Thursday, December 16, 2010

Evola e Gentile (parte 2 de 3)

Julius Evola






“Existem alguns homens que se encontram, por assim dizer, de pé entre as ruínas e em meio à dissolução”, mas que, de maneira mais ou menos consciente, pertencem a outro Mundo [19], ao Mundo da Tradição, que não é senão o Mundo regido por princípios que transcendem os sós elementos puramente humanos. Dentre estes Homens singulares, podemos destacar um, filho legítimo da Roma dos Césares e depositário dos princípios de sua Tradição, em especial os de Imperium e de Auctoritas. Este Homem não é senão o Barão Giulio Cesare Andrea Evola, mais conhecido como Julius Evola.

Como afirmamos há pouco, Julius Evola, Mestre do denominado Tradicionalismo Integral e mais importante pensador esotérico antimoderno de todos os tempos ao lado de René Guénon, é, sem dúvida alguma, o autor mais influente nos círculos da denominada Nova Direita europeia.

No Brasil, contudo, permanece praticamente desconhecido o autor de Revolta contra o Mundo Moderno (Rivolta contro Il Mondo Moderno), mesmo nos círculos de resistência contra o Império de Calibã, isto é, contra a Idade das Trevas em que está mergulhado o Mundo em geral e o Ocidente em particular. Neste País só foi até hoje publicado, com efeito, um livro de Evola: O mistério do Graal [20]. As demais obras deste heróico homem contra o tempo são conhecidas, entre nós, por pouquíssimos privilegiados e por meio, sobretudo, das edições portuguesas e, mais recentemente, da rede mundial de computadores, onde há páginas em português do nível dos blogues Cadernos evolianos [21] e Grupo de Ur [22] , sem mencionar o Boletim Evoliano [23] e o próprio portal do Encontro Nacional Evoliano [24]. Agora, porém, com o Encontro Nacional Evoliano, que esperamos ser apenas o primeiro de muitos, e a publicação de Revolta contra o Mundo Moderno pelo Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais e de A Tradição Hermética pela Editora Ascese, certamente o nome e a obra do autor de A metafísica do sexo (La metafísica del sesso) serão bem mais conhecidos entre nós do que têm sido até hoje.

Isto posto, cumpre assinalar que muitos vêm conhecendo o pensamento evoliano por meio de traduções de obras em que há páginas a respeito do grande doutrinador antimoderno, tais como Sol Negro, de Nicholas Goodrick-Clarke [25], e Elogio da Tradição, de Marcello Veneziani [26]. No primeiro de tais livros, há um interessante e consideravelmente honesto capítulo dedicado a Evola, bem como igualmente interessantes e consideravelmente honestos capítulos dedicados a Savitri Devi, Miguel Serrano e outros pensadores que vêm exercendo influência sobre os círculos do vulgarmente denominado nazismo esotérico. No segundo livro, um rigoroso e vigoroso ensaio sobre a Tradição, publicado, no Brasil, pelas Edições Loyola, há também algumas interessantes páginas dedicadas a Evola. Seu autor, o escritor, filósofo e jornalista Marcello Veneziani, é, ainda, autor de duas importantes obras sobre Evola [27] .

Faz-se mister ressaltar, ademais, que o autor de Os homens e as ruínas (Gli uomini e le rovine) exerceu considerável influência sobre dois dos mais notáveis filósofos brasileiros: Vicente Ferreira da Silva e Heraldo Barbuy, o primeiro pagão como Evola e o segundo um fervoroso católico que soube como nenhum outro aproveitar o que há de válido à luz da Tradição Católica no pensamento do metafísico e doutrinador tradicionalista italiano. Isto sem mencionar a influência que o pensador gibelino exerceu sobre o jornalista e ensaísta Olavo de Carvalho, que em seu livro Jardim das aflições reconhece em Evola o maior escritor esotérico do século XX ao lado de Guénon [28] e que, em sua página pessoal na rede mundial de computadores menciona A Tradição Hermética, uma das obras-primas do autor de A doutrina do despertar (La dottrina del risveglio), como um dos principais livros que formaram sua visão de mundo [29].

O tema de nossa palestra não é, contudo, a penetração das ideias evolianas no Brasil, mesmo porque a respeito de tal tema há um excelente artigo da autoria do ilustre professor e pensador tradicionalista gaúcho César Ranquetat Junior [30]. O tema de nossa palestra é, sim, Julius Evola e seu revolucionário pensamento e Giovanni Gentile e seu igualmente revolucionário pensamento.

Havendo qualificado como revolucionário o pensamento de Evola, julgamos necessário destacar que pelo termo Revolução compreendemos a revolta contra um estado de coisas que traz a ideia de retorno, correspondendo à tradicional concepção astronômica da palavra, segundo a qual esta significa o retorno de um astro ao ponto de partida e o seu moto ordenado em torno de um centro. Este é o sentido que o próprio Evola considera o mais apropriado para tal palavra [31] e é, também, o sentido que preferimos, seguindo o exemplo de João Ameal [32], insigne pensador tradicionalista e historiador português, e de Plínio Salgado [33], fundador, Chefe Nacional e mais importante doutrinador do Integralismo Brasileiro e máximo expoente do pensamento tradicionalista no Brasil ao lado de José Pedro Galvão de Sousa, na abalizada opinião de Francisco Elías de Tejada y Spínola [34], mais importante pensador tradicionalista espanhol do século XX, que, diga-se de passagem, é autor de um fundamental estudo sobre Evola a partir dos ideais do tradicionalismo católico hispânico [35].

Tal é, ademais, a opinião de José Antonio Primo de Rivera, fundador, principal doutrinador e Chefe da Falange Espanhola e mártir da Cruzada Espanhola de 1936-39, como podemos ver, por exemplo, em seu texto A Tradição e a Revolução (La Tradición y la Revolución), prólogo ao livro ¡Arriba España!, de J. Pérez de Cabo [36], e no artigo Acerca da Revolução (Acerca de la Revolución), publicado a 12 de outubro de 1935 no periódico Haz [37]. E é, ainda, a posição de Corneliu Zelea Codreanu, fundador, mais notável doutrinador e líder máximo do Movimento Legionário Romeno, além de mártir da Grande Romênia, que assim afirma:

“O homem novo e a nação renovada, pressupõem uma grande revolução espiritual de todo o povo, isto é, uma mudança da orientação espiritual moderna, e uma ofensiva categórica contra essa orientação” [38].

Ainda nesse sentido, Arlindo Veiga dos Santos, fundador, maior doutrinador e Chefe Geral do Patrianovismo, nos fala da “verdadeira Revolução, REVOLUÇÃO DA ORDEM, contra os aspectos vários da república ‘moderna’: demo-liberal; socialista; nazista ou comunista (totalitária); pagã e satânica” [39]. 

Feitas estas considerações acerca do termo Revolução, voltemos a tratar de Evola.

Nascido Giulio Cesare Andrea Evola em Roma no ano de 1898 no seio de uma família siciliana de nobres origens, o futuro autor de Cavalgar o tigre (Cavalcare la tigre) recebeu uma rigorosa educação católica, contra a qual logo se revoltou. Mais tarde, após uma longa fase em que o ódio que nutria contra o Catolicismo só não era maior do que aquele que nutria contra o judaísmo, o protestantismo e aquilo a que considerava o “cristianismo das origens”, Evola, aliás cada vez mais influenciado pelo pensamento de tradicionalistas católicos como Joseph De Maistre e Donoso Cortés, finalmente reconheceria o caráter tradicional do Catolicismo autêntico.

Ainda bastante jovem, logo depois da fase dos romances de aventuras, Evola – como relata em O caminho do cinábrio (Il cammino del cinabro), sua autobiografia espiritual – planejou compilar, juntamente com um amigo, uma história da Filosofia. Nesta época era ele atraído por autores como Oscar Wilde e Gabriele D’Annunzio. E é neste tempo, ainda, que, durante as longas horas que passava na biblioteca, tomou contato com a obra de pensadores como Friedrich Nietzsche, Carlo Michelstaedter e Otto Weininger [40], que muito contribuíram para a formação de sua cosmovisão.

Juntamente com os estudos universitários em Engenharia Industrial, que não terminaria por se recusar a discutir a tese de conclusão de curso em razão do desprezo que nutria por títulos acadêmicos, Evola cultivava vivo interesse pela Literatura vanguardista italiana, que gravitava em torno de intelectuais como Giovanni Papini, Giuseppe Prezzolini e Filippo-Tomaso Marinetti.

Papini, que por essa época ainda não se havia convertido ao Catolicismo, foi fundador, diretor e principal colaborador das revistas Il Leonardo, Voce e Lacerba, que, com sede em Florença e ideais autenticamente revolucionários, agitaram toda a Itália dos primeiros anos do século XX, constituindo, segundo Evola, “forças alérgicas ao clima da pequena Itália burguesa” daqueles tempos e cuja erupção marcou, ainda de acordo com o pensador e Homem de ação antimaterialista, um verdadeiro Sturm und Drang que conheceu a Nação Italiana [41].

Foi por esse tempo que Evola se aproximou do Futurismo, passando a manter relações pessoais com alguns de seus vultos, tais como Marinetti e o pintor Giacomo Balla [42].

Não demoraria, porém, para que ficassem patentes as profundas diferenças que separavam Evola dos futuristas e do grupo de Papini. Isto se deu por ocasião da I Grande Guerra, quando Evola – que, ao contrário destes, - era antinacionalista, havendo já certamente concebido a ideia, aliás, em nosso sentir, totalmente antitradicional, de pátria eletiva, defendeu que a Itália deveria entrar no conflito ao lado da Tríplice Aliança (Império Alemão, Império Austro-Húngaro e Império Turco-Otomano), enquanto os outros, bem como D’Annunzio e Mussolini, sustentaram que o país devia lutar ao lado da Tríplice Entente (França, Império Britânico e Império Russo), identificando os Impérios Centrais (Alemanha e Áustria-Hungria) à tirania e à barbárie.

