Monday, March 26, 2012

Em defesa da Vida e das Tradições Cristãs do Brasil




Em defesa da Vida e das Tradições Cristãs do Brasil*

Por Victor Emanuel Vilela Barbuy



A Pessoa Humana é dotada de Direitos Naturais, que o Estado tem o dever de reconhecer e promover, sob pena de se tornar ilegítimo. O Direito à Vida, que se inicia no momento da concepção, é, sem dúvida, o primeiro e mais fundamental de tais Direitos. Está ele previsto tanto em nossa Constituição material quanto no Pacto de São José da Costa Rica, de que o Brasil é signatário. Assim, o aborto provocado é crime em nosso País, sendo, segundo o artigo 128 do Código Penal Brasileiro, apenas não penalizado em caso de risco à vida da gestante ou de estupro, de sorte que são ilegais todas as políticas públicas de promoção do aborto, mesmo nos casos em que este não é penalizado. Não é, porém, necessário dizer que julgamos que o chamado “aborto sentimental”, isto é, aquele não penalizado no caso de estupro, deveria ser penalizado, e que a permissão ao aborto em caso de risco à vida da gestante também deveria ser retirada do Código Penal em virtude de sua não incidência, que se dá graças ao adiantamento das técnicas de proteção e correção da gravidez.

No mesmo sentido daquilo que afirmamos, o Professor e Desembargador Walter Moraes, que foi, na expressão do também Professor e Desembargador Ricardo Dip, “reconhecido mestre no direito privado, a quem se atribuía, com justa indicação, a palma de maior teórico brasileiro dos direitos da personalidade” [1], analisando o supracitado dispositivo do Código Penal Pátrio, salienta que “quanto ao aborto, a lei diz ‘não se pune’. Suprime a pena. Fica o crime” [2].  Ainda no mesmo diapasão, o Professor Ricardo Dip, como Walter Moraes, exemplar magistrado e brilhante cultor do Direito, pondera, dentre outras coisas, que:



(a) a regra do inciso I, artigo 128, Código Penal, referível ao aborto dito necessário, consagra hipótese, no limite, de dirimente ou elisiva de culpabilidade, quando não de escusa absolutória



(b) a norma do inciso II, artigo 128, Código Penal, versando o chamado aborto sentimental, concerne a mera isenção de pena ou escusa absolutória



(c) de lege ferenda, cabe a revogação do inciso I, artigo 128, Código Penal, por míngua do suposto de fato de sua incidência



(d) uma política adequada de direitos humanos, para real efetivação das normas do Pacto de São José da Costa Rica, que foram ratificadas sem reserva pelo Governo brasileiro, impõe auxílio material e psicológico para as vítimas de estupro, com o escopo de reduzir os casos de violação impunível do direito à vida (inciso II, artigo 128, Código Penal)



(e) inexistindo, no direito brasileiro em vigor, a ultrapassada figura do aborto legal, toda e qualquer prática estatal de auxílio à efetivação de abortos não–puníveis (p.ex., mediante a concessão de alvarás para a prática do crime ou instituindo serviços públicos hospitalários para matar as crianças) é atentatória dos preceitos do Pacto de São José da Costa Rica e de todo o sistema americano de direitos humanos [3].



A derradeira citação que faremos, no mesmo sentido, é de Hélio Bicudo, que, quando Deputado Federal pelo autoproclamado Partido dos Trabalhadores, do qual mais tarde se afastou em virtude, sobretudo, da ideologia e política abortista deste, bem como da corrupção que nele grassava e ainda grassa, sublinhou que o supra-aludido dispositivo legal “não desclassifica o crime de aborto”, apenas concedendo, “nos casos que contempla, a não punição desse delito, dispondo, in verbis: ‘não se pune o aborto praticado por médico: I- se não há outro meio de salvar a vida da gestante (aborto necessário); II- se a gravidez resulta de estupro’”. Em seguida, sublinha Bicudo que “no primeiro caso, o progresso nas técnicas de correção e proteção da gravidez, reduzem a percentuais insignificantes as hipóteses em que se configura o estado de necessidade”, ao passo que, no segundo, “esbarra-se no fato de que o artigo 5º, da Constituição Federal, garante a inviolabilidade do direito à vida”, sendo, pois, aquele dispositivo legal, flagrantemente inconstitucional [4].

Há décadas já que os inimigos da Nação Brasileira e da Civilização Cristã, querendo impedir o desenvolvimento do Brasil e de outros países ditos emergentes, vêm fazendo tudo o que podem para nos impor o aborto e o controle de natalidade, conscientes que estão de que menos numerosos seremos mais fracos. Quanto aos patriotas sinceros que acreditam nas absurdas falácias repetidas pelos fariseus adoradores do Bezerro de Ouro e de Mamon, que pretendem escravizar cada vez mais as nações, e pelos servos conscientes ou inconscientes destes, os agentes do imperialismo econômico e do “Governo Mundial”, devemos mostrar a eles o antiexemplo da Europa, que, graças às baixíssimas taxas de natalidade resultantes de políticas antinatalistas, está vivendo uma crise talvez irreversível.

  Agora que a ONU, instrumento por excelência das forças materialistas, anticristãs e antinacionais do mamonismo internacional, pressiona o governo brasileiro a violar a sua Constituição jurídico-formal, o Pacto de São José da Costa Rica e, é claro, o Direito Natural e a Constituição Tradicional, Social e Orgânica da Terra de Santa Cruz, com base no fantasioso número de duzentas mil mulheres mortas por ano, no Brasil, em abortos clandestinos [5], e que as mesmas forças conseguiram pressionar a comissão revisora do Código Penal no sentido de ampliação dos casos em que o crime de aborto não é penalizado, o que provocará, caso aprovado, a morte real de centenas de milhares de nascituros inocentes todos os anos em nosso País, além de instaurar a eutanásia não penalizada em caso de doença grave e irreversível, atestada por dois médicos e com consentimento do paciente ou da família, nós, soldados de Deus e da Terra de Santa Cruz, devemos nos unir numa grande frente em defesa da Vida e das Tradições Cristãs do Brasil e em prol da plena restauração da Civilização Cristã. Nossos inimigos, as forças da antiTradição e do antiBrasil, agentes da internacional dourada e da internacional vermelha, têm a seu lado o grande poder econômico-financeiro e a grande imprensa burguesa, e são bancados por organizações poderosíssimas, a exemplo das fundações Ford e MacArthur, sem falar na própria ONU, mas nós temos, ao nosso lado, Cristo Rei e Sua Imaculada Mãe, bem como os nossos maiores, e, moralmente, a vitória já nos pertence.



Por Deus, pela Pátria e pela Família!



[1] DIP, Ricardo Henry M. Sobre o aborto legal: compreensão reacionária da normativa “versus” busca progressiva do Direito. In VV.AA. A vida dos Direitos Humanos: Bioética Médica e Jurídica. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 1999, p. 390.

