pã de Idaho”[1], teria tentado, debalde, escrever: a “epopéia da América”.
No Brasil, a despeito do ignominioso silêncio de muitos escravos do preconceito ideológico – pessoas do mesmo naipe de Luiz Weis, de Alberto Dines e de todos os demais intelectuais de terceira categoria que repetem as mesmas inverdades caluniosas contra o grande poeta cearense e o Integralismo, movimento que conhecem somente pelo que dele escreveram seus inimigos – Gerardo teve seu valor reconhecido por escritores e críticos literários do porte de Octavio de Faria, José Cândido de Carvalho, Carlos Drummond de Andrade, Wilson Martins e Tristão de Athayde (Alceu Amoroso Lima).
Logo no princípio de seu tendencioso artigo intitulado “O poeta, o espião e os ‘traços de direita’”[2], Luiz Weis se refere a Plínio Salgado como o “arremedo de Fuhrer” [sic]. Ora, será que ele não sabe que Plínio Salgado - um de nossos maiores pensadores e escritores, autor de obras como “O estrangeiro”, romance social tão elogiado por literatos e críticos literários do quilate de Monteiro Lobato, Cassiano Ricardo, Andrade Muricy, Afrânio Peixoto, Menotti Del Picchia, Tasso da Silveira, Augusto Frederico Schmidt, José Américo de Almeida, Jackson de Figueiredo, Agripino Grieco, Tristão de Athayde e Wilson Martins, dentre outros, e a mundialmente reconhecida “Vida de Jesus” que Pe. Leonel Franca bem chamou a “jóia de uma literatura” – foi pioneiro na condenação ao nazismo, como bem lembrou o próprio Gerardo em seu monumental artigo “Quem tem medo de Plínio Salgado?”[3], tendo sido o autor da “Carta de Natal e Fim de Ano”, de 1935, e de inúmeros artigos contrários ao nazismo e ao racismo.
Falando em racismo, é importante lembrar que a Ação Integralista Brasileira contou com milhares de negros em suas fileiras, inclusive em posições de liderança. Dentre estes inúmeros Integralistas negros, podemos citar figuras como João Cândido, Abdias do Nascimento (aliás grande amigo de Gerardo), Guerreiro Ramos, Sebastião Rodrigues Alves e Ironides Rodrigues. O Integralismo contou ainda com a admiração e o apoio do vigoroso poeta e pensador tradicionalista Arlindo Veiga dos Santos, fundador e líder da Frente Negra Brasileira e da Ação Imperial Patrianovista.
Muitos judeus também pertenceram ao Movimento do Sigma. Dentre estes, destaco Roberto Simonsen, Adam Steinberg e Aben-Atar Neto, este último fundador do Centro Oswaldo Spengler, Chefe do Departamento Universitário e mais tarde Secretário Provincial de Propaganda do Integralismo no Rio de Janeiro, além de amigo de Gerardo, que muito o admirava.
Enganam-se aqueles que – como Weis – afirmam ser o Integralismo mera cópia do fascismo italiano, uma vez que o Integralismo, diversamente do movimento do “Fascio”, se inspira sobretudo nos ensinamentos perenes do Evangelho, na Doutrina Social da Igreja e no pensamento de autores como Jackson de Figueiredo, Farias Brito, Alberto Torres, Euclides da Cunha, Oliveira Vianna, Oliveira Lima, Pandiá Calógeras e Tavares Bastos, e, ao contrário da ala do fascismo que acabou prevalecendo – a de Benito Mussolini e Alfredo Rocco – condena o cesarismo e o Estado Totalitário de inspiração hegeliana, aos quais opõe, respectivamente, a Democracia Integral e o Estado Integral.
Concordo com Weis em ao menos um aspecto: o necrológio do poeta ipueirense publicado na “Folha de S. Paulo” poderia falar mais a respeito do Integralismo.
Com Alberto Dines – que saiu em defesa do colega em um artigo tão tendencioso quanto o seu, no que toca o Integralismo, intitulado “’Traços de direita’ e evidências de tribalismo”[3] - concordo não apenas a respeito do necrológio, como também no que tange à genialidade poética de Mello Mourão, ao fato de o Integralismo ter deixado profundas marcas nas elites civil e militar do País – marcas que considero positivas e só perigosas aos inimigos da Pátria – e ao fato de outros jornais terem dado destaque aquém do devido à obra literária de Gerardo em seus necrológios, em razão de haver sido ele funcionário da “Folha”.
O necrológio de Gerardo poderia falar da relevância que teve o Integralismo, considerado o primeiro movimento cívico-político de amplitude nacional e, ainda, o primeiro “movimento de massas” do País, contando – de acordo com o “Monitor Integralista” de 07 de outubro de 1937 – com 1.352.000 inscritos, distribuídos em 3.600 núcleos.
Poderia, ainda, o necrológio do gênio de Ipueiras publicado pelo jornal de que foi correspondente na distante e misteriosa China, falar da importância, no plano intelectual, dos Integralistas e do Integralismo, movimento a que Gerardo se referiu, recentemente, como o “mais fascinante grupo da inteligência do País”.
A “Folha de S. Paulo” poderia ter citado ao menos alguns dos cerca de mil intelectuais de relevo que vestiram a camisa-verde, como Miguel Reale, Gustavo Barroso, San Tiago Dantas, Olbiano de Mello, Madeira de Freitas, Adonias Filho, Câmara Cascudo, Goffredo e Ignacio da Silva Telles, Ribeiro Couto, Herbert Parentes Fortes, Alfredo Buzaid, Hélio Vianna, Antônio Gallotti, Américo Jacobina Lacombe, Thiers Martins Moreira, Rosalina Coelho Lisboa, Rubem Nogueira, Pe. Hélder Câmara, Ernani Silva Bruno, Rui de Arruda Camargo, Mario Graciotti, Roland e Margarida Corbisier, Mazzei Gumarães, Leães Sobrinho, Ítalo Galli, Jorge Lacerda, Anor Butler Maciel, Damiano Gullo, Wolfram Metzler, Amaro Lanari, Jayme Regalo Pereira, Mansueto Bernardi, Lauro Escorel, Lopes Casali, Francisco de Almeida Prado, Antônio Toledo Piza, Euro Brandão, Ubirajara Índio do Ceará, Raymundo Padilha, José Loureiro Júnior, Raimundo Barbosa Lima, Belisário Penna, João Carlos Fairbanks, Alcibíades Delamare, José Lins do Rego, Jayme Ferreira da Silva, Lúcio José dos Santos, Alberto Cotrim Neto, Adib Casseb, Félix Contreiras Rodrigues, Vicente do Rego Monteiro, Tasso da Silveira, Augusto Frederico Schmidt, Vinícius de Moraes, Paulo Fleming, Francisco Karam, Mayrink e Dantas Mota, este último considerado por Carlos Drummond de Andrade como o maior poeta de Minas, além, é claro, de Plínio Salgado e de Gerardo, que o mesmo Drummond considerava o maior poeta do Brasil.
Além dos cerca de mil intelectuais de projeção que fizeram parte da Ação Integralista Brasileira, temos ainda outros, pertencentes à segunda geração dos que atenderam ao chamado de Plínio Salgado, tais como Hélio Rocha, Gumercindo Rocha Dorea, Augusta Garcia Rocha Dorea, Genésio Pereira Filho, Ronaldo Moreira, Silveira Neto, Dídimo Paiva, Antônio Pires, Acacio Vaz de Lima Filho e José Baptista de Carvalho, sem falar no Senador Marco Maciel, que fez parte do chamado movimento Águia Branca e também escreveu o belíssimo prefácio à 22ª edição da “Vida de Jesus” de Plínio Salgado.
Weis, em seu artigo já citado, chama de infame Gustavo Barroso, um de nossos mais notáveis escritores, contistas, cronistas, ensaístas, folcloristas, historiadores e jornalistas. Chama de infame o autor de “Terra de Sol”, o fundador do Museu Histórico Nacional, o idealizador do Regimento dos Dragões da Independência, o Imortal que presidiu por mais uma vez a Academia Brasileira de Letras, o homem que Câmara Cascudo considerava o “Mestre incontestável do folclore brasileiro”...
Weis afirma que era nazista o autor de “Brasil – colônia de banqueiros”, o mais corajoso libelo jamais lançado neste País contra o capitalismo explorador, inimigo figadal de nossa Pátria e de nosso Povo. Ora, como pode ser nazista alguém que nunca deixou de sublinhar as diferenças existentes entre a Doutrina do Sigma e a da Cruz Gamada, defendendo, inclusive, que o nacional-socialismo poderia evoluir para o Integralismo, desde que se livrasse das idéias racistas e da concepção totalitária de Estado?
Weis acusa Olympio Mourão Filho e a Ação Integralista Brasileira de estarem por trás da farsa do “Plano Cohen”, que serviu de pretexto à implantação do Estado Novo. Na verdade – como ficou provado diante do Conselho de Justificação do Exército – Mourão Filho não teve culpa alguma da divulgação do conteúdo do documento por ele escrito pelo General Góis Monteiro, que dele se apoderara sem o conhecimento do futuro “general do pijama vermelho”. E o documento em questão – que tinha a finalidade de servir para o estudo de métodos revolucionários, era inspirado sobretudo em uma matéria de uma revista espanhola e fora rejeitado por Plínio Salgado, que o considerara por demais fantasioso – levava a assinatura de Cohen em razão de Bela Khun, o tristemente famoso tirano vermelho de Budapeste, uma vez que, segundo Gustavo Barroso, Khun seria uma corruptela de Cohen[5].
Dines – no artigo em apoio a Weis a que anteriormente me referi – fala dos Integralistas que teriam sido espiões a serviço da Alemanha de Hitler, mas, curiosamente, não faz referência alguma aos vários marinheiros Integralistas que afundaram nos navios brasileiros torpedeados pelos submarinos alemães e aos igualmente numerosos soldados Integralistas que tombaram nos campos e colinas da Itália.
O fecundo editor, escritor e jornalista Gumercindo Rocha Dorea – amigo e companheiro de ideais de Gerardo Mello Mourão, de quem publicou a maior parte dos livros – no último parágrafo da significativa orelha da 2ª edição de “O Brasil na lenda e na cartografia antiga”, de Gustavo Barroso, observa que:
“Como diz Nelson Pereira dos Santos, a propósito do autor de ‘Uma cultura ameaçada: a luso-brasileira’ (Gilberto Freyre), e que aqui estendemos aos citados acima [Vicente do Rego Monteiro, Madeira de Freitas, Belisário Penna, Câmara Cascudo e Gustavo Barroso], os seus desafetos vão – ou já foram – ‘parar no esgoto da história’, enquanto eles continuam atuais...”
Havendo me estendido além do que me cabia, dou por concluído este tão singelo artigo, na absoluta certeza de que Gerardo será sempre lembrado como um dos maiores poetas da Língua Portuguesa e como um dos mais brilhantes romancistas e ensaístas do Brasil, enquanto seus detratores, esses escravos do preconceito ideológico, sairão da vida para entrar no “esgoto da história”, ou – para empregar a expressão de Lênin – na “lata de lixo da história”.



NOTAS

[1] A expressão “Pã de Idaho” é de Gerardo Mello Mourão.
[2] O referido artigo foi publicado no “blog” “Verbo Solto”.
[3] O artigo em questão foi publicado na “Folha de S. Paulo” a 03/05/1995.
[4] O texto de Dines está disponível em seu “blog”, o “Circo da Notícia”.
[5] A respeito do “Plano Cohen”, recomendo a leitura de “O homem e o muro”, de Rubem Nogueira, “A ameaça vermelha – o Plano Cohen”, de Hélio Silva, “Memórias – a verdade de um revolucionário”, de Olympio Mourão Filho, e de “História das revoluções brasileiras”, de Glauco Carneiro.