Alguns simpatizantes burgueses da Kultur germânica, tais como Benedetto Croce, defendiam que a Itália permanecesse neutra, mas o jovem Evola, como vimos, sustentava não a simples neutralidade, mas a entrada do país na guerra ao lado dos Impérios Centrais. Ele admirava a “tradição mais essencial” dos povos germânicos em geral e da Alemanha em particular, que buscava em sua concepção de Estado, nos princípios de ordem e disciplina, na ética prussiana e nas sãs divisões sociais que subsistiam apesar da revolução do terceiro estado e do capitalismo, que não as havia comprometido senão parcialmente [43].

Por esses dias, Evola redigiu um artigo em que sustentou que, ainda que a Itália não combatesse ao lado da Alemanha, mas sim contra ela, “devia fazê-lo assumindo seus princípios, e não em nome das ideologias [sic.] [44] nacionalistas e irredentistas ou ideologias democráticas, sentimentais e hipócritas da propaganda aliada”. Havendo lido tal artigo, Marinetti disse a Evola que suas ideias estavam mais distantes das dele do que as de um esquimó [45].

Algum tempo depois da entrada da Itália no conflito, ao lado da Tríplice Entente, Evola, após haver recebido, em Turim, formação rápida para oficiais, seguiu para a frente de combate, permanecendo inicialmente nas montanhas perto de Asiago.

Ao final da guerra, Evola retornou a Roma. Em 1919, após haver participado da Exposição Nacional Futurista de Milão, rompeu para sempre com Marinetti e o Futurismo, aderindo no ano seguinte ao Dadaísmo, movimento de que logo se tornou o principal expoente em terras italianas. Suas pinturas carregadas de espiritualismo idealísitico foram expostas em Roma, Milão, Lausanne, Berlim e no Salon Dada de Paris, a Meca do Dadaísmo. No opúsculo Arte abstrata (Arte astratta), explicou os motivos de seu afastamento do Futurismo, cujos adeptos eram, a seu sentir, incapazes de percorrer coerentemente as vias do Voluntarismo e do Attualismo [46].

Foi por esse tempo, ainda, que Evola colaborou em revistas artísticas como Bleu e Noi, declamou seus revolucionários poemas em locais como o Cabaret Grotte dell’Augusteo, em Roma, e publicou, em Lausanne, o poemeto intitulado La parole obscure du paysage interieur.

Foi nos anos de militância dadaísta que Evola se aprofundou nos estudos filosóficos, em especial do Idealismo, corrente então predominante na Itália e cujos principais expoentes eram Giovanni Gentile e Benedetto Croce, e iniciou os estudos do Yoga, do Tantrismo, do Zen-Budismo, da magia e do ocultismo. Em 1923, ano em que parou de pintar, foi curador de uma tradução italiana do Tao-te-King, de Lao-Tsé.

Em 1926, Evola publicou um estudo a respeito do Tantra intitulado O homem como potência (L’uomo come potenza). Um ano antes, publicara a obra Ensaios sobre o idealismo mágico (Saggi sull’idealismo magico), que juntamente com a Teoria do Indivíduo absoluto (Teoria dell’Individuo assoluto) e a Fenomenologia do Indivíduo absoluto (Fenomenologia dell’Individuo assoluto), publicadas, respectivamente, em 1927 e 1930, embora escritas alguns anos antes, representam a passagem de Evola pela Filosofia do Idealismo.

Em meados da década de 1920, Evola colaborou nas revistas Atanòr e Ignis, dirigidas pelo tradicionalista pitagórico Arturo Reghini, e também nos jornais Il Mondo e Lo Stato democratico. Neste último, dirigido pelo Duque Giovanni Colonna di Cesarò, publicou Evola, em 1925, o trabalho Estado, potência, liberdade (Stato, potenza, libertà), onde criticou tanto o Fascismo quanto a liberal-democracia. Na mesma época colaborou também nas revistas Ultra, de Decio Calvari, presidente da Liga Teosófica Independente de Roma, e L’idealismo realistico, de Vittore Marchi, onde escreveu uma crítica desfavorável a um livro de René Guénon sobre o Vedanta [47]. A resposta de Guénon à crítica de Evola marcou o início da longa e fecunda correspondência entre os dois, que, ressalvadas algumas interrupções, em especial a provocada pela II Grande Guerra, durou até a morte do autor de O reino da quantidade e os sinais dos tempos (Le règne de la quantité et les signes des temps), no Cairo, em 1951.

O Sheik Abdel Wahid Yasha, mais conhecido pelo nome de René Guénon, com o qual foi batizado na pequena cidade medieval de Blois, no vale do Loire, influenciou muitíssimo o pensamento de Evola, que decerto não haveria escrito a Revolta contra o Mundo Moderno caso não houvesse lido A crise do Mundo Moderno. “O mestre de nossos tempos, o defensor do ‘tradicionalismo integral’, o mais radical de todos os ‘antimodernos’”, na expressão de Evola [48], somente, a nosso sentir, não influenciou mais o autor de O arco e a clava (L’arco e la clava) do que Friederich Nietzsche, o genial poeta de Assim falava Zaratustra (Also sprach Zarathustra) , maior poema em prosa da Literatura alemã, e profeta do Super-homem, do Eterno Retorno e da Vontade de Potência.

Como observa Francesco Lamendola, Evola recebeu de Guénon, em particular, o conceito de Tradição, compreendida, na opinião do pensador, filósofo e professor italiano, “como um saber de origem não humana que se transmite através de escolas esotéricas tanto orientais quanto ocidentais”, com o fim precípuo de conduzir a humanidade através do nefasto Kali Yuga do Mundo Moderno, lhe permitindo, ou melhor, permitindo a alguns poucos privilegiados, “não perder o verdadeiro significado, que é – agora e sempre – aquele da total afirmação da liberdade interior através das práticas e da doutrina de um individualismo absoluto” [49].

Cumpre ressaltar que tal não é a nossa concepção de Tradição. Para nós, a Tradição é a cadeia sagrada que une os homens ao passado e ao futuro, aos ancestrais e aos descendentes; o patrimônio de valores comuns que herdamos de nossos pais e que devemos legar, aprimorado, a nossos descendentes; a base de todo progresso autêntico, que, ao contrário do que defende Evola, nunca se tornou invisível e secreta e não une poucos a poucos [50], não sendo, com efeito, somente esotérica e invisível, mas a um só tempo exotérica e esotérica, visível e invisível e ligando muitos a muitos. Do mesmo modo, rejeitamos por completo a ideia de liberdade total, bem como o individualismo, ao qual opomos o personalismo e o grupalismo e consideramos que o verdadeiro significado da existência humana repousa na busca da santidade.

Isto posto, cumpre ressaltar que, para Guénon e Evola, a Tradição teria este caráter esotérico, aristocrático e secreto apenas a partir do final da denominada Idade Média e do início da Idade Moderna, quando a Tradição inegavelmente perdeu o caráter universal.

Voltemos, contudo, à biografia de Evola. Em 1926-27, deu ele vida, ao lado de Arturo Reghini, Guido De Giorgio e outros, ao chamado Grupo de Ur, passando a publicar os cadernos mensais Ur (1927-28) e Krur (1929), reunidos na coletânea em três volumes intitulada Introdução à magia como ciência do Eu (Introduzione alla magia quale scienza dell'Io) e publicada entre os anos de 1955 e 1956. Em 1930, fundou a revista quinzenal La Torre, que chegou ao décimo número, sendo fechada por ordem das autoridades fascistas em virtude de suas visões pouco ortodoxas da Doutrina do Fascio, visões que Evola expressava desde 1927, quando se aproximara do Fascismo, passando a colaborar na revista Critica Fascista, de Giuseppe Bottai, onde escreveu artigos anticristãos também publicados em Vita Nuova e Il lavoro d’Italia.

Em 1928, Evola publicou a sua obra mais polêmica e radical: Imperialismo pagão: o fascismo diante do perigo euro-cristão (Imperialismo pagano: Il fascismo dinnanzi al pericolo euro-cristiano). Em tal obra, o autor, que jamais ingressaria no Partido Nacional Fascista, defende um fascismo novo, um fascismo gibelino, um superfascismo livre dos valores cristãos e dos valores hegelianos e mazzinianos tão ao gosto de seus principais doutrinadores, em especial Giovanni Gentile, e clama pelo ressurgimento do Império e dos Deuses de Roma. Em uma palavra, Evola, dirigindo-se “a cada fascista que seja digno de tal nome, e que verdadeiramente vibre à vontade de regeneração, de dignidade romana, de potência proclamada pelo Duce” [51], proclama que “à superstição semítica de nossos pais nós hoje, reevocando Roma, opomos em tudo e por tudo a tradição verdadeira e antiga de nossos avós, a tradição mediterrânea” [52].

No ano anterior, Evola assim escrevera, na revista Critica Fascista:

"O pressuposto é: que o fascismo, na sua força mais pura, se identifique à vontade de império; que a sua reevocação da Águia e do Fascio possa não ser tão somente retórica; que, de qualquer modo, esta é a condição para que ele represente algo de novo, não uma revolução risível, mas uma ressurreição heróica" [53].


Isto posto, faz-se mister assinalar que, ao contrário do que então julgava o autor de O caminho do cinábrio (Il cammino del cinabro), o Catolicismo não é, de forma alguma, incompatível com a Vontade de Império, como, aliás, bem o sabia Mussolini, realizador do Pacto de Latrão, que, plenamente consciente de que a Itália, como herdeira e continuadora de Roma, foi destinada ao Império, assim aduziria, no X ano da Era Fascista, em trabalho sobre a doutrina política e social do Fascismo publicado na Enciclopédia Italiana:


"O Estado fascista é vontade de potência e de império. A tradição romana é aqui uma ideia de força. Na doutrina do fascismo o império não é apenas uma expressão territorial ou militar ou mercantil, mas espiritual ou moral. Pode-se pensar em um império, isto é, em uma nação que direta ou indiretamente guia outras nações, sem necessidade de se conquistar um só quilômetro de território" [54].

