Sunday, November 22, 2009

Marx está morto!

Por Victor Emanuel Vilela Barbuy


O século XIX foi o século burguês por excelência. Foi o apogeu desta civilização inautêntica cujo cadáver carregamos hoje e caracterizada pela crença inabalável nos mitos do progresso indefinido [1], do cientificismo, do tecnicismo e do economicismo e por um imperialismo fundado no poderio econômico e militar e justificado pela crença supostamente científica na superioridade irredutível de determinados povos sobre outros.

O século XIX foi marcado, assim como o século que o precedeu, pelo progresso técnico, econômico e científico e pela decadência moral, ética e social; pela absurda ideia de que se constrói o futuro rejeitando o passado e de que o Homem de então era superior a seus antepassados, ideia ainda seguida por aqueles que não percebem que não há verdadeiro progresso sem Tradição e de que não se torna uma Nação maior vilipendiando a memória daqueles que a fundaram.

O século XIX foi o século, por fim, das visões unilaterais do Universo e do Homem; da rejeição de toda ordem transcendente; das legislações inautênticas, avessas aos espíritos nacionais, às constituições não escritas que são as tradições integrais das nações; do destronamento de Cristo e da entronização do dinheiro, do número e da máquina.

Ninguém representa melhor o século XIX do que Karl Marx, o eterno burguês, defensor do materialismo absoluto, que acreditou como poucos nos mitos do cientificismo, do tecnicismo e do progresso indefinido, tudo explicou pelo fator econômico, e foi um homem profundamente racista e etnocêntrico e um apologista do imperialismo, do mesmo imperialismo que seus discípulos, a partir de Lênin, tanto condenariam, a despeito de praticá-lo com impressionante brutalidade.

As concepções de Marx são, como ressalta Giovanni Gentile, concepções rigorosamente econômicas e materialistas para as quais "tudo aquilo que é humano é econômico, e ninguém tem o direito à existência se não é [economicamente] útil" [2], não atentando para o fato de que o fator "econômico não é humanidade, mas instrumento do homem", sendo útil tão somente enquanto serve a este [3]. Com efeito, como aduz Carl Schmitt, em O conceito do político, o sistema marxista é um sistema antes de tudo econômico, intentando pensar economicamente e permanecendo, por conseguinte, "no século XIX, o qual é essencialmente econômico" [4].

Nascido Moses Kiessel Mordechai Levi Marx a 5 de maio de 1818 na bucólica cidade renana de Trier, também conhecida como Trèves, seu nome francês, o futuro criador do socialismo "científico" era descendente, tanto pelo lado materno quanto pelo paterno, de importantes rabinos e talmudistas. Seu pai, o advogado Hirschel Marx, se converteria ao protestantismo, juntamente com toda a família, exceto a esposa, em 1824, mudando o nome para Heinrich em virtude das restrições então impostas aos não protestantes em geral e aos judeus em particular no Estado prussiano. Este, que anexara a católica Renânia após o Congresso de Viena, em 1815, reservava os cargos públicos aos protestantes, sendo que o pai de Marx era advogado do Estado.

Criado na Igreja Evangélica Prussiana, de orientação luterana, e ateu desde a juventude, após uma fase em que aparentou ser um cristão fervoroso, Karl Heinrich Marx, nome que recebeu ao ser batizado, foi, porém, como observa o intelectual anarquista judeu Bernard Lazare, "um talmudista lúcido e claro a quem as minúcias da prática não traziam qualquer embaraço. Um talmudista que se devotou à sociologia e aplicou as suas qualidades de exegeta à crítica da economia política animado pelo antigo materialismo hebraico" [5].

Marx foi o criador de uma ideologia essencialmente burguesa e somente compreensível enquanto fruto da árvore da burguesia, ideologia inautêntica que subsiste graças tão somente a seu caráter religioso [6]. Neste sentido, preleciona Heraldo Barbuy em Marxismo e Religião:

"Dentre as afirmações do marxismo, algumas são inverificáveis; outras, puderam ser confrontadas com a experiência e foram pela experiência refutadas. Mas no marxismo, tanto as proposições inverificáveis, quanto as que foram refutadas pela experiência, funcionam como um sistema religioso. As críticas racionais e a contestação do marxismo pelos fatos, têm sido completamente inúteis em face da eficiência que o sistema tira de seu caráter religioso" [7].

Ao contrário dos sistemas científicos, que perdem a vigência a partir do momento em que deixam de coincidir com a realidade, "os grandes credos coletivos não vivem", como observa o autor de O problema do Ser, "pela força de suas supostas verdades ou erros científicos, e sim pela fé que despertam" [8].

Como diria Guerreiro Ramos, em artigo publicado no Jornal do Brasil a 25 de novembro de 1979, o marxismo é "um culto popular", que "não é teoria nem ciência". O marxismo, afirma o sociólogo baiano, "é a mais influente força obscurantista da história contemporânea, que dificulta o esforço de ordenamento da vida nacional e internacional. Nos chamados regimes socialistas, onde o marxismo prevalece como ortodoxia, reina o obscurantismo e a chatice" [9].

O autoproclamado socialismo "científico", aliás cem vezes mais utópico do que o socialismo a que os marxistas denominam "utópico", é uma religião inautêntica que tem em Marx o seu profeta, em O Capital e no Manifesto Comunista seus livros sagrados, no proletariado seu "povo eleito" e no comunismo seu paraíso.

Também é uma religião o bolchevismo, como, aliás, bem notou Plínio Salgado, que, em O sofrimento universal, sublinhou que a luta que este abrira contra as religiões no país dos sovietes fora "um movimento ao qual podemos denominar sem receio de erro: o grande movimento religioso da Rússia" [10].

