Saturday, October 17, 2009

Julius Evola e o “Tradicionalismo Integral”


Por Victor Emanuel Vilela Barbuy



“Existem alguns homens que se encontram, por assim dizer, de pé entre as ruínas e em meio à dissolução”, mas que, de maneira mais ou menos consciente, pertencem a outro Mundo[1], ao Mundo da Tradição, que não é senão o Mundo regido por princípios que transcendem os elementos puramente humanos. Dentre estes Homens singulares, podemos destacar um, filho legítimo da Roma dos Césares e depositário dos princípios de sua Sagrada Tradição, em especial os de Imperium e de Auctoritas. Este Homem não é senão o Barão Giulio Cesare Andrea Evola, mais conhecido como Julius Evola.
Mestre do denominado Tradicionalismo Integral e principal pensador esotérico antimoderno de todos os tempos ao lado de René Guénon, de quem, aliás, se considerava discípulo e cuja obra A crise do Mundo Moderno traduziu para o idioma italiano e prefaciou[2], Evola é sem sombra de dúvida o autor mais influente entre os adeptos da chamada Nova Direita europeia.
No Brasil, entretanto, permanece praticamente desconhecido o autor de Revolta contra o Mundo Moderno, mesmo nos círculos de resistência contra o Império de Calibã, isto é, contra a Idade das Trevas em que está mergulhado o Mundo em geral e o Ocidente em particular. Neste País só foi até hoje publicado, com efeito, um livro de Evola: O mistério do Graal[3]. As demais obras deste heróico Homem contra o Tempo[4] são conhecidas, entre nós, por pouquíssimos privilegiados e por meio sobretudo das edições portuguesas e, mais recentemente, da rede mundial de computadores, onde há páginas em português do nível dos blogues Cadernos evolianos[5] e Grupo de Ur[6], sem mencionar o Boletim Evoliano[7].
Isto posto, cumpre ressaltar que muitos vêm conhecendo o pensamento evoliano por meio de traduções de obras em que há páginas a respeito do grande doutrinador antimoderno, tais como Sol Negro, de Nicholas Goodrick-Clarke[8], e Elogio da Tradição, de Marcello Veneziani[9]. No primeiro de tais livros, em particular, há um interessante e consideravelmente honesto capítulo dedicado a Evola, bem como igualmente interessantes e consideravelmente honestos capítulos dedicados a Savitri Devi, Miguel Serrano e outros pensadores que vêm exercendo influência sobre os círculos do vulgarmente denominado nazismo esotérico.
Faz-se mister sublinhar, ademais, que o autor de Os homens e as ruínas exerceu considerável influência sobre dois dos maiores filósofos brasileiros: Vicente Ferreira da Silva e Heraldo Barbuy, o primeiro pagão como Evola e o segundo um fervoroso católico que soube como nenhum outro aproveitar o que há de válido à luz da Tradição Católica no pensamento do metafísico e doutrinador tradicionalista italiano. Isto sem mencionar a influência que o pensador gibelino exerceu sobre o jornalista e ensaísta Olavo de Carvalho, que em seu livro O jardim das aflições reconhece em Evola o maior escritor esotérico do século XX ao lado de Guénon[10] e que, em sua página pessoal na rede mundial de computadores menciona A Tradição Hermética, uma das obras-primas do autor de A doutrina do despertar, como um dos principais livros que formaram sua visão de mundo[11].
Não é, porém, para tratar da penetração das ideias evolianas no Brasil que redigimos estas linhas, mesmo porque a respeito de tal tema há um excelente artigo da autoria do ilustre professor e pensador tradicionalista gaúcho César Ranquetat Junior[12]. Redigimos estas linhas, sim, para cuidar, ainda que breve e resumidamente, de Julius Evola e de seu revolucionário pensamento.
Havendo qualificado como revolucionário o pensamento de Evola, julgamos necessário destacar que pelo termo Revolução compreendemos a revolta contra um estado de coisas que traz a ideia de retorno, correspondendo à tradicional concepção astronômica da palavra, segundo a qual esta significa o retorno de um astro ao ponto de partida e o seu moto ordenado em torno de um centro. Este é o sentido que o próprio Evola considera o mais apropriado para tal palavra[13] e é, também, o sentido que preferimos, seguindo o exemplo de João Ameal[14], ilustre pensador tradicionalista e historiador português, e de Plínio Salgado[15], máximo expoente do pensamento tradicionalista no Brasil ao lado de José Pedro Galvão de Sousa, na abalizada opinião de Francisco Elías de Tejada y Spínola[16], mais importante pensador tradicionalista espanhol do século XX, que, diga-se de passagem, é autor de um fundamental estudo sobre Evola a partir dos ideais do Tradicionalismo Católico Hispânico[17].
Nascido Giulio Cesare Andrea Evola em Roma no ano de 1898 no seio de uma família siciliana de nobres origens, o futuro autor de Cavalgar o tigre recebeu uma rigorosa educação católica, contra a qual logo se revoltou. Mais tarde, após uma longa fase em que o ódio que nutria contra o Catolicismo só não era maior do que contra o judaísmo, o protestantismo e aquilo a que considerava o “cristianismo das origens”, Evola finalmente reconheceria o caráter tradicional do Catolicismo autêntico.
Ainda bastante jovem, logo depois da fase dos romances de aventuras, Evola – como relata em O caminho do cinábrio, sua autobiografia espiritual – planejou compilar, juntamente com um amigo, uma história da Filosofia. Nesta época era ele atraído por autores como Oscar Wilde e Gabriele D’Annunzio. E é neste tempo, ainda, que, durante as longas horas que passava na biblioteca, tomou contato com a obra de pensadores como Friedrich Nietzsche, Carlo Michelstaedter e Otto Weininger[18], que muito contribuíram para a formação de sua cosmovisão.
Juntamente com os estudos universitários em Engenharia Industrial, que não terminaria por se recusar a discutir a tese de conclusão de curso em virtude do desprezo que nutria por títulos acadêmicos, Evola cultivava vivo interesse pela Literatura vanguardista italiana, que gravitava em torno de intelectuais como Giovanni Papini, Giuseppe Prezzolini e Filippo-Tomaso Marinetti.
Papini, que nesta época ainda não se havia convertido ao Catolicismo, foi fundador, diretor e principal colaborador das revistas Il Leonardo, Voce e Lacerba, que, com sede em Florença e ideais autenticamente revolucionários, agitaram toda a Itália dos primeiros anos do século XX, constituindo, segundo Evola, “forças alérgicas ao clima da pequena Itália burguesa” daqueles tempos e cuja erupção marcou, ainda de acordo com o pensador e Homem de ação antimaterialista, um verdadeiro Sturm und Drang que conheceu a Nação Italiana[19].
Foi nesta época que Evola se aproximou do Futurismo, passando a manter relações pessoais com alguns de seus vultos, tais como Marinetti e o pintor Giacomo Balla[20].
Não demoraria, porém, para que ficassem patentes as profundas diferenças que separavam Evola dos futuristas e do grupo de Papini. Isto se deu por ocasião da I Grande Guerra, quando Evola – que, ao contrário destes, - era antinacionalista, havendo já certamente concebido a ideia, aliás totalmente antitradicional, de pátria eletiva, defendeu que a Itália deveria entrar no conflito ao lado dos Impérios Centrais (Império Alemão e Império Austro-Húngaro), enquanto os outros, bem como D’Annunzio e Mussolini, sustentaram que o país devia lutar ao lado da Tríplice Entente (França, Império Britânico e Império Russo), identificando os Impérios Centrais à tirania e à barbárie.
Alguns simpatizantes burgueses da Kultur germânica, tais como Benedetto Croce, defendiam que a Itália permanecesse neutra, mas o jovem Evola, como vimos, sustentava não a simples neutralidade, mas a entrada do país na guerra ao lado dos Impérios Centrais. Ele admirava a “tradição mais essencial” dos povos germânicos em geral e da Alemanha em particular, que buscava em sua concepção de Estado, nos princípios de ordem e disciplina, na ética prussiana e nas sãs divisões sociais que subsistiam apesar da revolução do terceiro estado e do capitalismo, que não as havia comprometido senão parcialmente[21].
Por esses dias, Evola escreveu um artigo em que sustentou que, ainda que não combatendo ao lado da Alemanha, e sim contra ela, “se devia fazê-lo assumindo seus princípios, e não em nome das ideologias [sic.][22] nacionalistas e irredentistas ou ideologias democráticas, sentimentais e hipócritas da propaganda aliada”. Havendo lido tal artigo, Marinetti disse a Evola que suas ideias estavam mais distantes das dele do que as de um esquimó[23].
Algum tempo depois da entrada da Itália no conflito, ao lado da Tríplice Entente, Evola, após haver recebido, em Turim, formação rápida para oficiais, seguiu para a frente de combate, permanecendo inicialmente nas montanhas perto de Asiago.
Ao final da guerra, Evola retornou a Roma. Em 1919, após haver participado da Exposição Nacional Futurista de Milão, rompeu para sempre com Marinetti e o Futurismo, aderindo no ano seguinte ao Dadaísmo, movimento de que logo se tornou o principal expoente em terras italianas. Suas pinturas carregadas de espiritualismo idealísitico foram expostas em Roma, Milão, Lausanne, Berlim e no Salon Dada de Paris, a Meca do Dadaísmo. No opúsculo Arte abstrata, explicou os motivos de seu afastamento do Futurismo, cujos adeptos eram, a seu sentir, incapazes de percorrer coerentemente as vias do Voluntarismo e do Attualismo[24].
Foi por esse tempo, ainda, que Evola colaborou em revistas artísticas como Bleu e Noi, declamou seus revolucionários poemas em locais como o Cabaret Grotte dell’Augusteo, em Roma, e publicou, em Lausanne, o poemeto intitulado La parole obscure du paysage interieur.
Foi nos anos de militância dadaísta que Evola se aprofundou nos estudos filosóficos, em especial do Idealismo, corrente então predominante na Itália e cujos principais expoentes eram Giovanni Gentile e Benedetto Croce, e iniciou os estudos do Yoga, do Tantrismo, do Zen-Budismo, da magia e do ocultismo. Em 1923, ano em que parou de pintar, foi curador de uma tradução italiana do Tao-te-King, de Lao-Tsé.
Em 1926, Evola publicou um estudo a respeito do Tantra intitulado O homem como potência. Um ano antes, publicara a obra Ensaios sobre o idealismo mágico, que juntamente com a Teoria do Indivíduo absoluto e a Fenomenologia do Indivíduo absoluto, publicadas, respectivamente, em 1927 e 1930, embora escritas alguns anos antes, representa a passagem de Evola pela Filosofia do Idealismo.
Em meados da década de 1920, Evola colaborou nas revistas Atanòr e Ignis, dirigidas pelo tradicionalista pitagórico Arturo Reghini, e também nos jornais Il Mondo e Lo Stato democratico. Neste último, dirigido pelo Duque Giovanni Colonna di Cesarò, publicou Evola, em 1925, o trabalho Estado, potência, liberdade, onde criticou tanto o Fascismo quanto a liberal-democracia. Na mesma época colaborou também nas revistas Ultra, de Decio Calvari, presidente da Liga Teosófica Independente de Roma, e L’idealismo realistico, de Vittore Marchi, onde escreveu uma crítica desfavorável a um livro de René Guénon sobre o Vedanta[25]. A resposta de Guénon à crítica de Evola marcou o início da longa e fecunda correspondência entre os dois, que, ressalvadas algumas interrupções, em especial a provocada pela II Grande Guerra, durou até a morte do autor de O reino da quantidade e os sinais dos tempos, no Cairo, em 1951.
O Sheik Abdel Wahid Yasha, mais conhecido pelo nome de René Guénon, com o qual foi batizado na pequena cidade medieval de Blois, no vale do Loire, influenciou muitíssimo o pensamento de Evola, que decerto não haveria escrito a Revolta contra o Mundo Moderno caso não houvesse lido A crise do Mundo Moderno. “O mestre de nossos tempos, o defensor do ‘tradicionalismo integral’, o mais radical de todos os ‘antimodernos’”, na expressão de Evola[26], somente, a nosso sentir, não influenciou mais o autor de O arco e a clava do que Friederich Nietzsche, o genial poeta de Assim falava Zaratustra, maior poema em prosa da Literatura alemã, e profeta do Super-homem, do Eterno Retorno e da Vontade de Potência.
Como observa Francesco Lamendola, Evola recebeu de Guénon, em particular, o conceito de Tradição, compreendida, na opinião do pensador, filósofo e professor italiano, “como um saber de origem não humana que se transmite através de escolas esotéricas tanto orientais quanto ocidentais, com o fim precípuo de guiar a humanidade através do negro Kali Yuga da modernidade, lhe permitindo (ou melhor, permitindo a poucos privilegiados) não perder o verdadeiro significado da vida, que é – agora e sempre – aquele da total afirmação da liberdade interior através das práticas e da doutrina de um individualismo absoluto”[27].
Cumpre ressaltar que tal não é a nossa concepção de Tradição. Para nós, a Tradição é a cadeia sagrada que une os homens ao passado e ao futuro, aos ancestrais e aos descendentes; o patrimônio de valores comuns que herdamos de nossos pais e que devemos legar, aprimorado, a nossos descendentes; a base de todo progresso autêntico, que, ao contrário do que defende Evola, nunca se tornou invisível e secreta e não une poucos a poucos[28], não sendo, com efeito, somente esotérica e invisível, mas a um só tempo exotérica e esotérica, visível e invisível e ligando muitos a muitos. Do mesmo modo, rejeitamos por completo a ideia de liberdade total, bem como o individualismo, ao qual opomos o personalismo e o grupalismo e consideramos que o verdadeiro significado da existência humana repousa na busca da santidade.
Isto posto, cumpre ressaltar que, para Guénon e Evola, a Tradição teria este caráter esotérico, aristocrático e secreto apenas a partir do final da denominada Idade Média e do início da Idade Moderna, quando a Tradição inegavelmente perdeu o caráter universal.
Volvamos, porém, à biografia de Evola. Em 1926-27, deu ele vida, ao lado de Arturo Reghini, Guido De Giorgio e outros, ao chamado Grupo de Ur, passando a publicar os cadernos mensais Ur (1927-28) e Krur (1929), reunidos na coletânea em três volumes intitulada Introdução à magia como ciência do Eu e publicada entre 1955 e 1956. Em 1930, fundou a revista quinzenal La Torre, que chegou ao décimo número, sendo fechada por ordem das autoridades fascistas em virtude de suas visões pouco ortodoxas da Doutrina do Fascio, visões que Evola expressava desde 1928, quando se aproximara do Fascismo, passando a colaborar na revista Critica fascista, de Giuseppe Bottai, onde escreveu artigos anticristãos também publicados em Vita Nuova e Il lavoro d’Italia.
Naquele ano de 1928, Evola publicara também a sua obra mais polêmica e radical: Imperialismo pagão: o fascismo diante do perigo euro-cristão. Em tal obra, o autor, que jamais ingressaria no Partido Nacional Fascista, defende um fascismo novo, um fascismo gibelino, um superfascismo livre dos valores cristãos e dos valores hegelianos e mazzinianos tão ao gosto de seus principais doutrinadores, em especial Giovanni Gentile, e clama pelo ressurgimento do Império e dos Deuses de Roma. Em uma palavra, Evola, dirigindo-se “a cada fascista que seja digno de tal nome, e que verdadeiramente vibre à vontade de regeneração, de dignidade romana, de potência proclamada pelo Duce[29], proclama que “à superstição semítica de nossos pais nós hoje, reevocando Roma, opomos em tudo e por tudo a tradição verdadeira e antiga de nossos avós, a tradição mediterrânea”[30].
No ano de 1933, logo após a ascensão de Adolf Hitler ao poder na Alemanha, veio à luz, em Leipzig, a edição alemã, totalmente revista e ampliada, de Imperialismo pagão, Heidnischer Imperialismus, obra recebida como “uma espécie de evangelho do moderno gibelinismo”, fazendo enorme sucesso nos círculos nacional-socialistas[31].
Em 1934, Evola, que três anos antes publicara a obra A Tradição Hermética e em 1932 lançara Máscara e vulto do espiritualismo contemporâneo, deu a lume sua obra-mestra, a Revolta contra o Mundo Moderno, que, a exemplo de Heraldo Barbuy, classificamos como “monumental”[32], a considerando mesmo uma das principais obras político-filosóficas de todo o século XX e a verdadeira “bíblia” do chamado Tradicionalismo Integral.
Em Revolta contra o Mundo Moderno, livro em que, ao contrário de em Imperialismo pagão, o anticristianismo não ocupa o papel central, Evola defende, em suma, que a única salvação possível ao Ocidente é “um retorno ao espírito tradicional em uma nova consciência ecumênica europeia”; o “retorno à tradição em sentido lato, universal, unânime, compreendendo todas as formas de vida e de luz; no sentido, outrossim, de um espírito e de uma ordem única que imperam soberanos em cada homem e em cada classe de homens. Não se trata da tradição em sentido aristocrático e secreto, como depósito custodiado por poucos”, pois, neste “sentido subterrâneo”, a Tradição, segundo Evola, sempre existiu e sempre existirá, mas isto não impediu o declínio da Civilização Ocidental[33].
Em 1937 foi publicado O mistério do Graal, obra em que o doutrinador antimoderno e antimaterialista analiza o caráter do mistério do Graal, que é, segundo ele, iniciático e regal, remontando a uma tradição anterior ao Cristianismo.
Em princípios do ano seguinte, Evola viajou para a Romênia, onde conheceu pessoalmente Mircea Eliade, com quem se correspondia desde fins da década de 1920, quando o pensador romeno estudava sânscrito e Filosofia indiana na Universidade de Calcutá e já lia as obras do então jovem filósofo idealista italiano, admirando “sua inteligência e, sobretudo, a densidade e claridade de sua prosa”[34]. Foi também durante esta visita à Romênia que o autor de Revolta contra o Mundo Moderno conheceu Corneliu Zelea Codreanu, fundador e líder máximo da Legião de São Miguel Arcanjo, também conhecida como Guarda de Ferro, de que Eliade era então membro e que, a despeito de sua posição nacionalista e ortodoxa romena confessional, contava com a profunda admiração de Evola, que, com efeito, a admirava mais do que qualquer outro dos diversos movimentos cívico-políticos europeus de caráter tradicionalista, patriótico e nacionalista surgidos no século XX como reação ao materialismo e ao espírito burguês. Mais tarde, Evola escreveu alguns seminais artigos a respeito do grande Homem de pensamento e de ação, que fisicamente parecia, segundo o metafísico italiano, “uma reaparição do mundo ário-itálico”[35] e que, assassinado em 1938, por ordem do Rei Carol II, na prisão de Jilava, juntamente com outros líderes do Movimento Legionário, transformou-se em um dos mais importantes mártires da História da heróica Dácia.
Estudioso das questões étnicas, Evola sustentou um racismo espiritual com o qual não concordamos e que a partir de 1938 se tornou predominante no Fascismo italiano, até então majoritariamente antirracista. Tal racismo está presente em obras como Aspectos do problema hebraico (1936), O mito do sangue (1937), Diretrizes para uma educação racial (1941) e Síntese da doutrina da raça (idem), bem como em diversos artigos publicados na revista La difesa della razza, dirigida por Telesio Interlandi.
Em 1941, Mussolini, - que havia lido a Síntese da doutrina da raça durante uma viagem à Alemanha e que via em Evola um teórico capaz de interpretar como nenhum outro o racismo espiritual que vinha defendendo e que não devia ser confundido com o racismo biológico do nacional-socialismo, convidou o autor para uma conversa com ele no Palazzo Venezia. Foi este o início da amizade que uniu o mais irredutível dos antimodernos e o último dos Césares.
Não sendo aceito como voluntário da frente soviética em virtude de não ser filiado ao Partido Nacional Fascista, Evola se dedicou então a escrever um ensaio sobre a ascese budista publicado em 1943 e intitulado A doutrina do despertar. No mesmo ano viajou para a Alemanha, estando no Quartel-General de Hitler em Rastenburg, Prússia Oriental, em 14 de setembro, quando Mussolini ali chegou após ter sido libertado de seus captores por Otto Skorzeny e seus homens. De volta à Itália, apoiou a República Social Italiana, fundada por Mussolini e também conhecida como República de Salò, apesar de ser antirrepublicano e possuir verdadeiro horror à palavra “social”. Em 1945 se encontrava em Viena, colaborando com as SS na tradução de textos maçônicos, quando foi gravemente ferido durante um bombardeio aliado ocorrido pouco antes da entrada dos soviéticos na antiga capital dos Habsburgos, quase morrendo e ficando paralítico até o fim de seus dias.
De volta à Itália em 1948, publicou, dois anos mais tarde, o opúsculo Orientações, que, dirigido em particular aos jovens do Movimento Social Italiano (MSI), contém todas as ideias posteriormente desenvolvidas em Os homens e as ruínas (1953), Metafísica do sexo (1958) e Cavalgar o tigre (1961), que constituem, em nossa singela opinião, as mais importantes obras do pensador e Homem de ação depois de Revolta contra o Mundo Moderno.
Em 1963, surgiu O caminho do cinábrio, espécie de autobiografia espiritual de Evola, que constitui excelente roteiro de sua obra e de seu pensamento.
Falecido em Roma a 1º de junho de 1974, Evola, cujas cinzas foram depositadas em uma geleira do Monte Rosa, nos Alpes Italianos, se transformou em um símbolo da heróica luta em defesa dos valores autênticos, perenes e superiores da Tradição contra os valores inautênticos, passageiros e inferiores da Civilização Ocidental Contemporânea, que associava à Kali Yuga dos hindus, à Idade do Ferro dos helenos e romanos e à Idade do Lobo dos antigos germanos.
Infelizmente Evola, – a exemplo de Nietzsche, por quem tanto foi influenciado, para o bem e para o mal, - nunca compreendeu o verdadeiro significado do Cristianismo, da Família, da Nação e do nacionalismo e mesmo da Pátria e do patriotismo, havendo chegado a pregar o fim da “superstição da ‘pátria’ e da ‘nação’”, por ele vistas como “larvais e tenazes resíduos do impersonalismo democrático”[36] e defendendo, mais tarde, que é na Ideia e somente na Ideia que se deve reconhecer a verdadeira Pátria[37], que, para o autor de A Tradição Romana, há muito perdeu o caráter original de terra dos pais[38]. Mesmo, porém, com estes e outros erros e falhas, tais como o desconhecimento da verdadeira essência do Direito Natural Tradicional, ou Clássico, Evola merece ser lido, estudado e reconhecido como um dos mais importantes mestres do pensamento tradicional, pois teve o mérito de condenar, com a argúcia e lucidez de poucos, a mediocridade burguesa, a superstição do progresso indefinido, a liberal-democracia, o comunismo, o coletivismo,a dessacralização da Sociedade, o cientificismo, o economicismo, ou, em uma palavra, o Mundo Moderno, a idade obscura, antitradicional por natureza.
Mais, porém, do que pelas críticas ao Mundo Moderno, Julius Evola merece ser lido, estudado e lembrado por sua defesa da restauração da Sociedade Tradicional, por ele definida como a Sociedade “regida por princípios que transcendem aquilo que é tão somente humano e individual”, como a Sociedade “em que cada domínio próprio é formado e ordenado do alto e para o alto”[39]. Merece ser evocado pela defesa da Monarquia Tradicional e de princípios tradicionais como os de honra, lealdade, obediência, fé, hierarquia e autoridade, bem como pela defesa do Estado Orgânico, que define como o Estado “que possui um centro, e este centro é uma ideia que informa a partir de si, de modo eficaz, aos diferentes domínios”, como o Estado que “ignora a excisão e a autonomização do particular e, em virtude de um sistema de participações hierárquicas, cada parte em sua relativa autonomia tem uma funcionalidade e uma íntima conexão com o todo”[40]. Merece, por derradeiro, ser recordado pela defesa da ideia transcendente de Imperium, Imperium que jamais se poderá erigir “sobre a base de fatores econômicos, militares, industriais, e mesmo ideais”[41].
Julius Evola, mestre incontestável do Tradicionalismo Integral e um dos mais geniais pensadores do século XX, foi a um só tempo brahmin e kshatriya, sábio e guerreiro, Homem de pensamento contemplativo e de ação. Tendo a consciência de que nada de grande e belo pode existir fora da Tradição e de que, como preleciona Heidegger, “não é na vida banal, mas na audácia angustiosa do Herói que repousa a grandeza final do existir humano”[42], teve a coragem de permanecer de pé entre as ruínas e de cavalgar o tigre da modernidade, sempre preparado para o momento do cansaço do tigre, que não se pode lançar contra quem o cavalga. Sua mais importante lição é esta: “A criação de um novo Estado e de uma nova civilização será sempre algo efêmero quando estes não tiverem como substrato um novo homem”[43].