[2] MORAES, Walter. O problema da autorização judicial para o aborto, in Revista de Jurisprudência do Tribunal de Justiça de São Paulo, São Paulo, Ed. Lex, vol. 99, março/abril de 1986, p. 21.

[3] DIP, Ricardo Henry M. Sobre o aborto legal: compreensão reacionária da normativa “versus” busca progressiva do Direito, cit., pp. 401-402.

[4] BICUDO, Hélio. Direitos Humanos no Parlamento brasileiro. In VV.AA. A vida dos Direitos Humanos: Bioética Médica e Jurídica, cit., p. 102.

[5] Se tais números estivessem corretos praticamente nove entre dez mulheres em idade fértil do Brasil mortas entre agosto de 2009 e julho de 2010 teriam morrido por conta de abortos mal-sucedidos...

Friday, March 16, 2012

Em defesa dos símbolos religiosos e contra os inimigos do Brasil


Parte do quadro "A Primeira Missa no Brasil, de Victor Meirelles

Em defesa dos símbolos religiosos e contra os inimigos do Brasil*



O MPF (Ministério Público Federal) de São Paulo determinou, em 2009, a retirada de crucifixos de edifícios públicos federais, em nome da defesa do “Estado laico”, ou melhor, laicista ou mesmo ateísta militante, sob a alegação de que os não católicos se sentiriam ofendidos com aqueles símbolos. O pedido, porém, foi negado em primeira instância, havendo a juíza responsável, sabiamente, considerado natural a exibição de crucifixos em um País de “formação histórico-cultural cristã”.

Há poucos dias, o Conselho da Magistratura do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul acatou pedido da “ONG Liga Brasileira de Lésbicas” no sentido de retirar crucifixos e demais símbolos religiosos de todas as salas dos espaços públicos dos prédios da Justiça daquele Estado, enquanto o Presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) do Rio de Janeiro, Wadih Damous, bem conhecido por sua defesa da liberalização do aborto e das drogas, criticou a presença de um crucifixo no plenário do STF (Supremo Tribunal Federal), que reputa inconstitucional.

Antes de prosseguir em nossas breves e singelas considerações a respeito de tal questão, reputamos oportuno assinalar que não concordamos apenas com o Estado laicista e o Estado ateu militante, mas com a própria ideia de Estado laico, defendendo um Estado que afirme Cristo e Seu Reinado Social, e que, embora tenhamos empregado o adjetivo “federal” e nos referido ao Rio Grande do Sul como “Estado”, consideramos que o Brasil, por sua natureza e Tradição Histórica, não é uma Federação composta por Estados, mas sim um Império constituído por Municípios, suas células políticas naturais, e por Províncias.           

            Conhecemos diversos não católicos, muitos dos quais, inclusive, ateus, que não apenas não são contrários à presença de símbolos religiosos católicos em locais públicos como também a apóiam, conscientes que estão de que o Brasil, nascido e crescido sob o signo da Cruz e do espírito de Cruzada que animou a Reconquista, as Grandes Navegações, o Bandeirismo, a guerra de expulsão contra os holandeses e tantos outros gloriosos episódios de nossa História, é uma Nação essencialmente cristã. Do mesmo modo, todos têm a intuição de que os símbolos religiosos não ferem a Constituição jurídico-formal brasileira e de que a presença destes no espaço público é, ao contrário, reclamada por nossa Constituição Histórico-Tradicional e Social, anterior e superior àquela.

Assim, só se podem ofender com a presença de símbolos religiosos os inimigos do Brasil, de sua Tradição, de sua Cultura, de sua Constituição Histórico-Tradicional e Social, militantes não só anticristãos e antinacionais como também antinaturais, que, para ser coerentes, deveriam defender, por exemplo, a destruição da estátua do Cristo Redentor, o fim dos feriados religiosos e a mudança de denominação de todos os Municípios e Províncias com nomes de santos, sem falar no afastamento de princípios cristãos como a Justiça Social, a Dignidade da Pessoa Humana e a Função Social da Propriedade, em sua definição tomista, adotada em nosso ordenamento jurídico.

Contra esses pequenos e grandes inimigos da Pátria e da Tradição Brasileira, agentes das forças de dissolução moral e social da Nação, servos da internacional dourada e da internacional vermelha, ambas controladas pela mesma chandala de fariseus, devemos nós outros, as pessoas de bem, nos unir, constituindo uma frente ampla em defesa dos valores perenes sintetizados na divisa “Deus, Pátria e Família”, formando, assim, uma autêntica aristocracia da virtude, digna de combater na Grande Cruzada que se faz necessária para a salvação do Brasil e de toda a Cristandade. Que nossa palavra de ordem seja o brado dos soldados carlistas de Espanha e dos cristeros do México: Viva Cristo Rei!

Por Cristo, pelo Brasil e pela instauração de uma Nova Civilização Cristã!





Victor Emanuel Vilela Barbuy, Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira.

São Paulo, 16 de março de 2012-LXXIX.


* Texto publicado originalmente em: http://www.integralismo.org.br/?cont=781&ox=145

Thursday, March 15, 2012

O Integralista


O Integralista*



O Integralista é o soldado de Deus, da Pátria e da Família, o bandeirante de Cristo e da Nação, que construirá um Grande Império e restaurará, no Brasil, a autêntica Civilização Cristã.

O Integralista é o legionário da Fé e da Brasilidade, o Homem Novo desta Grande Nação do Ontem e do Amanhã, que, com têmpera de apóstolo e de combatente, derrotará o cepticismo, a apatia, a descrença, a covardia, o hedonismo e a avareza, fazendo triunfar o Espírito Nobre sobre o Espírito Burguês, Cristo sobre Mamon e o Bezerro de Ouro, Ariel sobre Calibã.

O Integralista é o contemporâneo do Porvir, que, defendendo os augustos valores do Passado, combate no Presente para se tornar senhor do Futuro. É, pois, aquele que se serve do Hoje para unir o Ontem ao Amanhã, tendo, graças ao conhecimento da História e da Tradição, sabedoria acumulada ao longo dos séculos e das gerações, a amplitude de visão necessária para efetivamente compreender os acontecimentos da hora que passa e antever aqueles dos dias vindouros. É, em uma palavra, o caminheiro do Pretérito, do Presente e do Porvir, que sabe buscar nos grandes exemplos do Ontem a seiva que vivifica a fé edificadora do Amanhã.

O Integralista é o cavaleiro da Nova Reconquista, da Nova Cruzada dos Tempos Novos, em que os inimigos não são as hordas maometanas, mas sim as hostes do materialismo e do Espírito da Burguesia, agentes, conscientes ou não, dos fariseus que controlam a internacional dourada e a internacional vermelha, da vil choldra de argentários que escraviza todas as Nações do Orbe e que se banqueteia, surda ao clamor e aos gemidos das multidões despossuídas.

 O Integralista é o arauto da Justiça, da Ordem, da Disciplina, do Bem Comum, da Harmonia Social, da Autoridade e da Liberdade, o paladino da Sociedade Orgânica e dos Grupos Naturais que a compõem, dos quais o primeiro e mais fundamental é a Família.