O caráter religioso do bolchevismo, ainda mais pronunciado que o do próprio marxismo, se dá sobretudo em razão da influência que este recebeu do espírito profundamente místico da Santa Rússia e de seu povo.

Isto posto, insta ressaltar que o bolchevismo constitui, em diversos aspectos, - como o voluntarismo, o antiimperialismo e a ideia de que o partido comunista se constituiria na vanguarda do proletariado, incapaz de fazer a "revolução" por si próprio - a própria negação das ideias de Marx, um determinista que acreditava que a massa faria a "revolução" por si mesma no momento em que chegasse ao limite a exploração capitalista e, além disso, um defensor do colonialismo. Além do mais, o bolchevismo, ideologia em que se pode sentir algo do cheiro da terra da pátria de Ivã, o Terrível, e de Pedro, o Grande, bem como do sangue e do suor de seu sofrido povo, foi, em diversos momentos, usado como mero instrumento do expansionismo russo, do mesmo expansionismo que Marx – homem profundamente russófobo – tanto temia e condenava. Por ironia do destino, o nome do pensador antipan-eslavista e antitsarista de Trier serviu de bandeira de luta para os tsares vermelhos do Kremlin, que, em nome do socialismo "científico", praticaram a política pan-eslavista e perseguiram o sonho de realizar, por meio da III Internacional, o antigo mito da Terceira Roma.

***

Nietzsche viu no Cristianismo uma religião de escravos alicerçada no ressentimento, na inveja e no ódio por tudo aquilo que é grande e belo. Nós, por nossa vez, consideramos – da mesma forma que Max Scheler [11]– que o magno poeta-filósofo de Assim falava Zaratustra jamais compreendeu o verdadeiro sentido do Cristianismo, que é, com efeito, praticamente o contrário daquilo que julgava ser. Ou melhor, cremos que em certos momentos o profeta do Super-Homem até compreendeu, ainda que não integralmente, a mensagem de Cristo, julgando, porém, que ela houvesse sido deturpada por Paulo, a quem se referia como "o ódio de chandala encarnado, feito gênio, contra Roma, contra 'o mundo'", "o judeu, o eterno judeu par excellence" [12].

Isto posto, afirmamos que tudo aquilo que o autor de O anticristo e de A genealogia da moral escreveu contra o Cristianismo, ou contra aquilo a que denominava "cristianismo de Paulo", cai como uma luva para a fé antinatural criada por Marx, o eterno burguês, que se baseia no ódio de morte a tudo aquilo que é superior e nobre.

Marx e Nietzsche partiram ambos da dialética senhor-escravo. O autor de A ideologia alemã defendeu os escravos e seu modelo de Homem é o homo oeconomicus, o mesmo homo oeconomicus de seus mestres liberais Adam Smith e David Ricardo. Já o autor de Vontade de poder defendeu os senhores e, inspirado no "Único" de Stirner e no "Homem do Futuro" de Wagner, engendrou o Super-Homem, o Além do Homem.

Marx teve o mérito de apontar os erros e mazelas do capitalismo, este desumano sistema que engendrou a luta de classes, mercantilizou a propriedade e dessacralizou o Mundo, o transformando em um vasto mercado dominado pelo poder nefasto do dinheiro e que contém em si os germes da própria destruição. O autor de O Capital diagnosticou bem as doenças do Mundo Contemporâneo, mas o remédio que prescreveu para combatê-las causou mais males à Sociedade do que elas próprias.

Nietzsche, por seu turno, teve o mérito de combater o liberalismo, o coletivismo, o cientificismo, o comodismo e a ditadura do ouro, do número e da máquina, ou, em uma palavra, a civilização burguesa. Errou, porém, ao lutar contra o Cristianismo e divinizar o Homem. O sistema por ele criado é, da mesma forma que o marxista, uma religião: a religião do Super-Homem, do Eterno Retorno, da Vontade de Poder e da transmutação de todos os valores.

Tanto Marx quanto Nietzsche foram homens extremamente egocêntricos. O primeiro foi definido pelo poeta Heinrich Heine como um "deus ateu de si mesmo" [13] e nada é preciso dizer sobre o segundo, autor de Ecce Homo, verdadeiro monumento de egolatria escrito quando já se manifestavam claramente os sinais da demência que o destruiria.

Plínio Salgado, em alusão ao épico germânico medieval Nibelungenlied (Canção dos Nibelungos), principal das fontes que inspiraram Wagner a compor a monumental Trilogia do Anel, observa que os homens atrofiados de Marx, meras peças da grande máquina da Coletividade, não passam de anões de Nibelungen, ao passo que os homens hipertrofiados e divinizados de Nietzsche não são senão gigantes da montanha. Nós, que partimos de uma visão integral do Universo e do Homem, afirma em seguida o preclaro pensador patrício, "não queremos nem o anão, nem o gigante, mas, apenas, o Homem", "o Homem Integral" [14].

Havendo feito referência a Nietzsche, julgamos oportuno assinalar que foi este um filósofo em toda a extensão de significado que tal termo comporta, ao passo que Marx jamais passou de um pensador medíocre, consideravelmente inferior, por exemplo, a seus rivais "esquerdistas" Proudhon, Bakunin, Dühring, Lassale e Bruno Bauer, sem falar no seu próprio amigo Engels. O autor de O crepúsculo dos ídolos foi, ademais, um grande poeta, sobretudo em prosa, sendo Assim falava Zaratustra certamente o mais belo poema em prosa da Literatura alemã, enquanto o autor da Crítica à Filosofia do Direito de Hegel jamais passou de um poeta fracassado.