Thursday, March 29, 2007

A verdade sobre a Monarquia



A verdade sobre a Monarquia
Por Victor Emanuel Vilela Barbuy


Os nossos manuais de História, ou melhor, de ESTÓRIA – os mesmos que pintam os próceres e fundadores da nacionalidade e os grandes vultos da História Pátria como verdadeiros “monstros” ou então “bufões” e que, à luz dos ensinamentos de Marx, reduzem toda a epopéia de nossos maiores, de nossos antepassados, a uma questão de interesses estritamente econômicos – costumam colocar o golpe de Estado que derrubou a Monarquia naquele fatídico 15 de novembro de 1889 como um fato que apenas teria apressado o inexorável ocaso de um Império que – segundo eles – era anacrônico e condenava o Brasil ao atraso.
Não é preciso pesquisar muito, entretanto, para se chegar à conclusão de que nosso Império nada tinha de anacrônico, que, longe de representar um obstáculo ao desenvolvimento nacional, constituía a Coroa uma espécie de alavanca que, conciliando Tradição e Progresso, impulsionava a evolução econômica e social do País, e que o período monárquico, ao contrário do republicano, foi caracterizado sobretudo pela Ordem e pelo Progresso.
O Império não foi perfeito, como bem observou Paulo Napoleão Nogueira da Silva, na introdução de sua obra “Monarquia: verdades e mentiras”, publicada pelas Edições GRD em 1994, já que nenhum regime é perfeito, “porque em todos está presente o elemento ‘erro’, a falibilidade que é própria dos seres humanos”.
A maior parte dos não poucos erros e falhas do Império, tanto no plano religioso como no político-social, decorre da influência nefasta das idéias liberais surgidas na Europa dos séculos XVII e, sobretudo, XVIII.
Todos esses erros e falhas, porém, nem sequer de longe se comparam a todos os erros e falhas da República, regime em que não há – como assinalou Nogueira da Silva – correspondência natural entre a estrutura do Estado e a “realidade antropológica, sociológica, cultural e histórica” da Sociedade. E é a carência de tal correspondência, como igualmente ressaltou o jurista, “que faz com que a República nos mantenha permanentemente marcando passo, ficando para trás em relação a países menos dotados -, sobretudo, ficando distanciados das nossas naturais perspectivas nacionais”.
De modo que a restauração da Monarquia, ainda que seja – como foi durante o Império – influenciada em certa medida por idéias liberais, será o melhor meio de reconduzir o Brasil a seu destino histórico e de construir a Sociedade efetivamente justa, harmônica, fraterna e humana e a Pátria verdadeiramente grande, livre, unida, soberana e democrática com que todos sonhamos.
Durante todo o Império este País não teve, como acentuou Nogueira da Silva, sequer “um único dia sob ditadura ou censura à imprensa”, de sorte que não era por acaso que os presidentes argentinos Saens Peña e Bartolomé Mitre se referiam ao Brasil daquele tempo como a “democracia coronada”, a “democracia coroada”; como também não foi por acaso que Thiers, em diferentes discursos perante a Assembléia Nacional Francesa, e William Gladstone, dentre outros, tanto elogiaram o regime monárquico brasileiro.
No dia imediato ao da proclamação da República, ao receber o Cônsul Geral do Brasil na Venezuela, Múcio Teixeira, o Presidente daquele país, Dr. Juan Pablo Rojas Paúl – tendo lhe dito que pedisse a Deus para que sua Pátria, governada por um sábio durante meio século, não fosse a partir de então regida pelo primeiro “tirannello” que o Exército lhe apresentasse – exclamou, sincera e profundamente comovido: "Se ha acabado la única República que existia en América: el Imperio del Brasil!"
Quase ao mesmo tempo, ao receber o embaixador brasileiro em Quito, o Supremo Magistrado da nação equatoriana lhe ofereceu os pêsames, afirmando em seguida que o Brasil acabara de cometer “o erro mais fatal de sua História!”
Em dezembro de 1914, o insuspeitíssimo Senador Rui Barbosa, antigo Conselheiro do Império que se tornara um republicano dos mais ardorosos e destacados, proferiu um memorável discurso ao Senado Federal em que disse:
“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.
Esta foi a obra da República nos últimos anos.
No outro regime, o homem que tinha certa nódoa em sua vida era um homem perdido para todo o sempre – as carreiras políticas lhe estavam fechadas. Havia uma sentinela vigilante, cuja severidade todos temiam, e que, acesa no alto, guardava a redondeza, como um farol que não se apaga, em proveito da honra, da justiça e da moralidade. Era o Imperador Dom Pedro II.”
Quatro anos mais tarde, Monteiro Lobato, em seu artigo intitulado “D. Pedro II” e publicado na “Revista do Brasil”, salientou que “o fato de existir na cúspide da sociedade um símbolo vivo e ativo da Honestidade, do Equilíbrio, da Moderação, da Honra e do Dever, bastava para inocular no país em formação o vírus das melhores virtudes cívicas”.
Ainda em “D. Pedro II”, observou o autor de “Urupês” e de “Cidades mortas” que “mais um século de luz acesa, mais um século de catálise imperial e o processo cristalizatório se operaria por completo. O animal, domesticado de vez, dispensaria açamo. Consolidar-se-iam os costumes; enfibrar-se-ia o caráter. E do mau material humano com que nos formamos sairia, pela criação duma segunda natureza, um povo capaz de ombrear-se com os mais apurados em cultura”, sendo que, “para esta obra moderadora, organizadora, cristalizadora, ninguém” - segundo o grande escritor e patriota valparaibano - era “mais capaz do que Pedro II”, não havendo “nenhuma forma de governo melhor do que sua monarquia”.
Em julho de 1930, Plínio Salgado – então Deputado Estadual por São Paulo e já um renomado e consagrado escritor e jornalista, tendo publicado, em 1926, a obra “O estrangeiro”, primeiro e maior romance social em prosa modernista de nossa Literatura e havendo depois fundado, ao lado de outros vultos do Modernismo, os movimentos literários conhecidos como Revolução da Anta e Verde-amarelismo – assim afirmou, em sua carta ao Dr. Manoel Pinto, escrita de Milão: “O Império legou à República um país unido, homogêneo, vibrando pelo mesmo coração; a República, com mais vinte ou trinta anos, terá completado sua obra de dissociação”.
Observações parecidas estão presentes em muitos dos artigos que o autor de “Psicologia da Revolução” e de “Vida de Jesus” escreveu em sua célebre “Nota Política” no jornal “A Razão”, de que era o redator principal, tendo como companheiros de redação jovens intelectuais como San Tiago Dantas, Mario Graciotti, Alpínolo Lopes Casali, Nuto Sant’Anna, Silveira Peixoto, Nóbrega de Siqueira, Marques Rabelo, Leopoldo Sant’Anna e Gabriel Vendoni de Barros. Em meu artigo intitulado “O negro e o Integralismo”, lembrei a importância deste matutino cujo proprietário era o Dr. Alfredo Egídio de Souza Aranha e que “revolucionou a imprensa da Capital Bandeirante e mesmo do Brasil e acabaria empastelado nos distúrbios de 23 de maio de 1932”.
Em fins da década de 1920, surgira em São Paulo o movimento patrianovista, que – inspirado sobretudo nos ensinamentos da Doutrina Social da Igreja e no pensamento de mestres tradicionalistas d’aquém e d’além mar, tais como o sergipano Jackson de Figueiredo, fundador do Centro D. Vital, e o alentejano António Sardinha, principal doutrinador do movimento tradicionalista, patriótico e monárquico conhecido como Integralismo Lusitano – pregava a instauração, no Brasil, de um regime monárquico tradicional como aquele que vigorara nos áureos tempos do Império Lusitano e em que o Estado organizar-se-ia à base da autonomia dos Municípios e das agremiações profissionais, bem como a recatolização de nossa Sociedade, defendendo a Ordem e a Justiça Social.
Reunindo diversos intelectuais como Ataliba Nogueira, Sebastião Pagano e Antônio Paim Vieira, o Patrianovismo tinha como principal líder o pensador, poeta, jornalista, escritor e homem de ação Arlindo Veiga dos Santos, que fundou e dirigiu também a Frente Negra Brasileira.
Àqueles que desejarem saber mais a respeito do Patrianovismo, recomendo a leitura do excelente verbete dedicado a este movimento por José Pedro Galvão de Sousa, Clovis Lema Garcia e José Fraga Teixeira de Carvalho em seu “Dicionário de Política” – de longe o melhor de quantos tenho lido -, assim como da obra “Império e Missão”, da historiadora Teresa Malatian.
Vejamos, agora, algumas das informações que o Dr. Paulo Napoleão Nogueira da Silva colheu em diferentes fontes, todas elas absolutamente insuspeitas, e transcreveu em sua obra já aqui citada.
Na edição de “O Estado de São Paulo” de 14 de setembro de 1991, encontra-se a informação de que nos cento e um anos decorridos desde a proclamação da República até aquela data, os preços mundiais elevaram-se em vinte e três vezes, ao passo que no Brasil elevaram-se em nada menos do que trinta e dois trilhões de vezes!
Segundo a revista “Finanças Públicas”, editada pelo Ministério da Fazenda, em seu volume 213 (maio/junho de 1960), no Império, entre 1840 e 1889, o menor salário do País era de 25.000 réis, o que equivalia a 22,5 gramas de ouro. Com a República, de acordo com Nogueira da Silva, só cento e três anos mais tarde, em julho de 1993, os trabalhadores conseguiram obter um salário mínimo de CR$ 5.600,00, o que correspondia a apenas 06 gramas de ouro!
Da mesma fonte provém a informação de que o maior salário do Brasil Imperial, o de Senador, foi de 300.000 réis; isto é, somente doze vezes maior do que o menor salário. Em princípios da década de 1990, quando Nogueira da Silva escreveu seu ensaio, o salário de Senador da República correspondia a duzentas e quarenta vezes o salário mínimo!
É ainda a mesma fonte que afirma que, entre 1840 e 1889, o Brasil teve inflação de 1,58%. Neste mesmo período, a inflação da França, do Reino Unido, dos Estados Unidos e da Alemanha oscilava entre 1,6% e 04%. Nos cento e três anos que separam a imposição da República e o trabalho de Nogueira da Silva, o acúmulo de inflação chegou a cerca de dez trilhões por cento!
A “Gazeta Mercantil” informa que, no Império, tinha o Brasil a segunda maior frota mercante do Planeta, da mesma forma que o Ministério da Marinha informa que, naquele período de nossa História, tínhamos a segunda maior esquadra naval do Mundo. Hoje, em 2007, todos sabem o quão longe estamos disto...
Provém, por fim, do Ministério dos Transportes a informação de que, durante o II Império (1840-1889), construiu o nosso Brasil cerca de 10.000 quilômetros de ferrovias. A República, em suas primeiras décadas, ampliou até bastante o número de quilômetros de estradas de ferro, mas depois desativou praticamente todas as nossas linhas férreas.
Um dos grandes desacertos da República foi o de acabar com o Poder Moderador. Com a extinção deste poder que sustenta, como nenhum outro, o imprescindível equilíbrio entre Autoridade e Liberdade, sem o qual não pode haver uma verdadeira e efetiva Democracia, extinguiram-se, ainda, - como frisou João de Scantimburgo em seu artigo intitulado “Suma de Filosofia do Poder Moderador” e publicado no n° 85 da “Revista Brasileira de Filosofia” (janeiro/fevereiro/março de 1972) – “ e por via de conseqüência, na estrutura das instituições políticas brasileiras, o conselho de Estado, o conselho de ministros, o Senado vitalício e teve início a debandada da classe dirigente, cuja evolução se processou, através do tempo, em torno do cetro imperial.” Segundo o eminente pensador, escritor, jornalista e Imortal, “não atinaram os republicanos do século XIX, nutridos de inspiração alienígena e de doutrina estrangeira, que abriam um vácuo cujo preenchimento se tem feito, durante toda a história posterior do Brasil, por meios aleatórios e, no exato rigor da palavra, por sucedâneos, aos quais falta a consistência das instituições solidamente edificadas no espaço e no tempo”.
Nenhum mal foi pior, todavia, do que aquele que Rui Barbosa chamou, no final de sua vida, de “o mal grandíssimo e irremediável das instituições republicanas”, que consiste, segundo a “Águia de Haia”, “em deixar exposto à ilimitada concorrência das ambições menos dignas o primeiro lugar do Estado e, desta sorte, o condenar a ser ocupado, em regra, pela mediocridade”.
Tudo o que afirmei até agora, neste artigozinho, pode ser resumido por este pequeno trecho do já mencionado artigo de Monteiro Lobato:
“De Norte a Sul o povo lamuria a sua desgraça e chora envergonhado o que perdeu. Tinha um rei, tem sátrapas. Tinha dinheiro, tem dívidas. Tinha justiça, tem cambalachos de toga. Tinha Parlamento, tem ante-salas de fâmulos. Tinha o respeito do estrangeiro, tem irrisão e desprezo. Tinha moralidade, tem o impudor deslavado. Tinha soberania, tem cônsules estrangeiros assessorando ministros. Tinha estadistas, tem pêgas. Tinha vontade, tem medo. Tinha leis, tem estado de sítio. Tinha liberdade de imprensa, tem censura. Tinha brio, tem fome. Tinha Pedro II, tem ... não tem! Era. Não é”.
Sabemos que a longa e tenebrosa noite que é a idade materialista logo terá o seu crepúsculo, dando lugar à Aurora da Idade Nova, cujo romper já se anuncia. Esta Idade Nova, que Berdiaeff chamou de “a nova Idade Média”, caracterizar-se-á acima de tudo pelo Primado, pela Primazia do Espírito.
Do mesmo modo que a velha e mofada idade materialista dará lugar à Idade Nova, dos escombros de nossa República oligárquica e plutocrática nascerá, segundo Paulo Napoleão Nogueira da Silva, em seu ensaio tantas vezes aqui citado, uma nova Monarquia, pois “a república tem sido uma noite, de agonias intermináveis. Há noites que parecem se prolongar indefinidamente. Mas, é lei natural, não há noite, por mais longa que seja, que não preceda à Aurora.”
Também não me resta dúvida de que esta República, que de República, aliás, nada tem, “cairá por terra – como previu Antônio Vicente Mendes Maciel, o profeta sertanejo mais conhecido como Antônio Conselheiro – para confusão daquele que concebeu tão horrorosa idéia.” Se será substituída por uma “Democracia Coroada” ou por uma nova República em que os representantes do Povo serão todos homens competentes, íntegros e honestos, só o futuro responderá.
Saibamos, porém, que, caso advenha o III Império, será ele imensamente mais glorioso do que o II, da mesma forma que a “nova Idade Média” será enormemente mais grandiosa do que a antiga.