No ano de 1933, logo após a ascensão de Adolf Hitler ao poder na Alemanha, veio à luz, em Leipzig, a edição alemã, totalmente revista e ampliada, de Imperialismo pagão, Heidnischer Imperialismus, obra recebida como “uma espécie de evangelho do moderno gibelinismo”, fazendo enorme sucesso nos círculos nacional-socialistas [55].

Em 1934, Evola, que três anos antes publicara a obra A Tradição Hermética (La Tradizione Hermetica) e em 1932 lançara Máscara e vulto do espiritualismo contemporâneo (Maschera e volto dello spiritualismo contemporaneo), deu a lume sua obra-mestra, a Revolta contra o Mundo Moderno (Rivolta contro Il Mondo Moderno), que, a exemplo de Heraldo Barbuy, classificamos como “monumental” [56], a considerando mesmo uma das principais obras político-filosóficas de todo o século XX e a verdadeira “bíblia” do chamado Tradicionalismo Integral.

Em Revolta contra o Mundo Moderno, livro em que, ao contrário de em Imperialismo pagão, o anticristianismo não ocupa o papel central, Evola defende, em suma, que a única salvação possível ao Ocidente é “um retorno ao espírito tradicional em uma nova consciência ecumênica europeia”; o “retorno à tradição em sentido lato, universal, unânime, compreendendo todas as formas de vida e de luz; no sentido, outrossim, de um espírito e de uma ordem única que imperam soberanos em cada homem e em cada classe de homens. Não se trata da tradição em sentido aristocrático e secreto, como depósito custodiado por poucos”, pois, neste “sentido subterrâneo”, a Tradição, segundo Evola, sempre existiu e sempre existirá, mas isto não impediu o declínio da Civilização Ocidental [57].

Em 1937 foi publicado O mistério do Graal (Il mistero del Graal), obra em que o doutrinador antimoderno e antimaterialista analiza o caráter do mistério do Graal, que é, segundo ele, iniciático e regal, remontando a uma tradição anterior ao Cristianismo.

Em princípios do ano seguinte, Evola viajou para a Romênia, onde conheceu pessoalmente Mircea Eliade, com quem se correspondia desde fins da década de 1920, quando o pensador romeno estudava sânscrito e Filosofia Indiana na Universidade de Calcutá e já lia as obras do então jovem filósofo idealista italiano, admirando “sua inteligência e, sobretudo, a densidade e claridade de sua prosa” [58]. Foi também durante esta visita à Romênia que o autor de Revolta contra o Mundo Moderno (Rivolta contro Il Mondo Moderno) conheceu Corneliu Zelea Codreanu, fundador e líder máximo do Movimento Legionário, ao qual Eliade era então ligado e que, a despeito de sua posição nacionalista e ortodoxa romena confessional, contava com a profunda admiração de Evola, que, com efeito, o admirava mais do que qualquer outro dos diversos movimentos cívico-políticos europeus de caráter tradicionalista, patriótico e nacionalista surgidos no século XX como reação ao materialismo e ao espírito burguês. Mais tarde, Evola escreveu alguns seminais artigos a respeito do grande Homem de pensamento e de ação, que fisicamente parecia, segundo o metafísico italiano, “uma reaparição do mundo ário-itálico” [59] e que, assassinado em 1938, por ordem do Rei Carol II, na prisão de Jilava, juntamente com outros líderes do Movimento Legionário, transformou-se em um dos mais importantes mártires da História da heróica Dácia.

O Movimento Legionário surgira em 1927, com a fundação da Legião do Arcanjo Miguel por um grupo de jovens nacionalistas romenos encabeçado por Codreanu. Tendo como lema a divisa “Deus, Pátria, Rei, Família, Propriedade e Exército” e insistindo sobremaneira nos conceitos de Revolução Espiritual e de formação de um Novo Homem, que, em última análise, não é senão o Homem Tradicional, o Movimento Legionário, autêntico representante romeno dos grandes movimentos tradicionalistas e nacionalistas surgidos em todo o Mundo nos primeiros decênios do século XX, é, pela sua doutrina e pela fé e rigor moral, ético e cívico que inspira, uma prova cabal da grandeza moral a que podem chegar os movimentos defensores da Tradição e da Ordem Tradicional.

Estudioso das questões étnicas, Evola propugnou um racismo espiritual com o qual não concordamos e que a partir de 1938 se tornou predominante no Fascismo italiano, até então majoritariamente antirracista. Tal racismo está presente em obras como Três aspectos do problema hebraico (Tre aspetti del problema ebraico), de 1936, O mito do sangue (Il mito del sangue), de 1937, Diretrizes para uma educação racial (Indirizzi per una educazione razziale), de 1941, e Síntese de doutrina da raça (Sintesi di dottrina della razza), também de 1941, bem como em diversos artigos publicados na revista La difesa della razza.

Em 1941, Mussolini, - que havia lido a Síntese de doutrina da raça durante uma viagem à Alemanha e que via em Evola um teórico capaz de interpretar como nenhum outro o racismo espiritual que vinha defendendo e que não devia ser confundido com o racismo biológico do nacional-socialismo, convidou o autor para uma conversa com ele no Palazzo Venezia. Foi este o início da amizade que uniu o mais irredutível dos antimodernos e o último dos Césares.

Não sendo aceito como voluntário da frente soviética em virtude de não ser filiado ao Partido Nacional Fascista, Evola se dedicou então a escrever um ensaio sobre a ascese budista publicado em 1943 e intitulado A doutrina do despertar (La dottrina del risveglio). No mesmo ano viajou para a Alemanha, estando no Quartel-General de Hitler, em Rastenburg, Prússia Oriental, a 14 de setembro, quando Mussolini ali chegou após ter sido libertado de seus captores por Otto Skorzeny e seus homens. De volta à Itália, apoiou a República Social Italiana, fundada por Mussolini e também conhecida como República de Salò, apesar de ser antirrepublicano e possuir verdadeiro horror à palavra “social”. Em 1945 se encontrava em Viena, colaborando com as SS na tradução de textos maçônicos, quando foi gravemente ferido durante um bombardeio aliado ocorrido pouco antes da entrada dos soviéticos na antiga capital dos Habsburgos, quase morrendo e ficando paralítico até o fim de seus dias.

De volta à Itália em 1948, publicou, dois anos mais tarde, o opúsculo Orientações (Orientamenti), que, dirigido em particular aos jovens do Movimento Social Italiano (MSI), contém todas as ideias posteriormente desenvolvidas em Os homens e as ruínas (Gli uomini e le rovine), de 1953, Metafísica do sexo (Metafisica del sesso), de 1958, e Cavalgar o tigre (Cavalcare la tigre), de 1961, que constituem, em nossa singela opinião, as mais importantes obras do pensador e Homem de ação depois de Revolta contra o Mundo Moderno.

Em 1963, foi publicado O caminho do cinábrio (Il cammino del cinabro), espécie de autobiografia espiritual e intelectual de Evola, que constitui excelente roteiro de sua obra e de seu pensamento.

Falecido em Roma a 1º de junho de 1974, Evola, cujas cinzas foram depositadas em uma geleira do Monte Rosa, nos Alpes Italianos, se transformou em um símbolo da heróica luta em defesa dos valores autênticos, perenes e superiores da Tradição contra os valores inautênticos, passageiros e inferiores da Civilização Ocidental Contemporânea, que associava à Kali Yuga dos hindus, à Idade do Ferro dos helenos e romanos e à Idade do Lobo dos antigos germanos.

Infelizmente Evola, – a exemplo de Nietzsche, por quem tanto foi influenciado, para o bem e para o mal, - nunca compreendeu o verdadeiro significado do Cristianismo, da Família, da Nação e do nacionalismo e mesmo da Pátria e do patriotismo, havendo chegado a pregar o fim da “superstição da ‘pátria’ e da ‘nação’”, por ele vistas como “larvais e tenazes resíduos do impersonalismo democrático” [60] e defendendo, mais tarde, que é na Ideia e somente na Ideia que se deve reconhecer a verdadeira Pátria [61], que, para ele, há muito perdeu o caráter original de terra dos pais [62]. Mesmo, porém, com estes e outros erros e falhas, tais como o desconhecimento da verdadeira essência do Direito Natural Tradicional, ou Clássico, Evola merece ser lido, estudado e reconhecido como um dos mais importantes mestres do pensamento tradicional, pois teve o mérito de condenar, com a argúcia e lucidez de poucos, a mediocridade burguesa, a superstição do progresso indefinido, a liberal-democracia, o comunismo, o coletivismo, a dessacralização da Sociedade, o cientificismo, o economicismo, ou, em uma palavra, o Mundo Moderno, a idade obscura, antitradicional por natureza.

Mais, porém, do que pelas críticas ao Mundo Moderno, Julius Evola merece ser lido, estudado e lembrado por sua defesa da restauração da Sociedade Tradicional, por ele definida como a Sociedade “regida por princípios que transcendem aquilo que é tão somente humano e individual”, como a Sociedade “em que cada domínio próprio é formado e ordenado do alto e para o alto” [63]. Merece ser evocado pela defesa da Monarquia Tradicional e de princípios tradicionais como os de Honra, Lealdade, Obediência, Fé, Hierarquia e Autoridade, bem como pela defesa do Estado Orgânico, que define como o Estado “que possui um centro, e este centro é uma ideia que informa a partir de si, de modo eficaz, aos diferentes domínios”, como o Estado que “ignora a excisão e a autonomização do particular e, em virtude de um sistema de participações hierárquicas, cada parte em sua relativa autonomia tem uma funcionalidade e uma íntima conexão com o todo” [64]. Merece, por derradeiro, ser recordado pela defesa da ideia transcendente de Imperium, Imperium que jamais se poderá erigir “sobre a base de fatores econômicos, militares, industriais, e mesmo ideais” [65].