Chegou Marx a crer, com efeito, na juventude, que sua tragédia em versos, Oulanen, tornar-se-ia um novo Fausto
[15]. Por essa época, enviou um poema ao Deutscher Musenalmanach (Almanaque Alemão de Musas), de Leipzig, que não o publicou. Resolveu então presentear o pai com toda a sua coleção de versos, mas este não apreciou muito a poesia do filho, afirmando que teria uma grande tristeza caso o visse como um "poetastro qualquer" [16]. Em 1841, dois poemas seus foram publicados no Athenaeum, de Berlim. Selvagens, apocalípticos e repletos de ódio, violência, vontade de destruição e ideias macabras como pactos de suicídio e pactos com o demônio [17], tais poemas, embora carentes de valor literário, têm importância na medida em que neles já estão presentes vários dos princípios do credo marxista.

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Marx foi um grande plagiário. Quase todos os seus ditos mais célebres foram, com efeito, copiados de outros pensadores. De Marat, tomou as frases "Os trabalhadores não têm pátria" e "Os proletários não têm nada a perder senão suas correntes". De Heine, pegou a frase "A religião é o ópio do povo". De Louis Blanc, proveio a fórmula "De cada um de acordo com suas abilidades, a cada um de acordo com suas necessidades". De Karl Schapper, roubou o lema "Trabalhadores de todo o Mundo, uni-vos!" e de Blanqui a expressão "ditadura do proletariado" [18]. O próprio Manifesto Comunista tem sido apontado, por intelectuais como Enrico Labriola, Georg Brandes, Georges Sorel e Tcherkezichvili, como sendo quase que integralmente um mero plágio do Manifesto Democrático de Victor Considerant, socialista "utópico" francês. Brandes chega a afirmar, aliás, que o Manifesto Comunista é "praticamente uma mera tradução [do manifesto] de Victor Considérant"
[19].

Um dos mais graves defeitos de Marx, herdado, aliás, pela absoluta maioria de seus seguidores, é a mais completa desonestidade intelectual, que não se manifesta tão somente nos plágios, mas também no emprego das citações em seus trabalhos. Citemos as palavras do filósofo alemão Karl Jaspers:

"O estilo dos escritos [de Marx] não é o estilo da investigação, ou seja, a constante evocação das instâncias contrárias, a procura de fatos que falam contra a própria tese; mas esses escritos proclamam, de forma inequívoca, a verdade agora definitiva, e só apresentam o que a confirma. Constituem um pensamento de advogado de defesa e não um pensamento investigador, porém um pensamento de advogado que tem a certeza da verdade perfeita não em bases científicas, mas em virtude de fé" [20].

Em 1885, dois estudiosos de Cambridge produziram um artigo para o Clube Econômico de Cambridge intitulado Comentários sobre o uso dos Livros Azuis por Karl Marx no Capítulo XV de "Le Capital". O texto, produto de um estudo realizado com base na edição francesa revisada de O Capital (1872-75), demonstrou que o referido texto de Marx apresenta um desapreço quase criminoso no uso das fontes", permitindo que consideremos quaisquer "outras partes do trabalho de Marx com suspeição". Foi demonstrado, com efeito, que no capítulo de O Capital em apreço, algumas citações dos Livros Azuis da Biblioteca do Museu Britânico haviam sido "convenientemente reduzidas pela omissão de passagens que poderiam ser levantadas contra as conclusões que Marx tentava estabelecer". Ao mesmo tempo, Marx inseriu "citações fictícias" em sentenças isoladas contidas em diferentes partes de um relatório, e que, para burlar o leitor, eram colocadas "entre aspas invertidas com toda a autoridade das citações dos próprios Livros Azuis" [21].

No discurso inaugural da Associação Internacional dos Trabalhadores, em 1864, Marx adulterou criminosamente um trecho da mensagem orçamentária do Primeiro Ministro Britânico, William Gladstone, de 1863. Gladstone dissera que "veria quase com apreensão e dor este inebriante crescimento da riqueza e do poderio se acreditasse que está circunscrito à classe conservadora. A condição média do trabalhador, temos a felicidade de sabê-lo, melhorou nos últimos vinte anos, em um grau que sabemos extraordinário e que podemos quase qualificar como sem paralelo na história de qualquer país e de qualquer época" [22]. Marx, por seu turno, com a completa desonestidade intelectual que lhe era tão peculiar, fez Gladstone afirmar que "este inebriante crescimento da riqueza e do poderio está totalmente circunscrito à classe conservadora" [23].

A desonestidade intelectual está, contudo, muito longe de ser o único defeito de Marx. O grande deturpador da dialética hegeliana e criador da religião ateia do ódio, da violência e da baixeza moral que é o chamado socialismo "científico" foi um homem profundamente cínico, mesquinho, invejoso, interesseiro, violento, desleal e preguiçoso. Na juventude, teria portado irregularmente armas de duelo e tomado parte em pelo menos um duelo, além de ter passado um dia preso por desordens noturnas e embriaguez [24]. E mesmo com mais de quarenta anos, em 1860, ao se encontrar com Bruno Bauer, em Londres, Marx, após muito beber, pôs-se a atirar pedras nos lampiões, fugindo a toda brida assim que viu a polícia se aproximar [25].

O barbudo burguês de Trier jamais foi um operário ou mesmo pisou em uma fábrica e sempre foi profundamente hostil àqueles que o haviam feito, isto é, aos operários que adquiriam consciência política, em virtude de suas ideias moderadas de como se chegar a uma Sociedade mais justa, totalmente avessas ao extremismo de Marx [26].