NOTAS:


[1] EVOLA, Julius. Cabalgar el tigre. Trad. argentina de Marcos Ghio. Buenos Aires: Ediciones Heracles, 1999, p. 22.
[2] GUÉNON, René. La crisi del Mondo Moderno. Trad. italiana e intr. de Julius Evola. Roma: Edizioni Mediteranee, 2003.
[3] EVOLA, Julius. O mistério do Graal. Trad. de Pier Luigi Cabra. São Paulo: Editora Pensamento, 1972.
[4] A expressão Homem contra o tempo pertence a Savitri Devi, que em sua obra O raio e o sol, discorre sobre os três tipos de Homens existentes segundo ela: Homens no Tempo, Homens acima do Tempo e Homens contra o Tempo. Os primeiros são os agentes por excelência de Kali Yuga, a Idade Obscura, se caracterizando pelo mais absoluto egoísmo e pela violência e ambição sem limites. Os segundos são aqueles sábios espiritualizados e adversos à violência, que, em plena Idade das Trevas, vivem como se estivessem em Satya Yuga, a Idade Dourada. Por fim, os terceiros, os Homens contra o Tempo, são aqueles que empregam a mesma violência dos Homens no Tempo, porém com o propósito de restaurar os elevados valores da Idade de Ouro (DEVI, Savitri. The Lightning and the Sun. 1ª ed. Calcutá: Temple Press, 1958, pp. 36-55).
[5] http://cadernosevolianos.blogspot.com/. Acesso em 23 de setembro de 2009.
[6] http://grupodeur.blogspot.com/. Acesso em 23 de setembro de 2009.
[7] http://www.boletimevoliano.pt.vu/. Acesso em 23 de setembro de 2009.
[8] GOODRICK-CLARKE, Nicholas. Sol Negro: cultos arianos, nazismo esotérico e políticas de identidade. Trad. de Fábio Rezende. São Paulo: Madras, 2004.
[9] VENEZIANI, Marcello. De pai para filho: Elogio da Tradição. Trad. de Orlando Soares Moreira. São Paulo: Edições Loyola, 2005.
[10] Citamos de memória.
[11] CARVALHO, Olavo de. Livros que fizeram a minha cabeça. Disponível em: www.olavodecarvalho.org/textos/livros.htm. Acesso em 23 de setembro de 2009.
[12] RANQUETAT JUNIOR, César. O pensamento de Julius Evola no Brasil. Disponível em: http://www.juliusevola.it/documenti/template.asp?cod=563. Acesso em 23 de setembro de 2009.
[13] EVOLA, Julius. Introduzione. In GUÉNON, René. La crisi del Mondo Moderno. Op. cit., p. 7.
[14] AMEAL, João. No limiar da Idade-Nova. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1934, pp. 12-14.
[15] Vide SALGADO, Plínio. Psicologia da Revolução. 6ª ed. In SALGADO, Plínio. Obras Completas, 2ª ed., vol. 7. São Paulo: Editora das Américas, 1957.
[16] TEJADA, Francisco Elías de. Plínio Salgado na Tradição do Brasil. In Diversos. Plínio Salgado – “In Memoriam”, vol. II. São Paulo: Voz do Oeste/Casa de Plínio Salgado, 1985/1986, p. 70.[17] TEJADA, Francisco Elías de. Julius Evola desde el Tradicionalismo Hispánico. In Ethos, ano I, nº 1, Buenos Aires, 1973.
[18] EVOLA, Julius. El camino del cinabrio. Trad. espanhola. I capítulo. Disponível em: http://juliusevola.blogia.com/2006/100101-el-camino-del-cinabrio-01-.-el-contexto-personal-y-las-primeras-experiencias.php. Acesso em 24 de setembro de 2009.
[19] Idem.
[20] Idem.
[21] Idem.
[22] Para nós, que neste aspecto temos posição contrária à de Evola, o verdadeiro nacionalismo não é uma ideologia, mas uma Doutrina sã e intimamente ligada à Tradição. Concordamos, pois, com Marcello Veneziani, para quem a defesa da Identidade Nacional e da Tradição Nacional, longe de ser “uma negação da ideia de Tradição” (como querem Guénon e Evola), é como que “um defender a tradição e a identidade de um povo da erradicação e do cosmopolitismo, da colonização e da globalização” (VENEZIANI, Marcello. De pai para filho: Elogio da Tradição. Op. cit., p. 130). Do mesmo modo, consideramos o Irredentismo parte nobilíssima da Tradição e da História Italiana.
[23] EVOLA , Julius. El camino del cinabrio, cit.
[24] LAMENDOLA, Francesco. Alcuni aspetti del pensiero filosofico di Julius Evola. Disponível em: http://www.ariannaeditrice.it/articolo.php?id_articolo=13742. Acesso em 24 de setembro de 2009.
[25] Idem.
[26] EVOLA, Julius. René Guénon, un maestro de los tiempos últimos. Trad. argentina de Marcos Ghio. Serie Cuadernos Tradicionales, nº 4, Buenos Aires: Ediciones Heracles, 2001, p. 7.
[27] LAMENDOLA, Francesco. Alcuni aspetti del pensiero filosofico di Julius Evola, cit.
[28] EVOLA, Julius. Heidnischer Imperialismus. II ed. italiana revisada com Imperialismo pagano. Roma: Edizioni Mediteranee, 2004, p. 197.
[29] EVOLA, Julius. Imperialismo pagano: Il fascismo dinnanzi al pericolo euro-cristiano. 4ª ed. corrigida, com dois apêndices e Heidnischer Imperialismus. Roma: Edizioni Mediteranee, 2004,p. 177.
[30] Idem, p. 76.
[31] LAMENDOLA, Francesco. Alcuni aspetti del pensiero filosofico di Julius Evola, cit.
[32] BARBUY, Heraldo. Cristianismo e angústia. In BARBUY, Heraldo. O problema do Ser e outros ensaios. São Paulo: Convívio/EDUSP, 1984, p. 249, nota.
[33] EVOLA, Julius. Rivolta contro Il Mondo Moderno. 2ª ed. revista e ampliada. Milão: Fratelli Bocca Editori, 1951, pp. 453-454.
[34] ELIADE, Mircea. Exile’s Odyssey. Chicago: University of Chicago Press, 1988, p. 152.
[35] EVOLA, Julius. Colloquio col capo delle “Guardie di Ferro”. In Il Regime Fascista, 22/03/1938. Disponível em http://www.centrostudilaruna.it/evolalegionarismoascetico.html. Acesso em 25 de setembro de 2009.
[36] EVOLA, Julius. Imperialismo pagano: Il fascismo dinnanzi al pericolo euro-cristiano. Op. cit., p. 88.
[37] EVOLA, Julius. Los hombres y las ruinas. Trad. argentina de Marcos Ghio. Buenos Aires: Ediciones Heracles, 1994, p, 43.
[38] Idem, p. 42.
[39] EVOLA, Julius. Cabalgar el tigre. Trad. argentina de Marcos Ghio. Buenos Aires: Ediciones Heracles, 1999, p. 21.
[40] EVOLA, Julius. Los hombres y las ruinas. Op. cit., p. 64.
[41] EVOLA, Julius. Imperialismo pagano: Il fascismo dinnanzi al pericolo euro-cristiano. Op. cit, p. 62.
[42] HEIDEGGER, Martin apud BARBUY, Heraldo. Sartre e Heidegger. In BARBUY, Heraldo. O problema do Ser e outros ensaios. Op. cit., p. 211.
[43] EVOLA, Julius. Los hombres y las ruinas. Op. cit., pp. 193-194.