Julius Evola, mestre incontestável do Tradicionalismo Integral e um dos mais geniais pensadores do século XX, foi a um só tempo brahmin e kshatriya, sábio e guerreiro, Homem de pensamento contemplativo e de ação. Tendo a consciência de que nada de grande e belo pode existir fora da Tradição e de que, como preleciona Heidegger, “não é na vida banal, mas na audácia angustiosa do Herói que repousa a grandeza final do existir humano” [66], teve a coragem de permanecer de pé entre as ruínas e de cavalgar o tigre da modernidade, sempre preparado para o momento do cansaço do tigre, que não se pode lançar contra quem o cavalga. Sua mais importante lição é esta: “A criação de um novo Estado e de uma nova civilização será sempre algo efêmero quando estes não tiverem como substrato um novo homem” [67].


[19] EVOLA, Julius. Cabalgar el tigre. Trad. argentina de Marcos Ghio. Buenos Aires: Ediciones Heracles, 1999, p. 22.
[20] Idem. O mistério do Graal. Trad. de Pier Luigi Cabra. São Paulo: Editora Pensamento, 1972.

[21] http://cadernosevolianos.blogspot.com/. Acesso em 17 de novembro de 2010.
[22] http://grupodeur.blogspot.com/. Acesso em 17 de novembro de 2010.
[23] http://www.boletimevoliano.pt.vu/. Acesso em 17 de novembro de 2010.
[24] http://encontronacionalevoliano.com.br/. Acesso em 17 de novembro de 2010.
[25] GOODRICK-CLARKE, Nicholas. Sol Negro: Cultos arianos, nazismo esotérico e políticas de identidade. Trad. de Fábio Rezende. São Paulo: Madras, 2004.
[26] VENEZIANI, Marcello. De pai para filho: Elogio da Tradição. Trad. de Orlando Soares Moreira. São Paulo: Edições Loyola, 2005.
[27] As duas obras de Veneziani sobre Evola são: La ricerca dell'assoluto in Julius Evola. Palermo: Thule, 1979; Julius Evola tra filosofia e tradizione. Roma: Ciarrapico, 1984.
[28] Citamos de memória.
[29] CARVALHO, Olavo de. Livros que fizeram a minha cabeça. Disponível em: www.olavodecarvalho.org/textos/livros.htm. Acesso em 17 de novembro de 2010.
[30] RANQUETAT JUNIOR, César. O pensamento de Julius Evola no Brasil. Disponível em: http://www.juliusevola.it/documenti/template.asp?cod=563. Acesso em 17 de novembro de 2010.
[31] EVOLA, Julius. Introduzione. In GUÉNON, René. La crisi del Mondo Moderno, cit., p. 7.
[32] AMEAL, João. No limiar da Idade-Nova. Coimbra: 1934, pp. 12-14.
[33] Vide SALGADO, Plínio. Psicologia da Revolução. 6ª ed. In Idem . Obras Completas, 2ª ed., vol. 7. São Paulo: Editora das Américas, 1957.
[34] TEJADA, Francisco Elías de. Plínio Salgado na Tradição do Brasil. In VÁRIOS. Plínio Salgado – “In Memoriam” - vol. II. São Paulo: Voz do Oeste/Casa de Plínio Salgado, 1985/1986, p. 70.
[35] Idem. Julius Evola desde el Tradicionalismo Hispánico. In Ethos, ano I, nº 1, Buenos Aires, 1973.
[36] PRIMO de Rivera, José Antonio. Obras completas. Edição cronológica. Recopilação de Agustín del Río Cisneros. Madri: Delegación Nacional de la Sección Feminina de FET y de las JONS, 1954, pp. 645-649.
[37] Idem, pp. 661-664.
[38] CODREANU, Corneliu Zelea. Manual del Jefe de la Guardia de Hierro.Trad. para o espanhol de Manuel de la Isla Paulin. 2ªed. Barcelona: Ediciones Ojeda, 2004, p. 93.
[39] SANTOS, Arlindo Veiga dos. As raízes históricas do Patrianovismo. São Paulo: Pátria Nova, 1946, p. 18.
[40] EVOLA, Julius. Il cammino del cinabro. I capítulo, p. 5. Disponível em: http://www.scribd.com/doc/2596256/Julius-Evola-Il-Cammino-del-Cinabro Acesso em 17 de novembro de 2010.
[41] Idem, p. 6.
[42] Idem, loc. cit.
[43] Idem, loc. cit.
[44] Para nós, que neste aspecto temos posição contrária à de Evola, o verdadeiro nacionalismo não é uma ideologia, mas uma Doutrina sã e intimamente ligada à Tradição. Concordamos, pois, com Marcello Veneziani, para quem a defesa da Identidade Nacional e da Tradição Nacional, longe de ser “uma negação da ideia de Tradição” (como querem Guénon e Evola), é como que “um defender a tradição e a identidade de um povo da erradicação e do cosmopolitismo, da colonização e da globalização” (VENEZIANI, Marcello. De pai para filho: Elogio da Tradição, cit., p. 130). Do mesmo modo, consideramos o Irredentismo parte nobilíssima da Tradição e da História Italiana.
[45] EVOLA , Julius. Il cammino del cinabro, cit., loc. cit.
[46] LAMENDOLA, Francesco. Alcuni aspetti del pensiero filosofico di Julius Evola, cit..
[47] Idem. Alcuni aspetti del pensiero filosofico di Julius Evola, cit.
[48] EVOLA, Julius. René Guénon, un maestro de los tiempos últimos. Trad. argentina de Marcos Ghio. Serie Cuadernos Tradicionales, nº 4. Buenos Aires: Ediciones Heracles, 2001, p. 7.
[49] LAMENDOLA, Francesco. Alcuni aspetti del pensiero filosofico di Julius Evola, cit.
[50] EVOLA, Julius. Heidnischer Imperialismus. II ed. italiana revisada com Imperialismo pagano. Roma: Edizioni Mediteranee, 2004, p. 197.
[51] Idem. Imperialismo pagano: Il fascismo dinnanzi al pericolo euro-cristiano. 4ª ed. corrigida, com dois apêndices e Heidnischer Imperialismus. Roma: Edizioni Mediteranee, 2004,p. 177.
[52] Idem, p. 76.
[53] Idem, p. 177.
[54] MUSSOLINI, Benito, apud PAGLIARO, A. L’azione storica del fascismo. In PNF (Partito Nazionale Fascista). Fascismo (republicação fac-similar do verbete Fascismo do Dizionario di política do PNF, do ano de 1937). Milão: ARS, 1999, pp. 81-82; Idem. A Doutrina do Fascismo. Trad. para o português. Florença: Vallecchi Editore, 1935-XIII, pp. 38-39.
[55] LAMENDOLA, Francesco. Alcuni aspetti del pensiero filosofico di Julius Evola, cit.
[56] BARBUY, Heraldo. Cristianismo e angústia. In BARBUY, Heraldo. O problema do Ser e outros ensaios. São Paulo: Convívio/EDUSP, 1984, p. 249, nota.
[57] EVOLA, Julius. Rivolta contro Il Mondo Moderno. 2ª ed. revista e ampliada. Milão: Fratelli Boca Editori, 1951, pp. 453-454.
[58] ELIADE, Mircea. Exile’s Odyssey. Chicago: University of Chicago Press, 1988, p. 152.
[59] EVOLA, Julius. Colloquio col capo delle “Guardie di Ferro”. In Il Regime Fascista, 22/03/1938. Disponível em http://www.centrostudilaruna.it/evolalegionarismoascetico.html. Acesso em 18 de novembro de 2010.
[60] EVOLA, Julius. Imperialismo pagano: Il fascismo dinnanzi al pericolo euro-cristiano, cit., p. 88.
[61] Idem. Los hombres y las ruinas.Trad. argentina de Marcos Ghio. Buenos Aires: Ediciones Heracles, 1994, p, 43.
[62] Idem, p. 42.
[63] Idem. Cabalgar el tigre, cit., p. 21.
[64] Idem. Los hombres y las ruínas, cit., p. 64.
[65] Idem. Imperialismo pagano: Il fascismo dinnanzi al pericolo euro-cristiano, cit, p. 62.
[66] HEIDEGGER, Martin apud BARBUY, Heraldo. Sartre e Heidegger. In BARBUY, Heraldo. O problema do Ser e outros ensaios, cit., p. 211.
[67] EVOLA, Julius. Los hombres y las ruínas, cit., pp. 193-194.

Wednesday, December 15, 2010

Evola e Gentile (parte 1 de 3)

Segue a primeira parte de nosso trabalho sobre "Evola e Gentile", que seria a base de nossa palestra no "Encontro Nacional Evoliano" iniciado hoje (15/12) na Paraíba, mas que infelizmente não poderemos proferir por motivos alheios à nossa vontade.