Ao contrário do que sustentam diversos inocentes úteis, Marx, que chegou a gastar parte substancial da herança que recebeu do pai armando trabalhadores belgas [27], sempre foi um apologista da violência. No Manifesto Comunista, sustentou que os objetivos dos comunistas "só podem ser alcançados pela derrubada violenta de toda a ordem social existente" [28]. No ano seguinte, dirigindo-se ao governo prussiano, disse: "Nós somos impiedosos e não pedimos clemência de vocês. Quando a nossa vez chegar, não disfarçaremos o nosso terrorismo". Em 1850, o Plano de Ação que distribuiu na Alemanha igualmente encorajava o emprego da violência: "Longe de nos opormos aos assim chamados excessos, aqueles exemplos de vingança popular contra indivíduos odiados ou edifícios públicos que adquiriram odiosas memórias, nós devemos não apenas perdoar tais exemplos, mas ainda dar a eles a nossa ajuda" [29]. Mais tarde, em O Capital, defendeu que "a violência é a parteira de toda velha sociedade que está prenhe de uma nova" [30].

Na luta contra os adversários políticos, Marx sempre seguiu o princípio maquiavélico segundo o qual os fins justificariam os meios. Impossibilitado de destruir o prestígio de Bakunin, cuja influência sobre os trabalhadores temia e invejava profundamente, o pensador socialista, com o intuito de desmoralizar publicamente o adversário, acusou, na Neue Rheinische Zeitung (Nova Gazeta Renana), o líder anarquista russo de ser um agente secreto da polícia tsarista, dando como fonte documentação que segundo ele estaria em mãos da escritora Amandine Aurore Lucile Dupin, mais conhecida pelo pseudônimo de George Sand. Ao tomar conhecimento da calúnia contra Bakunin, George Sand, indignada, exigiu de Marx imediata retratação e este se justificou afirmando que assim procedia "para defender o movimento socialista dos governos capitalistas" [31].

Com efeito, podemos afirmar, com Paul Johnson, que toda e qualquer coisa que aconteceu na União Soviética sob o regime de Stálin já estava prefigurada quase cem anos antes no comportamento de Marx [32]. Afirmamos, aliás, que a única diferença existente entre o "Guia Genial dos Povos" e o místico ateu de Trier reside no fato de que o primeiro chegou ao poder, se transformando no Tsar ou Cã Vermelho, ao passo que seu mestre jamais chegou sequer perto disso. E a mesma comparação poderíamos fazer entre Marx e Mao Zedong, o "Grande Timoneiro" da "Revolução" (anti)Chinesa, o Imperador Vermelho que fuzilou milhões na "Revolução" (anti)Cultural e matou ainda mais de fome durante o "Grande salto para a frente", que deveria ter se chamado "Grande salto para trás".

Nenhuma vítima de Marx foi, porém, maior do que a própria família. Dos seis filhos que teve com a esposa, Johanna "Jenny" von Westphalen, três morreram ainda na primeira infância, vítimas do estado de penúria a que foram submetidos por conta da leviandade e irresponsabilidade do pai, e dois outros - as filhas Eleanor e Jenny Laura – se suicidaram em 1898 e 1911, respectivamente. A outra filha, a jornalista Jenny Caroline, morrera, ao que parece vítima de câncer, em janeiro de 1883.

O último dos filhos de Marx a morrer foi Frederick "Freddie" Demuth, produto da relação extraconjugal do pensador "alemão" com a criada Helena "Lenschen" Demuth (que nunca recebeu um centavo de Marx) e cuja paternidade fora assumida por Engels para evitar um escândalo. "Freddie", que nasceu em 1851 e faleceu em 1929, só viu Marx uma única vez em sua vida.

***

Em A questão judaica (1844), Marx afirma:

"Qual é o fundamento secular do judaísmo: A necessidade prática, o interesse egoísta.

Qual é o culto secular praticado pelo judeu? A usura. Qual o seu Deus secular? O dinheiro.

Pois bem, a emancipação da usura e do dinheiro, isto é, do judaísmo prático, real, seria a autoemancipação de nossa época.

(...) A emancipação dos judeus é, em última análise, a emancipação da humanidade do judaísmo.

(...) O judeu se emancipou à maneira judaica não só ao apropriar-se do poder do dinheiro como também, porque o dinheiro se converteu, através dele e à sua revelia, numa potência universal, e o espírito prático dos judeus no espírito prático dos povos cristãos. Os judeus se emanciparam na medida em que os cristãos se fizeram judeus.

(...) Qual era o fundamento da religião hebraica? A necessidade prática, o egoísmo.

(...) O Deus da necessidade prática e do egoísmo é o dinheiro.

O dinheiro é o Deus zeloso de Israel, diante do qual não pode prevalecer outro Deus.

(...) O Deus dos judeus se secularizou, converteu-se em Deus universal. A letra de câmbio é o Deus real dos judeus" [33].

O autor dos Manuscritos econômico-filosóficos, porém, jamais pode se emancipar do "Deus zeloso de Israel", que, segundo ele, se converteu, por meio da ação dos judeus, no "Deus universal" da sociedade burguesa. Suas egoísticas cartas à família e a Engels estão repletas, com efeito, de pedidos de dinheiro. Uma delas, escrita a Engels em princípios do ano de 1863, quando este perdeu Mary, sua companheira, quase pôs termo à amizade que unia os dois criadores do socialismo "científico".