Saturday, October 10, 2009

77 anos do "Manifesto de Outubro"

Palavra do Presidente – 07 de Outubro de 2009-LXXVII

Há setenta e sete anos, no dia 07 de Outubro de 1932, foi lançado, em São Paulo, o chamado Manifesto de Outubro, da lavra de Plínio Salgado, já então um consagrado pensador, escritor, jornalista e político.
O Manifesto de Outubro, cujo lançamento marca o surgimento oficial do Integralismo Brasileiro, espalhou-se por todo o País como um rastilho de pólvora, atraindo para as hostes Integralistas desde os homens simples até os mais eruditos intelectuais, que se irmanaram no mais genuíno Movimento de Ressurgimento e Renovação Nacional de nossa História.
Defendendo a Concepção Integral do Universo e do Homem, a Democracia Orgânica, a Família, a Autonomia Municipal, o Princípio de Autoridade, a Harmonia Social, o Nacionalismo sadio, justo, equilibrado e edificador e a ideia do Estado Ético-Integral, e, ao mesmo tempo, condenando o materialismo em todas as suas faces, o Manifesto de Outubro reúne todos os elementos centrais da Doutrina Integralista.
O Integralismo é um Movimento e não um partido; uma Doutrina e não uma ideologia; não quer o sub-homem do credo marxista nem o Super-Homem do credo nietzscheano, mas o Homem Integral, da mesma forma que não deseja o Estado fraco nem o Estado Totalitário, mas sim o Estado Ético, que não é princípio nem fim, mas apenas um meio, um instrumento a serviço da Pessoa Humana e do Bem Comum.
O objetivo final do Integralismo não é a reforma e muito menos a conservação da ordem atual, mas sim a Revolução que criará uma Ordem Nova, restaurando o Primado do Espírito e reconduzindo o Brasil às bases morais de sua formação. Para tanto, tem plena consciência de que não há Renovação ou Progresso sem Tradição e de que somente o Homem que destruir o burguês que há dentro de si e que estiver firmemente enraizado em uma Tradição e possuir consciência de Pátria e de Nação será uma pedra viva da Nova Sociedade, do Novo Estado, do Novo Império.
A Frente Integralista Brasileira (FIB), mais importante Movimento Integralista e Nacionalista do Brasil de nossos dias, convida a todos, nesta data histórica, para que visitem seu novo portal, onde se discorre a respeito dos ideais e propostas do Integralismo, particularmente resumidos no Manifesto da Guanabara, por nós lançado a 25 de janeiro último, por ocasião do encerramento do III Congresso Nacional Integralista, realizado no Rio de Janeiro.
A Frente Integralista Brasileira convida a todos, ademais, para que se juntem a ela na luta por um Brasil Maior e Melhor; por um Brasil que não seja somente o País do Passado e do Futuro, do Ontem e do Amanhã, mas também do Presente, do Hoje; por um Brasil cujas instituições políticas representem verdadeiramente a Sociedade, constituindo um espelho do País real, do Brasil profundo e autêntico, cuja permanência ou ocaso .só depende de nós; de nós, sim, que temos a coragem, a tenacidade, o heroísmo de permanecer de pé entre as ruínas e de marchar em meio à tempestade, conscientes sempre de que no plano moral a vitória já nos pertence.

Victor Emanuel Vilela Barbuy, Presidente da Frente Integralista Brasileira.São Paulo do Campo de Piratininga, 07 de outubro de 2009-LXXVII

Friday, September 18, 2009

Considerações sobre a entrevista do Prof. Angelo Trento à Folha de S. Paulo

Por Victor Emanuel Vilela Barbuy

A seis de setembro último passado, o jornal Folha de S. Paulo publicou no Caderno Mais!, uma entrevista de Angelo Trento, professor da Universidade de Nápoles, a respeito da penetração da doutrina fascista no Brasil ao tempo em que Mussolini governava a Itália e seu Império.
O que há de incomum e louvável em tal entrevista é o reconhecimento de que – ao contrário do que afirmam nossos “historiadores”, para os quais a Doutrina do Fascio só encontrou seguidores, no Brasil, entre a elite econômica da comunidade italiana – “o fascismo encontrou sem dúvida um vasto consenso entre a coletividade italiana e não apenas entre as classes altas e as camadas médias, mas também entre a pequena burguesia (como na Itália), principalmente comercial, e entre os próprios operários”. Do mesmo modo reconhece o autor – igualmente ao contrário do que afirmam os “historiadores” deste País – que “foi apenas uma minoria [da comunidade italiana] que se empenhou no movimento operário, defendendo posições anárquicas, anarcossindicalistas e socialistas”, e isso ainda antes da década de 1920.
Outro fato interessante que Trento reconhece – ao contrário, uma vez mais dos “historiadores” brasileiros – é o de que Mussolini gozava de “prestígio elevado” “com a opinião pública, as classes dirigentes e os governos estrangeiros”. A isto cumpriria acrescentar o fato, não apontado por Trento, de que o Fascismo foi capaz de atrair, como observa Zeev Sternhell, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, “qualquer uma das vanguardas mais avançadas de seu tempo”, contando com a admiração ou mesmo a militância de intelectuais como Ezra Pound, T.S. Eliot, Wyndham Lewis, Mircea Eliade, Emil Cioran, José Antonio Primo de Rivera, Fernando Pessoa e Hendrik de Man
[1], nomes aos quais podemos acrescentar os de Giovanni Gentile, Luigi Pirandello, Gabriele D’Annuzio, Giovanni Papini, Ugo Spirito, Giorgio Del Vecchio, Giuseppe Prezzolini, Maurice Barrès, Charles Maurras, Louis-Férdinand Céline, Robert Brasillach, Knut Hamsun, D. H. Lawrence, Oswald Mosley, Corneliu Codreanu, Carl Schmitt, Martin Heidegger e tantos outros que seria por demais fastidioso enumerar.
Um erro grave de Trento que deve ser destacado é o de seguir a tese segundo a qual os ideais do Risorgimento e do Fascismo seriam opostos, quando em verdade - como ressalta Giovanni Gentile, principal doutrinador do Fascismo italiano – “o Fascismo é filho do Risorgimento: do Risorgimento heróico, criador de um Estado moderno, que é potência política na medida em que é potência econômica e civilização: um homem novo, vivo, são, inteligente, original”
[2].
“Perder este fio, rompê-lo” – prossegue o ilustre filósofo italiano – “não pode ser e não é de interesse do Fascismo. Cuja revolução é progresso na medida em que é restauração: consolidação das bases para edificar sobre um sólido edifício, alto, na luz. Toda originalidade sem tradição, como toda espontaneidade sem disciplina, é veleidade estéril, não vontade viril. Capricho, não programa. Não é o espírito do Fascismo, mas sua caricatura”
[3].
Isto posto, cumpre ressaltar que, para Gentile, o Risorgimento foi um movimento de cunho tradicionalista, coincidindo com aquela renovação geral que pode ser considerada lato-senso como Romantismo, considerando Vincenzo Gioberti e Antonio Rosmini, dois dos principais vultos do Risorgimento, como os mais importantes pensadores tradicionalistas italianos
[4]. Tal posição é semelhante, aliás, à de Francisco Elías de Tejada y Spínola, um dos mais notáveis pensadores tradicionalistas católicos do século XX, para quem o Risorgimento, “não obstante as maneiras como se realizou”, constitui “parte nobilíssima” da Tradição Italiana[5].
Tal não é, porém, a opinião da maior parte dos tradicionalistas, sejam guelfos ou gibelinos, razão pela qual a posição do Fascismo em face do Risorgimento e, em especial, das ideias de Giuseppe Mazzini, motivou críticas de muitos desses tradicionalistas ao Fascismo. Julius Evola, mestre do denominado Tradicionalismo Integral e maior pensador antimoderno esotérico do século XX ao lado de René Guénon, por exemplo, afirma, em seu livro Imperialismo pagano, que se o fascismo conservava em si elementos mazzinianos, deveria expurgá-los, se purificando
[6].
O maior erro do professor Trento foi, contudo, afirmar irresponsavelmente que a Ação Integralista Brasileira (AIB) foi financiada por Mussolini. Com efeito, sugerimos a ele que leia a esclarecedora obra de Jayme Ferreira da Silva intitulada A verdade sobre o Integralismo, onde é pulverizada acusação semelhante, segundo a qual a AIB seria financiada pelo Banco Alemão Transatlântico do Rio de Janeiro
[7].
A Ação Integralista Brasileira, com efeito, jamais foi financiada por Mussolini e a suposta prova em sentido contrário de que os “historiadores” têm falado, uma nota promissória em que segundo eles há legível assinatura de Plínio Salgado, constitui um acinte à inteligência, posto que a assinatura que há nela nada tem de legível e, acima de tudo, notas promissórias jamais foram recibos de doação, mas sim títulos formais de crédito consistentes em promessas de pagamento a ser efetuado pelo emitente (devedor) ao beneficiário (credor), ou à sua ordem, em data e local determinados
[8].
Faz-se mister sublinhar, por fim, que o Integralismo diverge do Fascismo sobretudo no que diz respeito à concepção do Estado e do Direito, defendendo a Doutrina do Sigma, ao contrário da posição dominante na Doutrina do Fascio, que o Estado é um meio e não um fim e que acima do Direito Positivo há um Direito Natural, fundado no critério moral de justiça e consistente na leitura da Lei Eterna pelo Homem à luz da razão.

NOTAS:


[1] STERNHELL, Zeev. Ni droite ni gauche – L’idéologie fasciste en France. Paris
[2] GENTILE, Giovanni. Risorgimento e Fascismo. In GENTILE, Giovanni. Memorie italiane e problemi della Filosofia e della vita. Florença: G. C. Sansoni-Editore, 1936-XIV, p. 120.
[3] Idem, loc. cit.
[4] GENTILE, Giovanni. La tradizione italiana. In GENTILE, Giovanni. Frammenti di estetica e di filosofia della storia. Florença: Le Lettere, 1992, pp. 112-113.
[5] TEJADA, Francisco Elías de (com Piero Vassallo). Per uma cultura giusnaturalista. Palermo: Thule, 1981, p. 23.
[6] EVOLA, Julius. Imperialismo pagano: Il fascismo dinnanzi al pericolo euro-cristiano. 4ª ed. corrigida, com dois apêndices e Heidnischer Imperialismus. Roma: Edizioni Mediteranee, 2004, p. 96.
[7] SILVA, Jayme Ferreira da. A verdade sobre o Integralismo.2ª ed. São Paulo: Edições GRD, 1996, pp. 47-57.
[8] Sobre as notas promissórias: ACQUAVIVA, Marcus Claudio. Dicionário Jurídico Acquaviva. São Paulo: Editora Rideel, s/d, p. 579; SILVA, de Plácido e. Vocabulário Jurídico. 23ª ed. atual. Por Nagib Slaibi Filho e Gláucia Carvalho. Rio de Janeiro: Editora Forense, 2003, p. 959.