O Integralista é a pedra viva do Estado Integral, que não é senão o Estado Ético, antitotalitário e antiindividualista, meio e não fim da Pessoa Humana, e, nas inspiradas palavras de Plínio Salgado, “o Estado que vem de Cristo, inspira-se em Cristo, age por Cristo e vai para Cristo” [1].

O Integralista é um modelo de sacrifício e de abnegação em prol da Nação, que ama acima de tudo, exceto de Deus e dos princípios morais e sociais decorrentes da Sua Lei, estando disposto a tudo dar ao Brasil, inclusive a vida, sem nada pedir em troca e, como salienta Gustavo Barroso, a regar as “Sagradas Tradições Cristãs do Brasil”, se necessário for, com o “próprio sangue para que melhor resplandeçam no futuro” [2].

O Integralista é, por fim, aquele que, como seus maiores que a seu lado caminham, ombro a ombro, prefere quebrar a vergar e, como o papagaio do Ganges, do velho mito narrado nas páginas do Tripitaka e evocado por Gustavo Barroso [3], está sempre cumprindo o seu dever, não se preocupando com os resultados.



Por Cristo e pela Nação!

Victor Emanuel Vilela Barbuy

São Paulo, 28 de fevereiro de 2012.



[1] SALGADO, Plínio. Cristo e o Estado Integral (peroração de discurso proferido a 12 de junho de 1937, na Sessão Soleníssima das Cortes do Sigma). In Idem. O Integralismo perante a Nação. 4ª ed. In Idem. Obras Completas. 2ª ed., vol. IX. São Paulo: Editora das Américas, 1959, p. 201.

[2] BARROSO, Gustavo. Breviário do Camisa-Verde. Apud Idem. Comunismo, Cristianismo e Corporativismo. Rio de Janeiro: Empresa Editora ABC Limitada, 1938, p. 99.

[3] Idem. Espírito do século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira S/A, 1936, pp. 289-290. Segue, nas palavras de Barroso, a história do papagaio do Ganges: “Certa vez, um papagaio, regressando à floresta onde morava, nas margens do Ganges, pousou instantes numa árvore da montanha próxima. E todos os animais que ali viviam o receberam com as melhores provas de agrado, pedindo-lhe muito que ficasse vivendo com eles. O papagaio recusou polidamente, mas não esqueceu aquela boa acolhida.

Tempos depois, temeroso incêndio irrompeu nas matas dessa montanha e começou a devorá-las rapidamente. Todos os animais, loucos de pavor, fugiam ou gritavam. As fêmeas corriam aos ninhos para salvar os filhos. O papagaio, vendo o que se passava, ficou muito aflito. Correu ao rio, meteu-se na água e começou a voar sobre as chamas. Com a água que conseguia trazer nas penas das asas aspergia o fogo, a fim de apagá-lo. Ia ao rio e vinha incessantemente, repetindo essa manobra, quando um abutre do pescoço pelado, que calmamente esperava o fim do incêndio para devorar os pobres bichos grelhados, lhe disse com risinho de zombaria:
- Ó papagaio, que tolice é essa que estás fazendo? Não vês que esses pinguinhos de água não extinguirão o incêndio da floresta?
O papagaio replicou-lhe com desprezo:
- O que menos me preocupa, abutre, é o resultado. Estou cumprindo meu dever”.

  

*Texto publicado no boletim Ação!, ano I, nº 6, janeiro-fevereiro de 2012, p. 4.

Monday, February 20, 2012


Ítalo Galli - In memoriam






Foi com profundo pesar que recebemos a notícia da partida do nobre companheiro Ítalo Galli para a já tão grande “Milícia do Além”, embora saibamos que este exemplar católico estará muito melhor no Outro Mundo do que na Terra. Entregou ele a alma a Deus, na esperança de gozar da eterna beatitude, na última segunda-feira, dia 13 de fevereiro, aos noventa e oito anos de idade, nesta Capital Bandeirante de tão gloriosas tradições, em que viveu tantos anos de sua longa e profícua existência terrena aquele ilustre filho do interior da Província Paulista, deixando cinco filhos dos seis que teve com a esposa, Alayde Del Vecchio, fiel e dedicada companheira e infatigável colaboradora, já falecida, além de netos e bisnetos.

            Varão das mais excelsas virtudes morais e intelectuais, Juiz e, posteriormente, Desembargador dos mais cultos, sábios, lúcidos, justos e dignos que já passaram pela Magistratura Paulista, autor de ensaios em que sustenta, galhardamente, a Justiça, a Moral, os Bons-Costumes, o Direito e o Bem Comum, sempre orientado pela Teologia e pela Filosofia de Santo Tomás de Aquino e pelo pensamento tradicional, demonstrando sólido conhecimento das Sagradas Escrituras, da Doutrina da Igreja e das obras dos mais proeminentes vultos do tradicionalismo político, foi este magno defensor do Direito Natural Tradicional, ou Clássico, e da denominada Escola Clássica de Direito Penal um Magistrado que, como ressalta a revista Hora Presente, sempre espelhou em seus “arestos uma formação jurídica que deita fundas raízes na filosofia e humanismo cristãos, permitindo-lhe fazer da lei verdadeiro instrumento da justiça e não mera cibernetização juridicista” [1]. Este humanismo, é claro, nada tem que ver com o humanismo antropocêntrico e antitradicional, sendo, antes, um humanismo teocêntrico, cristão e tradicional da mesma cepa daquele que tão belamente floresceu na Europa desde o princípio da denominada Baixa Idade Média e que teve, em nosso Mundo Lusíada, o apogeu na obra de Dom Jerónimo Osório, último Bispo de Silves e primeiro Bispo do Faro, que deixou este Mundo no ano de 1580 e foi considerado por Francisco Elías de Tejada não apenas “o máximo pensador político dos povos hispânicos” [2], como, ainda, “o supremo pensador hispânico, português e castelhano, de todos os séculos” [3].