Na referida carta, Marx dizia que ficara surpreendido e transtornado com o falecimento de Mary, que lembrava ser uma pessoa muito boa, de "humor sereno" e apegada ao amigo, mas logo em seguida passava egoisticamente a ocupar Engels com suas dificuldades econômicas. E assim concluía a carta: "De certo, sou horrivelmente egoísta contando-lhe minhas dificuldades em tal circunstância. Mas o remédio é homeopático; um mal expulsa o outro. E, afinal de contas, que posso fazer? Não poderia ter morrido, em lugar de tua Mary, minha mãe, que anda mal de saúde e já viveu bastante? Veja, a que pensamentos extravagantes chegam os homens, ditos civilizados, quando são oprimidos por certas circunstâncias" [34].

Engels sentiu-se bastante mal ao ler a carta de Marx, especialmente em virtude de haver recebido, após o falecimento de Mary, a afetuosa solicitude de diversos amigos dos quais não esperava tanto. E assim escreveu a Marx: "Você achou que esse momento era oportuno para fazer prevalecer seu gélido modo de pensar" [35].

Alguns dias mais tarde, Marx escreveu a Engels procurando se justificar e demonstrar arrependimento e então o autor de A origem da família, da propriedade privada e do Estado o perdoou, de modo que as relações entre os dois coautores do Manifesto Comunista voltaram a ser aquelas de sempre [36].

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Foi em nome dos ideais de Karl Marx que uma minoria organizada de agitadores fez a "Revolução" (anti)Russa de 1917, bem como todas as demais "revoluções" ditas socialistas do século XX, responsáveis pelo extermínio de mais de cem milhões de pessoas, vítimas dos fuzilamentos, das torturas, da fome e das doenças provocadas pela miséria.

Fora em nome das ideias de Jean-Jacques Rousseau que outra minoria de agitadores profissionais fizera a "Revolução" (anti)Francesa de 1789, que em poucos anos foi responsável pela execução de dezenas de milhares de pessoas, sem contar as vítimas das guerras civis e da chamada "Guerra Revolucionária", por ela provocadas, enquanto a tão demonizada Inquisição Espanhola em trezentos e trinta anos matou, segundo os mais insuspeitos historiadores, cerca de três mil pessoas.

Além de terem sido os principais inspiradores dos dois mais nefandos levantes contra a Tradição e a Ordem Natural das últimas centúrias, Rousseau e Marx têm mais semelhanças do que se imagina. Como frisa Henri de Man, a influência do autor de Do contrato social sobrevivia em Marx muito mais do que este admitia [37].

Consoante aduz o filósofo russo Nikolai Berdiaeff, "ao mito democrático do povo soberano, criado por Jean-Jacques Rousseau, Karl Marx opõe o mito socialista do proletariado, classe messiânica, também intérprete da vontade geral, destinada a libertar e a salvar a humanidade". A despeito de se revestir de um caráter "manifestamente mitológico" e de se constituir em uma "sobrevivência inconsciente da visão israelita do povo eleito por Deus", a teoria marxista da luta de classes está um pouco menos distante da realidade do que a teoria de Rousseau, que imagina "uma vontade geral, infalível e soberana do povo na democracia. Esta infalibilidade, Marx transmite-a do povo soberano ao proletariado – mas, em verdade, nem num nem noutro ela existe" [38].

Felizmente, Oswald Spengler está certo: "Há já bastante tempo que Rousseau está esquecido. Marx o será em breve" [39].

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Não podemos encerrar o presente artigo sem abordar, ainda que sucintamente, a questão do racismo de Marx, bem como sua defesa do colonialismo europeu e estadunidense do Norte, produto da visão profundamente eurocêntrica do poeta fracassado de Trier.

A 15 de fevereiro de 1849, Marx publicou, na Neue Rheinische Zeitung, um artigo defendendo a agressão imperialista dos Estados Unidos da América contra o México, enaltecendo os estadunidenses do Norte como representantes da civilização e do progresso e atacando Bakunin, defensor dos mexicanos, por seu sentimento humanitarista. Acentuando o dinamismo da nação da bandeira das treze listras, Marx sustentou que não constituíra nenhum desastre o fato de "a bela Califórnia" haver sido "arrancada das mãos dos preguiçosos mexicanos". "A independência de alguns californianos pode sofrer com isso, a justiça e outros princípios morais podem ser feridos – mas isto conta, diante de tais realidades que são o domínio da história universal?", se indagava o amoral criador do marxismo [40].

Em 25 de junho de 1853, em célebre artigo publicado no New York Daily Tribune, Marx, dentro da visão eurocêntrica que lhe era tão peculiar, atacou virulentamente a cultura, a religião e a estrutura social da Índia, considerada um exemplo sólido daquilo a que denominava "despotismo oriental". O artigo, que trata a rica e profunda civilização indiana como bárbara e selvagem, contém o elogio do colonialismo britânico, "instrumento inconsciente da história" ao provocar a "revolução" que, segundo ele, fizera ruir o edifício da sociedade indiana [41]. Não é necessário dizer que tal juízo estava totalmente equivocado, já que o edifício da sociedade indiana ainda está de pé e a maior parte dos indianos permanece fiel às origens, cultuando os Deuses e cumprindo os deveres inerentes à sua casta de acordo com o Código de Manu.

Em outro artigo publicado no New York Daily Tribune, este a 8 de agosto do mesmo ano, Marx afirmou que a Índia não tinha História. "O que chamamos história não é senão a crônica de invasores sucessivos que fundaram impérios na base dessa sociedade imutável e não resistente". É o Ocidente, para o místico ateu e burguês de Trier, quem deve introduzir a História na Índia [42].