A ordem natural - Heraldo Barbuy

Todo direito se funda no critério moral do justo e do injusto inato na razão humana. O direito natural não foi inventado pela razão, nem fabricado pelos juristas. Não é imanente mas transcendente. Está na razão, anteriormente a todo direito escrito. É uma norma de conduta tão sólida como os princípios da inteligência são uma norma da atividade especulativa e assim como não se pode pensar fora dos princípios da inteligência, assim também não se pode agir fora do princípio pelo qual devemos fazer o bem e evitar o mal. Santo Tomás elaborou uma admirável fundamentação metafísica do direito natural, que é constituído pelos princípios inerentes à natureza racional do homem; e o direito civil só é direito quando traduz o direito natural. Os Estados não são a fonte da moral e do direito e uma lei não é justa pelo simples fato de ter sido promulgada pelo Estado. Os Estados contemporâneos, oriundos do individualismo com suas raízes idealistas e do socialismo, com suas raízes materialistas, podem promulgar e promulgam muitas leis injustas, que ferem os princípios do direito natural. O Estado individualista, e o Estado socialista principalmente, já são em si mesmos violações do direito natural que repele, com a mesma energia, o individualismo e o socialismo.
O direito natural é um conjunto de preceitos transcendentes que devem reger não só o comportamento dos indivíduos, mas também a ação dos Estados. É um limite que se impõe ao poder cada vez maior do Estado, que aniquila, nega, destrói os mais invioláveis direitos naturais da personalidade humana. O Estado contemporâneo, fundando-se no incrível pressuposto de que o indivíduo vive para a espécie e o cidadão para o Estado, se converteu numa sociedade anônima de fabricação de leis em massa e em série, que não têm na menor conta o fato essencial pelo qual o Estado não é fim mas simples meio e a personalidade humana não é simples meio mas verdadeiro fim. Tudo quanto destrói os direitos e as liberdades concretas da personalidade humana atinge frontalmente o direito natural, é uma violação da lei verdadeira, que não passará impunemente porque há de reverter na maior das infelicidades sociais. Só o direito natural é justo. E um Estado só realizará a justiça social quando todas as suas leis escritas se fundarem na razão natural, em diametral oposição com as reformas atuais, que fazem do indivíduo um autômato, da sociedade, um rebanho e da liberdade, um mito. Pode-se legalizar a injustiça e a fraude; pode-se erigir em sistema a espoliação da família pelos impostos de transmissão e as partilhas obrigatórias; pode-se eliminar o direito de propriedade pelos tributos extorsivos; pode-se proletarizar o trabalhador e gravar o rendimento do trabalho com taxas excessivas e contribuições calamitosas; pode-se confundir a educação com a instrução, negando à religião o direito de educar e conferindo ao Estado o a obrigação inoperante de instruir. Pode-se em suma negar o direito natural em todos os seus graus. Mas não se pode com isso abolir um profundo senso de injustiça, nem substituir o direito natural por um direito artificial. O Estado tem a força para garantir a execução de suas leis escritas, justas ou injustas. Mas a ordem natural tem uma sanção muito mais poderosa no fato de que toda a sua violação é punida pela desgraça geral, pela desordem, pela instabilidade, pela revolta e pelo caos.
(In Ecos Universitários (Órgão Oficial do Centro Acadêmico "Sedes Sapientiae". Ano III, nº 13, São Paulo, setembro de 1950, p. 1).

Monday, September 07, 2009

Sete de Setembro

Neste 7 de Setembro celebramos mais um aniversário do grito de D. Pedro I às margens do riacho do Ipiranga, da proclamação de nossa Independência (política), que já existia de fato desde 1808, ano da verdadeira fundação do Império do Brasil pelo grande e injustiçado estadista que foi D. João VI.
Estamos aqui, antes de tudo, para comemorar esta tão relevante data cívica e evocar a memória de D. João VI, D. Pedro I, José Bonifácio e todos os demais próceres da Independência Nacional.
Não estamos aqui, no entanto, apenas para evocar tão ilustres vultos da História Pátria, mas também para proclamar a imperiosa necessidade de realizarmos nossa integral independência econômica em face dos grupos econômico-financeiros internacionais que há decênios vêm obstaculizando nossa marcha rumo à Soberania Integral, desviando o Brasil de sua Missão e Vocação e ameaçando a sua própria existência enquanto Nação.
Estamos aqui, ademais, para proclamar a necessidade, igualmente imperiosa, de acabar com nosso decrépito e mofado modelo de democracia, que nada tem de efetivamente democrático e se inspira totalmente em princípios abstratos de ideologias inautênticas nascidas do Enciclopedismo e do “Iluminismo”, o substituindo por uma Democracia Autêntica, uma Democracia Efetiva, uma Democracia Integral. Esta Democracia, a única verdadeiramente representativa, será caracterizada, antes de tudo, pelo respeito à intangibilidade da Pessoa Humana e dos Grupos Sociais e pelo reconhecimento de seus direitos naturais, que devem ser respeitados pelo Estado.
Neste mesmo diapasão, proclamamos que nossa atual Constituição, igualmente abstrata e inautêntica, além de repleta de preceitos inverificáveis na vida real, não é uma verdadeira Constituição, mas sim um estatuto ideológico composto de importações de teorias jurídicas alheias, devendo ser substituída por uma Constituição autêntica e realista. Tal Constituição deve ser a expressão da Constituição Histórica da Nacionalidade Brasileira, da Constituição não escrita decorrente da formação tradicional de nosso povo, da Tradição Integral, da íntima essência nacional, refletindo o País real, o Brasil profundo e autêntico, Brasil em cujo solo, onde dormem os antepassados, elevamos nossas preces a Deus, trabalhamos pelo pão de cada dia e, enfim, tecemos os fios de nossa existência cotidiana.
Estamos aqui, por fim, para proclamar que o Brasil, pela sua unidade espiritual, histórica e geopolítica, tem todos os característicos de um vasto Império, sendo Império desde 1808 e como tal permanecendo até hoje, a despeito da proclamação da República. Devemos defender, pois, a ideia de Império, ideia que não se pode confundir com o chamado imperialismo econômico, político e militar da idade contemporânea, não se fundando, ao contrário deste, em princípios materiais, mas sim sobre algo de transcendente, constituindo uma síntese fundada no Direito Natural Tradicional, no respeito à Pessoa Humana e aos Grupos Naturais e na defesa da Pátria, da Nação e da Tradição.
É, pois, defendendo a necessidade de independência econômica, de construção de uma Nova Democracia, de promulgação de uma Nova Constituição e de dilatação da ideia de Império que celebramos esta data tão relevante de nossa História.

Victor Emanuel Vilela Barbuy, Presidente da Frente Integralista Brasileira
São Paulo, 7 de Setembro de 2009.

Sunday, August 30, 2009

Por um Novo Brasil!

Nunca antes na História deste País, o Senado e a Câmara dos Deputados sofreram crise tão profunda. Nunca antes na História deste País, o povo percebeu tanto que a classe política não representa a Sociedade, mas sim seus particulares e espúrios interesses, bem como os interesses ainda mais nefastos da oligarquia financeira a que está subordinada. Nunca antes na História deste País, tantas pessoas se deram conta de que nossa tão propalada “Democracia” não passa de uma politicocracia a serviço da plutocracia internacional, como, aliás, não passam de meras politicocracias a serviço da plutocracia apátrida todas as chamadas democracias modernas, que nada têm de democráticas além do nome.
Não estamos aqui apenas para exigir que o Sr. José Sarney, Senador pelo Amapá, renuncie à Presidência do Senado, mas também e acima de tudo para defender que esta pseudodemocracia, que este “manto de irrisão” apoiado em quimeras que é a liberal-democracia, dê lugar a uma Democracia Autêntica, a uma Democracia Integral onde o povo se sinta efetivamente representado. Estamos aqui, ademais, para sustentar a necessidade de substituição da presente Constituição Federal, abstrata e inautêntica como, em regra, todas as Constituições que temos tido desde 1891, por uma Constituição que emane de nossa Tradição Integral, que reflita o Espírito Nacional, que seja o espelho do País real, do Brasil profundo e autêntico e em que se sinta o cheiro de nossa terra e do sangue e do suor de nosso povo.
Estamos certos de que é absolutamente impossível mudar as Instituições sem antes mudar o Homem, pois não há que se falar em Revolução das Instituições sem antes se falar em Revolução do Homem, em Revolução Interior, em mudança de atitude da Pessoa Humana em face da realidade e dos problemas. Em uma palavra, a Nação do Porvir só poderá ser edificada pelo Homem do Porvir e o Estado Integral somente poderá ser erigido pelo Homem Integral.
Convidamos a todos aqueles que sonham com um Novo Brasil, com um Brasil Maior e Melhor; a todos aqueles que sabem honrar os antepassados e que têm consciência de Pátria, de Nação e de Tradição; a todos aqueles que rejeitam a cômoda vida burguesa e que têm a coragem, a tenacidade, o valor de lutar contra a corrente, contra o Império de Calibã, contra a Idade das Trevas em que vivemos; convidamos, enfim, a todos os homens de pensamento e de ação que pelejam contra estes tempos sombrios, para que se juntem a nós nesta verdadeira Cruzada pela restauração do Império de Ariel, que não é outro senão o do Primado do Espírito sobre a matéria e do Homem sobre a técnica.
Victor Emanuel Vilela Barbuy, Presidente da Frente Integralista Brasileira.

Saturday, August 22, 2009

Em defesa do Folclore Nacional

Por Victor Emanuel Vilela Barbuy
Neste dia 22 de agosto, data em que é celebrado o Dia Nacional do Folclore, a Frente Integralista Brasileira proclama a necessidade de revalorização de nosso Folclore, que é, com efeito, um dos mais relevantes elementos constituintes da Tradição Nacional e vem sendo cada vez mais esquecido graças à ação nefasta do espírito burguês. Este, presente em todos os estratos da Sociedade e tão fortalecido nestes tenebrosos tempos de “globalização”, tem se caracterizado, dentre outras coisas, pelo total desapego às tradições culturais pátrias e pelo culto das tradições estrangeiras, que vêm sendo importadas, a exemplo do chamado Halloween.
O Integralismo, Movimento a que pertenceram os dois mais importantes folcloristas do Brasil – Luís da Câmara Cascudo e Gustavo Barroso -, sempre defendeu a revalorização do riquíssimo Folclore Nacional e o combate sem tréguas ao cosmopolitismo avassalador sustentado pelos burgueses de todos os naipes.
Isto posto, cumpre ressaltar que a burguesia não é uma classe, mas sim um estado de espírito que se tem manifestado em indivíduos de todas as classes sociais e se caracteriza pelo comodismo, pelo hedonismo, pelo cepticismo e pelo desapego aos valores tradicionais, tais como os de Deus, Pátria e Família.
A Frente Integralista Brasileira faz um apelo a todos os brasileiros autênticos para que, honrando os nossos antepassados caídos na luta por um Brasil Maior e pela dilatação da Fé e do Império, filiem-se ao maior movimento efetivamente nacionalista do País, combatendo em defesa da Tradição, da Cultura e do Folclore Nacional.