Evola e Gentile
Por Victor Emanuel Vilela Barbuy

Mestre do denominado Tradicionalismo Integral e mais importante pensador esotérico antimoderno de todos os tempos ao lado de René Guénon, de quem se considerava discípulo e cuja obra A crise do Mundo Moderno (La crise du Monde Moderne) traduziu para o idioma italiano e prefaciou[1], Evola é, sem sombra de dúvida, o autor mais influente nos círculos da chamada Nova Direita europeia. Giorgio Almirante, fundador e secretário do Movimento Social Italiano (MSI) e principal líder da denominada Direita italiana entre a segunda metade da década de 1940 e o final da década de 1980, declarou, certa feita, que Evola era “o nosso Marcuse, mas melhor”[2], e o filósofo Franco Volpi, que foi Professor de História da Filosofia da Universidade de Pádua e colaborador do jornal La Repubblica, afirmou, de acordo com o escritor e jornalista Giano Accame, em entrevista ao telejornal Tg1, da RAI, que “os grandes do pensamento italiano do século XX são três: Croce, Gentile e Evola”[3].
Mestre do Attualismo, Giovanni Gentile é, na abalizada opinião do filósofo e historiador da Filosofia Michele Federico Sciacca, o maior filósofo italiano do século 20[4]. Conhecido como o “filósofo do Fascismo”, ou, como diria Evola, o filósofo “especificadamente fascista”[5], Gentile é inegavelmente o principal doutrinador do Fascismo ao lado de Benito Mussolini, com quem, aliás, colaborou na redação do famoso texto A Doutrina do Fascismo (La Dottrina del Fascismo), que, publicado em 1932 na Enciclopédia Italiana (Enciclopedia Italiana), se constitui no mais importante texto doutrinário fascista. Organizada por Gentile e publicada graças ao mecenato do Senador Giovanni Treccani, a Enciclopédia Italiana é, sem dúvida, uma das mais importantes enciclopédias de todo o Mundo e um dos grandes legados do autor da Teoria geral do espírito como ato puro (Teoria generale dello spirito come atto puro), ao lado da reforma do ensino que levou a cabo como Ministro da Instrução Pública do Reino da Itália e, é claro, de sua Filosofia Atual, que faz dele o maior filósofo idealista desde Hegel.
Patrick Romanell, que foi Professor de Filosofia da Universidade do Texas, afirma, na introdução que fez à sua tradução do Breviário de estética (Breviario di estetica), de Benedetto Croce, que Gentile “carrega tanto a honra de haver sido o mais rigoroso neo-Hegeliano de toda a história da filosofia ocidental quanto a desonra de haver sido o filósofo oficial do Fascismo na Itália”[6].
Concordamos com Romanell quando este afirma que Gentile porta a honra de haver sido o mais rigoroso pensador neo-Hegeliano da história da filosofia ocidental. Discordamos dele, porém, quando afirma que o filósofo do Attualismo leva a desonra de haver sido o “filósofo oficial do Fascismo na Itália”, posto que, embora discordemos de certos aspectos da Doutrina do Fascio, todos eles de caráter não-tradicional, reconhecemos o valor e a importância histórica do Fascismo, lídimo representante italiano dos Movimentos tradicionalistas de renovação nacional florescidos em todo o Mundo durante os primeiros decênios do século XX e que teve o mérito de salvar a Itália do liberalismo e do comunismo, de dar a ela a Ordem e o Desenvolvimento e de reconduzi-la a sua vocação histórica, herdada do Império Romano, de dilatar o Imperium e a Auctoritas.
Dentre os aspectos não-tradicionais do Fascismo a que fizemos referência no parágrafo precedente, podemos destacar a estatolatria e o modelo corporativo de cunho estatizante, que via nas corporações meros órgãos do Estado Totalitário, ao passo que o corporativismo tradicional, que encontrou seu apogeu na tão gloriosa quanto achincalhada era conhecida como Idade Média, se caracterizou pela autonomia das corporações, que, em vez de meros órgãos do Estado eram a peça-mestra da Sociedade.
Isto posto, cumpre assinalar que os aspectos não-tradicionais do Fascismo não são suficientes para fazer dele um Movimento não-tradicional. Aliás, a Revolução Fascista, movida pela Vontade de Transcendência e pela Vontade de Império e profundamente inspirada na Tradição da Eterna Roma dos Césares, foi, inegavelmente, uma Revolução Tradicional no mais alto sentido da palavra. E, uma vez que falamos em Fascismo e em Tradição, julgamos oportuno transcrever algumas palavras do Duce Benito Mussolini, no Breve prelúdio (Breve preludio) ao primeiro número da revista Gerarchia, por ele dirigida, em 1922, e transcritas no livro Tempos da revolução fascista (Tempi della rivoluzione fascista): “A tradição é certamente uma das maiores forças espirituais dos povos, porquanto forma sucessiva e constantemente o seu espírito”[7].
Pouco adiante, observa o Duce que, conciliando os conceitos de “conservação e de renovação, de tradição e de progresso”, os fascistas “não nos agarramos desesperadamente ao passado, como a uma tábua suprema de salvação, nem nos atiramos de olhos fechados nas nuvens sedutoras do futuro”[8].
Registre-se, ademais, que o Fascismo é, inegavelmente, um “movimento revolucionário que modelou grande parte da história do século XX”, como registra A. James Gregor (cujo verdadeiro nome é Anthony Gimigliano), Professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e um dos mais importantes e honestos estudiosos do fenômeno fascista na Itália[9]. Ainda segundo Gregor, o principal aspecto que diferencia o totalitarismo de Mussolini daqueles de Stálin e de Hitler é a coerência de sua doutrina. Como sublinha o referido autor, “mesmo antes de sua ascensão ao poder, o Fascismo havia articulado uma consistente e relevante ideologia [diríamos doutrina] de renovação nacional e desenvolvimento, predicada na suposição de que somente uma unidade ‘orgânica’ de todos os elementos da comunidade serviria aos propósitos de uma nação ‘proletária’ em sua desigual disputa com as ‘plutocracias’”[10] Ademais, de acordo com o autor de Giovanni Gentile: Filosófo do Fascismo (Giovanni Gentile: Philosopher of Fascism), “o Fascismo possui uma ideologia [mais uma vez, diríamos doutrina] que era mais coerente e relevante para a revolução moderna do que praticamente qualquer outra coleção de ideias do século XX”[11], havendo os “intelectuais do Fascismo de Mussolini criado a mais consistente, coerente e relevante lógica doutrinária para a reação nacionalista e as revoluções desenvolvimentistas em nosso tempo”[12].
Feito este longo parêntese, voltemos a falar de Evola e de Gentile, que são os temas centrais da presente palestra.
Gentile jamais admirou Evola e o seu ideário, havendo sido devido, sobretudo, a ele o fato de o pensamento evoliano haver marchado no silêncio durante a Era Fascista. Isto se explica em virtude de Gentile haver sido a figura de proa da nau da Cultura Italiana durante o vintênio fascista e também durante os primeiros meses da República Social Italiana, também conhecida como República de Salò, isto é, até seu assassinato, em abril de 1944.
Faz-se mister sublinhar, contudo, que Gentile reconheceu, ao menos parcialmente, o valor de Evola nos campos do esoterismo e da alquimia, tanto que solicitou ao pensador tradicionalista esotérico que fosse o curador do verbete sobre a revista iniciática Atanòr na Enciclopédia Italiana.
Evola também jamais admirou Gentile, a quem votou mesmo, na expressão do pensador e escritor português António José de Brito, “injusto desprezo”[13], havendo chegado a afirmar que era tão somente por ignorância ou por um “provincialismo intelectual” que pensadores como Croce e Gentile, que ele sequer considerava filósofos, haviam podido ser levados a sério e mesmo admirados na Itália. Na opinião do pensador esotérico, era necessário não haver estudado diretamente “os grandes sistemas do idealismo transcendental germânico”, não haver tomado conhecimento dos “problemas imanentes que conduziram, por exemplo, além de Hegel, ao ’segundo’ Fichte e ao ‘segundo’ Schelling, a Schopenhauer e ao próprio von Hartmann, para não perceber que Croce e Gentile não são senão dois fracos epígonos, cujo único mérito é o de haver conduzido ao absurdo as posições do idealismo absoluto, até um verdadeiro e próprio colapso especulativo”[14].
O pensamento filosófico e religioso de Evola e de Gentile é muito diverso, o mesmo se dando em relação ao pensamento político de ambos, tanto que os aspectos que Evola mais condena no Fascismo são os aspectos do mesmo mais afirmados por Gentile, a exemplo do Estado Ético de inspiração hegeliana, do nacionalismo, do culto do Trabalho e do culto do Risorgimento e de seus heróis, ou profetas, vistos como precursores do Fascismo. Com efeito, assim afirma o filósofo do Idealismo Atual em seu artigo intitulado Risorgimento e Fascismo, publicado em 1931, na revista Politica sociale e em diversos jornais e transcrito na obra Memórias italianas e problemas da filosofia e da vida (Memorie italiane e problemi della filosofia e della vita), de 1936:

"O Fascismo é filho do Risorgimento: do Risorgimento heróico, criador de um Estado moderno, que é potência política na medida em que é potência econômica e civilização: um homem novo, vivo, são, inteligente, original.
Perder este fio, rompê-lo, não pode ser e não é de interesse do Fascismo. Cuja revolução é progresso na medida em que é restauração: consolidação das bases para edificar-vos sobre um sólido edifício, alto, na luz. Toda originalidade sem tradição, como toda espontaneidade sem disciplina, é veleidade estéril, não vontade viril. Capricho, não programa. Não é o espírito do Fascismo, mas sua caricatura"[15].

Isto posto, cumpre assinalar que, na opinião do autor de Os profetas do “Risorgimento” Italiano (I profetti del Risorgimento Italiano), o Risorgimento foi um movimento de cunho tradicionalista, coincidindo com aquela renovação geral que pode ser considerada lato sensu como Romantismo, considerando Vincenzo Gioberti e Antonio Rosmini, dois dos principais vultos do Risorgimento, como os mais importantes pensadores tradicionalistas italianos[16].
Tal não é, como bem sabemos, a opinião de Evola. Ao contrário, sempre foi ele um agudo crítico do Risorgimento. Com efeito, para o filósofo do Idealismo Mágico, Giuseppe Mazzini – que para Gentile era um dos grandes precursores da Nova Itália[17] – “não é senão o expoente italiano do protestantismo e do mal europeu[18].
A despeito, porém, de todas as divergências, Evola e Gentile têm importantes elementos em comum: ambos são grandes filósofos e doutrinadores políticos; ambos são tradicionalistas, ainda que cada qual a seu modo; ambos, por fim, pertencem ao rol dos maiores vultos do pensamento universal do século XX e também ao rol dos maiores vultos da denominada Terceira Posição, ao lado de nomes como os de Gabriele D’Annunzio e Giovanni Papini, Luigi Pirandello e Alfredo Rocco, Filippo-Tomaso Marinetti e Ardengo Soffici, Ugo Spirito e Giuseppe Prezzolini, Giorgio Del Vecchio e Gino Arias, Sergio Panunzio e Robert Michels, Martin Heidegger e Carl Schmitt, Gottfried Feder e Ernst Jünger, Rainer Maria Rilke e Knut Hamsun, Ezra Pound e T.S. Eliot, G.K. Chesterton e Hilaire Belloc, Sir Oswald Mosley e Wyndham Lewis, D.H. Lawrence e Louis-Férdinand Céline, Drieu la Rochelle e Robert Brasillach, Charles Maurras e Maurice Barrès, Léon Degrelle e Henri de Man, Corneliu Codreanu e Mircea Eliade, José Antonio Primo de Rivera e Ramiro de Maeztu, António Sardinha e João Ameal, Francisco Rolão Preto e Fernando Pessoa, sem falar nos nossos Plínio Salgado e Gustavo Barroso, Miguel Reale e Alfredo Buzaid, Câmara Cascudo e San Tiago Dantas, Gerardo Mello Mourão e Tasso da Silveira, Goffredo e Ignacio da Silva Telles, Jackson de Figueiredo e Arlindo Veiga dos Santos.
Feitas essas considerações, passemos a falar, separadamente, da vida e da obra dos dois grandes pensadores de que cuida a presente palestra, principiando por Julius Evola.

