Sunday, February 06, 2011

Capitalismo, um destruidor de propriedade

Por Thiago Perez Bernardes de Moraes*



Não é de hoje que o capitalismo é a causa intrínseca das grandes instabilidades sociais, das carestias e das diversas mazelas que atormentam a sociedade. No livro “o fim do capitalismo”, o economista e filosofo F. Fried afere em seus cálculos que em 1931 o mundo contava com a estarrecedora marca de 22 milhões de homens desempregados, era perceptível o efeito deste numero refletido na decadência de famílias, boa parte desses números é mero reflexo do “crash” da bolsa de Nova York, de 1929, uma das maiores crises que o capitalismo já presenciou. Ainda nesse sentido Fried percebe que a crise de fato é cíclica e acontece como um “efeito dominó”, ou seja, as crises ocorrem devido à especulação de ativos no mercado financeiro, e isso tende a refletir não somente no mercado financeiro, mas na indústria, no comercio e logo, em toda sociedade. Analisando esse fenômeno o autor diz que: "Vemos, na economia mundial, que se defrontam, não só a oferta e a procura paralisadas, sem esperança de se tornarem a equilibrar; mas também, dum lado, os camponeses empobrecidos, incapazes de adquirir objetos manufaturados, máquinas e utensílios; do outro, as massas operárias tão empobrecidas que não podem mais satisfazer suas necessidades indiretas de matérias primas. Tanto menos o camponês compra trabalho quanto mais a produção da indústria diminui, aumentando o número de fábricas fechadas e de desempregados, e os operários compram em menor quantidade de pão ao camponês. E o ciclo recomeça... O sistema está num beco sem saída. Os depósitos, as salas das fábricas sem vida, os exércitos de desempregados crescerão ainda, incharão e chegaremos à morte pelo congelamento da economia mundial...”. (FRIED,1932, p.122)



Para Fried a acumulação de capital financeiro no mundo é insustentável, pois em contrapartida segundo ele 80% da população ou mais do mundo encontrava-se a margem desse processo, ele ainda afirmava que aquele modelo capitalista além de ser a causa das desigualdades, não permitia de forma alguma a livre concorrência prevista no pensamento liberal clássico, pois alguns indivíduos ou grupos conseguiam açambarcar e conquistar espaço majoritário na economia através de métodos não previstos nas tais “leis econômicas”, conseqüentemente conseguiam também fazer sua influência permear as esferas políticas. Porém, esse autor parece ter falhado em parte de seu diagnostico, pois segundo ele, essa impossibilidade na livre concorrência devido à falta de estimulo e proteção do Estado, levaria o capitalismo não só a crises como as de 1929, mas também ao seu fim, Karl Marx em seus famosos insights nos volumes do aclamado “o capital”, também previa que o capitalismo iria se extinguir depois de sucessivas crises, porém, ao que parece a previsão desses dois autores está longe de se concretizar. Porém, diferente de Marx, que defendia o monopólio Estatal dos meios de produção Fried defendia uma postura um pouco menos radical, defendia um planejamento econômico mais ostensivo, uma larga campanha de créditos fornecido pelo governo para aqueles que podem produzir e o monopólio estatal do comercio exterior.



Na analise sobre o capitalismo, o filosofo e historiador Batault da importantes contribuições, a tese dele é clara, para ele as crises fazem parte do capitalismo, pois este oferece muitas brechas para que os grandes acumuladores de capital se sobressaiam em relação ao resto do mercado se utilizando metodos como trusts e carteis, e isso gera um desequilibrio negativo. Os instrumentos são muitos nesse sentido , os principais salienta o autor são as operações anonimas nas bolsas de valores, que estão entre especular, vender e comprar.(BATAULT,2008,p.39, 40). Apesar do ponto de vista diferente desses autores, há um consenso quanto a insustentabilidade do capitalismo, a justificativa central apresentada pelo filosofo e jurista brasileiro Miguel Reale é de que no mundo moderno houve uma inversão indusida da logica do capitalismo, ou seja, na logica traçada por Karl Marx, o capital seguia a seguinte formatação : MERCADORIA – DINHEIRO – MERCADORIA ; já na lógica atual o dinheiro passou de intermediador a protagonista das relações, nesse caso a ordem fica : DINHEIRO – MERCADORIA – DINHEIRO.

Nessa inversão a economia tomou um caráter meramente aquisitivo.



É evidente que a economia pautada em parâmetros reais e palpáveis, como aquela que se utiliza da terra, ou dos meios industriais tem sempre uma estabilidade muito maior (principalmente para a sociedade) do que a economia financeira que é basicamente um meio de aplicação que visa obter lucro especulativo. Nessa lógica aos poucos o capital vai perdendo as sanções que lhe cabiam, na idade média havia regulamentos corporativos e também a sanção da igreja sobre a pratica ilegal da usura, nos dias atuais não dispomos desses mecanismos. Quanto essa inversão do papel do dinheiro, Miguel Reale alerta para os seguintes perigos: “Dá-se a sucessão periódica das crises, a diminuição da natalidade, a separação da agricultura da indústria, a proletarização do trabalhador livre, o triunfo da lei do interesse sobre as normas da moral e do direito, a implementação desordenada do sufrágio universal, a ilusórias soberania das multidões e a tirania real dos demagogos, a transformação do direito de voto em um instrumento de lucro, a luta internacionalista das classes unindo aristocratas do país a aristocratas estrangeiros para sufocar as revoltas populares, todos os fenômenos , em suma, que agitam o mundo contemporâneo” (REALE, 1935, p.21)



Em suma, o capitalismo baseado no capital ao invés da produção, obviamente torna-se um instrumento eficiente de barganha e logo um instrumento de manutenção do status quo político e econômico daquele que detém tal poder, em períodos contemporâneos os que tem dominado hegemonicamente esse poder são os bancos. Assim, com a evolução das praticas capitalistas, o dinheiro perde sua finalidade social que é de servir a sociedade, e nessa inversão quem perde é a sociedade que se torna serva do dinheiro; compreendemos ai um novo tipo de capitalismo, não como estávamos acostumados a pouco tempo, de encarar o capitalismo imperialista entre pátrias, mas o imperialismo financeiro, que não tem pátria alguma e logo segue leis próprias pautadas em interesses próprios. Sendo assim, o imperialismo, diferente das analises de Marx e Lênin, não é o ultimo estagio do capitalismo e sim uma condição essencial para o mesmo.



Referências Bibliograficas:



BATAULT, Georges. Le problème juif . Paris: Editora SAINT-REMI. 2008.



FRIED, Ferdinand. La fin du capitalism. Paris: Editora Bernard Grasset. 1932.



REALE, Miguel. O capitalismo internacional. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio. 1935.
 
 
 
* Transcrito do blogue "O Quarto Império" (http://oquartoimperio.blogspot.com/)

2 comments:

LEANDRO said...

Olá, companheiro Victor!

Esclarecedor o texto, e de extrema importância para a compreensão da nefasta atuação capitalista, em nossa amada Pátria brasileira.

Anauê,

Leandro CHH

Levi de davi said...

Capitalismo, um destruidor de propriedade. Veja como o capitalismo destruiu Hong Kong neste vídeo. http://www.youtube.com/watch?v=8OMFv1bIeEY