Sunday, March 11, 2007

Homenagem a Gerardo Mello Mourão


Por Victor Emanuel Vilela Barbuy

Deixou de bater o coração daquele que foi o último grande bardo vivo do Brasil. Faleceu no dia 09 deste mês, no Rio de Janeiro, aos noventa anos, o magno escritor, poeta, romancista e jornalista Gerardo Mello Mourão.
O Ceará, o Sertão, o Nordeste, o Brasil, a América, o Mundo Lusófono, a Hispanidade e a Latinidade perdem, com a partida de Mello Mourão para a Milícia do Além, um de seus mais brilhantes escritores e pensadores.
Um dos mais respeitados e admirados autores brasileiros no exterior, Gerardo Mello Mourão foi indicado ao Prêmio Nobel em 1979, havendo sido sua inscrição realizada pela New York University, e recebeu elogios de poetas do quilate de um Octavio Paz, de um Pablo Neruda, um Michel Deguy e até mesmo de um Ezra Pound. Este último, considerado por Mello Mourão como o maior poeta dos últimos séculos, assim escreveu: "Toda a minha obra foi uma tentativa de escrever a epopéia da América. Não o consegui. Ela foi escrita no poema espantoso do poeta do País dos Mourões.”
Em nosso País, a despeito do silêncio criminoso de alguns escravos do preconceito ideológico, que jamais o perdoaram por haver militado na Ação Integralista Brasileira, Mello Mourão e sua obra tiveram seu valor reconhecido por críticos do porte de um Wilson Martins, que chamou seu livro “Invenção do Mar” de “Os Brasilíadas”, numa comparação com “Os Lusíadas” de Camões, e por escritores da estirpe de um José Cândido de Carvalho, de um Octavio de Faria e de um Carlos Drummond de Andrade, que declarou-se “possuído de uma violenta admiração pelo imenso, dramático e vigoroso painel” da poesia de Gerardo Mello Mourão.
Foi o mesmo Carlos Drummond de Andrade quem, diante de “O País dos Mourões”, comovidamente exclamou: “Esta poesia foi tudo quanto sempre desejei escrever na vida, e nunca tive força. Gerardo Mello Mourão teve.” E foi, ainda, o mesmo Carlos Drummond de Andrade quem reconheceu: "O grande poeta de Minas Gerais não sou eu: - é o espantoso poeta Dantas Mota.
O grande poeta do Brasil também não sou eu: - é o nordestino Gerardo Mello Mourão. Sempre sonhei chegar à poesia a que ele chegou. Não tive força. Ele teve."
Observou Afonso Botelho que "a poesia da língua portuguesa passou a sustentar-se sobre quatro pilares: Camões, Pessoa, a carta de Caminha e Gerardo".
De toda a obra poética de Gerardo, que foi eleito, em 1997, pela Guilda Órfica, o poeta do século XX, destaco – além do autêntico “Os Brasilíadas” que é “A Invenção do Mar”, livro dedicado a Luiz Gonzaga, o “Homero sertanejo” – a trilogia épica “Os Peãs”, composta por “O País dos Mourões”, “Peripécia de Gerardo” e “Rastro de Apolo”.
Outra das obras-primas do grande escritor cearense é “O Valete de Espadas”, que, considerado o primeiro romance expressionista de nossa Literatura, foi escrito enquanto o autor se encontrava injustamente preso. Por falar em prisões injustas, foi Gerardo preso injustamente por dezoito vezes, durante o Estado Novo de Getúlio Vargas e o Governo Militar, que também cassou seu mandato de Deputado Federal.
“O Valete de Espadas” foi escrito, bem como as dez elegias da obra “Cabo das Tormentas”, na ocasião em que Gerardo, acusado de ser um espião nazista pela ditadura estadonovista de Vargas, permaneceu encarceirado por quase seis anos, até ser libertado em razão de um apelo de intelectuais franceses liderados por Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Albert Camus, cuja peça teatral “Calígula” Gerardo traduziu para o nosso idioma.
Cearense quatrocentão e católico apostólico romano tradicionalista, Gerardo Mello Mourão nasceu em Ipueiras, ao pé da Serra da Ibiapaba, a 08 de janeiro de 1917. Menino ainda, deixou o seu ensolarado “país do Grande Ceará” e seguiu para o Sul, onde estudou no célebre Seminário Redentorista de Congonhas do Campo, em Minas Gerais, e no Convento da Glória.
Mello Mourão já havia desistido da vida monástica, quando, no Rio de Janeiro, encontrou-se com Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Athayde, que o aconselhou a entrar para o Integralismo, movimento cívico-político oficialmente criado a 07 de Outubro de 1932, quando o eminente escritor, romancista, jornalista e político Plínio Salgado lera, no Teatro Municipal de São Paulo, o seu chamado Manifesto de Outubro.
Embora tenha sofrido, em razão de sua filiação ao Integralismo, as piores perseguições, Gerardo Mello Mourão declarou: “Não tenho do que me arrepender, participei do mais fascinante grupo da inteligência do País.” Deste grupo que reuniu inúmeras centenas de intelectuais do mais alto valor e projeção, incluindo personagens como Gustavo Barroso, Miguel Reale, Olbiano de Mello, San Tiago Dantas, Madeira de Freitas, Câmara Cascudo, Adonias Filho, Herbert Parentes Fortes, Goffredo e Ignacio da Silva Telles, Ribeiro Couto, Alfredo Buzaid, Rubem Nogueira, Hélio Vianna, Antônio Gallotti, Américo Jacobina Lacombe, Thiers Martins Moreira, Pe. Hélder Câmara, Rui de Arruda Camargo, Ernani Silva Bruno, Raymundo Padilha, Raimundo Barbosa Lima, José Loureiro Júnior, Belisário Penna, Alcibíades Delamare, João Carlos Fairbanks, Guerreiro Ramos, Abdias do Nascimento, José Lins do Rego, Jayme Ferreira da Silva, Tasso da Silveira, Augusto Frederico Schmidt, Vinícius de Moraes, Paulo Fleming, Francisco Karam e Dantas Mota - aquele que Carlos Drummond de Andrade considerava o maior poeta mineiro -, dentre tantos outros não menos importantes.
Neste momento de profundo pesar pelo falecimento de Gerardo Mello Mourão, consolo-me em saber que ele será para sempre lembrado como um dos maiores escritores da Língua Portuguesa e espero que Deus suscite, na atual geração e nas gerações vindouras, homens do valor de Gerardo, para que o Brasil possa ser a Grande Nação com que sonhou aquele nobre bardo da Província de José de Alencar, Antônio Conselheiro, Farias Brito e Gustavo Barroso.

Sunday, February 11, 2007

Por Cristo Rei!


Por Victor Emanuel Vilela Barbuy


Vivemos num País completamente dominado pelo materialismo e cada vez mais marcado pelo destemor a Deus, pelo desamor à Pátria, pelo desapego à Família, às Tradições e às instituições cristãs e democráticas e pela total aversão ao princípio de Autoridade (sem a qual, aliás, jamais existirá Liberdade); vivemos num País onde os intelectuais se dividem, de um lado, entre os que adoram ao "Deus Mercado" e defendem o imperialismo econômico, político e cultural e o capitalismo excludente e selvagem e, de outro, entre aqueles que consideram Cuba um exemplo de Democracia, rendem culto a assassinos como Lênin, Stálin, Trótski, Mao Tsé-Tung, Fidel Castro, "Che" Guevara e até Pol Pot, ainda chorando a queda do Muro de Berlim e do chamado Império Soviético, por eles visto como um autêntico "paraíso terreno"; vivemos num País em que a decadência moral é generalizada, em que o direito de Propriedade é violado tanto pela ação nefasta do capitalismo neoliberal quanto pela de grupos extremistas, que se aproveitam da miséria e do justíssimo clamor das multidões despossuídas para semear o ódio, a violência e a luta de classes.
Vivemos, porém, num País em que se mantêm, surgem e ressurgem movimentos que, inspirados nos ensinamentos perenes do Evangelho, na Doutrina Social da Igreja e no pensamento dos magnos mestres tradicionalistas d’aquém e d’além mar, lutam para que o Brasil desperte de seu sono e seja reconduzido à missão histórica que herdou de Portugal.
Um dos novos movimentos que surgem é a Associação Cristo Rei (ACR), que, criada na cidade de Toledo, antiga Cristo Rei, no Oeste do Paraná, reúne já algumas dezenas de jovens professores e acadêmicos irmanados na defesa da Fé e do mais sadio e nobre nacionalismo.
Tal nacionalismo é decorrente do tradicionalismo, entendido este, à luz do que observou António Sardinha, numa das páginas iniciais de "Ao princípio era o Verbo", não como obscurantismo, mas sim como "continuidade no desenvolvimento", como "permanência na renovação". E tal nacionalismo – como também ensinou, no mesmo livro, o assinalado apóstolo de lusitanismo e de hispanismo – supõe, "em relação ao grande conjunto humano, um ‘universalismo’", universalismo este que se não pode confundir com o cosmopolitismo e o internacionalismo de nossos atormentados dias, só podendo ser, portanto, "o universalismo que a Idade Média professou e a que Augusto Comte rendia tão calorosas homenagens: a sociedade internacional restabelecida e restaurada sobre as únicas bases duradouras, - as da Cristandade."
Voltemos, contudo, à Associação Cristo Rei. Seu brasão – em torno do qual se agrupam já muitos dos mais valorosos representantes da mocidade do Estado, ou melhor, da Província de Tasso da Silveira – traz um escudo dourado com a figura da Harpia, também chamada de Gavião-real, tendo ao fundo a Cruz da Ordem Militar de Cristo, vulgar e erroneamente conhecida como Cruz de Malta.
O presidente e fundador da ACR é Nilo Barreto Junior, filho da Bahia de Castro Alves, Rui Barbosa, Adonias Filho e Rubem Nogueira e propugnador dos ideais tradicionalistas e patrióticos há tempo já considerável, primeiro aqui em São Paulo e depois lá mesmo no Paraná.
"Viva Cristo Rei!" é agora a saudação não apenas dos carlistas de Espanha e dos cristeros do México, mas também dos membros e simpatizantes da ACR.
Ainda não está pronta a página da ACR na rede mundial dos computadores, mas Fernando Rodrigues Batista – jovem e vigoroso pensador cristão e um dos mais proeminentes membros daquele movimento, pertencendo ao núcleo de Foz do Iguaçu – criou um "blog" onde encontramos magníficos textos de Gustavo Corção, Francisco Rolão Preto, Gustave Thibon, Jean de Siebenthal, Louis Veuillot, Jean Madiran e outros, bem como significativos artigos da própria lavra do arguto articulista paranaense.
O "blog" criado por Fernando chama-se "Reconquista", nome da formidável revista bilíngüe de cultura que circulou em princípios da década de 1950, sendo dirigida por José Pedro Galvão de Sousa e incluindo, em sua lista de colaboradores, intelectuais d estirpe de um Francisco Elías de Tejada y Spínola, de um Pablo Lucas Verdú, um Rafael Gambra, um Octavio Nicolás Derisi, de um Rolão Preto, um Fernando de Aguiar, um Alberto de Monsaraz, um Hipólito Raposo, um Francisco José Velozo, um Heraldo Barbuy, um Arlindo Veiga dos Santos, um Mesquita Pimentel, um Clovis Lema Garcia, dentre outros de não menor valor.
Os militantes da ACR sabem que sofrerão as piores calúnias, injúrias e difamações e que estas dificilmente virão a peito descoberto. Não poderia ser, aliás, de modo diverso, uma vez que, em nossos dias, todos aqueles que se levantam em defesa da restauração do Primado do Espírito, são acusados de fascistas e até de nazistas pelos adeptos, conscientes ou não, do materialismo, como bem acentuou Plínio Salgado, o egrégio e injustiçado autor de "Vida de Jesus", "Aliança do Sim e do Não", "Conceito cristão da Democracia", "Primeiro, Cristo!", "Direitos e deveres do Homem" e de tantas outras obras que todos os cristãos deveriam ler.
Mas esses valorosos paladinos de Cristo e da Pátria, da mesma forma que os primeiros cristãos – acusados de envenenar fontes, de incendiar Roma e até mesmo de comer criancinhas -, nada temem, exceto a Deus.O tradicionalismo que a ACR prega – o mesmo tradicionalismo dos pensadores cristãos já citados neste pequeno texto e o mesmo tradicionalismo de Vázquez de Mella, de Ramiro de Maeztu, Miguel Ayuso Torres, João Ameal, Maurice Barrès, Bernanos, Marcel de Corte, Chesterton, Leonardo Van Acker, Alexandre Correia, Ricardo Dip e de inúmeros outros da mesma estirpe – é o pensamento novo e perene que poderá construir um Grande e Novo Brasil e uma Grande e Nova Hispânia.
A ACR, que é, antes de tudo, no dizer de seu fundador, uma "família de almas", - tomando "a verdade como regra das ações", como demonstrou Farias Brito no livro que recebeu este nome, e assumindo "uma atitude em face dos problemas", como desejava Alberto Torres, - luta pela recristianização integral de nossa Pátria e pela formação de uma Aristocracia de Espírito.
Contrária a preconceitos étnicos e sociais, reunirá ela pessoas de todas as etnias e classes sociais, de Norte a Sul do nosso Brasil.
Encerremos este artigo com um pequeno trecho da obra "Primeiro, Cristo!", de Plínio Salgado:"Por Cristo-Rei".
"Seja, pois, a exaltação da realeza de Cristo, o coroamento destas palavras. Eu a proclamo, do fundo da minha pequenez, com o ardor de um soldado. E como soldado vos convido, ó homens do meu tempo, a aclamarmos o Cristo-Rei, por cujo Reino devemos ir à luta, uma luta diferente, porque não seremos portadores de morte, mas de vida; nem de aflições, mas de consolações, nem de crueza, mas de bondade.
"E vós – ó Jesus, a quem tanto amamos, e que estais tão abandonado pelas nações no século dos horrores, como vos prefigurou na tábua apocalíptica o pintor neerlandês [Van Aeken, o Bosch] – recebei o nosso preito de soldados fiéis, e socorrei-nos em nossas fraquezas, para que possamos cumprir quanto desejamos, no empenho de vos bem servir; pois incapazes somos nós sem vossa Graça, mas se não faltardes com Ela, ainda que hajamos de cair muitas vezes, outras tantos nos levantaremos, de sorte que, nas horas perigosas, nas horas decisivas e, principalmente, na hora extrema, por vós, sempre por vós, estaremos de pé!"
Viva Cristo Rei!