[1] GUÉNON, René. La crisi del Mondo Moderno. Trad. italiana e intr. de Julius Evola. Roma: Edizioni Mediteranee, 2003.
[2] ALMIRANTE, Giorgio, apud LAMENDOLA, Francesco. Alcuni aspetti del pensiero filosofico di Julius Evola. Disponível em: http://www.juliusevola.it/documenti/template.asp?cod=615. Acesso em 16 de novembro de 2010.
[3] Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=YMUtRc3u4SI. Acesso em 16 de novembro de 2010.
[4] SCIACCA, Michele Federico. História da Filosofia - vol. III. São Paulo: Mestre Jou, 1962, p. 216.
[5] EVOLA, Julius. Gli uomini e le rovine. 1ª ed. Roma: Edizioni del`Ascia, 1953, p. 21. Apud BRITO, António José de. Apontamentos sobre Julius Evola. Disponível em: http://cadernosevolianos.weblog.com.pt/arquivo/093086.html. Acesso em 16 de novembro de 2010.
[6] ROMANELL, Patrick. Translator's Introduction. In CROCE, Benedetto. Guide to Aesthetics. Trad., intr. e notas de Patrick Romanell. 2ª ed. Indianápolis: Hackett Pub Co Inc, 1995, p. VIII.
[7] MUSSOLINI, Benito. Tempi della rivoluzione fascista. Milão: Alpes, 1930, p. 13.
[8] Idem, p. 14.
[9] GREGOR, A. James. Presentazione. In PIRAINO, Marco e FIORITO, Stefano. L’identità fascista: Progetto politico e dottrina del fascismo. 2ª ed. Lulu Enterprises, 2009, p. 5.
[10] Idem. Phoenix: Fascism in our time. 1ª ed., 4ª reimpr. New Brunswick: Transaction Books, 2009, p. 176.
[11] Idem, p. 21.
[12] Idem, p. 184.
[13] BRITO, António José de. Apontamentos sobre Julius Evola. Disponível em: http://cadernosevolianos.weblog.com.pt/arquivo/093086.html. Acesso em 16 de novembro de 2010.
[14] EVOLA, Julius. Gentile non è il nostro filosofo. Disponível em: http://www.juliusevola.it/documenti/template.asp?cod=373. Acesso em 16 de novembro de 2010.
[15] GENTILE, Giovanni. Risorgimento e fascismo. In Idem. Memorie italiane e problemi della filosofia della vita. Florença: G. C. Sansoni – Editore, 1936-XIV, p. 120.
[16] Idem. La tradizione italiana. In Idem Frammenti di estetica e di filosofia della storia. Florença: Le Lettere, 1992, pp. 112-113.
[17] Cf. Idem. Mazzini e la Nuova Italia. In Idem. I profetti del Risorgimento Italiano. 3ª ed. acresc. Florença: G. C. Sansoni-Editore, 1944-XXII, pp. 127-152.
[18] EVOLA, Julius. Imperialismo pagano: Il fascismo dinnanzi al pericolo euro-cristiano. 4ª ed. corrigida, com dois apêndices e Heidnischer Imperialismus. Roma: Edizioni Mediteranee, 2004,p. 93.

Wednesday, November 10, 2010

O que é a Democracia Orgânica




Por Luiz Gonçalves Alonso Ferreira


Movidos por ignorância ou má fé, acusam alguns espíritos superficiais os integralistas de se posicionarem contra o voto e defenderem a implantação no Brasil de uma ditadura de tipo fascista.
Nada mais falso.
Na verdade, tais vilanias, dentre tantas outras assacadas contra os seguidores da doutrina do Sigma, nada mais são do que fruto do ódio cego cultivado pelos tradicionais adversários políticos do Integralismo, única corrente de idéias que representa hoje em nosso país, através da Frente Integralista Brasileira (FIB), a legítima reação ao moribundo regime liberal-burguês e às falsas oposições de cunho socialista e/ou comunista.
Em seus ataques irracionais, desconhecem ou se esquecem os detratores do Integralismo que este movimento, na crítica que sempre realizou à liberal-democracia, jamais se colocou, em toda sua trajetória história e política, contra a própria Democracia, em sua concepção mais ampla. Pregou e continua pregando, isto sim, seu aperfeiçoamento, através da superação do Estado de caráter liberal-burguês – anacronismo do século XVIII, cujos erros e males vêm se acumulando nos últimos trezentos anos - pela construção de uma forma mais perfeita de Estado, fundamentada sobre os princípios da Democracia Orgânica – idéia nova dos séculos XX e XXI - proposta no Brasil pelo gênio político de Plínio Salgado (1895-1975). Da mesma forma, jamais se declarou o Integralismo contra o voto, propugnando, isto sim, sua valorização, pela defesa de uma urgente reforma no sistema representativo brasileiro, que conceda funções legislativas ás representações de classe, ou seja, aos setores produtivos que contribuem verdadeiramente para a riqueza material, cultural, moral e espiritual da nação.
Mas, num plano geral, no que consiste a Democracia Orgânica?
Para o bom entendimento da proposta, de forma didática, Plínio Salgado comparava o funcionamento do Estado com o funcionamento do próprio corpo humano. Neste, cada órgão cumpre uma atividade específica e, conjuntamente, cooperam todos para a realização plena de nossas funções vitais. Se acometido por alguma enfermidade, um órgão passa a desempenhar mal seu trabalho, não somente ele, mas todos os demais órgãos sentirão sua debilidade. Assim como na vida biológica, o mesmo ocorre na vida social. Os trabalhadores – do capital, do trabalho, da inteligência -, órgãos da nação, cada qual em sua área de atuação, competem todos para o progresso e desenvolvimento do país. Se as necessidades básicas de qualquer setor produtivo não forem atendidas, resultará que, observando-se as relações de interdependência, a saúde do organismo social, toda ela, ficará comprometida.
Nesta visão integral, os grupos profissionais devem ser reconhecidos pelo Estado conforme sua importância para a sociedade, pois são eles os lídimos construtores da riqueza nacional. O atual sistema de representação é falho e inviável precisamente por ignorar e desdenhar a relevância social dos setores produtivos, não considerando suas justas aspirações. O erro provém da Revolução Francesa, cujo preconceito iluminista e burguês contra as instituições da Idade Média abolira as antigas corporações de ofício, as quais regulavam e organizavam o trabalho, representando-o à época junto aos centros de decisão política. Com o surgimento dos partidos políticos – idealizados como organismos artificiais de representação para remediar a situação -, elementos intermediários foram criados, isolando governo e trabalhadores. Estes passaram a designar para as funções legislativas homens que, pertencendo a profissões diferentes, jamais poderiam defender de forma satisfatória os interesses de seus eleitores. Era instituído então o voto deslocado, perdido. Considerado em sua expressão meramente numérica, ele não estabelecia uma base de correspondência entre o que votava e o que era votado. O erro perdurou. E, até os dias atuais, vemos, por exemplo, um professor elegendo um médico para cuidar de seus interesses, um comerciante elegendo um advogado, um agricultor elegendo um industrial, etc. O absurdo é maior se dirigirmos nossa atenção para os altos escalões dos governos: ministérios e secretarias, muitos deles estratégicos, são reservados a indivíduos que, sem familiaridade alguma com as áreas para as quais foram destinados – por não terem formação nelas -, recebem pastas levando-se em conta apenas o mesquinho critério da filiação partidária. No corpo humano, tal descalabro seria como se o fígado quisesse realizar as tarefas do coração ou os rins as do estômago. Um Estado assim, funcionando em descompasso, dificilmente estará apto a sanar os problemas relativos ao Trabalho. Pelo contrário: distanciando o governo dos setores produtivos da nação – daí a origem dos sindicatos, forma legítima encontrada pelos trabalhadores para fazerem valer seus direitos - viverá sempre em clima de tensão social, preparando terreno fértil ao avanço de movimentos defensores de filosofias políticas negativistas, que trabalham com oportunismo na exploração da lutas de classes, através da manipulação dos órgãos de representação profissional.
Para restaurar o equilíbrio entre governo e trabalhadores, Plínio Salgado considerava justo o Estado delegar funções legislativas ás representações de classe, com o estabelecimento das chamadas Câmaras Orgânicas. Nos EUA, foi o ex-bispo de Nova Iorque, Fulton Sheen quem, defendendo a idéia, justificava-a com um argumento poderoso: “Há mais motivo de identidade de interesse entre um ferroviário da Califórnia, no Pacífico, e outro em Nova Iorque, no Atlântico, do que entre duas pessoas que, residindo na mesma cidade – e até votando na mesma seção eleitoral, acrescentamos nós - são de profissão diferente”.
Inúmeros pontos contam a favor da Câmara Orgânica. De fato, mais que os partidos políticos, são os grupos profissionais os que, pela experiência cotidiana, detém o conhecimento e a capacidade técnica necessários para empreender projetos e leis eficientes, viabilizando soluções efetivas para os mais variados problemas nacionais. A qualidade intelectual de nossos representantes aumentaria. A Câmara Orgânica conciliaria as relações entre Capital e Trabalho, ao garantir assento tanto a empregados quanto a empregadores que, compartilhando dos mesmos poderes e atribuições, estariam representados em igualdade de direitos. Combateria a corrupção: os grupos econômicos deixariam de pressionar os políticos, sugestionando-os financeiramente com propinas ou doações para campanhas, pois os grupos profissionais seriam elevados na vida nacional como membros efetivos de participação política. Limitando-se em épocas eleitorais a campanha e propaganda política aos círculos mais restritos das representações de classe, os recursos necessários para cobrir os gastos com campanhas milionárias – note-se a atualidade do problema – perderiam seu sentido. Candidatos humildes e capazes teriam mais condições de expor suas idéias e elegerem-se.
Naturalmente, não obstante a perenidade e imutabilidade de seus valores doutrinários essenciais, reconhecem e reafirmam os integralistas o caráter prospectivo e dinâmico da História, o que determina - na marcha empreendida pelo movimento em pleno século XXI, bem como, na complexidade do tempo que ora vivemos - a necessidade da constante revisão e atualização de seus valores acidentais.
Dessa forma, com a Democracia Orgânica, não colimam os integralistas a extinção dos atuais partidos políticos, mas sua continuidade e fortalecimento. Tampouco menosprezam a importância do voto, mas valoriza-o, dando-lhe um real significado, ao ligar o eleitor a um candidato inserido em sua categoria profissional e, portanto, identificado com seus justos anseios e aspirações.
Assim, dentre várias propostas estudadas pelos integralistas para a efetivação da Democracia Orgânica e o voto profissional, destaca-se, por exemplo, a da necessidade da estruturação no seio das organizações político-partidárias das representações de classe, que elegeriam para as Câmaras e Assembléias Técnicas os candidatos inscritos em suas legendas. Estes, por sua vez, passariam a desempenhar suas funções legislativas de acordo com a orientação doutrinária e programática de seus respectivos partidos. Nos pleitos internos dos partidos, os representantes de classe reunidos na mesma legenda política, poderiam eleger os dirigentes da agremiação nas três esferas: municipal, estadual e federal.
Como se vê, longe de se constituir um modelo acabado, a instituição da Democracia Orgânica deve obrigatoriamente ser precedida por uma ampla discussão nacional sobre sua organização e funcionamento, a qual convidam os integralistas os mais amplos setores pensantes da sociedade brasileira – juristas, imprensa, professores, cientistas políticos, etc. – e mesmo seus adversários no campo político.
Num momento em que a sociedade brasileira acaba de comparecer às urnas para a escolha de seu novo Presidente da República, triste é constatar, nos diversos debates políticos travados entre os candidatos – tanto em primeiro quanto em segundo turno –, a total ausência de propostas concretas para as principais reformas reclamadas pela nação. Dentre elas, a elaboração de um novo sistema representativo para o país é certamente a mais ignorada, embora das mais urgentes.
Reorganizados no século XXI, são os integralistas hoje a única corrente de pensamento e ação política que se apresenta como portadora de uma proposta clara, eficaz e verdadeiramente revolucionária para o problema.
Nesta luta pelo estabelecimento da Democracia Orgânica, nós, da Frente Integralista Brasileira, pedimos o apoio e a participação de todos os trabalhadores, de todos os setores produtivos da nação, infelizmente negligenciados e desvalorizados pelas falhas e omissões de um sistema representativo que opera tão somente em benefício dos caciques dos partidos, dos politiqueiros profissionais e dos grupos plutocráticos que os apóiam.