Thursday, August 06, 2009

Tradicionalismo, Patriotismo, Nacionalismo


Por Victor Emanuel Vilela Barbuy


O presente artigo constitui a parte inicial, revista e ampliada, de O nosso nacionalismo, trabalho de nossa autoria que constará do livro sobre o Manifesto Integralista de Outubro de 1932, a ser em breve publicado por Gumercindo Rocha Dorea, e trata do nacionalismo, do patriotismo e do tradicionalismo, uma vez que o autêntico nacionalismo pressupõe o amor à Pátria e à sua Tradição, cumprindo frisar que, como ensina Martin Heidegger:
“Tudo o que é essencial e grande surgiu do fato de que o homem tinha uma pátria e estava radicado em uma tradição” [1].
Patriotismo, sentimento espontâneo e decorrente da Lei Natural, é o amor à Pátria, à Terra Patrum, Vaterland, Terra dos Pais, que é também nossa e de nossos filhos nascidos ou por nascer. Assim, parafraseando e completando Renan [2], em seu célebre aforismo sobre a Pátria, afirmamos que esta é composta dos mortos que a fundaram e consolidaram, dos vivos que a continuam hoje e daqueles que estão por nascer e a continuarão amanhã. Em uma palavra, a Pátria é o Passado, o Presente e o Futuro; o Ontem, o Hoje e o Amanhã.
Errados estão, portanto, todos aqueles que, apegados ao significado etimológico do termo, afirmam ser a Pátria somente a terra de nossos ancestrais, da mesma forma que estão errados os que a consideram somente a terra dos filhos ou, ainda, nossa e de nossos filhos.
O insigne sociólogo e pensador político patrício Alberto Torres infelizmente está entre aqueles que consideram a Pátria apenas a terra dos filhos, sustentando, em A organização nacional, que “à pátria dos pais, dos antigos, sucedeu, para o homem contemporâneo, a pátria dos filhos”, sendo a inversão do sentido de tal palavra, a seu sentir, “um dos mais belos fenômenos de progresso, na vida dos vocábulos” [3].
Isto posto, faz-se mister assinalar que Alberto Torres, que inegavelmente nos legou diversas lições admiráveis de Política, Economia e Sociologia, cometeu muitos equívocos como o acima apontado, sendo tais equívocos fruto, sem dúvida alguma, de seu desapego à Tradição, ao Passado, que, segundo ele, “em seu conjunto, representa a imperfeição” [4], cumprindo destacar que Plínio Salgado soube como ninguém, nem mesmo Oliveira Vianna, absorver as lições positivas do mestre, ao mesmo tempo em que rejeitava seus erros, sobretudo o desapego à Tradição e às bases morais de nossa formação.
Voltemos, todavia, ao conceito de Pátria. Preleciona Rui Barbosa, no célebre Discurso no Colégio Anchieta, de 1903, que esta é a “família amplificada” [5], assim a definindo pouco adiante:
“A pátria não é ninguém: são todos, e cada qual tem no seio dela o mesmo direito à ideia, à palavra, à associação.
A pátria não é um sistema, nem uma seita, nem um monopólio, nem uma forma de governo: é o céu, o solo, o povo, a tradição, a consciência, o lar, o berço dos filhos e o túmulo dos nossos antepassados, a comunhão da lei, da língua e da liberdade” [6].
Havendo citado Rui Barbosa, julgamos oportuno assinalar que este, longe de ser o ferrenho individualista e o liberal ortodoxo de que tanto se tem falado, foi um homem que defendeu, dentre outras coisas, a Democracia Social (que não se pode confundir com a social-democracia de inspiração marxista) e a socialização do Direito, admirando o chamado “socialismo cristão” do Cardeal Mercier, a que preferimos denominar Cristianismo Social, denominação também preferida, aliás, por Alfredo Buzaid em sua esclarecedora conferência sobre Rui e a questão social, pronunciada a 02 de setembro de 1965 na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo [7].
Insta ressaltar, ademais, que Rui Barbosa morreu católico e afastado da maçonaria [8], repudiando totalmente o célebre prefácio que escrevera na mocidade, a pedido de Saldanha Marinho, para o livro O Papa e o Concílio, de Janus [9], e chegando mesmo a sair comprando os remanescentes da primeira edição de tal obra, a fim de impedir a propagação de seus erros de juventude [10].
Não podemos deixar de transcrever a admirável preleção do ínclito doutrinador tradicionalista, patriótico e nacionalista espanhol Ramiro de Maeztu y Whitney, mártir da Cruzada Espanhola de 1936/39, em sua obra Defensa de la Hispanidad, no sentido de que “a pátria é espírito”, ao que acrescenta, pouco adiante:
“A pátria é um patrimônio espiritual em parte visível, porque também o espírito do homem encarna na matéria, e aí estão para atestá-lo as obras de artes plásticas: igrejas, monumentos, esculturas, pinturas, mobiliário, jardins, e as utilitárias: estradas, cidades, vivendas, plantações; mas em parte invisível, como o idioma, a música, a literatura, a tradição, as façanhas históricas, e em parte visível e invisível, alternadamente, como os costumes e os gostos. Tudo junto faz de cada pátria um tesouro de valor universal, cuja custódia corresponde a um povo” [11].
Isto posto, cabe ressaltar que o conceito de Pátria é de natureza sentimental e geográfica, do mesmo modo que o conceito de País é meramente geográfico e que o de Nação é sobretudo histórico, cultural e racional [12].
Voltando, porém, ao patriotismo, - virtuoso sentimento que nos une à nossa Terra e ao nosso Povo e que de maneira alguma pode ser confundido com o chauvinismo, o jacobinismo ou o xenofobismo – frisamos que este não exclui de modo algum o universalismo e que, como preleciona o Papa Leão XIII na Encíclica Sapientiae Christianae, é a própria Lei Natural que nos impõe o amor devotado ao país em que nascemos e crescemos [13].
Cumpre sublinhar, entretanto, que o amor à Pátria terrena não se deve sobrepor em hipótese alguma ao amor à Pátria Celeste, a quem devemos, com efeito, a nossa maior devoção.
Isto posto, passemos à definição de nacionalismo. Este é a virtude moral que nos leva a servir e defender a Nação e seus superiores interesses, sendo importante destacar que o termo Nação, conhecido desde a denominada Idade Média, deriva do verbo latino nasci, nascer, trazendo a ideia de filiação, de origem comum.
O nacionalismo, “armadura do patriotismo”, na expressão de Yves de la Brière [14], não constitui, como ensina Antonio Messineo, apenas a virtude moral que nos inclina a amar a nossa Nação, mas também “a cumprir todos os deveres, que a piedade nos impõe para com todos aqueles que nos são unidos pela identidade de origem e cultura” [15].
Não podemos deixar de consignar que, como ensina António Sardinha – inspirado poeta e brilhante líder e doutrinador do movimento tradicionalista, patriótico, nacionalista e monárquico denominado Integralismo Lusitano – o nacionalismo supõe, “em relação ao grande conjunto humano, um universalismo”. Tal universalismo não pode e não deve ser confundido com o cosmopolitismo e o internacionalismo burguês, constituindo, em verdade, “o universalismo que a Idade Média professou e a que Augusto Comte rendia tão calorosas homenagens: a sociedade internacional restabelecida e restaurada sobre as únicas bases duradouras, - as da Cristandade” [16].
O nacionalismo tendente ao universalismo é aquele nacionalismo verdadeiro de que fala Plínio Salgado em Mensagem às pedras do deserto; é aquele nacionalismo cristão que, segundo o autor de Espírito da burguesia, “não deve ser nem exagerado nem superficial”, mas “equilibrado e profundo, justo e lúcido”, espelhando “a personalidade de uma Pátria, constituída pelo conjunto das personalidades congregadas no grupo nacional” [17].
O nacionalismo tendente ao universalismo é, enfim, aquele definido pelo Papa Pio XI como o “justo nacionalismo, que a reta ordem da caridade cristã não somente não desaprova, mas com regras próprias santifica e vivifica” [18].
A Nação, conceito eminentemente histórico, cultural e racional, conforme dissemos há pouco, é caracterizada, antes e acima de tudo, por sua Tradição, que diferencia seu povo em relação aos demais povos do Orbe Terrestre, forjando o caráter da personalidade nacional.
Formada por seus filhos e pelos Grupos Naturais a que estes pertencem e nos quais exercem melhor seus deveres e direitos, a Nação é uma entidade inconfundível, um organismo dotado de fórmula sociológica, vocação e modo de vida próprios, decorrentes de sua formação histórica e social, de seu Passado e Tradição integrais, como aprendemos nas lições de Burke, De Maistre, De Bonald, Möser, Novalis, Adam Müller, Savigny, Ranke, Oliveira Vianna, Plínio Salgado e outros mais.
A Nação é – como ensina Plínio Salgado – uma continuidade histórica, no Passado, no Presente e no Porvir, um “patrimônio territorial no espaço geográfico”, uma realidade social, uma expressão moral e ética, como conjunto de pessoas, famílias, sindicatos, corporações, municípios. “É a unidade humana diferenciada pelo meio físico, pela estrutura étnica, pelos índices culturais, pelo idioma, pelo temperamento e vocação de um povo”, podendo faltar-lhe um ou mesmo mais de um de tais elementos, como a unidade lingüística ou étnica, mas jamais “aquele espírito de grupo a que se refere Durkheim, com certo exagero, mas que nós podemos aceitar nos seus próprios limites” [19].
Não concordamos de forma alguma com René Guénon no que respeita à ideia de Nação. Enquanto o autor de A crise do Mundo Moderno condena tal conceito, vendo, com efeito, a formação das nações, das nacionalidades como um aspecto da desagregação da Cristandade [20] e, mais do que isto, como “o meio utilizado para se destruir a organização social tradicional do Medievo” [21], nós outros vemos a ideia de Nação como tradicional e defendemos a existência de uma Tradição Nacional. Concordamos, pois, com Marcello Veneziani, para quem a defesa da Identidade Nacional e da Tradição Nacional, longe de ser “uma negação da ideia de Tradição”, é como que “um defender a tradição e a identidade de um povo da erradicação e do cosmopolitismo, da colonização e da globalização” [22].
A Nação – voltando à lição de Plínio Salgado – é “consciência de Tradição, de Atitude e de Destino histórico” [23], se exprimindo politicamente numa personalidade coletiva, que tem consciência de onde veio, de onde está e de para onde deve ir [24].
No mesmo sentido, pondera Gustavo Barroso que a Nação “é a continuidade física e moral das gerações unidas pela experiência e pela sucessão dos fatos através dos séculos” [25].
O nacionalismo pressupõe, portanto, não apenas o patriotismo, mas também o tradicionalismo, isto é, a defesa da Tradição Integral que recebemos de nossos maiores e que temos a missão de entregar, de transmitir a nossos descendentes. Este tradicionalismo não se confunde com o passadismo ou o mero conservantismo, sendo, ao contrário, a continuidade no progresso e, com efeito, o único e verdadeiro progressismo, posto que as nações que perdem o sentido de sua Tradição, de sua História, de seu Passado Integral, não conseguem ser grandes no Presente e nem no Futuro e o único progresso efetivo é aquele fundamentado na Tradição. Esta, em latim Traditio, de tradere (entregar), é a transmissão, a entrega constante, através das sucessivas gerações, de um patrimônio de valores comuns, mantidos em sua essência, corrigidos sempre que necessário e incessantemente aprimorados [26], não sendo, como preleciona o magno pensador tradicionalista, patriótico e nacionalista espanhol Víctor Pradera, mártir – como Maeztu – da Cruzada Espanhola de 1936/39, apenas o Passado, mas o Passado que sobrevive e que tem condições de se fazer Futuro [27].
Neste sentido, ensina Michele Federico Sciacca:
“Uma consciência autenticamente cristã não pode colocar-se em ruptura nem em face da tradição, como o faz a revolução, nem em face do progresso, como o faz o conservadorismo. Põe-se em posição dialética em face de um e em face de outro, isto é, adota a posição justa de conservar renovando e renovar conservando, que é a dialética ou a relação que une a tradição e o progresso, porque não há progresso verdadeiro ou construtivo sem tradição e não há tradição viva e operante sem progresso; mais, a tradição, como tal, é a essência do progresso, movimento, renovação” [28].
Com efeito, Giovanni Gentile - o genial filósofo do Attualismo e doutrinador do Estado Ético, barbaramente assassinado, em 1944, pelos partigiani, vergonha da Itália – sustenta que a Tradição de um povo constitui a sua paternidade e que a rejeição da mesma relegaria os povos ao primitivismo de uma vida absolutamente rudimentar, sem memória e sem arte [29].
A Tradição é – como preleciona Arlindo Veiga dos Santos, inspirado poeta e fundador, Chefe e principal doutrinador do Patrianovismo [30] - um princípio de natureza estático-dinâmica [31].
Herder, verdadeiro pai do admirável movimento tradicionalista conhecido como Romantismo Alemão [32], define a Tradição como a “cadeia sagrada que liga os homens ao passado e que conserva e transmite tudo o que foi feito por aqueles que os precederam” [33]. Tal definição somente não é perfeita porque omite o fato de que a Tradição não liga os homens apenas ao Passado, mas também ao Futuro; une os homens não só aos ancestrais, como também aos descendentes.
Julius Evola, mestre do chamado Tradicionalismo Integral que infelizmente jamais compreendeu a verdadeira essência do Cristianismo, observa que, após a queda da Civilização Medieval, a força da Tradição passou do visível ao invisível, tornando-se uma hereditariedade que se transmite em uma secreta cadeia que une poucos a poucos [34].
Embora no Mundo Moderno e Contemporâneo os valores tradicionais tenham inegavelmente perdido força e os Estados tenham deixado de ser governados pela Tradição, esta – ao contrário do que afirma o inegavelmente genial autor de Revolta contra o Mundo Moderno – nunca se tornou invisível e jamais passou à condição de cadeia secreta que une poucos a poucos. Com efeito, a Tradição, que não é somente esotérica, mas também exotérica, sempre permaneceu e permanecerá como uma cadeia a um só tempo visível e invisível que liga muitos a muitos, sendo tradicionalista a maior parte da população de qualquer país da Terra.
É nosso dever despertar esta maioria silenciosa e lutar contra as ideias inautênticas do Mundo Moderno e Contemporâneo – Mundo da ditadura do ouro, da máquina, da técnica, do número, do capital especulativo, ou, numa palavra, Mundo da Matéria sobre o Espírito, da Burguesia sobre a Nobreza, entendidas estas últimas não como classes sociais, mas sim como estados de espírito -, restaurando o Primado da Tradição, cadeia sagrada que nos liga a nossos maiores e aos nossos descendentes e patrimônio que devemos legar, aprimorado, a nossos filhos nascidos ou por nascer.


NOTAS



[1] HEIDEGGER, Martin. Ormai solo un dio ci si può salvare. Intervista con lo “Spiegel”. Trad. italiana de A. Marini. Parma: Guanda, 1987, p. 135.
[2] Citamos de memória.
[3] TORRES, Alberto. A organização nacional. Primeira parte: a Constituição. 3ª ed. São Paulo: Ed. Nacional, 1978, p. 112.
[4] Idem, p. 198.
[5] BARBOSA, Rui. Discurso no Colégio Anchieta. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1981, p. 7.
[6] Idem, p. 8.
[7] BUZAID, Alfredo. Rui e a questão social. In BUZAID, Alfredo. Rui Barbosa processualista civil e outros estudos. São Paulo: Editora Saraiva, 1989, p. 99.
[8] NOGUEIRA, Rubem. História de Ruy Barbosa. 2ª ed. Salvador: Livraria Progresso Editora, 1957, pp. 34-36.
[9] LIMA, Alceu Amoroso. (Tristão de Athayde). Estudos. Quinta série. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, S. A,, 1933, p. 232.
[10] Idem, p. 233.
[11] MAEZTU, Ramiro de. Defensa de la Hispanidad. 2ª ed. Madri: Ediciones Fax, 1935, p. 232.
[12] SALGADO, Plínio. Direitos e deveres do Homem. 1ª ed. Rio de Janeiro: Livraria Clássica Brasileira, 1950, pp. 131-132.
[13] Leão XIII. Encíclica Sapientiae Christianae, dada em Roma a 10 de janeiro de 1890. Disponível (em inglês) em: http://www.vatican.va/holy_father/leo_xiii/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_10011890_sapientiae-christianae_en.html. Acesso em 15 de outubro de 2007.
[14] BRIÈRE, Yves de la. Quels sont nos devirs envers la cité?. Paris: Editions Flammarion, 1930, p. 62.
[15] MESSINEO, A. La Nazione. Roma: La Civiltà Cattolica, 1944, p. 144.
[16] SARDINHA, António. Ao princípio era o verbo. 2ª ed. Lisboa: Editorial Restauração, 1959, p. 12.
[17] SALGADO, Plínio. Mensagem às pedras do deserto. 2ª ed. In SALGADO, Plínio. Obras Completas. 1ª ed., vol. XV. São Paulo: Editora das Américas, 1956, pp. 341.
[18] PIO XI. Encíclica Caritate Christi Compulsi. Disponível (em italiano) em: http://www.vatican.va/holy_father/pius_xi/encyclicals/documents/hf_p-xi_enc_19320503_caritate-christi-compulsi_it.html. Acesso em 15 de outubro de 2007.
[19] SALGADO, Plínio. Direitos e deveres do Homem. Op. cit., pp. 129-130.
[20] GUÉNON, René. La crisi del Mondo Moderno. Trad. italiana e intr. de Julius Evola. Roma: Edizioni Mediteranee, 2003, p. 45.
[21] GUÉNON, René. Il Regno della Quantità e i Segni dei Tempi. Trad. italiana de Tullio Masera e Pietro Nutrizio. Milão: Gli Adelphi, 2009, p. 208.
[22] VENEZIANI, Marcello. De pai para filho: Elogio da Tradição. Trad. de Orlando Soares Moreira. São Paulo: Edições Loyola, 2005, p. 130.
[23] SALGADO, Plínio. Direitos e deveres do Homem. Op. cit., p. 134.
[24] Idem, p. 132.
[25] BARROSO, Gustavo. História Militar do Brasil. 1ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1935, p. 119.
[26] SOUSA, José Pedro Galvão de; GARCIA, Clovis Lema; CARVALHO, José Fraga Teixeira de. Dicionário de Política. São Paulo: T.A. Queiroz, 1998, p. 533.
[27] PRADERA, Víctor apud SOUSA, José Pedro Galvão de; GARCIA, Clovis Lema; CARVALHO, José Fraga Teixeira de. Dicionário de Política. Op. cit., loc. cit.
[28] SCIACCA, Michele Federico. Revolución, Conservadorismo, Tradición. In Verbo, nº 123, p. 283, Madri. Apud José Pedro Galvão de; GARCIA, Clovis Lema; CARVALHO, José Fraga Teixeira de. Dicionário de Política. Op. cit., p. 533.
[29] GENTILE, Giovanni. La tradizione italiana. In GENTILE, Giovanni. Frammenti di estetica e di teoria della storia, vol. II. Florença: Le Lettere, 1992, pp. 97-98.
[30] Sobre o Patrianovismo, movimento tradicionalista, patriótico e nacionalista que prega a instauração, no Brasil, de uma Monarquia Tradicional, orgânica e social: SOUSA, José Pedro Galvão de; GARCIA, Clovis Lema; CARVALHO, José Fraga Teixeira de. Dicionário de Política. Op. cit., pp. 408-409; LIMA, Alceu Amoroso. (Tristão de Athayde). Estudos. Quinta série. Op. cit., pp. 299-309; MALATIAN, Teresa. Império e missão: um novo monarquismo brasileiro. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2001.
[31] SANTOS, Arlindo Veiga dos. Ideias que marcham no silêncio... São Paulo: Pátria Nova, 1962, p. 43.
[32] Sobre o Romantismo Alemão: BARBUY, Heraldo. A nação e o romanstismo. In BARBUY, Heraldo. O problema do ser e outros ensaios. São Paulo: Convívio/Editora da Universidade de São Paulo (EDUSP), 1984, pp.259-291.
[33] HERDER, Johann Gottfried apud VENEZIANI, Marcello. De pai para filho: Elogio da Tradição. Op. cit., p. 113.
[34] EVOLA, Julius. Heidnischer Imperialismus. II ed. italiana revisada com Imperialismo pagano. Roma: Edizioni Mediteranee, 2004, p. 197.