São Paulo, 08 de fevereiro de 2007.

Monday, January 22, 2007

Cento e doze anos de Plínio Salgado


Por Victor Emanuel [Vilela Barbuy]


Gerardo Mello Mourão inicia seu artigo “Quem tem medo de Plínio Salgado?”, publicado na “Folha de S. Paulo” a 03/05/1995 – ano em que era celebrado o centenário de Plínio Salgado -, lembrando as palavras de Hélio Jaguaribe, que dizia, em sua obra “Idéias para a Filosofia no Brasil”, que “depois do Integralismo seguiu-se o silêncio dos que são incapazes de emprestar um sentido geral e historicamente atualizado a suas aspirações de poder”. Esse silêncio, como observa Mourão, “tenta estender sua cortina de chumbo e de cultivada estupidez não só sobre a obra política, mas também sobre a obra literária de Plínio Salgado”.
A 25 de fevereiro do mesmo ano, publicara o Prof. Miguel Reale, no jornal ”O Estado de São Paulo”, o artigo intitulado “Centenário de Plínio Salgado”, que principiava com a observação de que “o silêncio da imprensa e de todos os meios de comunicação a respeito do centenário do nascimento de Plínio Salgado demonstra quanto pode a força do preconceito, e notadamente do preconceito ideológico, capaz de obscurecer o real valor de nossos homens mais representativos. Porque Plínio Salgado, visto geralmente apenas sob o prisma da falsa ‘vulgata integralista’ disseminada por esquerdistas de todos os naipes, reuniu, como bem poucas personalidades, o que há de mais característico, positiva e negativamente, na cultura brasileira”.
Plínio Salgado é, com efeito, uma das mais injustiçadas figuras da História deste País, sendo condenado por pessoas que na maior parte das vezes jamais leram seus livros, preferindo julgá-lo pelas exterioridades do Movimento Integralista por ele criado, confiando nos mentirosos rótulos e não contrastando a mercadoria com o critério vivo de seu bom senso, ao contrário do que pregava Rui Barbosa no “Discurso do Colégio Anchieta”, tão oportunamente citado por Rubem Nogueira em “O homem e o muro”.
Um dos maiores e mais renomados escritores do Modernismo brasileiro – tendo sido seu livro “O estrangeiro”, primeiro e mais importante romance social em prosa modernista de nossa Literatura, recebido entusiasticamente por personalidades como Monteiro Lobato, Jackson de Figueiredo, Tristão de Athayde, Agripino Grieco, Rodrigues de Abreu, Oliveira Vianna, Menotti Del Picchia, Cassiano Ricardo e Mário de Andrade -, costuma ser qualificado de “escritor menor” ou “escritor obscuro” por elementos carentes de cultura e pródigos em preconceito ideológico.
Ferrenho adversário do totalitarismo, do racismo, do anti-semitismo e da burguesia – por ele entendida não como uma classe, mas sim como um estado de espírito que vive em todos os estratos de nossa Sociedade -, seus adversários, alguns por má-fé e muitos por simples ignorância, costumam apontá-lo, ao contrário, como sendo uma espécie de “Führer tupiniquim” e de “cão de guarda da ordem burguesa”.
Um dos mais proeminentes pensadores cristãos de nosso País, que brilhantemente representou nas Conversações Católicas Internacionais de San Sebastián, na Espanha, em 1948, não é considerado sequer cristão por indivíduos que fazem questão de ignorar, por exemplo, os bem merecidos elogios tecidos a sua obra-prima, “Vida de Jesus”, por religiosos e pensadores da estirpe de Cardeal Cerejeira, dos padres Leonel Franca, Moreira das Neves e Domenico Mondrone, de Alberto de Monsaraz, João Ameal, João Gaspar Simões, Francisco Elías de Tejada Spínola e tantos outros não menos ilustres.
Não cabe aqui analisar o Integralismo, movimento que atraiu – como nenhum outro na recente História do Brasil – a atenção dos homens de pensamento da Nação, contando com a adesão de expressivo número de intelectuais do mais alto valor e da mais alta projeção e com a admiração de inúmeros outros do mesmo nível. Fizeram parte das fileiras integralistas personagens como Gustavo Barroso, Miguel Reale, Olbiano de Mello, Câmara Cascudo, San Tiago Dantas, Alfredo Buzaid, Adonias Filho, Raymundo Padilha, Tasso da Silveira, Hélder Câmara, Goffredo e Ignacio da Silva Telles, Gerardo Mello Mourão, Augusto Frederico Schmidt, Ribeiro Couto, Herbert Parentes Fortes, José Loureiro Júnior, Hélio Vianna, Américo Jacobina Lacombe, Ernani Silva Bruno, Antônio Gallotti, Jorge Lacerda, Thiers Martins Moreira, Vinícius de Moraes, José Lins do Rego, Roland Corbisier, Álvaro Lins, Seabra Fagundes, Rui de Arruda Camargo, João Carlos Fairbanks, Mário Graciotti, Olympio Mourão Filho, Dídimo Paiva, Genésio Pereira Filho e Gumercindo Rocha Dorea, para citar somente alguns.
Voltemos, porém, a Plínio Salgado. “Fosse este um país sério – observa o Prof. Acácio Vaz de Lima Filho no artigo sobre “O Manifesto Integralista de 1932” publicado na “Gazeta de São João” a 23/11/2004 e reproduzido no n.2 do periódico “Sei que vou por aqui!” -, e os seus livros ‘O estrangeiro’, ‘O esperado’, ‘O cavaleiro de Itararé’ e ‘A voz do Oeste’ seriam de leitura obrigatória na escola média. Cultuasse este país a sua própria História, e os cadetes de todas as Escolas Militares, os alunos das Escolas de Sargentos, e os reservistas em geral, seriam levados a decorar o ‘Poema da Fortaleza de Santa Cruz’, também de Plínio Salgado”.
Fosse este um País como aquele com que Plínio Salgado nos ensinou a sonhar, e nossas crianças leriam todas o “Compêndio de Instrução Moral e Cívica”, o “Nosso Brasil”, a “Geografia sentimental” e o “Código de ética do estudante”, todos escritos pelo autor de “Psicologia da Revolução” e d’“A Aliança do sim e do não” , neles aprendendo a temer a Deus, a amar a Pátria, a respeitar a Família e a defender a Liberdade, a Democracia e as Tradições. Fosse este um País que realmente almejasse solucionar os seus problemas fundiários, e seria aplicado o projeto de Reforma Agrária idealizado por Plínio e por ele apresentado à Mesa da Câmara Federal no ano de 1963...
Foi Plínio Salgado, do mesmo modo que o Tenente Siqueira Campos, um homem que tudo deu à Pátria sem nada esperar em troca, nem mesmo compreensão. Como observou certa vez, um dia a História haveria de julgá-lo. Estava tranqüilo com a sua consciência, pois cumprira o seu dever. Viera ao Mundo para assistir ao triste quadro de nosso País e não ficara indiferente. Tomara o partido de Deus e da Pátria, por Cristo sonhando com um Grande Brasil; por Cristo pregando a doutrina da solidariedade humana e da harmonia social; e por Cristo pregando, conclamando, evangelizando e conduzindo centenas de milhares de brasileiros de todos os credos, etnias e classes sociais no rumo da Democracia Integral e do Estado Ético.
Estamos certos de que a História o absolverá e que, assim que ruir em nosso País o vergonhoso muro da ignorância e do preconceito ideológico, será Plínio Salgado novamente reconhecido como um dos mais notáveis pensadores, romancistas, filósofos, sociológos, jornalistas, ensaístas, poetas, historiadores, oradores e parlamentares de nossa História e, ademais, como uma das maiores expressões da Cristologia com sua já aqui mencionada “Vida de Jesus”, que o Padre Leonel Franca chamou de “jóia de uma Literatura”.
E, assim como Juscelino Kubitschek e sua esposa, D. Sarah, temos a certeza de que o nome de Plínio Salgado perpetuar-se-á “como um símbolo iluminando o futuro”.
Seja esta minha modesta homenagem a Plínio Salgado, este “Mestre de Brasilidade”, no dizer de Ruy Pereira e Alvim, neste dia em que se completam cento e doze anos de seu nascimento na gentil e bucólica cidadezinha serrana de São Bento do Sapucaí, entre os Estados de São Paulo e Minas Gerais.