            Nascido no povoado de Marcondésia, no Município de Monte Azul Paulista, em 20 de agosto de 1913, Ítalo Galli se formou em Direito no Rio de Janeiro, cidade em que conheceu o Integralismo e em que, tendo notado que a Doutrina deste se conciliava plenamente com a Doutrina Católica, como reconheceriam inúmeros bispos, sacerdotes e pensadores leigos católicos dos mais eminentes, muitos dos quais adeririam àquele Movimento de renovação social e cultural inspirado nas lídimas raízes, ou tradições, da Terra de Santa Cruz, ingressou, ele também, nesta admirável escola de Moralidade, Civismo, Patriotismo e Nacionalismo, luminoso foco de irradiação, inexpugnável cidadela e vigilante atalaia do Brasil Profundo, Autêntico e Verdadeiro, se fazendo, assim, um soldado de Deus, da Pátria e da Família. Mais tarde, já formado e residindo no Município de Olímpia, no interior de São Paulo, se tornou Chefe Municipal da Ação Integralista Brasileira naquela localidade, cujo núcleo depois passou a abranger a Municipalidade vizinha de Nova Granada.          Profundamente influenciado por Plínio Salgado, o tão ilustre quanto injustiçado autor da Vida de Jesus, “grande monumento elevado à glória de Cristo” e “joia de uma literatura”, na abalizada opinião do Padre Leonel Franca [4], Ítalo Galli, que permaneceu integralista até o fim de sua caminhada sobre a Terra e cujo filho Ivo teve como padrinho de batismo ninguém menos que o próprio Chefe Nacional, sempre evocou os ensinamentos profundamente cristãos e brasileiros expressos nos brilhantes livros, artigos, manifestos e discursos plinianos, especialmente a frase que inicia o chamado Manifesto de Outubro, de 1932, que é “Deus dirige o destino dos povos”, e a peroração do discurso proferido a 12 de junho de 1937 na Sessão Soleníssima das Cortes do Sigma, realizada no Instituto Nacional de Música, no Rio de Janeiro. Nesta peroração, após afirmar, dentre outras coisas, que, em seu sentir, o Estado Integral é “O Estado que vem de Cristo, inspira-se em Cristo, age por Cristo e vai para Cristo”, Plínio faz a profissão pública de sua fé, afirmando sua crença em “Deus Eterno”, na “Alma Imortal” da Pessoa Humana e no “poder optativo, deliberativo” desta e em “sua capacidade de interferência nos fatos históricos”, bem como em “Cristo e na luz que d’Ele desce”, sublinhando que fora por Cristo que se levantara; por Cristo que queria “um grande Brasil”; por Cristo que ensinava “a doutrina da solidariedade humana e da harmonia social”; por Cristo que lutava; por Cristo que conclamava e conduzia os integralistas e por Cristo que batalharia [5].              

                As palavras de Plínio Salgado, que, como salienta João Ameal, sempre escreveu, falou, apostolizou “sob a luz perene da obediência a Cristo” [6] e que é, no dizer de Hipólito Raposo, “o mais eloquente intérprete da Brasilidade” [7] e, na expressão de Francisco Elías de Tejada, o “profeta incandescente e sublime de seu povo”, a “encarnação viva do Brasil melhor” [8], levantou, como salienta este último, desde sua conversão espiritual e intelectual, em 1918, “duas colunas solidíssimas”, que não são senão “Cristo e o Brasil”, concebendo “o Integralismo como ação, como volta à Tradição brasileira”. E Cristo e o Brasil foram também os consistentíssimos pilares que ergueu, durante toda a vida, Ítalo Galli, que, como frisa Miguel Reale, foi, na Ação Integralista Brasileira, um daqueles “jovens brilhantes” e de “firme formação católico-social” que mais perto se encontravam do pensamento de Plínio Salgado, ao lado de outros como os então futuros ilustres juristas Alfredo Buzaid e Goffredo Telles Junior [9].

            Ítalo Galli ingressou na Magistratura, como Juiz Substituto, em 1941. No ano seguinte foi promovido a Juiz de Direito de 1ª Entrância, indo para Apiaí, e em 1946 recebeu a promoção para a 2ª Entrância, se tornando Juiz de São José do Rio Pardo. Em 1954, foi promovido à 3ª Entrância, seguindo para a Capital Paulista e, no mesmo ano, promovido à 4ª Entrância, se transferiu para Campinas, cidade em que já hoje existe uma rua que leva o seu nome, dali se removendo, algum tempo mais tarde, para a 17ª Vara Criminal de São Paulo. Em 1965, se tornou Juiz de 2ª Instância, no Tribunal de Alçada Criminal de São Paulo, cuja presidência assumiria em 1972, e, em 1976, tomou posse do cargo de Desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo, de que seria Vice-Presidente e no qual se aposentaria em 1983, por haver atingido a idade limite. Magistrado exemplar, bastariam, para imortalizá-lo, as palavras de outro exemplar Magistrado, o Desembargador Ricardo Dip, em depoimento sobre o também exemplar Magistrado Antônio Carlos Alves Braga, outro insigne soldado de Deus, da Pátria e da Família, que chegou, dentre outros, aos cargos de Presidente do Tribunal Regional Eleitoral e de Corregedor-Geral da Justiça de São Paulo, quando Dip salienta que Ítalo Galli foi seu “primeiro e grande modelo na Magistratura” [10].

            O memorável discurso proferido por Ítalo Galli na ocasião em que tomou posse como Desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo foi publicado na revista Hora Presente, sob o feliz título de Verdades que precisam ser ditas, e, posteriormente, em sua pequena grande obra Os Direitos da Moral, de 1992. Esta brilhante peça de oratória, em que os dotes de pensador vigoroso e profundo se conjugam com aqueles de varão de ilibadas virtudes morais e de engenhoso artífice da palavra; esta brilhante peça de oratória em que abundam edificantes citações de autores como o Apóstolo São Paulo, Santo Tomás de Aquino, Donoso Cortés, Vázquez de Mella, Ventura de Raulica, Louis Veuillot, Chesterton, Jean Ousset, João Ameal e José Pedro Galvão de Sousa, sem falar naquelas do Rui Barbosa da Oração aos moços, em diversos pontos plenamente de acordo com a Doutrina Católica; esta brilhante peça de oratória, em que se demonstra magistralmente a importância vital da fé e do respeito à Lei Eterna para o bem das nações, enfim, termina da seguinte forma:



... quando os fundamentos de nossa fé, sustentáculo da moral e do direito, se vêm abalados pelos próprios ministros consagrados para alimentá-la e mantê-la, chegou a hora de recorrermos à advertência do Apóstolo das Gentes aos Gálatas: “Se alguém vos anunciar um Evangelho diferente daquele que recebestes, seja anátema; e ainda que nós mesmos ou um Anjo do céu vos anuncie um Evangelho diferente daquele que vos temos anunciado, seja anátema” (Gálatas, I, 8, 9).

E oxalá esta Casa, de tão belas tradições, cuja grandeza e cujo justo renome foi alcançado pela elevação moral e intelectual de seus Juízes, o último dos quais tenho a honra de suceder, continue a proclamar e a fazer jus àquele ideal de envergadura proclamado por Rui:

“Todo o bom magistrado tem muito de heróico em si mesmo, na pureza imaculada e na plácida rigidez, que a nada se dobre e de nada se tema, senão da outra justiça, assente, cá em baixo, na consciência das nações, e culminante, lá em cima, no juízo divino” (Oração aos Moços).       

Somente assim, quando tivermos de prestar contas dos ‘talentos’ que Deus nos confiou, é que poderemos dizer como o Apóstolo São Paulo:

 “Senhor, combati o bom combate, consumei minha carreira, guardei minha fé”. Aplicai a Vossa justiça, mitigada pela Vossa imensa misericórdia [11].