Ora, a sociedade indiana, que nada tem de não resistente, tanto que, invadida por diversos povos, sempre conseguiu se manter fiel às suas tradições, somente não teria História caso a História fosse, como na absurda visão marxista, a história da luta de classes, já que a sociedade indiana, fiel aos preceitos do Hinduísmo, jamais conheceu tal aberração.

Isto posto, não podemos deixar de destacar o nosso integral repúdio à ignorância de Marx em face da civilização indiana, uma das mais antigas e importantes da História, que produziu joias como os Vedas, os Upanishads, os Puranas, o Bhagavad Gita, o Mahabharata e o Código de Manu, sem falar em todas as invenções, incluindo o número zero e os chamados numerais indo-arábicos.

A civilização que Marx mais atacou, porém, não foi a indiana, mas sim a russa, pela qual o falso profeta de Trier alimentava ódio verdadeiramente irracional, que, como frisa Meira Penna, não se encontra somente em sua concepção de um modo de produção particular, o denominado "despotismo oriental", que escaparia totalmente às leis da dialética determinista, dividida em três fases: feudalismo, capitalismo e socialismo. Esse modo de produção tornaria a Rússia, bem como a China, a Índia e outros países, "imune à ação das forças que conduzem, pela própria dialética das 'leis férreas da História', ao triunfo futuro do comunismo" [43].

Para Marx, o russo era "o bárbaro das margens gélidas do Neva" e a Rússia, o "bizantinismo mais terrível e mais bárbaro que há", um país em que, como ressalta em sua propositalmente olvidada obra A questão do Oriente, "por sua tradição, suas instituições e sua situação é semiasiático". A Rússia é, para o intelectual apátrida de Trier, "a barbárie russo-mongol em nome da qual os pan-eslavistas se preparam para sacrificar oito séculos de participação efetiva à civilização" [44].

Em 1848, em artigo publicado na Neue Rheinische Zeitung, Marx pregou a "guerra revolucionária" contra a Rússia, que, segundo ele, deveria "virilizar" o povo alemão e permitir-lhe expandir para o Leste a sua civilização em um sacrifício libertador. "Às frases sentimentais que se nos oferecem em nome das nações contrarrevolucionárias da Europa, respondemos: o ódio aos russos foi e permanece a primeira paixão revolucionária dos alemães... Salvaguardaremos a revolução por um terrorismo decidido em relação a esses povos eslavos". "Sabemos agora", acrescentava ele, "onde estão os inimigos da revolução: na Rússia e nos países eslavos da Áustria" [45].

Nas páginas que escreveu sobre a Rússia, tanto em livros quanto em jornais, Marx sempre atacou virulentamente o país dos tsares, sustentando que este tinha origens bizantinas e tártaras e que estavam em Gêngis Cã e na Horda de Ouro as origens do poder e do expansionismo do Kremlin. Em sua pouco conhecida obra A Rússia e a Europa – Revelações sobre a história diplomática do século XVIII (1857), livro profundamente antirrusso em que defendeu a tese de que a Inglaterra estava por trás da transformação da Rússia em potência mundial, Marx afirma:

"É na lama sangrenta da escravidão mongol e não na rude glória da época normanda que nasceu a Moscóvia, da qual a Rússia moderna é apenas a metamorfose" [46]

Curioso é saber que Marx – que em suas páginas sobre a Rússia, cheias do mais apaixonado ódio e onde sustenta princípios tão estranhos às suas teorias materialistas quanto a defesa da Civilização Ocidental – acreditava fielmente na absurda lenda do testamento de Pedro, o Grande, programa apócrifo que o fundador de São Petersburgo haveria deixado a seus sucessores para a conquista do Mundo [47].

Como dissemos há pouco, o nome de Marx, por ironia do destino, se transformou em bandeira de luta dos seus mais odiados inimigos, justificando a política expansionista russa que ele tanto combatera. Isto se torna, aliás, mais grave caso concordemos com o juízo de alguns no sentido de que a "Revolução" (anti)Russa de 1917 foi o triunfo da Rússia tártara contra a Rússia europeizada, a vingança de Kazan contra a Moscóvia, ou, a exemplo de Spengler, julguemos que na Rússia de 1917 rebentaram duas "revoluções", a "branca" e ocidentalizada e a "de cor", representante do "bolchevismo asiático" e que, sob o regime de Stálin, teria suplantado a primeira [48].

Julgamos oportuno concluir esta breve exposição a respeito do racismo e do eurocentrismo de Marx, citando um trecho de uma das diversas cartas suas que contêm passagens extremamente racistas. Esta carta, escrita a Engels em 30 de julho de 1862, é talvez a mais célebre e reveladora de todas. Nela, se referindo ao líder socialista Ferdinand Lassale, Marx escreveu:

"Está completamente claro para mim agora que ele, como é provado por sua formação cranial e seu nariz, descende de negros do Egito (supondo-se que sua mãe ou avó não tenha cruzado com um negro). Agora esta união de Judaísmo e Germanismo com uma substância negra básica deve produzir um produto peculiar. A impertinência do camarada é também própria de Crioulo" [49].

***

Somos contra Marx porque, assim como Giovanni Gentile, "somos contra o liberalismo que ele combatia, mas de cujo espírito se pode dizer que ele foi o mais franco, o mais lógico representante" [50].

Marx, que, no plano econômico, foi discípulo de Adam Smith, do banqueiro judeu David Ricardo e dos fisiocratas franceses, acreditou combater a burguesia, mas na verdade nunca se libertou do espírito burguês dominante em seu tempo. E, aliás, caso estivesse certa a sua tese no sentido de que "a natureza dos indivíduos depende das condições materiais que determinam sua produção" [51], isto é, da classe social a que pertencem, ele seria burguês, e, por conseguinte, seu ideário seria também burguês.