São Paulo, 22 de janeiro de 2007

Sunday, December 10, 2006

Oitenta anos de "O estrangeiro"

Por Victor Emanuel Vilela Barbuy

Está passando em brancas nuvens o octogésimo aniversário da obra “O estrangeiro”, que abriu a trilogia de “Crônicas da vida brasileira”, configurou-se como um marco de renovação do romance neste País e fez de seu invulgar autor, Plínio Salgado, um romancista renomado e consagrado pela crítica.
No magnífico artigo que o Prof. Miguel Reale, de saudosa memória, publicou no jornal “O Estado de São Paulo” a 25 de fevereiro de 1995, ano em que era celebrado o centenário de Plínio Salgado, observou o grande filósofo, jurista e Imortal que “o silêncio da imprensa e de todos o meios de comunicação a respeito do centenário do nascimento de Plínio Salgado demonstra quanto pode a força do preconceito e notadamente do preconceito ideológico, capaz de obscurecer o real valor de nossos homens mais representativos. Porque Plínio Salgado, visto geralmente apenas sob o prisma da falsa ‘vulgata’integralista' disseminada por esquerdistas de todos os naipes, reuniu, como bem poucas personalidades, o que há de mais característico, positiva e negativamente, na cultura brasileira.”
O autor de “O Estado Moderno” e de “Pluralismo e liberdade”, fundador do Instituto Brasileiro de Filosofia e da “Revista brasileira de Filosofia”, criador da Teoria Tridimensional do Direito e idealizador do novo Código Civil brasileiro terminou o artigo observando que não alimentava a esperança de que seu pronunciamento pudesse fazer “justiça ao grande paulista e brasileiro que foi Plínio Salgado, pois só o tempo o fará; mas ele por certo pensava, como Siqueira Campos, que tanto admirava, que da Pátria nada se espera, nem mesmo compreensão.”
Tudo aquilo que disse o Prof. Reale lamentavelmente continua válido, explicando o criminoso silêncio da mídia em relação aos oitenta anos do nosso primeiro romance social em prosa modernista.
Em nosso País, cuja “intelligentsia” tende a perdoar todos os inumeráveis crimes da “esquerda”, ao mesmo tempo em que persegue inquisitorialmente todos aqueles que se batem contra o materialismo, difamando-os, caluniando-os e achincalhando-os, pouquíssimas são as pessoas sinceras que, quebrando as cadeias do preconceito ideológico, analisam Plínio Salgado e sua obra por aquilo que verdadeiramente são e não pela imagem deturpada que seus inimigos e os inconscientes e ignorantes a seu serviço criaram deles, fazendo-lhes, assim, justiça.
Parece-me, entretanto, que as coisas estão principiando a mudar, ainda que lentamente, de modo que creio na restauração da Verdade, na justíssima reabilitação do autor de “O estrangeiro”, “O esperado”, “O cavaleiro de Itararé”, “A voz do Oeste” e “Vida de Jesus”, cujo valor literário concede-lhe, como bem sublinhou ninguém menos que Juscelino Kubitschek, “a autêntica palma da imortalidade”.
A idéia de escrever “O estrangeiro”, que tivera sua gênese nas leituras de autores espiritualistas e tradicionalistas que haviam despertado em Plínio Salgado novas inquietações aparentemente adormecidas sob a leitura dos filósofos materialistas do séc. XIX, só tornou-se definitiva – como relatou o romancista em entrevista a Silveira Peixoto publicada em 1940 na primeira série da obra “Falam os escritores” – no decorrer de uma viagem que fez à zona Araraquarense, por volta de 1923, em companhia de Alarico Silveira, então Secretário do Interior de São Paulo.
O sucesso de “O estrangeiro” foi algo realmente extraordinário. A primeira edição esgotou-se em menos de três semanas e o burburinho que se fez em torno do romance, na imprensa nacional, foi espantoso e mostrou ao autor que ele havia acertado. Mas ele ignoraria tudo o quanto então se publicava a respeito dele e de sua revolucionária obra, se não fosse por seu amigo Fernando Callage, que colecionava todos os artigos, posto que naquela ocasião, na pequenina, bucólica e tradicional São Bento o Sapucaí, falecia a mãe de Plínio Salgado, que, estando já à beira da morte, tomou o livro do filho nas mãos, projetando lê-lo mais tarde, quando estivesse melhor, o que infelizmente não ocorreu...
Plínio Salgado é – em “O estrangeiro” e nos dois romances que lhe seguem e formam com ele a trilogia de “Crônicas da vida brasileira” – o genial cronista, intérprete de uma época de dúvidas e de incertezas que, imbuído dos ideais dos mais sadios patriotismo e nacionalismo e livre de todas as questões da forma e do estilo, revela-se um espectador e conhecedor de todas as correntes ideológicas e de todos os dramas das diferentes classes sociais. É, ademais, dotado de uma formidável capacidade de compreender e amar todos os antagonismos, bem como de alma para efetivamente sentir, sofrer e expressar, sem temor ao uso da palavra, todos os complexos estados de espírito nacionais.
Sua obra, na qual podemos sentir o cheiro de nossa terra, é ao mesmo tempo uma magistral exposição dos problemas que afligiam – e afligem – o Brasil e o seu povo, e uma profissão de fé do autor no futuro da Pátria.
Plínio Salgado, figura exponencial do Modernismo brasileiro, foi, como disse Augusta Garcia Rocha Dorea, o escritor que realizou totalmente o “espírito animador” da Semana de Arte Moderna, uma vez que pugnou pela nacionalização integral do Brasil “na literatura, no espírito e nos costumes do povo, na cultura e na política.”
O livro de Plínio Salgado é, antes de tudo, uma crônica das vidas paulista e brasileira entre princípios da década de 1910 e a época em que foi concluído, com a fixação de aspectos da vida rural, da vida provinciana e da vida na grande urbe (São Paulo).
O ciclo ascendente do colono é simbolizado pelos Mondolfis, italianos que chegam da Península sem mais do que algumas trouxas de roupa e em poucos anos, com o suor de seus rostos e uma certa dose de sorte – a geada que poupa os cafezais de Carmine Mondolfi, o patriarca da família, ao passo que devasta todos os outros da região – tornam-se milionários, com cafezais, indústrias, ações majoritárias de uma estrada de ferro, palacete na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, automóveis de luxo e título de “Cavaliere Ufficiale” para Carmine Mondolfi.
O ciclo descendente das tradicionais famílias quatrocentonas, por sua vez, é representado pelos Pantojos, que, grandes fazendeiros no interior, mudam-se para a Capital Paulista, onde vão residir num palacete no aristocrático bairro de Higienópolis, e, após vender a fazenda aos Mondolfis, acabam rapidamente dissipando toda a fortuna nos luxos e vícios da cosmopolita metrópole do café.
Zé Candinho, caboclo rijo e labutador, simboliza os novos bandeirantes, os brasileiros autênticos que, “fortes como fundadores de países”, marcham pelas veredas rumo ao Oeste, ao Sertão, como haviam feito seus antepassados.
Nhô Indalécio representa, ao contrário, os caboclos que não têm forças para lutar, para progredir, e de “olhos morteiros, toadas monótonas nos lábios”, sofrem pelas mãos dos poderosos, nacionais e estrangeiros, diante da completa omissão do Governo.
Juvêncio, o mestre-escola, é o patriota e nacionalista que leva a seus alunos – sejam eles filhos de italianos, espanhóis, portugueses, japoneses, sírios ou caboclinhos e mulatinhos – uma admirável mensagem de civismo, enquanto combate o cosmopolitismo com todas as suas forças. É ele quem estrangula os papagaios que haviam aprendido a cantar o hino fascista “Giovinezza” e outras italianidades e que tentara debalde curar no Sertão, num episódio em que Plínio Salgado manifesta claramente o seu entendimento de que as doutrinas alienígenas jamais seriam a solução para os problemas do Brasil.
Ivan, o russo que fora amigo de Górki e conspirara para matar o czar nos bairros escusos de Moscou, constitui o personagem central do livro. É, como diz o autor no prefácio onde é esquematizada sua obra, a “síntese de todos os personagens, consciência de todos os males”. Tendo enriquecido, tornando-se proprietário de uma fábrica no Brás, o russo, por outro lado, não conseguiu integrar-se ao Brasil – ao contrário dos Mondolfis e em que pese o esforço de Juvêncio – e não foi feliz no amor, de modo que termina por dar cabo da própria vida num ato trágico em que também são mortos todos os seus empregados.
Major Feliciano figura o charlatanismo da política dominante, constituindo o típico político profissional que age sempre em prol do interesse próprio e em detrimento do bem comum.
Eugênio Fortes, o poeta, representa o alheamento dos intelectuais em face da realidade e dos problemas de que padece nossa Sociedade.
O sempre rigoroso Agripino Grieco considerou “O estrangeiro” o melhor romance daquele ano de 1926 e afirmou que, “obra de desafogo mental, útil depoimento de um homem livre, ‘O estrangeiro’ é um livro fervilhante, pululante de idéias, é a obra de um literato que se completa no pensador, no historiador, no sociólogo. Obra panorâmica que faz ver o Brasil de hoje como uma carta em relevo."
Tristão de Athayde (Alceu Amoroso Lima) também saudou “O estrangeiro” com entusiasmo, julgando-o “o romance mais dramático de nosso tempo.”
Jackson de Figueiredo analisou, em seu artigo intitulado “O Saci, o Avanhandava e o imperialismo pacífico”, aquela primeira obra romanesca de Plínio Salgado, terminando por observar que “’O estrangeiro’ é mesmo nos seus mais aflitivos e cruéis avisos, um livro de esperança e de fé.”
Monteiro Lobato escreveu, a respeito daquele romance ao mesmo tempo paulista e brasileiro, o texto “Forças novas”, em que, havendo reconhecido que “Plínio Salgado consegue o milagre de abarcar todo o fenômeno paulista, o mais complexo do Brasil, talvez um dos mais complexos do mundo, metendo-o num quadro panorâmico de pintor impressionista e observado que “todo o livro é uma inaudita riqueza de novidades bárbaras, sem metro, sem verniz, sem lixa acadêmica – só força, a força pura, ainda não enfiada em fios de cobre, das grandes cataratas brutas”, termina dizendo que “Plínio Salgado é uma força nova com a qual o país tem que contar.”
Cassiano Ricardo, por seu turno, afirmou que Plínio Salgado é “um brasileiro que conseguiu ‘viver’ o Brasil, penetrar os recantos úmidos da terra, fixar-lhe os aspectos mentais, ouvir o tropel da nação vindoura, adivinhá-la nas intenções mais obscuras de mundo virgem, plasmar o tumulto da cidade babélica" e é ainda "um Alencar corrigido por um Machado.”
Mário de Andrade também não poupou elogios a “O estrangeiro”, que saudou como o maior romance de sua geração.
Muitos anos mais tarde, Wilson Martins classificou “O estrangeiro” como o melhor romance escrito na década de 1920, ao lado de “O esperado”, também de Plínio Salgado.
Antônio Cândido já assumiu que gostava bastante dos romances de Plínio Salgado, de modo que estou certo de que ele só ainda não escreveu a respeito deles por temer a ira daqueles que ainda não se libertaram dos grilhões do preconceito ideológico.
Defenderam alguns, inclusive Miguel Reale, que “O estrangeiro” deveria ser tão lembrado quanto “A bagaceira”, romance de José Américo de Almeida, mas discordo deles, já que “A bagaceira”, como bem observaram Brito Broca, Augusta Garcia Rocha Dorea e outros, bastante fica a dever a seu modelo, que não foi outro senão “O estrangeiro” de Plínio Salgado.
Encerro aqui este singelo trabalho, na certeza de que cheguei ao menos perto de fazer justiça a um dos maiores e menos lembrados livros de nossa Literatura, bem como a um dos mais invulgares e esquecidos escritores pátrios, contribuindo, ainda que infimamente, para resgatar o prestígio de “O estrangeiro” e de seu autor, Plínio Salgado, “esse injustiçado”, como bem disse Pedro Paulo Filho, tendo derrubado algumas pedras do gigantesco e ignóbil muro do preconceito ideológico ainda tão forte em nosso País.