            Sempre fiel aos seus nobilíssimos princípios e ideais, num tempo em que, como ele mesmo dizia, em Os Direitos da Moral, citando o poeta irlandês W. B. Yeats, “os melhores perderam toda a convicção”, e “os piores estão cheios de apaixonada certeza”, foi Galli um homem que não apenas proclamou, corajosamente, a necessidade de que “os melhores reencontrem toda sua tradicional convicção”, enquanto os piores percam sua “apaixonada certeza” [12], como foi uma honrosíssima exceção àquela que tem sido a regra entre os melhores, jamais perdendo sua convicção nos grandes princípios e ideais e jamais se fatigando de pelejar por eles.

            Não podemos concluir estas linhas sem recordar que Ítalo Galli pertenceu - ao lado de José Pedro Galvão de Sousa, Adib Casseb, Clóvis Lema Garcia, José Fraga Teixeira de Carvalho, Alfredo Leite, José Orsini e Claudio de Cicco, dentre outros, - àquele grupo a que o Professor e Desembargador Ricardo Dip, em belo depoimento sobre Arlindo Veiga dos Santos, qualificou de “grande movimento tradicionalista de Hora Presente” [13], que não se limitou à importantíssima revista de mesmo nome, de cujo Conselho Diretor fez parte e que se configura num dos mais admiráveis repositórios de cultura tradicionalista do Brasil, afirmando, nos campos religioso e político, a Doutrina Tradicionalista, e, nos planos teológico e filosófico, a Doutrina Tomista.

            Seja esta a breve síntese do muito que poderíamos dizer a respeito do notável e saudoso companheiro Ítalo Galli, a quem transmitimos a homenagem póstuma da Casa de Plínio Salgado, instituição de que foi ele um dos mais fiéis colaboradores, bem como da Frente Integralista Brasileira, do Centro de Estudos Gustavo Barroso e do Centro de Estudos Professor Arlindo Veiga dos Santos. Que Deus nos conceda, como concedeu ao companheiro Ítalo Galli, a honra de permanecer, até o fim de nossa caminhada terrena, fiéis aos valores da Fé e da Tradição, e que Ele suscite, na atual geração e nas gerações futuras, homens com qualidades morais e intelectuais semelhantes àquelas de Galli e que sejam depositários e continuadores dos augustos ideais a que este varão, ilustríssimo no saber e nas virtudes, dedicou toda a sua vida, podendo dizer, como ele, ao final da caminhada, que combateram o bom combate, consumaram sua carreira e guardaram a sua fé.

            Por Cristo e pela Nação Brasileira!



Victor Emanuel Vilela Barbuy, Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira, Vice-Presidente da Casa de Plínio Salgado e membro do Centro de Estudos Gustavo Barroso e do Centro de Estudos Professor Alindo Veiga dos Santos.



São Paulo, 20 de fevereiro de 2012-LXXIX.



Notas:

[1] Hora Presente, ano VI, nº 15, São Paulo, março de 1974, p. 158.

[2] ELÍAS DE TEJADA, Francisco. La Tradición portuguesa: Los Orígenes (1140-1521). Madri: Fundación Francisco Elías de Tejada y Erasmo Pèrcopo y Editorial ACTAS, s.l. , 1999, p. 17.

[3] Idem, p. 37.

[4] FRANCA, Leonel. Carta a Plínio Salgado. In SALGADO, Plínio. Vida de Jesus. 22ª ed. Prefácio de Marco Maciel. São Paulo: Voz do Oeste, 1985, pp. IX/XI.

[5] SALGADO, Plínio. Cristo e o Estado Integral. In Idem. . O Integralismo perante a Nação. 5ª ed. In Idem. Obras Completas. 2ª ed., vol. IX. São Paulo: Editora das Américas, 1959, pp. 201-203.

[6] AMEAL, João. Plínio Salgado ou a nova luta por Cristo. In VV.AA. Plínio Salgado: “in memoriam”. Vol. II. São Paulo: Voz do Oeste/Casa de Plínio Salgado, 1986, p. 129.

[7] RAPOSO, Hipólito. A notável oração do Dr. Hipólito Raposo. In Uma reportagem histórica (pubicada originalmente no jornal A Voz, de Lisboa, a 23 de junho de 1946). In VV.AA. Plínio Salgado: “in memoriam”. Vol. II, p. 189.

[8] ELÍAS DE TEJADA, Francisco. Plínio Salgado na Tradição do Brasil. Trad. de Gerardo Dantas Barreto. In VV.AA. Plínio Salgado: “in memoriam”. Vol. II, cit., pp. 47-48.

[9] REALE, Miguel. Memórias. Vol. I. Destinos cruzados. São Paulo: Saraiva, 1987, p. 82.

[10] DIP, Ricardo. Alves Braga, exemplo de permanência. In NALINI, José Renato (Org.). Tributo a Antonio Carlos Alves Braga. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2001, p. 96.

[11] GALLI, Ítalo. Verdades que precisam ser ditas. In Hora Presente, ano VIII, nº 23, outubro de 1977, p. 209; Idem. Discurso de Posse no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. In Idem. Os Direitos da Moral. São Paulo: Ed. do autor, 1992, pp. 45-46. Este livro reúne, além do discurso de posse no Tribunal de Justiça, o ensaio Os Direitos da Moral e o Prólogo à edição brasileira do célebre livro do Monsenhor Emílio Silva sobre a pena de morte.

[12] Idem. Os Direitos da Moral, cit., p. 22.

[13] DIP, Ricardo. Arlindo Veiga dos Santos: o poeta brasileiro de Pátria Nova. Trad. do texto original em castelhano por Fernando Rodrigues Batista. In http://reconquistabr.blogspot.com/2007/03/arlindo-veiga-dos-santos-o-poeta.html. Acesso em 20 de fevereiro de 2012.