Thursday, November 04, 2010

Os Dozes Princípios da Doutrina Integralista


Os Doze Princípios da Doutrina Integralista.*

Existem muitos brasileiros que combatem o Integralismo sem conhecê-lo. Alguns de má-fé, outros por ignorância. Para estes, aqui vão algumas teses defendidas pelo Integralismo. Estamos certos de que a leitura do que abaixo vai escrito levará muitos patrícios bem intencionados aos documentos fundamentais da doutrina criada por Plínio Salgado, transformando-os, dentro em pouco, em novos defensores da trilogia Deus, Pátria e Família. Ei-los, portanto:

1. O Integralismo exige que a mocidade não se entregue aos prazeres materiais, mas dignifique a sua Pátria no trabalho, no estudo, no aperfeiçoamento moral, intelectual e físico.

2. O Integralismo não concede o direito de se denominarem “revolucionários” aqueles que revelarem incultura e simples temperamento de aventureiros ou de insubordinados.

3. O Integralismo declara verdadeiros heróis da Pátria: os chefes de família, zelosos e honestos; os mestres; os humildes de todos os labores, das fábricas e dos campos, que realizam pelo espírito, pelo cérebro, pelo coração e pelos braços a prosperidade e grandeza do Brasil.

4. O Integralismo considera inimigos da Pátria todos os que amarem mais os sofismas, as sutilezas filosóficas e jurídicas do que o Brasil, à ponto de sobrepô-los aos interesses nacionais; os que forem comodistas; preguiçosos mentais; vaidosos; alardeadores de luxo e de opulência; opressores de humildes, indiferentes para com os cidadãos de valor moral ou mental; os que não amarem as suas famílias; os que pregarem doutrinas enfraquecedoras da vitalidade nacional; os “blasés”; os céticos; os irônicos, míseros palhaços desfibrados.

5. O Integralismo quer a Nação unida, forte, próspera, feliz, exprimindo-se no lineamento do Estado, com superior finalidade humana.

6. O Integralismo não pretende erigir o Estado em fetiche, como o socialismo; nem tampouco reduzi-lo a um fantoche, como o liberalismo. Ao contrário de um e de outro, quer o Estado vivo, identificado com os interesses da Nação que ele representa.

7. O Integralismo não admite que nenhum Estado se superponha à Nação ou pretenda dominar politicamente os outros. Não admite que o regionalismo exagerado e dissociativo se desenvolva em qualquer ponto do território da Pátria.

8. O Integralismo, pela constante ação doutrinária e apostolar, não permite que os demagogos incultos ou de má-fé explorem a ingenuidade das turbas, muito menos que a imprensa subordine a sua diretriz a interesses de argentários ou poderosos em detrimento da Nação.

9. O Integralismo dará um altíssimo relevo aos pensadores, filósofos, cientistas, artistas, técnicos, proclamando-os supremos guias da Nação.

10. O Integralismo quer a valorização das corporações de classe, como se fazia na Idade Média, onde os grupos de indivíduos eram valorizados.

11. O Integralismo quer acabar, de uma vez para sempre, com as guerras civis, as masorcas, as conspirações, os ódios, os despeitos, unindo todos os brasileiros no alto propósito de realizarem uma Nação capaz de impor-se ao respeito no Exterior.

12. O Integralismo não é um partido; é um Movimento. É uma atitude nacional. É um despertar de consciências.

É a marcha gloriosa de um Povo!




* Publicado originalmente no mensário A Marcha, do Rio de Janeiro, em 12 de Junho de 1959.

Thursday, October 28, 2010

Discurso do Papa Bento XVI aos prelados da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (Regional Nordeste V) em visita "ad limina apostolorum"


Quinta-feira, 28 de Outubro de 2010



Amados Irmãos no Episcopado,

«Para vós, graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo» (2 Cor1, 2). Desejo antes de mais nada agradecer a Deus pelo vosso zelo e dedicação a Cristo e à sua Igreja que cresce no Regional Nordeste 5. Lendo os vossos relatórios, pude dar-me conta dos problemas de caráter religioso e pastoral, além de humano e social, com que deveis medir-vos diariamente. O quadro geral tem as suas sombras, mas tem também sinais de esperança, como Dom Xavier Gilles acaba de referir na saudação que me dirigiu, dando livre curso aos sentimentos de todos vós e do vosso povo.

Como sabeis, nos sucessivos encontros com os diversos Regionais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, tenho sublinhado diferentes âmbitos e respectivos agentes do multiforme serviço evangelizador e pastoral da Igreja na vossa grande Nação; hoje, gostaria de falar-vos de como a Igreja, na sua missão de fecundar e fermentar a sociedade humana com o Evangelho, ensina ao homem a sua dignidade de filho de Deus e a sua vocação à união com todos os homens, das quais decorrem as exigências da justiça e da paz social, conforme à sabedoria divina.

Entretanto, o dever imediato de trabalhar por uma ordem social justa é próprio dos fiéis leigos, que, como cidadãos livres e responsáveis, se empenham em contribuir para a reta configuração da vida social, no respeito da sua legítima autonomia e da ordem moral natural (cf. Deus caritas est, 29). O vosso dever como Bispos junto com o vosso clero é mediato, enquanto vos compete contribuir para a purificação da razão e o despertar das forças morais necessárias para a construção de uma sociedade justa e fraterna. Quando, porém, os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas o exigirem, os pastores têm o grave dever de emitir um juízo moral, mesmo em matérias políticas (cf. Gaudium et spes, 76).

Ao formular esses juízos, os pastores devem levar em conta o valor absoluto daqueles preceitos morais negativos que declaram moralmente inaceitável a escolha de uma determinada ação intrinsecamente má e incompatível com a dignidade da pessoa; tal escolha não pode ser resgatada pela bondade de qualquer fim, intenção, conseqüência ou circunstância. Portanto, seria totalmente falsa e ilusória qualquer defesa dos direitos humanos políticos, econômicos e sociais que não compreendesse a enérgica defesa do direito à vida desde a concepção até à morte natural (cf. Christifideles laici, 38). Além disso no quadro do empenho pelos mais fracos e os mais indefesos, quem é mais inerme que um nascituro ou um doente em estado vegetativo ou terminal? Quando os projetos políticos contemplam, aberta ou veladamente, a descriminalização do aborto ou da eutanásia, o ideal democrático – que só é verdadeiramente tal quando reconhece e tutela a dignidade de toda a pessoa humana – é atraiçoado nas suas bases (cf. Evangelium vitæ, 74). Portanto, caros Irmãos no episcopado, ao defender a vida «não devemos temer a oposição e a impopularidade, recusando qualquer compromisso e ambigüidade que nos conformem com a mentalidade deste mundo» (ibidem,82).