Marx está morto. O marxismo, religião nascida do liberalismo e da civilização burguesa, fruto do século XIX e somente compreensível enquanto tal, está morto desde que a Humanidade ultrapassou a época do tear mecânico e dos lampiões de gás. É somente em certos países da África e da Ásia e na denominada América Latina que Marx e seu nefando credo ainda são levados a sério pelos intelectuais. Vinte anos após a queda do Muro de Berlim, marco da ruína, na Europa, do sistema que mais matou e oprimiu na História, promovendo a igualdade entre os Homens tão somente na escravidão, ainda carregamos o cadáver putrefato desta ideologia espúria, baseada nos mais baixos instintos do Homem e destinada a permanecer para sempre na latrina da História.

Seremos verdadeiramente grandes apenas quando nos livrarmos de tal cadáver, o que se dará tão somente quando erradicarmos as fontes do marxismo, que são o espírito burguês e o sentimento de revolta dos injustiçados pelos desmandos do desumano sistema capitalista. Seremos verdadeiramente grandes quando fizermos triunfar o Espírito da Nobreza, restaurando o Primado da Tradição e, ao mesmo tempo, substituirmos o atual sistema político, econômico e social por outro mais justo, solidário e fraterno, que sirva à Pessoa Humana e não seja servido por ela.


NOTAS:

[1] Sobre o mito do progresso: BARBUY, Heraldo. O mito do progresso. In BARBUY, Heraldo. O problema do Ser e outros ensaios. São Paulo: Convívio/ EDUSP, 1984, pp. 101-118.

[2] GENTILE, Giovanni. Economia ed etica. In GENTILE, Giovanni. Memorie italiane e problemi della filosofia della vita. Florença: G. C. Sansoni – Editore, 1936-XIV, p. 285.

[3] Idem, p. 287.

[4] SCHMITT, Carl. O conceito do político - Teoria do partisan. Trad. de Geraldo de Carvalho. 1ª ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2008, p. 91.

[5] LAZARE, Bernard. Antisemitism – It's History and Causes. Lincoln: University of Nebraska Press, 1995, p. 157.

[6] Sobre o caráter religioso do marxismo: BARBUY, Heraldo. Marxismo e Religião. 2ª ed. São Paulo: Editora Convívio, 1977; BERDIAEFF, Nicolas. O marxismo e a religião. Prefácio e trad. de Duarte de Montalegre. Coimbra: Mensagem, 1948.

[7] BARBUY, Heraldo. Marxismo e Religião, cit., p. 15.

[8] Idem, loc. cit.

[9] RAMOS, Guerreiro, apud DOREA, Gumercindo Rocha. Posfácio. In SALGADO, Plínio. Manifesto de Outubro de 1932 (Edição do Cinquentenário). São Paulo: Editora Voz do Oeste, 1982, p. 72.

[10] SALGADO, Plínio. O sofrimento universal. 3ª ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, p. 28.

[11] SCHELER, Max. Das Ressentiment im Aufbau der Moralen. Frankfurt am Main: Klostermann, 1978.

[12] NIETZSCHE, Friedrich. Der Antichrist. In Nietzsche Werke, v. 13.
Ed. por Giorgio Colli e Mazzino Montinari. Berlim, Nova Iorque: Walter de Gruyter, 1969, p. 244.

[13] Citamos de memória.

[14] SALGADO, Plínio. A Quarta Humanidade. 1ª ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1934, p. 109.

[15] , Paul. Intellectuals. Nova Iorque: Harpers Perennial, 1990, p. 54.

[16] CHIERICATI, Cesare. Marx. São Paulo: Edições Melhoramentos, 1975, p. 7.

[17] JOHNSON, Paul. Intellectuals, cit., loc. cit.

[18] Idem, p. 53.

[19] BRANDES, Georg. Ferdinand Lassale. Nova Iorque: Bernard G. Richards, 1925, p. 115.

[20] JASPERS, Karl. Razão e anti-razão em nosso tempo. Trad. de Álvaro Vieira Pinto. Disponível em:

http://www.filoinfo.bem-vindo.net/filosofia/modules/smartsection/item.php?itemid=53. Acesso em 12 de novembro de 2009.

[21] JOHNSON, Paul. Intellectuals, cit., p. 67.

[22] GLADSTONE, William, apud JOHNSON, Paul. Intellectuals, cit., p. 66.

[23] MARX, Karl, apud JOHNSON, Paul. Intellectuals, cit., p. 67.

[24] CHIERICATI, Cesare. Marx, cit., p. 7.

[25] Idem, p. 14.

[26] JOHNSON, Paul. Intellectuals, cit., p. 60.

[27] Idem, p. 74.

[28] MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. 5ª ed. Rio de Janeiro: Vitória, 1963, p. 62.

[29] MARX, Karl, apud JOHNSON, Paul. Intellectuals, cit., p. 71.

[30] MARX, Karl. O capital. II vol. São Paulo: Nova Cultural (Col. Os Economistas), 1985, p. 286.

[31] Cf. PONTES, Ipojuca. Sobre a moralidade de Karl Marx. In Jornal da Tarde, São Paulo, 20/10/2001.

[32] JOHNSON, Paul. Intellectuals, cit., loc. cit.

[33] MARX, Karl. A questão judaica. Trad. e apres. de Wladimir Gomide. Rio de Janeiro: Achiamé, s/d, pp. 41-43.

[34] MARX, Karl, apud CHIERICATI, Cesare. Marx, cit., p. 63.