Thursday, February 09, 2012

Declaração do IV Congresso Nacional da Frente Integralista Brasileira

Alguns dos participantes do IV Congresso Nacional da Frente Integralista Brasileira
Nós, representantes da Frente Integralista Brasileira, que teve em São Paulo, nos últimos dias 04 e 05 de Fevereiro, o seu IV Congresso Nacional, de que participaram integralistas de diversas partes do Brasil, assim como representantes de diferentes organizações amigas, agradecendo a Deus pela boa conclusão dos trabalhos do referido evento, apresentamos, aqui, de forma bastante sucinta, os seus resultados e as suas conclusões:
Reforçamos nosso compromisso com a defesa de Deus, da Pátria e da Família, bem como das tradições cristãs da Nação Brasileira, das liberdades concretas do nosso Povo, da Justiça Social, da Propriedade condicionada aos deveres do proprietário para com o Bem Comum e, é claro, da dignidade e intangibilidade da Pessoa Humana e de sua vida, desde a concepção até a morte natural. Reforçamos, do mesmo modo, nosso compromisso com a luta em prol da edificação, no Brasil, de uma autêntica Democracia Orgânica e de um genuíno Estado Ético Integral de Justiça, assim como com o combate ao materialismo, ao individualismo, ao liberalismo, ao comunismo e às políticas governamentais em prol da legalização do aborto, da promoção da pornografia, do incentivo ao homossexualismo, do controle populacional e da reengenharia cultural, políticas essas que têm pretendido destruir totalmente os valores cristãos no Brasil e no Mundo, desfibrando, assim, as nações;
Repudiamos o desrespeito à Constituição escrita pelo próprio Estado, e, mais ainda, o desrespeito deste pela Constituição Tradicional, Natural, Orgânica e Histórico-Social da Nação, anterior e superior àquela;
Denunciamos o Governo Federal por uso do aparato estatal a serviço do autoproclamado Partido dos Trabalhadores na tentativa de promover verdadeira perseguição política e de intimidar brasileiros honestos e comprometidos com a Verdade, muitos deles neste momento cumprindo exílio em território estrangeiro;
Apresentamos novos projetos de comunicação e segurança da informação que julgamos indispensáveis ao desenvolvimento de nossa organização, tendo em vista o cenário político apresentado;
 Verificamos significativo avanço na elaboração de nosso programa de governo, que, inicialmente, deverá ser distribuído às delegações participantes para desenvolvimento;
Ampliaremos nossa atuação no campo das relações internacionais, desenvolvendo o contato com outras organizações tradicionalistas, patrióticas e nacionalistas e observando o panorama geopolítico em todos os continentes com prudente e merecida atenção;
Fixamos metas de trabalho em todos os níveis, visando o estabelecimento e a regulamentação de núcleos da Frente Integralista Brasileira em todas as províncias do Brasil, bem como o aperfeiçoamento intelectual e cultural dos núcleos e incentivamos uma atitude política ativa nas localidades em que atuam;
Reforçamos a necessidade de trabalho voltado às eleições municipais, provinciais e nacionais;
Saudamos o trabalho das demais organizações que, pautadas sob propósitos semelhantes aos nossos, têm desenvolvido importante trabalho em defesa do Brasil Profundo, Autêntico e Verdadeiro e de suas mais lídimas tradições;
Temos a satisfação de informar que, durante a realização deste evento, aderiram à nossa organização o Centro de Estudos Gustavo Barroso e seu fundador e presidente, o ilustre Companheiro Rômulo Augusto Romero Fontes, a quem apoiaremos em seus projetos editoriais, todos eles pautados na mais estrita fidelidade aos ideais essencialmente cristãos e brasileiros da Doutrina do Sigma;
Por fim, prestamos merecidas homenagens àqueles que tombaram – anônimos ou não – defendendo a bandeira azul e branca e aos que trabalharam sem medir esforços em defesa dos ideais autênticos da Nação Brasileira.
Pelo Bem do Brasil!
Anauê!


Algumas fotografias do encontro:

Friday, January 20, 2012

Presença de Cristo em dois livros de Plínio Salgado

João Ameal

Segue belíssimo texto do grande historiador, pensador e doutrinador tradicionalista, patriótico e nacionalista português João Francisco de Sande Barbosa de Azevedo e Bourbon Aires de Campos, 2.º Visconde e 3.º Conde do Ameal, mais conhecido pelo pseudônimo de João Ameal (1902-1982), intitulado Presença de Cristo em dois livros de Plínio Salgado e extraído da obra A verdade é só uma (Porto: Livraria Tavares Martins, 1960, pp. 41-53). O texto, que aqui apresentamos na ortografia original, também pode ser encontrado no segundo volume da obra coletiva Plínio Salgado: “in memoriam” (São Paulo: Voz do Oeste/Casa de Plínio Salgado, 1986, pp. 148-156).

Fique o leitor com essas belas páginas do ilustre autor da História de Portugal, de São Tomás de Aquino e de Europa e os seus fantasmas, que é, como seu amigo e irmão de ideal Plínio Salgado, um bravo adail da Fé, da Tradição e do Império, um augusto cavaleiro da Nova Reconquista.

  

Presença de Cristo em dois livros de Plínio Salgado

Por João Ameal



Dizia Leopoldo Levaux – um crítico belga desconhecido, segundo creio, em Portugal – haver certas obras que por si mesmas julgam os seus autores. Trata-se (acrescentava Levaux) de obras consagradas aos mais amplos temas, fora da medida comum. O simples facto de se dedicar a tarefas dessa ordem classifica e revela a envergadura, não só intelectual mas moral, de quem assim volta intrèpidamente as costas às facilidades da improvisação e do menor-esforço e tenta empresas de grande vulto e de grande rasgo... Poder-se-ia resumir tal ponto de vista como variante adequada do velho aforismo popular: “diz-me o que visas, dir-te-ei quem és...”

Num momento como este, perante as mil interrogações e apreensões que enchem o horizonte – é a hora dos pensadores e artistas visarem acima de si próprios, explorarem não as zonas brilhantes e superficiais do Efémero, mas aqueles altos domínios em que os problemas do homem, do seu destino essencial, das suas duras lutas, das suas esperanças de resgate têm de ser vistos em plena claridade, sub specie aeternitatis. Só essas vastas perspectivas são dignas de absorver os trabalhadores do Espírito – quando em redor, se joga um dos maiores dramas de todos os tempos...

... Mas quantos se mostram à altura dos apelos e das responsabilidades do instante que passa?



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            Plínio Salgado interessa-me e comove-me por ser artista – dos autênticos; e, também, por ser não apenas artista. Quando escreve ou quando fala, domina-o invariavelmente o propósito de cumprir uma alta missão. Fala ou escreve para dar testemunho da Verdade que o transcende, que nos transcende a todos e que hoje, mais do que nunca, importa proclamar e difundir. Ao lê-lo e ao escutá-lo, tomamos contato com uma “alma viva”, segundo a frase do filósofo. Mais: com uma alma que compreende o sentido total da Vida e tem o dom de acordar essa compreensão à sua volta.

Não se extravia em aspectos secundários e em temas episódicos; consagra-se a defender com ardor a Verdade integral, aquela que traz consigo todas as explicações e soluções – numa época em que os homens sofrem, por certo, das fúrias desencadeadas da guerra mecânica, da agitação social e política, da crise económica, mas sofrem, mais ainda, desse mal de raiz que é a intoxicação do espírito, feita de dúvidas mórbidas, de equívocos pérfidos, de sofismas insidiosos, de problemas supérfluos ou absurdos.

A todos os intoxicados aponta Plínio Salgado a soberana Afirmação que dissipa todas as dúvidas, a soberana Certeza que vence todos os equívocos, a soberana Realidade diante da qual todos os sofismas se esvaem e que suprime ou aclara todos os problemas.

Ao serviço de Cristo – Caminho, Verdade e Vida – põe uma lógica persuasiva e uma eloquência calorosa. Ataca de frente, com destemor, as frágeis mentiras, as paixões empolgantes, os vícios da conduta moral, as graves e ardilosas traições à inteligência. De tudo isso ensina a triunfar com facilidade e segurança. Prepara, de facto, - para empregar a sua conhecida fórmula – a vitória do Sim sobre o Não. Ante um mundo caduco, cheio de mitos decrépitos e de truísmos ocos, é a demonstração luminosa da perene juventude da Ortodoxia, da eficiência do dogmatismo fundado na Revelação – contra as várias espécies de racionalismo, de evolucionismo, de cepticismo, de materialismo concebidas pela impotente vaidade dos homens.