Wednesday, October 25, 2006

Carta à Folha de São Paulo

Em resposta ao artigo Guerra suja, de Boris Fausto

Por Victor Emanuel [Vilela Barbuy]

São lamentáveis as considerações de Boris Fausto a respeito da suposta participação dos integralistas no famigerado “Plano Cohen”, plano que foi, no dizer de Hélio Silva, "uma das mais monstruosas farsas da História".
Como bem observa Rubem Nogueira, em sua monumental obra "O homem e o muro", que o Sr. Boris Fausto não deve ter lido e deveria ler, "a má-fé de muitos e o desconhecimento da maioria sobre esse funesto acontecimento respondem pela injusta vinculação dele ao Integralismo, na pessoa de um dos seus antigos militantes, o capitão Olímpio Mourão Filho, quando, ao contrário, foi um embuste, nada mais, arquitetado e posto em prática pelo general Pedro Aurélio de Góis Monteiro" (pág. 177). A exposição de Rubem Nogueira, no capítulo IX de sua obra, é de longe a melhor de todas quantas tenho lido a respeito desse turvo episódio de nossa História, sendo indicada por ninguém menos que o Prof. Goffredo Telles Junior em seu livro de memórias, "A folha dobrada".
A autoria do “Plano Cohen” é um fato que ficou comprovado perante o Conselho de Justificação do Exército, requerido a 26/11/1956 ao Ministro da Guerra, General Henrique Batista Dufles Teixeira Lott, por Olímpio Mourão Filho, então já coronel.
Pelo voto concordante de seus três juizes, um general e dois coronéis, o dito Conselho de Justificação considerou plenamente justificado o Coronel Olímpio Mourão Filho, absolvendo-o e arquivando o processo, como relatam, além de Rubem Nogueira, Glauco Carneiro, em "História das revoluções brasileiras", Hélio Silva, em "A ameaça vermelha – o Plano Cohen" e "1937 – todos os golpes se parecem", e o próprio Mourão Filho em "Memórias – a verdade de um revolucionário".
Entre os dias 20 e 22 de agosto daquele conturbado ano de 1937, Plínio Salgado incumbiu Mourão Filho de elaborar um estudo acerca de métodos revolucionários marxistas.
Mourão Filho fez em duas vias o estudo que lhe fora pedido por Plínio Salgado, cujo texto se encontra transcrito no livro de Hélio Silva, "A ameaça vermelha – o Plano Cohen".
No trabalho teórico de Mourão Filho não há, cumpre sublinhar, nenhuma referência ao Komintern ou ao Partido Comunista, quer do Brasil quer da URSS, o que desmascara de plano o General Góis Monteiro, como bem observa Rubem Nogueira no citado livro.
Plínio Salgado não gostou do estudo de Mourão Filho, rejeitando-o por conter trechos muito fantasiosos e estranhando ainda o nome “Cohen”. Mourão então explicou a ele que, por brincadeira, pusera no documento a assinatura de Bela Khun, o tristemente famoso tirano comunista de Budapeste, e lembrando, em seguida, que Gustavo Barroso costumava insistir que Khun era corruptela de Cohen, riscara o “Khun” e o substituíra por “Cohen”. O risco, entretanto, atingira também o “Bela”, de modo que o datilógrafo que passara o estudo a limpo conservara apenas o “Cohen”.
Poucos dias mais tarde, porém, o General Álvaro Mariante, vizinho de quarteirão, padrinho de casamento e ex-comandante de Mourão Filho, tendo visto seu rascunho, sugeriu que ele levasse uma cópia deste a Góis Monteiro, mas o futuro comandante do alçamento de 31 de Março de 1964 não anuiu, posto que aquele assunto era de interesse exclusivo da AIB (Ação Integralista Brasileira). Ao despedir-se de Mourão, todavia, Mariante pediu a ele para ficar com aquele estudo para lê-lo uma vez mais, ao que Mourão assentiu, pedindo ao general, contudo, que não deixasse mais ninguém ver aquilo.
Um ou dois dias depois, Mourão, desconfiado de Mariante, pediu-lhe a devolução da cópia emprestada, que, em sua casa, queimou folha por folha. Mas Mourão Filho, no seu íntimo, tinha a certeza de que, naquele intervalo, seu padrinho de casamento, deslealmente, passara a cópia de seu trabalho ao General Góis Monteiro, seu vizinho de apartamento, que mandara reproduzi-la. Foi o que realmente ocorrera. E Góis Monteiro, havendo introduzindo no estudo de Mourão Filho tudo o que achava necessário para torná-lo "um tenebroso plano de ação do Partido Comunista Russo", apresentou-o ao Chefe da Casa Militar da Presidência da República como apreendido pelo Estado-Maior do Exército.
Quanto à caracterização do Integralismo como versão tropical do fascismo, ela já é tão banal que sequer merece resposta. Mas é preciso lembrar sempre que o Integralismo, que, como já escrevia Plínio Salgado em "A quarta humanidade", estava muito mais próximo do movimento cristão e democrático de Don Sturzo do que do fascismo de Mussolini, tinha muitas diferenças em relação a este, condenando, por exemplo, a ditadura, o cesarismo e o Estado Totalitário, aos quais opunha a Democracia Integral e o Estado Integral, ao mesmo tempo antiindividualista e antitotalitário.

Friday, October 20, 2006

A Revolução Necessária

Por Victor Emanuel


Todos sabemos que o Brasil enfrenta a mais grave crise de sua História. Nós, que durante anos fomos a oitava economia do Planeta e o país que mais crescia no Mundo Ocidental, somos hoje a décima quinta economia e temos uma taxa de crescimento irrisória se comparada à das demais nações em desenvolvimento e mesmo à de algumas nações desenvolvidas. O partido que sempre se pavoneou em arauto da Ética e em defensor dos menos favorecidos foi o responsável pelos mais terríveis escândalos de corrupção de nossa História e, mantendo os juros na estratosfera, beneficiou como nenhum outro os grandes banqueiros, em detrimento do Setor Produtivo, enquanto, por meio de programas assistencialistas como o Bolsa-Família, não fez mais do que comprar votos e manter os pobres em seu estado de pobreza, em vez de lhes oferecer as condições necessárias para efetivamente mudar de vida.
A inversão dos valores, surgida com o advento do capitalismo, sistema em que as pessoas não valem mais pelo que são, mas sim por aquilo que possuem, vem sendo promovida, com intensidade crescente, pela Mídia deletéria a serviço de interesses inconfessáveis, atingindo os níveis mais alarmantes. Os direitos humanos, em tese de todos os cidadãos, são na prática muitas vezes apenas dos ladrões e assassinos. O crime organizado, nutrido pela miséria, pelo desemprego, pela decadência dos valores espirituais, cívicos e morais e pela insuficiência do sistema educacional, desfruta de um tremendo poder diante de um Estado impotente e pratica os mais bárbaros atos de terrorismo contra alvos militares e civis. A moral e o civismo, tidos como “caretas”, “quadrados”, não são mais ensinados às nossas crianças e nem aos nossos jovens. Os heróis, os vultos da Pátria são olvidados e mesmo caluniados, ao passo que seus inimigos e traidores são exaltados, cultuados como se fossem os verdadeiros heróis da nacionalidade.
As lamentáveis ações de grupos extremistas como o MST e o MLST mostram que o bolchevismo, doutrina e prática do ódio, da inveja, da violência, da luta de classes e da desagregação moral e social, está – dezessete anos após a queda do funesto Muro de Berlim e quinze desde o colapso do Império Soviético – ainda fortíssimo em nosso País, constituindo considerável ameaça às nossas instituições cristãs e democráticas. O comunismo, doutrina exótica, subversiva e unilateral que remonta aos tempos do lampião de gás e do motor a vapor e que se apóia nos mais baixos instintos do Ser Humano e nas mais ínfimas paixões da Humanidade, alimenta-se dos justíssimos anseios da multidão despossuída e famélica, que clama por Justiça Social e desconhece que o bolchevismo não é a ditadura do proletariado, mas sim a ditadura contra o proletariado, da mesma forma que não é a harmonia entre os homens de diferentes classes, mas sim o seu extermínio mútuo e que não é a realização dos preceitos do Evangelho, mas sim a subversão da Obra Divina e o fim da Religião.
Os excluídos da posse e propriedade da terra pelo sistema capitalista, cujas mazelas não é necessário expor aqui, têm seus clamores aproveitados por profissionais da invasão, motivados por interesses estritamente pessoais e por ideais antidemocráticos e totalitários.
Nossa mocidade já não tem o hábito da leitura. Os poucos jovens que lêem, costumam preferir os “best-sellers” estrangeiros aos grandes nomes de nossa Literatura e de nosso pensamento.
Nossos professores não se preocupam em formar as crianças e os jovens, mas apenas em informá-los, quando não em desinformá-los ou mesmo deformá-los. E, para piorar, alunos passam de ano sem saber sequer ler e escrever ou realizar as quatro operações matemáticas. Nossa Educação se encontra, com efeito, numa distância monstruosa abaixo da Educação Integral que formará o Homem Integral, que não é o homem cívico da liberal-democracia, nem o homem econômico do marxismo e nem tampouco o super-homem egocêntrico de Nietzsche, mas o homem físico, o homem intelectual, o homem cívico e o homem espiritual, ou simplesmente o Homem.
Perderam-se os valores da Autoridade e da Hierarquia, sem os quais a Liberdade não pode existir. A liberdade que temos escraviza o fraco em detrimento do forte, não constituindo mais do que o direito das minorias plutocráticas explorarem o povo e abrindo caminho para a tirania e o totalitarismo.
A democracia liberal está longe de ser democrática na precisão integral do termo e, da mesma forma que o capitalismo, carrega o germe de sua própria destruição.
As Constituições burguesas, falaciosas e demagógicas da liberal-democracia, do liberalismo e do neoliberalismo – que não refletem de forma alguma as realidades de seus países, não tendo absolutamente o cheiro das terras em que foram criadas ou do sangue, do suor e das lágrimas de seus trabalhadores – ainda não tomaram conhecimento da pluralidade natural das fontes do Direito, não sabendo que os grupos sociais de que a Sociedade é constituída são fontes inexauríveis de normas, como bem observa o Professor Goffredo Telles Junior em “O Povo e o Poder”.
Vemos os vícios de nossa sociedade aumentarem não a cada dia, mas a cada hora, juntamente com a prática do mal, o destemor a Deus, o desamor à Pátria, o desapego à Família e o desrespeito à Tradição.
Vemos ainda que a Civilização Ocidental, por muitos ainda chamada de Civilização Cristã, embora infelizmente não mais o seja há já bastante tempo, corre sério perigo de desintegrar-se. E se corre tal perigo é porque é essencialmente técnica e se baseia no individualismo, que exclui toda a consideração do Homem Integral e contém o germe do coletivismo.
Nossa maior crise, porém, é a do pensamento, como já apontava Plínio Salgado em maio de 1933, ao escrever o prefácio daquela que é considerada, com razão, sua maior obra político-filosófica – “Psicologia da Revolução”. É neste mesmo preâmbulo que o fundador do Integralismo brasileiro e autor da “Vida de Jesus”, “jóia de uma literatura”, no dizer de Padre Leonel Franca, e das “Crônicas da Vida Brasileira”, formidável trilogia de romances sociais modernos composta por “O Estrangeiro”, “O Esperado” e “O Cavaleiro de Itararé”, ensina que sem que a crise do pensamento seja resolvida não se poderá solucionar o problema da Nação.
Para redimir o Brasil é necessário fazer-se uma profunda Revolução. Essa Revolução não se fará com armas convencionais, mas sim com livros e muita reflexão. Iniciar-se-á dentro de cada um, como Revolução Interior, Revolução das Mentalidades, Revolução dos Espíritos, e terminará com a Revolução Integral das instituições representativas do Estado brasileiro, com a implantação da Democracia e do Estado integrais.
A Democracia Integral, que podemos chamar também de Democracia Cristã, Democracia Efetiva, Democracia Autêntica ou Democracia Legítima e que opomos à democracia burguesa e às ditaduras de todos os matizes, constitui a única Democracia exeqüível e, tendo sua base sobretudo em Deus e nos ensinamentos perenes do Evangelho, vivifica a Liberdade do Homem e a Autoridade do Estado, Autoridade em que se origina e é demarcada essa Liberdade.
Já o Estado Integral, ou Estado Moderno, ou ainda Estado Ético, nada mais é que o Estado autêntico, a um mesmo tempo antiindiviualista e antitotalitário, que, não constituindo nem princípio e nem fim, subordina-se à ordem natural das coisas, proclamando, acima de tudo, a Intangibilidade do Ente Humano e dos Grupos Naturais, e fazendo prevalecer o espiritual sobre o moral, o moral sobre o social, o social sobre o nacional e o nacional sobre o individual. Como sublinhou Miguel Reale em sua obra “O Estado Moderno”, de 1934, só os ignorantes ou os mal-intencionados podem confundir tal concepção de Estado com a concepção totalitária de Hegel.
Em nossa longa e árdua caminhada até o Dia do Triunfo; até o advento da Democracia e do Estado integrais; até a total libertação da nossa Pátria e do nosso povo daqueles que os oprimem; até a restauração do Primado do Espírito, da Inteligência, da Ética e da Verdade, sofreremos as mais absurdas calúnias, injúrias e difamações. Defensores da Justiça Social e dos humildes, seremos chamados de inimigos do povo e de reacionários a serviço da alta burguesia. Adversários do imperialismo e arautos da grandeza da Pátria e de sua integridade territorial, apontar-nos-ão como agentes de potências estrangeiras. Inimigos figadais de todo e qualquer preconceito étnico, caluniar-nos-ão como adeptos das teorias racistas que sempre combatemos. Democratas no exato sentido do termo, avessos ao estatismo absorvente e ao cesarismo e sustentadores da Liberdade e da Intangibilidade do Homem, injuriar-nos-ão como profetas do totalitarismo e carrascos das liberdades. Adeptos do único movimento político-social autenticamente brasileiro, apontar-nos-ão como seguidores de doutrinas alienígenas.
Seremos, como temos sido até hoje, julgados e condenados não por aquilo que efetivamente somos, mas sim pela imagem deturpada que nossos adversários criaram de nós. Nossos adversários, que dispõem dos mais poderosos meios de propaganda, continuarão nos apresentando como partidários de tudo aquilo que condenamos e combatemos.
Coisa parecida só sofreram os primeiros cristãos, tidos por devoradores de crianças, envenenadores de fontes e incendiários de Roma, e talvez a Espanha, nação em torno da qual criou-se a famosa “leyenda negra”.
Todos esses desleais ataques, entretanto, tornar-nos-ão cada vez mais fortes e confiantes.
Não podia, aliás, ser de outra forma. É evidente que todo aquele que, revestido da armadura de Deus, se levanta em nome da Fé e do Espírito, por Cristo batalhando e conduzindo adiante, com tenacidade inquebrantável, a bandeira da Solidariedade Humana e da Justiça Social, recebe em troca o peso do ódio e das calúnias dos maus e da incompreensão dos inocentes a serviço destes.
Podemos parecer poucos, não mais do que alguns milhares, mas a verdade é que encarnamos a Pátria neste grave momento, constituindo a verdadeira maioria, aquela maioria que não se traduz por números, mas sim pelos valores morais, cívicos e éticos, bem como pela fé que deposita nos destinos da Nação, de que constitui a derradeira esperança.
Somos os únicos representantes autênticos da Terceira Posição, da Terceira Via, que não pode ser confundida em hipótese alguma com a “terza via” fascista de Mussolini e nem tampouco com a “terceira via” neoliberal de Blair, de Clinton e de “nosso” FHC.
À luz de uma concepção integral do Homem e do Universo, consideramos anacrônicos, ultrapassados os conceitos de “direita” e “esquerda”, surgidos durante a Revolução Francesa de 1789 e válidos apenas num tempo marcado pelas visões unilaterais, fragmentárias do Homem e do Universo.
Temos diante de nós uma tremenda tarefa que é a de despertar o Brasil de seu sonho, de sua letargia liberal, reconduzindo-o ao seu destino histórico, fazendo com que efetivamente retorne ao Espiritualismo Cristão a que deve em grande medida sua unidade, grandeza e força, retomando o culto da terra e dos antepassados, que tem sido olvidado e mesmo condenado pelas forças deletérias do materialismo.
Deus dirige o destino dos povos. Estejamos certos de que Ele reserva ao povo brasileiro um luminoso porvir. O Brasil vai despertar. Nós já despertamos.