BIBLIOGRAFIA


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Tuesday, June 09, 2009

Grupos Naturais, Sociedade e Estado

Por Victor Emanuel Vilela Barbuy

A Sociedade é – segundo a profunda concepção tradicional, predominante na Grécia, em Roma e na denominada Idade Média – uma hierarquia de Grupos Sociais Naturais, dentre os quais o primeiro e mais fundamental é a Família. Tal concepção é a única concepção verdadeira, posto que, como sublinha Heraldo Barbuy, “repousa na visão do que a sociedade realmente é: repousa na intuição da essência da sociedade”, definida esta pelo insigne pensador patrício como “síntese de grupos naturais” [1].
A Sociedade é, pois, uma hierarquia de Grupos Sociais Naturais, uma síntese de Corpos Intermediários, cuja cellula mater é a Família. Esta é a mais natural das sociedades menores que formam a Sociedade, uma vez que contém, ainda de acordo com a lição do autor de O problema do ser, todos os liames dos demais grupos, além do liame biológico e de uma religiosidade mais estreita que faz da Família Tradicional, antes e acima de tudo, um círculo religioso [2].
Os Grupos Naturais, que encontram sua razão de ser na própria natureza da Pessoa Humana, podem ser resumidos em:
a) Grupo biológico, através do qual o Homem se projeta no tempo – a Família;
b) Grupos espirituais – as igrejas e demais locais de culto em que o Ente Humano eleva suas preces a Deus;
c) Grupos econômicos – associações profissionais voltadas à defesa do Trabalho, que é um direito natural da Pessoa Humana e ao mesmo um dever desta para o engrandecimento do Bem Comum – Corporações, Sindicatos etc.;
d) Grupos políticos – o Município e a Nação;
e) Grupos educacionais e culturais – escolas, universidades, academias, instituições culturais.
A respeito dos grupos espirituais, econômicos, educacionais e culturais julgamos não ser necessário discorrer mais, de modo que retornaremos ao grupo biológico e, em seguida, cuidaremos dos grupos políticos e, por fim, do Estado, que não é um Grupo Natural, mas sim a síntese espontânea dos Grupos Naturais.
A Família é, no dizer de Plínio Salgado, “o Grupo-Síntese que oferece ao Estado o sentido dos lineamentos exatos” [3], posto que é a Família a força moral em que o Estado Ético-Integral deve ir buscar a sua força, de modo que não há Estado Ético sem Família [4].
No chamado Manifesto de Outubro, mais fundamental documento do Integralismo, Plínio Salgado pondera que o Homem e a Família precederam o Estado, que deve ser forte para manter sua integridade, posto que é a Família quem cria as virtudes que consolidam o Estado, sendo o próprio Estado “uma grande família, um conjunto de famílias” [5].
Podemos dizer que um dos mais graves erros do individualismo liberal e do coletivismo comunista foi o de não considerar os Grupos Naturais em geral e a Família em particular, concebendo, os individualistas, a Sociedade como mera soma de indivíduos, e os coletivistas, como simples massa social. Cumpre ressaltar, com efeito, que os individualistas e os coletivistas, criando, respectivamente, o Monstro Indivíduo e o Monstro Sociedade ou Monstro Estado, não apenas desconsideraram a existência dos Grupos Naturais, como também os combateram de todas as formas possíveis, logrando enfraquecê-los, mas nunca destruí-los.
Sabemos que só há uma Sociedade, uma Nação e um Estado forte onde a Família é forte, de sorte que defendemos o revigoramento da Família, baluarte da Ética, da Moral, dos Bons-costumes, da Tradição. Esta última, definida por Herder como a “cadeia sagrada que liga os homens ao passado”, conservando e transmitindo tudo aquilo “que foi feito pelos que os precederam” [6], constitui um princípio estático-dinâmico, como preleciona Arlindo Veiga dos Santos [7], sendo, ademais, uma das principais bases do Integralismo. Faz-se mister frisar, com efeito, que o ilustre jusfilósofo espanhol Francisco Elías de Tejada y Spínola considerou Plínio Salgado o maior pensador tradicionalista do Brasil, ao lado de José Pedro Galvão de Sousa [8], e que Gustavo Barroso bem classificou o Integralismo como “modalidade nacional das doutrinas tradicionalistas e nacionalistas das chamadas Direitas” [9].
É da Família, cellula mater da Sociedade, que nasce o Município, cellula mater da Nação, que constitui, como ressalta René Pena Chaves, uma reunião de famílias autônomas, ligadas entre si por interesses de vizinhança e organizadas politicamente [10].
O Município, unidade política fundamental, sede das famílias e das classes, constituindo uma reunião de moradores que aspiram ao bem-estar e ao progresso da localidade, deve ser autônomo em tudo o que diz respeito a seus peculiares interesses [11].
O Manifesto Municipalista, redigido por Plínio Salgado e lido por Goffredo Telles Junior durante a V Convenção Nacional do Partido de Representação Popular (PRP), em 1948, afirma que, da mesma forma que “a palavra ESPIRITUALISMO resume nossa filosofia, a palavra MUNICIPALISMO resume nossa política” [12].
Consoante salienta o autor de Psicologia da Revolução no referido Manifesto, o Homem só poderá ser feliz quando for livre e somente será “socialmente livre se viver dentro de uma Pátria moralmente grande” [13].
Ora, prossegue Plínio, um País, “como um todo, só é moralmente grande e politicamente forte quando são pujantes os elementos de que ele se compõe” e o Brasil, do ponto de vista administrativo, é dividido em Estados que consistem em criações de natureza política. Caso consideremos, entretanto, a evolução natural de nossa Sociedade, notaremos que a Nação Brasileira é constituída de Municípios formados de maneira espontânea e que são, portanto, “os elementos naturais de que se compõe o corpo da Nação” [14].
É dentro do Município – preleciona o pensador patrício – que “o Brasil palpita e vive”, que nosso povo “vai tecendo sua existência cotidiana”, que “o agricultor cultiva sua terra, o industrial transforma os produtos, o comerciante troca as mercadorias e que os homens de todas as profissões exercem seus misteres”. Assim, a produção, a prosperidade, a riqueza, a saúde, o bem-estar e a cultura dos brasileiros não podem provir senão do Município, que é, deste modo, “a oficina do progresso nacional” [15].
É em torno da União e do Município que giram quase todos os interesses pertinentes aos cidadãos e à Pátria e, como a vida de cada pessoa se encontra profundamente vinculada às condições do Município em que tal pessoa reside, “a grandeza da União se afirma em razão direta da vitalidade dos Municípios, de que ela se compõe” [16].
Isto posto, importa salientar que o federalismo, enquanto forma de Estado, é totalmente contrário à Tradição Nacional, havendo sido sua importação, pela República, um dos maiores crimes de que foi vítima esta Nação, nascida sob o signo da centralização política e da descentralização administrativa e da preponderância da União e do Município sobre a Província.
Havendo cuidado do primeiro Grupo Social de natureza política, passemos ao segundo, que é a Nação.
A Nação, do latim nasci, nascer, é um conceito eminentemente histórico, cultural e racional, sendo caracterizada, antes de tudo, por sua Tradição, que diferencia seu povo em relação aos demais povos da Terra, forjando o caráter da personalidade nacional.
Formada por seus filhos e pelos Grupos Naturais a que estes pertencem e nos quais exercem melhor seus deveres e direitos, a Nação é uma entidade inconfundível, um organismo dotado de fórmula sociológica, vocação e modo de vida próprios, decorrentes de sua formação histórica e social.
A Nação é – consoante preleciona Plínio Salgado – uma continuidade histórica, no Passado, no Presente e no Porvir, um “patrimônio territorial no espaço geográfico”, uma realidade social, uma expressão moral e ética, como conjunto de pessoas, famílias, sindicatos, corporações, municípios. “É a unidade humana diferenciada pelo meio físico, pela estrutura étnica, pelos índices culturais, pelo idioma, pelo temperamento e vocação de um povo”, podendo faltar-lhe um ou mesmo mais de um de tais elementos, como a unidade linguística ou étnica, mas jamais “aquele espírito de grupo a que se refere Durkheim, com certo exagero, mas que nós podemos aceitar nos seus próprios limites” [17].
A Nação é, ainda segundo o autor da Vida de Jesus, “consciência de Tradição, de Atitude e de Destino histórico” [18], se exprimindo politicamente numa personalidade coletiva, que tem consciência de onde veio, de onde está e de para onde deve ir [19].
Por fim, tratemos do Estado, que, como afirmamos há pouco, não é um Grupo Natural, mas sim a síntese espontânea dos Grupos Naturais, que o precederam.
O Estado, assim, como a Sociedade, é, segundo preleciona Heraldo Barbuy, apenas um meio, sendo a Pessoa Humana o verdadeiro fim [20]. No mesmo sentido entendem, dentre outros, Plínio Salgado [21], Goffredo Telles Junior [22], Tristão de Athayde [23], Ataliba Nogueira [24], Machado Paupério [25], Darcy Azambuja [26] e Marcus Cláudio Acquaviva [27].
Diversamente do Estado Ético hegeliano, que se constitui na fonte única da Moral, da Ética e do Direito, o Estado Ético preconizado pelo Integralismo é o Estado transcendido pela Ética e movido por um ideal ético. Ele existe para servir ao Homem e aos Grupos Naturais e não para ser servido por eles ou violentá-los e reconhece os direitos naturais da Pessoa Humana e não os concede como favores.




Notas:

[1] BARBUY, Heraldo. A Família e a Sociedade. In Servir, n° 1297, ano XXVII, São Paulo, 20 de setembro de 1957, p. 75.
[2] Idem, loc. cit.
[3] SALGADO, Plínio. Palavra nova dos tempos novos. 4ª ed. In SALGADO, Plínio. Obras Completas. 2ª ed., vol. VII. São Paulo: Editora das Américas, 1957, p. 236.
[4] Idem, pp. 235-236.
[5] SALGADO, Plínio. Manifesto de Outubro de 1932. In Sei que vou por aqui!, n. 2, São Paulo, setembro-dezembro de 2004, p. X.
[6] HERDER, apud ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Tradução da 1ª ed. brasileira coord. e rev. Por Alfredo Bosi; rev. da trad. e trad. dos novos textos Ivone Castilho Benedetti. 5ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 1150.
[7] SANTOS, Arlindo Veiga dos. Idéias que marcham no silêncio... São Paulo: Pátria-Nova, 1962, p. 43.
[8] “Ninguém havia entendido a Tradição brasileira antes dele [Plínio Salgado], e, depois, convém apenas compará-la com o empreendimento intelectual de José Pedro Galvão de Sousa em nossos dias, se bem que este tenha apurado até às suas últimas conseqüências os planos das raízes tridentinas, filipinas e hispânicas do Brasil, que, aliás, em Plínio Salgado constam também com patente claridade” (TEJADA, Francisco Elías de. Plínio Salgado na Tradição do Brasil. In Plínio Salgado, in memoriam (volume II – autores estrangeiros). São Paulo: Voz do Oeste/Casa de Plínio Salgado, 1986, p. 70.
[9] BARROSO, Gustavo. História do Brasil em quadrinhos. (2ª parte). Desenhos de Wasth Rodrigues. Rio de Janeiro: Editora Brasil-América, 1979, p. 38.
[10] CHAVES, René Pena. Tese apresentada pela Câmara Municipal de Campinas ao II Congresso das Câmaras Municipais do Estado de São Paulo em 12 a 16 de junho na Cidade de Ribeirão Preto relativa ao II item do temário: Estudo da significação e função dos Municípios e das Câmaras Municipais. Campinas: Oficinas Gráficas “Casa Livro Azul”, 1949, p. 7.
[11] SALGADO, Plínio. Manifesto de Outubro de 1932. In Sei que vou por aqui!, n. 2, São Paulo, setembro-dezembro de 2004, p. XI.
[12] SALGADO, Plínio. Manifesto Municipalista do Partido de Representação Popular. Edição da Secretaria Nacional de Propaganda do PRP, s/d, p. 3.
[13] Idem, loc. cit.
[14] Idem, loc. cit.
[15] Idem, pp. 3-4.
[16] Idem, p. 4.
[17] SALGADO, Plínio. Direitos e deveres do Homem. 1ª ed. Rio de Janeiro: Livraria Clássica Brasileira, 1950., pp. 129-130.
[18] Idem, p. 134.
[19] Idem, p. 132.
[20] BARBUY, Heraldo. A Família e a Sociedade. In Servir, n° 1297, ano XXVII, São Paulo, 20 de setembro de 1957, p. 77.
[21] SALGADO, Plínio. Madrugada do Espírito. 4ª ed. In SALGADO, Plínio. Obras Completas, 2ª ed., vol. VII. São Paulo: Editora das Américas, 1957, p. 443.
[22] TELLES JUNIOR, Goffredo. Justiça e Júri no Estado Moderno. São Paulo: Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1938, p. 31.
[23] ATHAYDE, Tristão de. Política. Rio de Janeiro: Livraria Católica, 1932, p. 77.
[24] NOGUEIRA, J. C. Ataliba. O Estado é um meio e não um fim. 1ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1940, p. 113.
[25] PAUPÉRIO, A. Machado. Teoria Geral do Estado. 7ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 1979, pp. 68-70.
[26] AZAMBUJA, Darcy. Teoria Geral do Estado. 38ª ed. São Paulo: Globo, 1998, p. 122.
[27] ACQUAVIVA, Marcus Cláudio. Teoria Geral do Estado. 2ª ed., revista e aumentada. São Paulo: Editora Saraiva, 2000, p. 83.

Thursday, May 14, 2009

Manifesto de 13 de Maio

Segue o texto do Manifesto de 13 de Maio, por mim redigido e lido na Praça da Sé e defronte a Prefeitura de São Paulo a 13 de Maio próximo passado, por ocasião das manifestações organizadas pela Frente Integralista Brasileira (FIB) e pela Frente Monarquista Brasileira (FMB) para rememorar esta tão relevante data de nossa História.
MANIFESTO DE 13 DE MAIO

À mocidade civil e militar do nosso Brasil; aos homens e mulheres de todas as classes e etnias formadoras da Nacionalidade, sob as bênçãos de Deus e de nossos ancestrais, sonhando uma Pátria Nova, uma Nação Maior e Melhor, livre da miséria e dos preconceitos étnicos.