A Verdade que serve, com fervor de paladino, está acima do espaço como do tempo. Mostra-se, em qualquer momento da História, sempre válida – e onde quer que soe, em algum canto da Terra, nós a saudamos e nela encontramos a luz na tormenta e a esperança na batalha sem fim.



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Aqui está um livro que Linares Rivas poderia dizer “escrito con la sangre del alma”... Plínio Salgado compreendeu que um relato da Vida de Jesus tinha que ser vivido, sentido – ainda mais: sofrido. Dir-se-á, por vezes, ao longo dos seus capítulos que tão de perto acompanham os passos de Cristo na Terra, ter o escritor dispendido um esforço para em si mesmo renovar a experiência dessas remotas jornadas, gloriosas e dolorosas. “Não fiz aqui obra de erudição ou de exegese. Estas narrativas são o espelho de um sentimento que vive em mim e tudo explica em mim”. Vê-se perfeitamente como Plínio obedeceu tão profundo sentimento. A comoção, a exaltação com que escreve tornam a sua Vida de Jesus uma evocação diferente das outras, um livro único acerca de um momento único da História do Mundo.

Não se esqueceu, evidentemente, de traçar o quadro da época; fê-lo até com extraordinário vigor. Mas, para além das circunstâncias do meio e do tempo, soube ressuscitar, ante nós, a figura sempre viva e próxima de Jesus de Nazaré. De certo quis assim prestar alto serviço espiritual. No prefácio, encontro estas linhas elucidativas: - “As paixões e loucuras dos homens continuam as mesmas e a necessidade de Cristo é sempre a mesma.” Hoje, como nunca, na paisagem devastada – a necessidade de Cristo avoluma-se, cresce ainda... Não há só a batalha dos exércitos; há também a decisiva batalha das ideias, dos conceitos de Deus, do Homem e da Vida. Conforme os que venceram, tomará a Civilização um rumo de suicídio ou de convalescença...

Bem haja Plínio Salgado por nos oferecer, nesta hora, a palavra cristã da Verdade, do Amor e da Paz. O seu livro é, por isso, - sem falar já nos méritos propriamente literários – um grande livro. Numa crise de inquietação mórbida e febril como a que hoje consome a maioria dos homens, recorda as forças que tudo superam e as claridades que iluminam o caminho. Grande livro, por não ser, como tantos, apenas estéril e angustioso rol de perguntas; por ser antes fecundo manancial de respostas!



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Pode-se dizer que nesta há três protagonistas de desigual estatura.

Antes de nenhum, evidentemente, Cristo, Homem e Deus, a quem Plínio Salgado nada tira da humanidade, e nada fez perder também da sua divindade. A vida de Jesus é descrita como a de um homem pertencente a uma sociedade e uma época; mas cada um de seus actos e dos incidentes que o rodeiam possue estranho, misterioso prestígio. Entre os homens passa, de facto, o sopro do Alto – ergue-se a Presença inconfundível e inefável. Ouça-se um trecho expressivo, que restitue, ao mesmo tempo, o sabor da gente e da paisagem nazarenas e aquilo que, em Cristo, ultrapassa uma e outra:

- “Como era boa, e simples, e sem inquietações torturantes aquela vida com Jesus, sobre os barcos, abrindo as velas ao vento na superfície tranqüilo do lago de Genezaré! O sol brilhava sobre as montanhas azuis; as frondes verdes agitavam-se mansamente, emergindo nas ribanceiras; aves cortavam o firmamento translúcido. Quantas vezes, deixando os barcos, o Mestre e os discípulos galgavam a encosta das montanhas, em cujo cimo Jesus gostava de orar! Lá em baixo, ondulavam as searas cor de ouro, subia docemente o fumo dos casais; nas abas das colinas cantavam pastores, pastoreando os rebanhos... A grande lua encontrava os Treze, caminhando pelas estradas brancas; a túnica do Mestre alvejava na frente, e o luar brilhava nos seus cabelos. Tinham assim jornadeado, por aldeias e cidades, onde as multidões se aglomeravam a ouvir a palavra divina e a trazer paralíticos, cegos e surdos, que se punham a andar, a ver e a ouvir, bendizendo o jóvem profeta de Israel”.

Cristo é o primeiro protagonista do livro. No ambiente corrupto do Império Romano, em que todos os vícios e todos os desvarios se conjugam para levantar na História um grito monstruoso de orgulho materialista – lança Jesus de Nazaré a sua revolução de amor, de justiça, de restauração do homem, de amparo aos humildes, de luta sem tréguas contra os tiranos. Revolução que ràpidamente alastra, como incêndio soprado por um vento de cima. Mas atrái sobre o doce Profeta israelita a ira crescente dos poderosos e acaba por tecer à sua volta uma conjura fatal, cujo epílogo será a horrenda jornada do Calvário.

Essa conjura nos leva a falar de outro protagonista do livro: o Homem, na inumerável multiplicidade das suas máscaras, das suas reacções, dos seus destinos diversos – mas na unidade substancial da sua frágil argila pecadora. Em frente de Deus feito Homem, a pobre humanidade vulgar não acerta com o rumo. Seguem uns o Mestre; outros, invejam-nO e combatem-nO; outros caluniam-nO e atraiçoam-nO; todos, por fim, O crucificam. Jesus não se surpreende nem se indigna. Como diz Plínio Salgado, “bem conhecia e bem conhece o barro humano; bem sabia e bem sabe dos conflitos desesperadores entre a nossa carne e o nosso espírito; estava certo, como está certo, de que somos todos falíveis, todos susceptíveis de cair muitas vezes, depois de nos havermos levantado; que o homem não pode confiar no homem e que ninguém pode basear a própria virtude na própria invulnerabilidade”. As contradições humanas são-lhe familiares: - “Coragem e cobardia, verdade e mentira, desprendimento e ambição, caridade e egoismo, fé e descrença, labor e preguiça, pureza e luxúria, sobriedade e gula, paciência e desespero, amor e ódio, afirmação e negação, em suma; o Espírito e a Carne. O Espírito é leve; o Corpo é pesado. O Espírito aspira ao alto, o Corpo tende para a terra. O Espírito respira a misteriosa atmosfera do Infinito; o Corpo satisfaz-se com o ar cá de baixo. E justamente o fim maior do Nazareno é estabelecer a aliança do Corpo com o Espírito”.

Terceiro protagonista do livro: o próprio Autor. A cada momento, além de narrar os factos, com extrema fidelidade aos textos evangélicos – comenta e julga. Das luminosas palavras de Jesus vêmo-lo constantemente extrair ensinamentos novos – alguns de especial aplicação aos males do nosso tempo. A sua intervenção, por isso, longe de ser pesada ou indiscreta, converte-se em preciosa ajuda para bem colhermos tudo o que para nós havia, e continua a haver, no exemplo e na lição de Cristo.