12/10/2006,

Friday, October 13, 2006

O Negro e o Integralismo


Por Victor Emanuel [Vilela Barbuy]


Na recente reportagem sobre o nazismo em nosso País, a revista “Aventuras na História”, da Editora Abril, afirma, dentre vários outros absurdos, que o Integralismo constitui um movimento racista, chegando ao cúmulo de dizer que os integralistas espancavam negros. Até que se prove o contrário, prefiro supor que tais afirmações sejam fruto não da má-fé do mencionado periódico, mas sim da absoluta ignorância que muitos brasileiros, infelizmente, ainda têm em relação ao Integralismo, por eles conhecido através de livros, filmes, minisséries e telenovelas que não fazem mais do que repetir velhas e carcomidas calúnias dos agentes do Komintern de Stálin e do DIP de Getúlio Vargas.
Ora, o Integralismo, como doutrina essencialmente cristã e brasileira, sempre foi radicalmente contrário a qualquer forma de racismo. Foi, aliás, o primeiro movimento, no Brasil, a aceitar em suas fileiras, inclusive em posições de liderança, negros, bem como mulheres – as famosas blusas-verdes - e índios.
No chamado Manifesto de Outubro, documento que funda oficialmente o Integralismo e que é lido por seu autor, Plínio Salgado, já então ex-deputado estadual por São Paulo, além de escritor e jornalista de renome, a 07 de Outubro de 1932 no Teatro Municipal de São Paulo, já se denunciava que “os brasileiros das cidades não conhecem os pensadores, os escritores, os poetas nacionais. Envergonham-se também do caboclo e do negro de nossa terra. Adquiriram hábitos cosmopolitas. Não conhecem todas as dificuldades e todos os heroísmos, todos os sofrimentos e todas as aspirações, o sonho, a energia, a coragem do povo brasileiro. Vivem a cobri-lo de baldões e de ironias, a amesquinhar as raças de que proviemos. Vivem a engrandecer tudo o que é de fora, desprezando todas as iniciativas nacionais. Tendo-nos dado um regime político inadequado, preferem, diante dos desastres da Pátria, acusar o brasileiro de incapaz, em vez de confessar que o regime é que era incapaz.”
O insuspeitíssimo sociólogo Gilberto Freyre, em sua obra “Uma cultura ameaçada – a luso-brasileira”, de 1942 (citado por Jayme Ferreira da Silva em “A Verdade Sobre o Integralismo”), refere-se ao geógrafo nacional-socialista Reinhard Maack, que, na revista de professores da Universidade de Harvard, nos EUA, já havia expedido suas idéias profundamente racistas: “O geógrafo Maack atribui essas idéias universalistas, absurdas, ao próprio movimento integralista, recordando, com indignação, que um dos chefes teuto-brasileiros do extinto partido teria exclamado, em discurso em Blumenau: ‘Na época de completa fraternização de toda a família brasileira num Estado integral, não haverá mais diferenças de raça e de cor’. Para nós, um dos pontos simpáticos e essencialmente brasileiros do programa daquele movimento. Para o geógrafo Maack: ‘heresia das heresias’. Os homens de raça e de cultura germânica, sob a orientação nazista, não se submeteriam nunca a semelhante confraternização de raças e de costumes, dentro das tradições portuguesas que se tornaram estruturais para o desenvolvimento brasileiro.”
Não custa lembrar, ademais, que Plínio Salgado, como bem observa Hélio Rocha em seu livro “Integralismo é Totalitarismo?”, de 1950, “foi o primeiro jornalista sul-americano que rompeu fogo contra o Nazismo” e também o primeiro intelectual e homem de ação do País a fazer uma denúncia de peso contra esse movimento racista, em sua “Carta de Natal e Fim de Ano”, de 1935, sendo em razão disto e de suas idéias profundamente cristãs, democráticas e, portanto, antiracistas e antitotalitárias, seus livros proibidos de circular na Alemanha de Hitler.
Dentre os integralistas negros – inúmeros, como podemos ver através de centenas de fotografias – incluem-se o líder negro, ex-senador, teatrólogo, ator, escritor, artista plástico e professor Abdias do Nascimento, o “Almirante Negro” João Cândido, o sociólogo Guerreiro Ramos, o ativista negro e escritor Sebastião Rodrigues Alves e o jornalista, escritor, advogado, professor e militante negro Ironides Rodrigues, que assinou durante anos uma excelente coluna sobre cinema no jornal integralista “A Marcha”.
João Cândido Felisberto, líder da chamada Revolta da Chibata e símbolo da luta não apenas do negro, mas de toda a classe trabalhadora deste País, aderiu ao Integralismo no ano de 1933, tornando-se amigo de Plínio Salgado e presidente do núcleo integralista da Gamboa, no Rio de Janeiro. Em 1968, no longo depoimento que concedeu ao Museu da Imagem e do Som, declarou a amizade para com o fundador da Ação Integralista Brasileira (AIB) e o orgulho de haver feito parte daquele formidável movimento cívico-político, onde, segundo ele, “era muito bem tratado, como chefe.”
No livro “Memórias do Exílio”, de autoria coletiva, Abdias do Nascimento declara que os temas que o “atraíram para as fileiras integralistas” foram “as lutas nacionalistas e anti-imperialistas” – fato que, como observa Rubem Nogueira em sua monumental obra “O Homem e o Muro”, só causa espanto àqueles que jamais leram sequer um dos inúmeros livros de orientação doutrinária de Plínio Salgado, Miguel Reale, Gustavo Barroso, Tasso da Silveira, Olbiano de Mello, Victor Pujol, Hélio Vianna, Olympio Mourão Filho, Custódio de Viveiros, Madeira de Freitas, Ovídio da Cunha, Jayme Ferreira da Silva, Osvaldo Gouvêa e outros, obras em que se condensa o pensamento do Integralismo, movimento que sempre professou a teoria do engrandecimento da nação brasileira, opondo-se, portanto, a todo tipo de imperialismo.
Abdias qualifica o tempo em que militou na AIB como “etapa importante de minha vida” e prossegue recordando que “no Integralismo foi onde pela primeira vez comecei a entender a realidade social, econômica e política do país e as implicações internacionais que o envolviam.”
Prossegue o idealizador e realizador do Teatro Experimental do Negro frisando que “a juventude integralista estudava muito e com seriedade. Encontrei e conheci pessoas de primeira qualidade como um San Thiago Dantas, Gerardo Mello Mourão ou Roland Corbisier; assim como um Rômulo de Almeida, Lauro Escorel, Jaime de Azevedo Rodrigues, o bravo embaixador brasileiro num país europeu que se demitiu da carreira após o golpe militar de 1964; ou ainda Dom Hélder Câmara, Ernani da Silva Bruno, Antônio Galloti, Mazzei Guimarães e muitos outros. Conheci bem de perto o chefe integralista Plínio Salgado, de quem em certa época fui amigo.”
Anos mais tarde, quando acontecia a II Guerra Mundial e Abdias do Nascimento e seu Comitê Democrático Afro-Brasileiro costumavam reunir-se na sede da União Nacional dos Estudantes (UNE), os comunistas passaram a usar o passado integralista de Abdias como um “slogan de confrontação”, chegando a, certa feita, exigir de sua parte uma retratação pública.
Abdias, porém, como “homem honrado e de coragem moral”, no dizer de Rubem Nogueira, negou-se a renegar o passado integralista, pois “não tinha nada a declarar naquela espécie de autocrítica sob coação. Nada havia no meu passado para lamentar ou arrepender. Não me submeteria àquela chantagem.”
Na década de 1930, Abdias do Nascimento militara ao mesmo tempo na Ação Integralista Brasileira (AIB) e na Frente Negra Brasileira (FNB), organizações que - como observa Karin Sant’Anna Kössling em sua dissertação sobre “Os Movimentos Negros: Identidade Étnica e Identidade Política”, datada de 2004 e citada por Márcio José Carneiro em sua tese “Abdias do Nascimento – a trajetória de um negro revoltado” – partilhavam das mesmas concepções sobre o Brasil e o seu povo, obtiveram a atenção dos chamados afro-descendentes de São Paulo e tiveram uma relação bastante intensa, conforme demonstram as notícias veiculadas no periódico integralista “A Acção”, de maio de 1937, que divulgou os eventos em celebração à Abolição realizados pela FNB, que levou palestrantes integralistas às comemorações.
A principal preocupação apresentada pelos editoriais de “A Acção” era, como lembra Kössling, a crítica à lamentável situação social e política decorrente do capitalismo liberal, propondo uma Nova Abolição, “elaborando uma grande força de libertação nacional, de um novo e amplo 13 de maio para o povo brasileiro”; observava-se, com efeito, que o problema de exclusão social que o negro brasileiro vivenciava não configurava algo específico, mas sim mais um dos frutos nefandos do liberal-capitalismo.
A FNB teve como fundador e primeiro presidente o Dr. Arlindo Veiga dos Santos, que foi um dos mais expressivos líderes da Ação Imperial Patrianovista Brasileira, denominação que recebeu a partir de 1935 o movimento monárquico Pátria Nova, assim como amigo de Plínio Salgado, participando de sua Sociedade de Estudos Políticos (SEP), núcleo de grande relevo dedicado à meditação sobre a problemática política e social brasileira fundado oficialmente a 12 de março de 1932 no Salão de Armas do Clube Português, em São Paulo, e de que participaram, além do próprio Plínio Salgado e de Arlindo Veiga dos Santos, outros notáveis intelectuais como Mario Graciotti, Ataliba Nogueira, Fernando Callage, José de Almeida Camargo, Alpinolo Lopes Casale, Antonio de Toledo Piza, Cândido Motta Filho, Iracy Igayara, José Maria Machado, Rui de Arruda Camargo, Alfredo Buzaid, Carvalho Pinto, Sebastião Pagano, Mario Zaroni, Leães Sobrinho, João de Oliveira Filho, Eurico Guedes de Araújo, Manoel Pinto da Silva, Lauro Pedroso, Dutra da Silva, Rui Ferreira dos Santos, Goffredo e Ignacio da Silva Telles, Roland Corbisier, Ernani Silva Bruno, Azib Buzaide, James Alvim, Fausto Campos, Eduardo Rossi, Francisco Stela, Gabriel Vendomi de Barros, Pimenta de Castro, Lauro Escorel, Francisco de Almeida Prado, Almeida Salles, Waldir da Silva Prado, Plínio Corrêa de Oliveira e tantos outros não menos ilustres.
O ínclito poeta, livreiro e editor Augusto Frederico Schmidt, amigo pessoal e admirador de Plínio Salgado desde o ano de 1926, quando este publicara o revolucionário e aclamado romance “O Estrangeiro”, acolheu com entusiasmo a Sociedade de Estudos Políticos, logo articulando no Rio um grupo de jovens constituído por Antônio Gallotti, Américo Jacobina Lacombe, Thiers Martins Moreira, Lourival Fontes, Chermont de Miranda e outros, indo freqüentemente à então Capital Federal, para estimular o grupo, Plínio Salgado e San Tiago Dantas, que ora residia em São Paulo, trabalhando ao lado de Plínio no jornal “A Razão”, que revolucionou a imprensa da Capital Bandeirante e mesmo do Brasil e acabaria empastelado nos distúrbios de 23 de maio de 1932.
Voltemos, porém, à FNB. Mantinha ela um periódico informativo intitulado “A Voz da Raça”, que utilizava o cabeçalho “Deus, Pátria, Raça e Família”, em clara analogia ao lema integralista “Deus, Pátria e Família”. Conforme já disse, teve ela uma relação de amizade e colaboração muito intensas com o Integralismo, movimento com o qual tinha em comum, além do nacionalismo e da luta contra o racismo e pela integração do negro na sociedade, o espiritualismo e o combate sem tréguas ao comunismo e ao liberalismo, ambos materialistas e apátridas.
A FNB, fundada em São Paulo a 16 de setembro de 1931, tendo sua sede social central à Rua da Liberdade, reuniu milhares de filiados, estendendo-se a vários Estados brasileiros e tornando-se partido político em 1936, sendo extinta no ano seguinte, juntamente com a AIB e demais partidos e agremiações políticas, pelo Estado Novo de Getúlio Vargas.
Encerro aqui este modesto trabalho, esperando de todo coração que ele sirva para conscientizar mais pessoas de que o Integralismo jamais foi um movimento racista ou de inspiração nazista, como afirmam irresponsavelmente diversos livros de ESTÓRIA, inspirando interpretações do Movimento do Sigma tão absurdas quanto as das últimas minisséries e telenovelas da Rede Globo de Televisão. Estou certo de que ele, em que pese sua singeleza, será de grande importância no presente momento, momento em que o Integralismo, praticamente adormecido há decênios, ressurge com força total, reunindo novamente, à sombra da bandeira azul e branca, milhares de pessoas de todos os credos, todas as etnias e todas as classes sociais irmanadas no sonho de libertar o Brasil e seu povo, reconduzindo-os à sua vocação histórica e construindo a Democracia e o Estado integrais.