O Integralismo, movimento cívico, político, cultural e social alicerçado numa visão integral do Universo e do Homem, luta pela edificação de um Estado Ético e de uma Democracia Orgânica e condena, à luz dos ensinamentos do Evangelho e de pensadores como Alberto Torres, todas as teorias defensoras da superioridade de determinadas etnias sobre outras. Defende, a Doutrina do Sigma, portanto, que o nosso povo é tão capaz quanto qualquer outro e que o Brasil deve se tornar efetivamente uma Democracia Étnica onde brancos, negros, índios, orientais, caboclos, mulatos, cafuzos e demais mestiços vivam em harmonia e em igualdade de deveres e de direitos em face da Sociedade e do Estado.
Os Integralistas, partidários da harmonia social e étnica que somos, rejeitamos tanto a luta de classes quanto a luta de “raças” e fazemos nossas as palavras de Plínio Salgado, criador, Chefe perpétuo e principal doutrinador do Integralismo Brasileiro, quando preleciona que “o problema do mundo é ético e não étnico”.

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Há milênios que têm se manifestado, entre os diversos povos da Terra, o orgulho étnico. Os helenos, ou gregos, por exemplo, movidos pelo orgulho que sentiam da magnífica Civilização e da apurada Cultura por eles criadas, se julgavam superiores aos demais povos, a que denominavam bárbaros. Mesmo grandes pensadores da Hélade, como Aristóteles de Estagira, têm, em suas obras filosóficas, passagens reveladoras de preconceitos étnicos.
Os romanos, criadores de igualmente portentosa Civilização e Cultura, além de um vasto e glorioso Império que dominou a quase totalidade do Mundo então conhecido, também viam os demais povos como bárbaros. Cumpre ressaltar, porém, que, sobretudo a partir do reinado de César Augusto, os preconceitos do povo romano contra os demais povos do Império foram caindo, ao mesmo tempo em que tais povos absorviam a Cultura Romana e a própria cidadania romana era a eles estendida.
É provável, contudo, que nenhum povo da Antiguidade tenha sido tão racista quanto o povo hebreu, como comprovam diversas passagens do Antigo Testamento, valendo sublinhar que tal racismo não se alicerçava no sentimento de orgulho diante de sua Civilização e Cultura - que, aliás, estavam muito longe de figurar entre as mais extraordinárias -, mas sim em sua crença religiosa.
O Cristianismo, porém, traz uma nova concepção de Mundo, uma nova cosmovisão em que não há lugar para os preconceitos baseados em uma pretensa pureza de sangue, no nível de Civilização e de Cultura ou no poder e extensão de um Império. Cristo universaliza o culto monoteísta, demonstrando que Deus não é o privilégio de uma casta, uma classe, uma etnia, uma pátria ou uma nação, estando em toda a parte, dirigindo o destino de todos os povos e ouvindo toda a Humanidade, onde quer que um coração puro se eleve pela Fé.
À luz da Fé Cristã, todos os homens são irmãos, havendo sido criados pelo mesmo Deus onipotente e misericordioso à Sua imagem e semelhança e remidos pelo sangue de Jesus Cristo.
A Igreja, fundada pelo próprio Cristo, abre a todos as portas da salvação pelo sacramento do batismo, sendo, ademais, a intérprete do Direito Natural. Todos são iguais diante deste, que se constitui na leitura da Lei Eterna pelo Homem à luz da razão.
Na chamada Idade Média, quando a Filosofia do Evangelho dominava as nações, a sabedoria e a virtude penetravam as leis, os costumes e as instituições dos povos europeus; quando era por Cristo e com Cristo que tudo se fazia; quando imperava, enfim, a Civilização Cristã, não havia espaço para o racismo. A denominada Idade Média, tão deturpada por seus adversários, os inimigos da Cristandade, que a denominaram “Idade das Trevas”, foi, antes, cumpre salientar, a “Idade da Luz” em que se erigiram as grandes catedrais, os castelos e os mosteiros, se fundaram as universidades e se escreveram obras do quilate da Suma Teológica, de Santo Tomás de Aquino, e da Divina Comédia, de Dante Alighieri.
Havendo atingido, o Medievo, seu apogeu no século XIII, entrou ele em decadência logo após, no período que Huizinga denomina “Outono da Idade Média” e que foi marcado pelo surgimento das ideias voluntaristas de Duns Scott e Guilherme de Occam. Negando a ordem racional objetiva que se impõe à Vontade, sustentaram eles o primado desta, preparando o caminho àqueles que, séculos mais tarde, afirmando a plena autonomia da Vontade, negariam o fundamento transcendente da Ordem Moral, Ética e Jurídica, erigindo o Estado em fonte única da Moral, da Ética e do Direito.
Foi no “Outono da Idade Média”, ainda, que surgiu o humanismo antropocêntrico, que faz do Homem e não de Deus a medida de todas as coisas, e que se preparou a quebra da unidade do Mundo Cristão, tão lamentada por Novalis, e o consequente fim da fraternidade universal entre os povos, do universalismo professado pela Idade Média, que não se pode confundir de forma alguma com o cosmopolitismo de nossos dias.
A partir de Maquiavel, a concepção cristã da política e das relações interestatais cedeu lugar a uma concepção naturalista posteriormente desenvolvida por Hobbes, que, por seu Leviatã, pode ser considerado, ao lado de Hegel, como o principal precursor do Estado Totalitário. Este é condenado pelo Integralismo, que, tendo uma concepção total do Universo e do Homem, considera o Estado somente como parte, e não como um todo acima da Pessoa Humana e dos Grupos Naturais.
Após as descobertas marítimas do século XVI, vemos, nas colônias de determinadas potências européias, um racismo pronunciado, que somente não existiu nas possessões ultramarinas de Portugal e Espanha, onde houve, com efeito, forte miscigenação étnica e cultural.
Nenhum século, contudo, foi tão racista quanto o século XIX, quando – como demonstra Alberto Torres – certas potências européias utilizaram as teorias racistas como justificativa para sua política de expansão imperialista.
Os conceitos darwinianos de luta pela vida, seleção natural e sobrevivência dos mais aptos logo foram transplantados para o plano étnico e a ideia do Super-Homem, do Além-do-Homem, que Nietzsche concebera inspirado no “Homem do Futuro”, de Richard Wagner, e no “Único”, de Max Stirner, foi rapidamente transformada na ideia de Super-Raça.
Foi nesta época que surgiram as obras do Conde de Gobineau, de Vacher de Lapouge e de Houston Stewart Chamberlain, todas elas fazendo a apologia da “raça ariana”. Sobretudo este último, genro de Richard Wagner e autor de Os fundamentos do século XIX, influenciou sobremaneira o Nacional-Socialismo, que, aliás, chegou a conhecer e apoiar, sendo copiosamente citado por Hitler em Minha luta e por Alfred Rosenberg em O mito do século XX e considerado por este o arauto e edificador da Alemanha futura.
A semelhança existente entre as doutrinas de Gobineau, Malthus, Vacher de Lapouge, Lagarde, Houston Stewart Chamberlain, Gumplowicz, de certas filiações sociais e políticas do darwinismo e mesmo Nietzsche, que chegaram, por origens e fontes distintas e métodos pretensamente científicos à conclusão da existência de uma superioridade morfológica, irredutível, de certos povos e etnias, constitui a mais clara prova da natureza política de tais ideias, predominantes na ciência social na segunda metade do século XIX. Não podemos olvidar que Karl Marx tinha ideias profundamente racistas e etnocêntricas, que usou, por exemplo, para justificar a invasão do México pelos Estados Unidos da América e a colonização da Índia pelos britânicos.
Foi Alberto Torres – primeiro intelectual brasileiro a se bater contra as ideias racistas aqui aceitas, integral ou parcialmente, por homens como Sílvio Romero, Nina Rodrigues e Euclides da Cunha – quem observou que a ciência demonstra, por meio da História, o valor das civilizações morenas. Todo o edifício de superioridade teutônica caiu por terra, com a irrefragável demonstração de que as fontes de nossa Civilização brotaram do cérebro de homens do Mediterrâneo, frisou o autor de O problema nacional brasileiro.
Hoje, após vários anos de experiências genéticas, chegou-se à conclusão de que as diferenças entre um branco nórdico e um negro africano não compreendem senão uma fração de 0,005 do genoma humano.
Alberto Torres nos legou diversas lições admiráveis nos planos político, sociológico e econômico, a despeito de seu pensamento apresentar algumas falhas, quase todas fruto de seu desapego à Tradição. Plínio Salgado, que soube como ninguém absorver as lições positivas do mestre, ao mesmo tempo em que rejeitava seus erros, o seguiu na luta contra o racismo, destacando sempre o uso deste por determinadas potências com o fim de justificar suas políticas expansionistas e ensinando que as nações desenvolvidas deviam tal condição às suas reservas de hulha e de outros minerais vitais ao incremento das atividades industriais e não à tão propalada quanto falsa superioridade étnica de seus povos.
No Manifesto da Legião Revolucionária de São Paulo, lançado na Capital Paulista em 1931, Plínio Salgado, havendo demonstrado o que acabamos de afirmar, observa que a “situação de desequilíbrio econômico entre os povos deve convencer-nos de que o único caminho da independência, da verdadeira liberdade da afirmação nacional está na criação de uma civilização de sentido geográfico, em contraposição à outra, de sentido geológico. Ou melhor: uma civilização espiritual com uma consciência maior da dignidade do homem. Uma civilização que seja a primeira a clamar, no mundo contemporâneo, pela valorização do homem, como força suprema, como mentalidade e como espírito, como trabalho de vontade, como conjunto de forças independentes de uma mecanização humilhante a serviço de um capitalismo opressor, que exige em títulos de nobreza os títulos da bolsa e as marcas aristocráticas dos automóveis de luxo.
Que nos valha, até certo ponto, a lição admirável de Gandhi. Que as civilizações de expressões geográficas cooperem o menos possível com os detentores de todas as forças do imperialismo econômico dos países que nasceram ricos, por possuírem os elementos materiais para a dominação irresistível dos povos por eles denominados ‘fracos’ e das raças por eles chamadas de ‘inferiores’”.
1931 foi também o ano da fundação, nesta mesma Capital, da Frente Negra Brasileira, cujo principal líder foi Arlindo Veiga dos Santos, professor, pensador, jornalista, poeta e criador do Patrianovismo, movimento patriótico, nacionalista, monárquico e tradicionalista fortemente influenciado pelo Integralismo Lusitano e surgido em 1928 com a fundação do Centro Monarquista de Cultura Social e Política Pátria-Nova. A Frente Negra Brasileira, maior e mais sadio movimento negro não apenas da História do Brasil, mas de toda a chamada América Latina, teve o mérito de não combater apenas o racismo do branco contra o negro, mas também o racismo do negro contra o branco, hoje lamentavelmente presente na absoluta maioria dos ditos movimentos negros.
Em 1932, no denominado Manifesto de Outubro, documento que inaugura oficialmente o Integralismo Brasileiro, Plínio Salgado volta a condenar o racismo, salientando que os brasileiros das cidades se envergonham do negro e do caboclo de nossa terra, havendo criado preconceitos étnicos originários dos países que nos querem dominar. Mais tarde, em abril de 1934, o autor de Psicologia da Revolução esclarece definitivamente a posição do Integralismo em face da questão étnica, frisando que os Integralistas não sustentam preconceitos étnicos, considerando o povo brasileiro tão superior quanto qualquer outro e não nutrindo nenhuma prevenção em relação ao judeu:
“Não podemos querer hoje mal ao judeu, pelo fato de ser o principal detentor do ouro, portanto principal responsável pela balbúrdia econômico-financeira que atormenta os povos, especialmente os semicoloniais como nós, da América do Sul. O judeu-capitalista é igual ao cristão-capitalista (...). Ambos não terão mais razão de ser porque a humanidade se libertará da escravidão dos juros e do latrocínio do jogo das Bolsas e das manobras banqueiristas. A animosidade contra os judeus é, além do mais, anticristã e, como tal, até condenada pelo próprio catolicismo. A guerra que se fez a essa raça na Alemanha, foi, nos seus exageros, inspirada pelo paganismo e pelo preconceito de raça. O problema do mundo é ético e não étnico”.
Assim, o Integralismo rejeita o antijudaísmo de cunho étnico, não fazendo distinção alguma entre o judeu capitalista e o capitalista que se diz cristão, entre o açambarcador que frequenta a sinagoga e aquele que vai à igreja e, do mesmo modo, não distinguindo o judeu honrado, honesto, patriota e nacionalista brasileiro do cristão igualmente virtuoso.
Em fins de 1935, Plínio Salgado redige a Carta de Natal e Fim de Ano, onde ataca pesadamente o racismo e o totalitarismo, denunciando os erros do Nacional-Socialismo e a divinização do Führer como nenhum outro fizera antes dele.
O Integralismo, reunindo centenas de milhares de brasileiros de todas as etnias, credos e classes sociais, configurou-se como o maior movimento antirracista da História Pátria, tendo merecido a admiração e o apoio de Arlindo Veiga dos Santos. Dentre os negros ilustres que vestiram a camisa-verde, podemos destacar o “Almirante Negro” João Cândido, o ativista negro, teatrólogo, escritor, artista plástico e ex-Senador Abdias do Nascimento, o sociólogo Guerreiro Ramos, o escritor e militante negro Sebastião Rodrigues Alves, o professor de Direito, escritor e membro da Academia Sul-Riograndense de Letras Dario de Bittencourt, primeiro Chefe Provincial da AIB (Ação Integralista Brasileira) no Rio Grande do Sul, e o jornalista, escritor, advogado, militante negro e professor Ironides Rodrigues, que durante anos assinou uma coluna sobre cinema no jornal integralista A Marcha, dirigido por Gumercindo Rocha Dorea. Este último, como editor, publicou diversas obras de cunho antirracista.
Atualmente, a “esquerda” brasileira substitui a luta de classes pela luta de “raças”, divulgando o mito da “Nação bicolor”, incutindo nos negros e pardos o sentimento de ódio contra os brancos e implantando, em nossas universidades, o injusto e inconstitucional sistema de cotas, que nada mais é do que a institucionalização do racismo em nosso País e que não serve senão às potências que nos querem escravizar. Nós, Integralistas, nos opomos a isso, proclamando que as injustiças, muito mais econômicas do que étnicas, devem ser resolvidas pela Educação Integral de nosso povo e pelo desenvolvimento da Economia, por meio da combinação da iniciativa privada com a ação supletiva, corretiva e promocional do Estado, de acordo com o princípio da subsidiariedade e tendo sempre em vista o desenvolvimento do Bem Comum.