Sirvam de eloquente amostra os desenvolvimentos tão oportunos e tão  justos acerca do velho motivo, sempre actualíssimo, das relações entre Cristo e César:

- “As palavras de Jesus dirigem-se a todos os séculos sempre que este problema se propuser: os limites do Estado, a sua área e profundidade de acção, a natureza de seu governo.

A missão do Estado não é a de Cristo, cujo reino não é deste mundo”; porque o reino do Estado é exactamente, e sòmente, “deste mundo”. Sendo o reino de César, ou do Estado, deste mundo, isso não significa que César, ou o Estado, se desinteressem do reino de Cristo, porque o reino de Cristo é para os homens, e César tem deveres espirituais como homem, como os tem na qualidade de chefe de homens.

Os direitos de César, nos limites do seu império, são exclusivos, e tão exclusivos que o próprio César os reconhece e neles não interfere. É claro que César não deverá ultrapassar as fronteiras de seu Império. Quais são essas fronteiras? As do respeito à personalidade humana e a tudo o que dela se origina, pois tais coisas já pertencem ao reino de Cristo. Jámais César deverá penetrar os umbrais da consciência dos seus dirigidos, como estes jamais deverão transpor os arcanos da consciência de César, pois no fundo da consciência o homem pertence exclusivamente a Deus. César não poderá plasmar a consciência dos seus dirigidos conforme seus caprichos, como também seus dirigidos não poderão plasmar a consciência de César, porquanto César é humano, simples cidadão do Reino de Deus, e só ele deverá saber a maneira de melhor cumprir seus deveres de cidadão.

O Povo não pode ser uma criação de César, nem César uma criação do Povo. E toda a vez que César quer criar o Povo, fabrica um monstro; e toda a vez que o Povo quer criar um César, fabrica um Anti-Cristo.

César e Cristo não são antíteses um do outro. Para que César viva não é necessário que Cristo morra; e para que Cristo impere não é preciso que César seja eliminado.

A frase de Jesus é a regra da harmonia perfeita: “a César o que é de César, a Deus o que é de Deus”.

Li até hoje algumas Vidas de Jesus. Lembro, entre as mais antigas, a venenosa obra de Renan; entre as mais recentes, o forte e belo livro de Papini, ou o de Mauriac, cheio de claridades dramáticas. Nenhuma tanto me impressionou como esta – talvez por em nenhuma ter encontrado identificação tão nítida entre o escritor e o tema. A linguagem de Plínio Salgado aparenta-se à dos próprios Evangelistas: traduz a mesma fé, o mesmo alvoroço espiritual, a mesma vocação missionária.

No final estamos longe de assistir a um epílogo, embora seja o glorioso epílogo da Ascensão. Assistimos, sim, a um começo, a um ponto de partida. Terminada a Sua trajectória na Terra, cumprida a Sua missão, nem por isso Cristo deixa de estar ao nosso lado. Pelo contrário: é agora, depois de termos visto desaparecer a Sua transitória forma humana, que O sentimos presente como nunca.

Eis em que estado de espírito se fecha o livro de Plínio Salgado – que se prolonga muito para além da simples leitura e ficará a viver em nós por largo tempo...



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“Quanto mais Dor, mais Amor!” – exclamou, um dia, um grande filósofo e um grande santo. É na hora em que a Dor se torna mais amarga, mais pungente, mais devastadora – que se devem lançar à terra as sementeiras do Amor prodigioso e misericordioso. Desse Amor que tudo cobre, tudo salva e tudo vence fala o Autor da Vida de Jesus, no pequeno volume complementar a que deu o título de A Imagem daquela noite.

 Nele se reúnem alguns ensaios e alegorias em que Plínio Salgado continua a ser infatigável pregoeiro da Verdade. Estas páginas são também escritas ao seu serviço – e resolvem-se num insistente apêlo.

Pobres dos que fecharem os olhos para não verem e cerrarem os ouvidos para não ouvirem!

A Imagem daquela noite – é, ainda, a Imagem de Cristo. De Cristo crucificado. Do Homem-Deus – vítima dos que não souberam compreendê-lO e merecê-lO e miseràvelmente O imolaram entre os seus ódios, os seus crimes, as suas blasfémias. Em redor, agitam-se os desvairados remorsos da turba assassina, os nocturnos pavores dos que principiam a adivinhar, na treva densa, sinais de expiação – e, também, a mágua dos que O deploram e O recordam e, pelo contrário, sabem que, por detrás das  espessuras da noite, abrirá a madrugada da Ressureição.

Não se trata, apenas, da evocação de um lance decisivo da História Universal. Plínio Salgado faz-nos reviver o tremendo quadro para nos colocar diante das perspectivas imutáveis que regem, hoje como então, os nossos destinos. E não tarda a formular assim a lição do Calvário, na sua perene actualidade:

- “O Cristo não veio ao mundo para ser apenas tolerado mercê de uma liberdade que se concede igualmente aos falsos profetas. Veio para ser ou rejeitado, ou aceito e proclamado. Não nos indicou terceira forma além da treva e da Luz. Sabem disso os que ardem na insónia daquela primeira noite do crime, uns vendo a própria condenação e outros a salvação na imagem do Filho do Homem a agonizar no seu madeiro.

Visão de morte e de vida, ela atravessará as idades, ressaltando nas esculturas ou estampando-se nos retábulos, à luz dúbia dos vitrais dos templos, à penumbra dos mosteiros, ou recortando-se nas paredes nuas das celas, dos hospitais, dos cárceres, ou coroada de sol, ou batida de invernia, nos átrios das ermidas solitárias e na moldura de ciprestes das necrópoles.

Mas estará mais fortemente esculpida, por todo o sempre, na consciência dos homens!

O Cristo Crucificado não sairá mais do mundo. Será inútil fugir d’Ele, escondendo-se no agnosticismo de Pilatos, na ironia de Herodes ou na impenitência do Sinédrio. Ignorá-Lo é impossível. Tentar esquecê-Lo é esforço vão”.



Um dos mais belos trechos, o “Menino e o Homem”, convida-nos a uma espécie de ressurgimento interior, isto é, a descobrir outra vez as puras nascentes da graça divina – claras e frescas, tais quais em nós fluíram nas jornadas iniciais da Infância. Do que os homens sofrem, acima de tudo, é da perda do Estado de Graça – e da irreparável nostalgia por ele deixada em cada alma. Mostra-lhes o escritor, como supremo objetivo, a reconquista dessa plenitude, sem a qual não poderão encontrar o remédio para as suas amarguras, as suas ansiedades e os seus problemas.

Ante a imagem daquela tenebrosa noite do Gólgota, Plínio Salgado ilumina, com seu verbo de fogo, os rumos promissores do Novo Dia!