Além disso, para melhor ajudar os leigos a viverem o seu empenho cristão e sócio-político de um modo unitário e coerente, é «necessária — como vos disse em Aparecida — uma catequese social e uma adequada formação na doutrina social da Igreja, sendo muito útil para isso o "Compêndio da Doutrina Social da Igreja"» (Discurso inaugural da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, 3). Isto significa também que em determinadas ocasiões, os pastores devem mesmo lembrar a todos os cidadãos o direito, que é também um dever, de usar livremente o próprio voto para a promoção do bem comum (cf. Gaudium et spes 75).

Neste ponto, política e fé se tocam. A fé tem, sem dúvida, a sua natureza específica de encontro com o Deus vivo que abre novos horizontes muito para além do âmbito próprio da razão. «Com efeito, sem a correção oferecida pela religião até a razão pode tornar-se vítima de ambigüidades, como acontece quando ela é manipulada pela ideologia, ou então aplicada de uma maneira parcial, sem ter em consideração plenamente a dignidade da pessoa humana» (Viagem Apostólica ao Reino Unido, Encontro com as autoridades civis, 17 de setembro de 2010).

Só respeitando, promovendo e ensinando incansavelmente a natureza transcendente da pessoa humana é que uma sociedade pode ser construída. Assim, Deus deve «encontrar lugar também na esfera pública, nomeadamente nas dimensões cultural, social, econômica e particularmente política» (Caritas in veritate, 56). Por isso, amados Irmãos, uno a minha voz à vossa num vivo apelo a favor da educação religiosa, e mais concretamente do ensino confessional e plural da religião, na escola pública do Estado.

Queria ainda recordar que a presença de símbolos religiosos na vida pública é ao mesmo tempo lembrança da transcendência do homem e garantia do seu respeito. Eles têm um valor particular, no caso do Brasil, em que a religião católica é parte integral da sua história. Como não pensar neste momento na imagem de Jesus Cristo com os braços estendidos sobre a baía da Guanabara que representa a hospitalidade e o amor com que o Brasil sempre soube abrir seus braços a homens e mulheres perseguidos e necessitados provenientes de todo o mundo? Foi nessa presença de Jesus na vida brasileira, que eles se integraram harmonicamente na sociedade, contribuindo ao enriquecimento da cultura, ao crescimento econômico e ao espírito de solidariedade e liberdade.

Amados Irmãos, confio à Mãe de Deus e nossa, invocada no Brasil sob o título de Nossa Senhora Aparecida, estes anseios da Igreja Católica na Terra de Santa Cruz e de todos os homens de boa vontade em defesa dos valores da vida humana e da sua transcendência, junto com as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens e mulheres da província eclesiástica do Maranhão. A todos coloco sob a Sua materna proteção, e a vós e ao vosso povo concedo a minha Benção Apostólica.

Carta à Revista de História da Biblioteca Nacional

Os diversos textos referentes ao Integralismo, publicados na edição deste mês de outubro da Revista de História da Biblioteca Nacional, que traz, na capa, famosa foto de Plínio Salgado, demonstram, ao menos, o reconhecimento da importância que este representa para a História do Brasil.
Infelizmente, porém, a Revista de História da Biblioteca Nacional repetiu velhos chavões que há decênios vêm sendo repetidos pela chamada intelligentsia deste País, caracterizada, antes de tudo, pelo sectarismo “esquerdista” e pelo preconceito ideológico, publicando alguns artigos repletos de imprecisões a respeito do Integralismo. Dentre tais artigos, os mais cheios de imprecisões são os de Gilberto Grassi Calil e de Roney Cytrynowicz. O primeiro afirma, por exemplo, que os Integralistas foram os “cães de guarda” da ordem burguesa, quando, em verdade, sempre foram anticapitalistas e antiburgueses (vide, por exemplo, as obras O capitalismo internacional, de Miguel Reale, e Espírito da burguesia, de Plínio Salgado), e afirma, também, que os Integralistas não eram verdadeiros democratas por considerarem os comunistas inimigos da Democracia, quando qualquer um que conheça um pouco de História e tenha ouvido falar em Lênin, Trótski, Stálin, Béria, Brejnev, Pol-Pot, Mao Tsé-Tung e em diversos outros tiranos e assassinos comunistas sabe muito bem que os comunistas são, sim, inimigos da Democracia.
Já o texto de Cytrynowicz afirma, dentre outros absurdos, que a primeira Marcha Integralista teve quarenta mil participantes, quando na verdade teve apenas cerca de quarenta, sendo conhecida como Marcha dos Quarenta, e que o Integralismo é racista, nega a Democracia e o pluralismo político e prega o “controle absoluto do Estado sobre a sociedade”. Ao contrário, o Integralismo sempre se opôs ao racismo, reunindo, inclusive, milhares de negros, alguns dos quais ocupando mesmo posições de liderança nos quadros da AIB; sempre defendeu a Democracia Orgânica, em que a Sociedade é representada por meio de seus Grupos Naturais como as Paróquias, os Sindicatos, as Corporações e os Municípios e se opôs à absorção da Sociedade e dos Grupos Naturais que a compõem pelo Estado, defendendo a intangibilidade da Pessoa Humana em face desse mesmo Estado. As linhas que lerão a seguir, escritas por Plínio Salgado, constam do artigo Nacional Socialismo e Cristianismo Social, publicado a 14 de fevereiro de 1936 no jornal A Ofensiva, e respondem a essas e a várias outras acusações infundadas presentes em diversos artigos da revista.
“No caso da Alemanha, não tenho dúvida (pelo que tenho lido nos livros nazistas, notadamente no livro de Hitler – Minha Luta – e pelo que tenho deduzido das medidas e iniciativas governamentais), que o governo hitlerista está, sem dúvida alguma, infringindo as mais sagradas leis naturais e humanas e dando lugar a que católicos, ciosos do livre arbítrio e da intangibilidade do homem e de sua família, se rebelem contra o Estado. (...) O ascetismo, a mística, (...) a super-humanização do tipo do Fuehrer, a sua divinização ao ponto de o considerarem, os mais exaltados, a encarnação de Odin, exprime um artificialismo político que foge de toda a base e equilíbrio da razão humana. Nós, os integralistas, que somos coisa absolutamente diferente do nazismo e do fascismo, não nos cansamos de dizer que o nosso fundamento é cristão”.
Há, porém, na revista, um artigo magnífico e honestíssimo. É o artigo de Alberto da Costa e Silva, da Academia Brasileira de Letras, sobre a revista de alta cultura Cadernos da Hora Presente, dirigida pelo grande poeta e ensaísta Integralista Tasso da Silveira.
Finalizamos a presente carta ressaltando que, ao contrário do que afirma Hélgio Trindade, o Integralismo não é o “pesadelo dos anos 30”, “rejeitado pela História”, mas sim o “sonho nacionalista e espiritualista” de que fala Miguel Reale em artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo a 17 de dezembro de 2005, e que constituiu, na expressão de Gerardo Mello Mourão, em entrevista ao Diário do Nordeste, o “mais fascinante grupo da inteligência do País”.
Victor Emanuel Vilela Barbuy, Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira.São Paulo, 28 de outubro de 2010-LXXVIII.

Sunday, October 24, 2010

Nota de esclarecimento à revista Istoé

A revista Istoé, na reportagem intitulada Os santos e santinhos de uma guerra suja, demonstrou profundo descompromisso com a verdade, gritante desonestidade intelectual e total desconhecimento a respeito do que são e do que defendem a Igreja e os movimentos tradicionalistas.
Ao contrário do que afirma a revista, o Apelo a todos os brasileiros e brasileiras é autêntico e não contém “boatos” e nem “informações falsas” a respeito do PT e de Dilma Rousseff. O Apelo a todos os brasileiros e brasileiras, que só contém informações verídicas e comprovadas a respeito do PT e de sua candidata à Presidência da República, foi elaborado pela Comissão em Defesa da Vida do Regional Sul-I da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), sendo que a Presidência e a Comissão Representativa dos Bispos do Regional Sul-I da CNBB, em reunião ordinária, julgaram por bem acolher tal Apelo, recomendando, ainda, sua ampla difusão.
Isto posto, passemos ao Integralismo. Em primeiro lugar, tal Movimento não é inspirado no fascismo italiano, mas sim nos ensinamentos perenes do Evangelho, na Doutrina Social da Igreja, nas tradições pátrias e nos ensinamentos de pensadores como Alberto Torres, Farias Brito e Jackson de Figueiredo.
Ademais, ao contrário do que sustenta a supracitada reportagem, o Integralismo jamais foi contrário à participação da Sociedade (não composta apenas de civis, mas também de militares) no Estado. Aliás, o Integralismo sempre defendeu a Democracia Orgânica, em que a Sociedade é representada por meio de seus Grupos Naturais, a exemplo das Paróquias, dos Sindicatos, das Corporações e dos Municípios.
Ainda diversamente do que afirma a revista Istoé, a Ação Integralista Brasileira (AIB), não foi “um dos maiores partidos de massa do País”, mas sim o primeiro e maior “partido de massas” do Brasil e que era tão democrático (na acepção legítima do termo) que escolheu seu candidato às eleições presidenciais que deveriam ocorrer em 1938 por meio de um plebiscito em que votaram mais de oitocentas mil pessoas, enquanto os demais partidos da época, bem como os de hoje, se caracterizavam pelos métodos autocráticos pelos quais escolhiam seus candidatos...
Por fim, os Integralistas não apoiam Serra e o PSDB, que, tanto no ideário quanto na prática, são muito próximos do PT, e nenhum Integralista jamais doou dinheiro algum para a campanha do Sr. Índio da Costa ao cargo de Deputado Federal. O Sérgio Vasconcellos que teria doado dinheiro para a campanha do atual candidato a Vice-Presidente pela chapa de José Serra é apenas um homônimo de nosso Secretário Nacional de Doutrina e Estudos.

Victor Emanuel Vilela Barbuy, Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira. São Paulo, 24 de outubro de 2010-LXXVIII.