Sunday, August 20, 2006

O Falangismo e José Antonio Primo de Rivera

Por Victor Emanuel [Vilela Barbuy]

O Falangismo, movimento político patriótico, nacionalista e espiritualista que combate o separatismo, o capitalismo liberal, a partidocracia e o bolchevismo, surge na Espanha em 1933, com a fundação da Falange Española (FE) por José Antonio Primo de Rivera, insigne advogado de profunda consciência de justiça social, político e filho de Don Miguel Primo de Rivera, ditador de Espanha na década de 1920. Em oposição à II República Espanhola, que, implantada em 1931, só gerara a desordem, com o crescente avanço dos extremistas de “esquerda” e o recrudescimento da violência, do terror vermelho e da ameaça de desagregação do país, os falangistas pregam uma Pátria una, forte, grande e livre, propugnando o estabelecimento de uma nova ordem política, econômica e social dirigida por um Estado organicamente estruturado.
O distintivo da Falange – o jugo e as cinco flechas enfeixadas que compunham o símbolo dos Reis Católicos – foi proposto pelo célebre escritor Rafael Sánchez Mazas, que também cunhou o grito ritual de “¡Arriba España!”, compôs, em fevereiro de 1934, a famosíssima “Oración por los muertos de la Falange” e que, em dezembro de 1935, escreveu, juntamente com José Antonio Primo de Rivera, Agustín de Foxá, Pedro Mourlane Michelena, Jacinto Miquelarena, Dionisio Ridruejo e José María Alfaro, a letra de “Cara al Sol”, canção que converter-se-ia em hino da Falange. O lema dos falangistas, por seu turno, é “Patria, Justicia y Pán”.
No ano de 1934, as Juntas de Ofensiva Nacional-Sindicalistas (JONS) de Ramiro de Ledesma e Onésimo Redondo fundiram-se à Falange.
É bastante comum a afirmação de que a Falange Española constitui um movimento “fascista”. Ora, tal afirmação é, a meu ver, incorreta, na medida em que o Fascismo consiste num fenômeno político tipicamente italiano, não sendo possível, destarte, considerar todos os movimentos caracterizados sobretudo pelo nacionalismo e pelo espiritualismo como “fascistas”, como fizeram, aliás, pensadores do nível de um Gustavo Barroso e de um Miguel Reale, para citar somente alguns.
Em que pese, com efeito, a existência de determinados pontos de contato entre o Falangismo e outros movimentos políticos patrióticos e nacionalistas do tempo em que surgiu, como, por exemplo, o Fascismo de Mussolini, o sadio ideário político de José Antonio Primo de Rivera e da ampla maioria dos falangistas é fundado em motivação autenticamente espanhola, nele podendo notar-se, inclusive, alguma influência do pensamento filosófico de Ortega y Gasset, além, é claro, de uma profunda influência da Doutrina da Igreja. Ademais, José Antonio Primo de Rivera afirmou por várias vezes que o Fascismo não constituía uma solução válida para a Espanha.
Mais preocupada com a qualidade de seus adeptos do que com a quantidade, a Falange rapidamente reuniu, ainda assim, centenas de jovens preocupados em salvar a Espanha e reconduzi-la à sua vocação histórica.
Durante algum tempo, muitos consideraram a Falange como sendo uma ridícula minoria, enquanto outros a julgavam mesmo criminosa. Com o “Alzamiento”, todavia, tudo se esclareceu, como observa Paulo Fleming em seu livro “Franco”: “eles encarnavam a Pátria no instante que antecedeu à revolução; constituíam a verdadeira maioria que não se traduz por números, mas sim, pelo valor moral, pela fé depositada nos destinos da Pátria.”
Quando, a 18 de julho de 1936, teve início a Revolução Nacional, ou "Alzamiento", ou Cruzada Espanhola, os moços que se reuniam à sombra da bandeira do jugo e das flechas enfeixadas, secundados pelos Requetés, pelos monarquistas e tradicionalistas, foram não somente os voluntários de primeira hora, mas acima de tudo a força decisiva que, agindo no seio das multidões, contagiou o povo espanhol com a coragem, o entusiasmo, a confiança e a inabalável certeza do triunfo inexorável da Pátria de Cervantes sobre seus inimigos, da Civilização contra a barbárie bolchevista, de Cristo Rei sobre Marx, Lênin e Stálin.
Aparentemente dissolvida pelo despótico, tirânico e fraudulento governo de Madri, responsável pela prisão e assassínio de vários de seus membros, a Falange se colocou sob as ordens do Generalíssimo Francisco Franco, combateu os vermelhos com formidável tenacidade e, como já disse, incutiu no povo a certeza da vitória.
Por meio do decreto de unificação de 19 de abril de 1937, o Generalíssimo Francisco Franco, Caudilho de Espanha e da Cruzada, determinou que a Falange Española e a Comunión Tradicionalista dos carlistas constituíssem um único organismo, a Falange Española Tradicionalista y de las JONS, a que aderiram ainda membros da Renovación Española e da Acción Popular. Esta organização, também conhecida, a partir de 1945, como Movimiento Nacional, durou até a morte de Franco, em 1975.
José Antonio Primo de Rivera, preso pelo governo republicano em março de 1936, foi fuzilado pelos vermelhos no pátio da prisão de Alicante a 20 de novembro daquele ano, aos trinta e três de idade, junto a quatro jovens do povoado alicantino de Novelda, apesar das interposições de alguns líderes vermelhos como Manuel Azaña.
Três dias antes, fora o Chefe Nacional da Falange julgado por rebelião militar, assumindo ele próprio a sua defesa, a de seu irmão Miguel e de sua cunhada Margarita Larios.
Sua atuação fora brilhante, de modo que um jornal “esquerdista” alicantino escrevera no dia imediato que “Gesto, voz y palabra se funden en una obra maestra de la oratoria forense, que el público escucha con recogimiento, atención y evidentes signos de interés.”
Explicando ao tribunal que o julgava aquilo que realmente constituía a Falange, revivendo os familiares textos de sua doutrina, observara ele que muitíssimas faces inicialmente hostis se iluminavam, primeiro assombradas e depois com simpatia. Em seus olhos, como lembra o fundador e líder máximo da Falange, em seu magnífico Testamento, datado de 18 de novembro daquele conturbado ano de 1936, parecia estar escrita a seguinte frase: “¡Si hubiésemos sabido que era esto, no estaríamos aquí!” E prossegue José Antonio: “Y, ciertamente, ni hubiéramos estado allí, ni yo ante un Tribunal popular, ni otros matándose por los campos de España. No era ya, sin embargo, la hora de evitar esto, y yo me limité a retribuir la lealtad y la valentía de mis entrañables camaradas, ganando para ellos la atención respetuosa de sus enemigos.”
A despeito de toda a eloqüência de José Antonio, haviam sido os três acusados condenados à morte, sendo que, em razão do apelo do futuro mártir de Espanha e da Europa em favor do irmão e da cunhada, fora a pena destes últimos convertida em reclusão.
Em seu Testamento, deixou ele consubstanciado seu sincero desejo de que fosse o seu o derradeiro sangue espanhol vertido em discórdias civis e de que o povo espanhol, tão rico em qualidades profundas, encontrasse já na paz, a Pátria, o Pão e a Justiça.
Seu último desejo fora o de que limpassem o pátio do cárcere para que seu irmão não tivesse de caminhar sobre seu sangue.
Os restos mortais de José Antonio Primo de Rivera hoje jazem no Valle de los Caídos, monumento erigido por Francisco Franco em memória de todos os que tombaram na Cruzada.
Seu corpo, como observa Paulo Fleming, foi destruído pelos vermelhos, mas seu espírito segue vivo e viverá sempre integrado na História de sua Pátria. É o que diz Giorgio Almirante, o mais conhecido e admirado líder do Movimento Sociale Italiano (MSI) e da chamada “direita” da Itália do final da II Grande Guerra até fins da década de 1980, em sua obra “José Antonio Primo de Rivera”: “José António está vivo conosco e não morrerá conosco; ou seja, a maravilhosa procissão de jovens que durante 400 quilômetros, desde Alicante até ao Escorial, acompanhou os seus restos mortais venerando o seu espírito, continua e continuará: levando às costas - às costas da jovem Espanha, da eterna Espanha, da jovem Europa, da eterna Europa - não o seu corpo e a sua memória, mas sim a sua jovem mensagem, a eterna mensagem de José Antonio.”
O nome deste mártir da grande Espanha e da grande Europa transformou-se em uma bandeira de luta, contribuindo para apressar o inevitável triunfo das forças nacionais sobre as hordas da antipátria e da antinação, consumada a 1° de abril de 1939.
José Antonio Primo de Rivera é para a Espanha aquilo que António Sardinha é para Portugal e que Plínio Salgado é para o Brasil. Como o fundador do Integralismo Lusitano e autor de “Ao Princípio Era o Verbo”, de “A Aliança Peninsular” e de “Ao Ritmo da Ampulheta” e o criador do Integralismo Brasileiro e autor de “Psicologia da Revolução”, de “A Quarta Humanidade” e da “Vida de Jesus”, Primo de Rivera foi um grande doutrinador cristão e nacionalista, um genial condutor de gerações de jovens que vêm acreditando em um ideal sublime e que despertaram na marcha de sua nação rumo ao seu destino histórico, um apóstolo de patriotismo, um arauto de uma Pátria Nova redimida e prestigiada. Seu nome, como o de António Sardinha e o de Plínio Salgado, permanecerá vivo, qual um imenso facho, iluminando o futuro de sua Pátria, que, a partir de suas idéias, um dia renascerá.