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É contra todo e qualquer preconceito étnico e em favor da edificação de uma verdadeira Democracia Étnica e de um Estado Integral que luta a Frente Integralista Brasileira, único Movimento que representa plenamente, em nossos dias, os ideais patrióticos, nacionalistas, tradicionalistas e renovadores da Doutrina do Sigma.
Sabemos que nosso combate contra as ideias racistas e sobretudo contra sua institucionalização em nosso País não será nada fácil, mas também sabemos que conosco está o Brasil profundo, real e autêntico e que nos planos moral e ético a vitória já nos pertence.
A 13 de Maio de 1888, a Princesa D. Isabel, então Regente do Império do Brasil, assinou a Lei Áurea, pondo fim à escravidão, mais profunda nódoa de nossa História. Hoje, passados cento e vinte e um anos daquela data histórica, carecemos de pugnar por uma Nova Abolição, pela Abolição de todo o nosso povo da escravidão econômica aos grandes grupos financeiros internacionais. Para tanto, chegado é o momento de desencadear as forças infinitas que dormem, ignotas, no fundo da alma de nossa Nação.

Presidência da Frente Integralista Brasileira, São Paulo do Campo de Piratininga, 13 de Maio de 2009.

Monday, May 04, 2009

Breves considerações sobre a nova Diretoria da Frente Integralista Brasileira

Há alguns dias, mais precisamente a 18 do presente mês (abril), tomei eu posse na Presidência da Frente Integralista Brasileira, de que era até então Vice-Presidente e Secretário Nacional de Doutrina e Estudos. Assumi, naquela ocasião, a missão de entregar a meu sucessor uma FIB revigorada nos princípios eminentemente cristãos, patrióticos e nacionalistas da Doutrina do Sigma e principalmente de lutar por um Brasil Maior e Melhor, sob as bençãos de Deus e de nossos maiores.
Prometi, naquele dia, seguir com fidelidade todos os princípios da supracitada Doutrina, realizando, conforme o possível, tudo aquilo que dispõem os Estatutos deste Movimento.
Ressaltando que não sou nem jamais serei o Chefe Nacional, posto que tal título somente cabe a Plínio Salgado, criador e mais importante doutrinador do Integralismo Brasileiro, fiz minhas as palavras por este proferidas por ocasião da sessão soleníssima das Cortes do Sigma, em junho de 1937. Afirmei, citando o mais notável biógrafo contemporâneo do Mestre da Galiléia, minha crença em Cristo e na Luz por Ele emanada, sublinhando que fora por Cristo que me alçara; por Cristo que queria uma grande Nação; por Cristo que prelecionava a doutrina da solidariedade humana e da harmonia social; por Cristo que lutava; por Cristo que vos conclamava; por Cristo que vos conduzia; por Cristo que pelejaria.
Ainda por meio das magníficas palavras do autor de Primeiro, Cristo! e de A Tua Cruz, Senhor, assinalei que no dia do triunfo desejaria construir com Cristo e que quando nos chamassem fracos, pediria a Cristo, no alto de Sua glória, a Sua fortaleza.
Em seguida, já não mais citando as palavras de Plínio Salgado, observei que será por Cristo que, caso vitoriosos, construiremos o Estado Ético e a Democracia Integral e que daremos ao Brasil uma Ordem Jurídica que constitua o espelho do País real, da Nação profunda e autêntica. Cumpre salientar que por Estado Ético entendemos o Estado transcendido pela Ética e movido por um ideal ético e não o Estado fonte e encarnação da Ética, tal como concebido por Hegel. Nosso Estado Ético, com efeito, ao contrário do Estado hegeliano, não é um fim, mas sim um meio, um instrumento a serviço da Pessoa Humana e do Bem Comum.
Antes de encerrar o referido pronunciamento, frisei que nos planos ético e moral a vitória já nos pertence. Salientei, ademais, que todos os nossos ancestrais caídos na luta por um Brasil Maior, todos os mártires do Integralismo e demais companheiros que nos aguardam na Milícia do Além e todos os grandes vultos da História Pátria caminham ao nosso lado, nos dando forças para erguer, cada vez mais alto, a bandeira azul e branca do Sigma e conosco ouvindo os primeiros clarins da Aurora, da Primavera do Brasil e do Mundo, que é a Idade Nova, a Quarta Humanidade, o Quarto Império.
Não me dirijo a vós, porém, para relembrar o singelo discurso por mim proferido por ocasião da transmissão da Presidência do único Movimento que representa hoje, plenamente, os ideais do Integralismo Brasileiro. Dirijo-me a vós, sim, para falar da nova Diretoria da Frente Integralista Brasileira, assinalando que se minhas capacidades estão muito aquém daquelas que seriam ideais para o Presidente de uma instituição como a FIB, as dos demais componentes da novel Diretoria desta certamente não estão.
Estou aquém, muito aquém do Presidente que a FIB necessitaria ter e também de meu insigne predecessor, o companheiro Marcelo Batista da Silveira. Faltam-me, sobretudo, o carisma e a eloquência, qualidades que infelizmente não herdei de meu avô e Mestre, o ilustre Professor Heraldo Barbuy, de quem herdei, porém, o gosto pela Filosofia, a Sociologia e a História, as idéias tomistas e tradicionalistas, a admiração pelo Pensamento Alemão em geral e pelo Romantismo daquela nação em particular e a crença na necessidade da restauração da Metafísica, do Direito Natural Clássico, ou Tradicional, e da Sociedade Orgânica. Tentarei, contudo, a despeito de minhas limitações, fazer o melhor possível pelo bem da Nação Brasileira e da Frente Integralista Brasileira, consciente que estou de que de nossa luta depende o triunfo ou a derrota final da Pátria.
Na Presidência da FIB, contarei com o apoio de excelentes companheiros, entre os quais destaco Luiz Gonçalves Alonso Ferreira, Sérgio de Vasconcellos, Acacio Vaz de Lima Filho, Pedro Baptista de Carvalho, Lucas Carvalho Pavão Xavier e o supracitado Marcelo Batista da Silveira, todos componentes da nova Diretoria desta associação.
Luiz Gonçalves Alonso Ferreira, meu sucessor na Vice-Presidência da FIB, é historiador, professor, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santos e conhecedor invulgar da Doutrina e da História do Integralismo, Movimento de que tem sido um dos mais importantes militantes nos últimos anos.
Sérgio de Vasconcellos, meu sucessor no cargo de Secretário Nacional de Doutrina e Estudos, que já ocupara anteriormente, é sem dúvida alguma o companheiro mais preparado para exercer tal função, em virtude de seus profundos conhecimentos doutrinários, filosóficos e históricos e as demais virtudes que fazem dele um dos mais ativos e abalizados pensadores Integralistas de nossos dias.
Bacharel, Mestre e Doutor em Direito pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, advogado militante, escritor, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e do Complexo Jurídico Damásio de Jesus, Associado Efetivo do Instituto dos Advogados de São Paulo, Membro do Instituto Brasileiro de Filosofia, Sócio Titular do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, ex-Secretário de Doutrina do Grêmio Jackson de Figueiredo, fundador e Presidente vitalício do Centro de Estudos de História do Direito Professor José Pedro Galvão de Sousa e fundador, ao lado do Professor Claudio de Cicco, de mim e de outros mais, do Centro de Estudos Professor Arlindo Veiga dos Santos, o ínclito Dr. Acacio Vaz de Lima Filho será o novo Secretário de Assuntos Jurídicos da FIB, cargo anteriormente ocupado pelo igualmente ínclito Dr. Paulo Fernando Costa, cuja luta em defesa da intangiblidade da Vida Humana merece todo o nosso apoio e admiração.
Pedro Baptista de Carvalho, Integralista desde 1936, ex-Presidente da Casa de Plínio Salgado e combatente infatigável em defesa da verdadeira Democracia e contra a corrupção que grassa no Congresso deste País, manter-se-á no cargo de Tesoureiro da FIB. E por falar na corrupção que assola as duas casas de nosso Congresso, gostaria de consignar aqui, parafraseando G. K. Chesterton, que o Brasil é uma politicocracia a serviço da plutocracia internacional, do mesmo modo que gostaria de assinalar, parafraseando o nosso preclaro companheiro, o Professor Goffredo Telles Junior, que a Democracia brasileira não é uma Democracia, mas sim um “manto de irrisão”.
Lucas Carvalho Pavão Xavier, criador do Portal da Frente Integralista Brasileira, referência, diga-se de passagem, entre os portais patrióticos e nacionalistas de todo o Mundo, tem sido um dos mais atuantes soldados do Sigma em nossos dias e merece mais do que ninguém retornar ao cargo de Secretário Administrativo da FIB.
Por fim, meu antecessor na Presidência da FIB, o Sr. Marcelo Batista da Silveira, por quem nutro profunda admiração e cuja atuação no comando deste Movimento só tenho a elogiar, será o novo Secretário-Geral desta instituição.
Era o que tinha a vos dizer sobre esta nova Diretoria, que tenho certeza de que fará a FIB crescer, despertando cada vez mais brasileiros do sonho e do sono materialista, conscientizando-os de que só um movimento genuinamente nacional, como o é o Integralismo, poderá reconduzir o Brasil ao seu destino histórico, o transformando na grande Nação não apenas do Ontem e do Amanhã, do Passado e do Futuro, mas também do Hoje, do Presente.

Victor Emanuel Vilela Barbuy, Presidente da Frente Integralista Brasileira, São Paulo, 30 de abril de 2009.

Tuesday, April 21, 2009

Discurso de posse na Presidência da FIB

Segue o meu singelo discurso de posse na Presidência da FIB, proferido a 18 de abril de 2009 na Casa de Plínio Salgado, em São Paulo.



Discurso de posse na Presidência da FIB

Companheiros! Há alguns anos, logo após o grande Congresso Integralista de 2004, um pequeno porém aguerrido grupo de patriotas criou, na Capital Paulista, a Frente Integralista Brasileira. Tal grupo tinha como líder natural o ilustre companheiro Marcelo Batista da Silveira, que presidiu a FIB até a presente data, fazendo com que ela crescesse na quantidade e sobretudo na qualidade de seus membros, tornando-se a maior entidade verdadeiramente nacionalista do Brasil de hoje, contando já com várias dezenas de filiados e milhares de simpatizantes de norte a sul do País e mesmo fora de suas fronteiras.
Agora, porém, o companheiro Marcelo Silveira não pode mais dirigir a FIB, de modo que eu, na qualidade de Vice-Presidente desta, devo ocupar o seu lugar, assumindo a missão de transmitir a meu futuro sucessor uma FIB fortalecida dentro dos princípios profundamente cristãos, patrióticos e nacionalistas da Doutrina Integralista e sobretudo o dever de lutar por um Brasil Maior e Melhor, sob as bênçãos de Deus e de nossos antepassados.
Nos últimos anos e principalmente depois que assumi a Secretaria Nacional de Doutrina e Estudos e a Vice-Presidência deste Movimento, venho, por meio de artigos, palestras e debates, auxiliando a FIB a revelar, ao Brasil e ao Mundo, a verdade sobre a tão injustiçada Doutrina que nos foi legada por Plínio Salgado. Creio, contudo, que minha mais relevante contribuição ao Movimento do Sigma se deu com a elaboração do denominado Manifesto da Guanabara, por mim lido a 25 de janeiro do presente ano no Largo do Paço, no Rio de Janeiro, e que considero, sem falsa modéstia, o mais importante manifesto integralista das últimas décadas.
Cumpre ressaltar, entretanto, que quase tudo o que fiz pelo Movimento do Sigma o fiz graças ao companheiro Marcelo Silveira, que sempre acreditou em mim, jamais me deixando de apoiar.
Hoje, ao assumir a Presidência da Frente Integralista Brasileira, prometo seguir fielmente os princípios da Doutrina Sigmática e realizar, na medida do possível, tudo aquilo que dispõem os nossos Estatutos, deixando claro que não sou e nem jamais serei Chefe, uma vez que o único e perpétuo Chefe Nacional é Plínio Salgado. E, falando em Plínio Salgado, faço minhas as palavras finais do memorável discurso por ele proferido durante a sessão soleníssima das Cortes do Sigma, a 12 de junho de 1937, no Instituto Nacional de Música, na então Capital Federal:
“Eu creio em Deus Eterno; creio na Alma Imortal; creio no poder optativo, deliberativo da Alma Humana e na sua capacidade de interferência nos fatos históricos, levantando as multidões e conduzindo-as. Creio em Cristo e na luz que d’Ele desce. Creio que aqueles que O invocam, que Lhe suplicam inspiração, que Lhe requerem humildemente sabedoria, força, esperança, escutam as harpas misteriosas dos Arcanjos que despertaram os homens simples e de boa vontade para que louvassem o Senhor.
Por Cristo me levantei; por Cristo quero um grande Brasil; por Cristo ensino a doutrina da solidariedade humana e da harmonia social; por Cristo luto; por Cristo vos conclamo; por Cristo vos conduzo; por Cristo batalharei.
Na hora da perseguição, das dificuldades, das incertezas para nós, para o Brasil, quero contar convosco, ó Cristo! Na hora da vitória, quero construir convosco. E quando nos chamarem fracos, ó Cristo, eu vos peço, dai-nos, do alto da vossa glória, a vossa fortaleza!”
É, pois, por Cristo, que pugnaremos pela edificação de um Estado Ético-Integral e de uma Democracia Orgânica e por Ele que pretendemos dar à Terra de Santa Cruz uma Ordem Jurídica que seja o espelho do País real, do Brasil profundo e autêntico onde estão os nossos lares, os locais em que trabalhamos pelo nosso sustento e pelo engrandecimento do Bem Comum, os túmulos onde repousam nossos ancestrais e as igrejas em que elevamos nossas preces ao Ser Supremo e Absoluto, que nos criou à sua imagem e semelhança e que nos deu um Espírito Imortal.
Nossa luta será das mais difíceis. Mas, como disse o autor da Vida de Jesus e de O espírito da burguesia, “Deus mandou que lutássemos; não mandou que vencêssemos”. E, como observou o poeta de Mensagem, em seu poema Mar português, “tudo vale a pena. Se a alma não é pequena”. Ademais, já vencemos, no plano moral já vencemos e eticamente a vitória também já nos pertence. Todos os nossos antepassados que caíram lutando por um Brasil Maior, todos os mártires do Integralismo e demais companheiros que nos esperam na Milícia do Além e todos os grandes vultos da História Pátria caminham conosco, nos dando forças para erguer, cada vez mais alto, o estandarte azul e branco do Sigma e conosco ouvindo os primeiros clarins da Alvorada, da Primavera do Brasil e do Mundo, que é a Idade Nova, o Quarto Império, a Quarta Humanidade.
Era o que tinha a vos dizer nesta histórica data em que assumo a Presidência da entidade que representa na hora presente o maior e mais glorioso Movimento Patriótico, Nacionalista e Tradicionalista da História do Brasil, que há décadas vem combatendo, como nenhum outro em nosso País, o materialismo e o espírito burguês em suas diferentes faces.




Victor Emanuel Vilela Barbuy, São Paulo, 18 de maio de 2009.