[35] ENGELS, Friedrich, apud CHIERICATI, Cesare. Marx, cit.,loc. cit.

[36] Cf. CHIERICATI, Cesare. Marx, cit.,loc. cit.

[37] MAN, Henri de. Le Socialisme constructif. Trad. francesa de L. C. Herbert. Paris:Éditions Alcan, 1933, p. 43.

[38] BERDIAEFF, Nicolas. Le Christianisme et la lutte des classes.Trad. francesa de I. P. H. M. Paris: Éds. Demais, 1932, pp. 30-31.

[39] SPENGLER, Oswald. La decadencia de Occidente: Bosquejo de una morfología de la Historia Universal. Trad. espanhola de Manuel G. Morente. Buenos Aires, México: Espasa-Calpe Argentina S.A., 1952, Tomo II, p. 588.

[40] Marx, Karl, apud PONTES, Ipojuca. Sobre a moralidade de Karl Marx, cit.

[41] MARX, Karl, apud PENNA, J. O. de Meira. A ideologia do século XX. 2ª ed. São Paulo: IL/ Nordica, 1994, pp. 191-192

[42] MARX, Karl, apud PENNA, J. O. de Meira. A ideologia do século XX, cit., p. 193.

[43] PENNA, J. O. de Meira. A ideologia do século XX, cit., p. 183.

[44] MARX, Karl, apud , J. O. de Meira. A ideologia do século XX, cit., p. 185.

[45] MARX, Karl, apud , J. O. de Meira. A ideologia do século XX, cit., p. 187.

[46] MARX, Karl, apud , J. O. de Meira. A ideologia do século XX, cit., p. 189.

[47] PENNA, J. O. de Meira. A ideologia do século XX, cit., p. 188.

[48] SPENGLER, Oswald. Anos de decisão. Trad. Herbert Caro. Porto Alegre: Edições Meridiano, 1941, pp. 184-185.

[49] MARX, Karl, apud WHEEN, Francis. Karl Marx. Trad. de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Record, 2001, p. 58.

[50] GENTILE, Giovanni. Economia ed etica, cit., p. 293.

[51] Citamos de memória.




Wednesday, November 04, 2009

Resposta à Folha de S. Paulo

A Folha de S. Paulo publicou, no último domingo, um artigo que, intitulado Sangue na Praça da Sé e assinado pelo jornalista Mário Magalhães, trata da vergonhosa tocaia de que foram vítimas os militantes integralistas a 07 de outubro de 1934, quando se celebrava o segundo aniversário do chamado Manifesto de Outubro. A divulgação deste Manifesto, redigido por Plínio Salgado, marcara o surgimento oficial da AIB (Ação Integralista Brasileira), que constituiu o primeiro "movimento de massas" do Brasil e, como ressalta Gerardo Mello Mourão, o "mais fascinante grupo da inteligência do País".

O tristemente famoso atentado daquele dia tem sido deturpado pelos arautos do preconceito ideológico, que em geral transformam em "vilões" os integralistas, que nada mais desejavam do que celebrar pacificamente o segundo aniversário da AIB, ao mesmo tempo em que pintam como "heróis" seus covardes agressores, os militantes da "esquerda", adeptos ou simpatizantes do odioso credo de Karl Marx, que já matou mais seres humanos do que qualquer outra das ideologias da História.

Não foi muito diferente o artigo do Sr. Mário Magalhães, repleto de absurdos ataques contra o Integralismo, que preferimos julgar ser produto de ignorância do que de má fé e de que passaremos a cuidar nas próximas linhas.

Ao contrário do que afirma Magalhães, os integralistas jamais representaram a "extrema-direita", mesmo porque o Integralismo, partindo da concepção integral do Universo e do Homem, rejeita as concepções de "esquerda" e de "direita", que remontam à chamada Revolução Francesa e nada mais exprimem nos tempos atuais. Além do mais, ao afirmar que os integralistas defendiam o "nacionalismo renhido", a Igreja e a propriedade privada, o autor se esqueceu de dizer que o nacionalismo integralista é antiimperialista e tendente ao universalismo, que o Integralismo sempre foi um movimento plenamente ecumênico e que jamais deixou de sustentar a necessidade da função social da propriedade.

Ainda ao contrário do que afirma Magalhães, o Integralismo jamais "mimetizou" o fascismo ou o nazismo, tendo diversos pontos de discordância em relação a estes movimentos. O separa do primeiro, sobretudo, sua concepção antitotalitária do Estado, enquanto do segundo se distancia especialmente em virtude de sua oposição ao racismo. Quanto ao uso de uniformes e símbolos, era este comuníssimo naquela época, sendo adotado inclusive por movimentos da chamada "esquerda", tais como a social-democrata Frente de Ferro, da Alemanha, e a União Comunista Leninista da Juventude (Komsomol), da União Soviética.

Isto posto, cumpre ressaltar que Plínio Salgado sempre condenou, no nazismo, as ideias racistas, a inspiração pagã e o culto exacerbado do Führer, como podemos ver em diversos artigos da década de 1930, bem como na célebre Carta de Natal e fim de ano, de 1935. Ademais, houve vários judeus integralistas e Plínio Salgado sempre se opôs ao antissemitismo, como podemos ver, por exemplo, na Carta aos Camisas-Verdes, de 1934.

As declarações de Plínio Salgado após o atentado da Praça da Sé, ressaltando o papel que neste tiveram os judeus, devem ser interpretadas no contexto da época, quando, aliás, a presença judaica era inegavelmente preponderante nos movimentos comunistas em todo o Mundo. Vale lembrar, com efeito, que Winston Churchill, que ninguém associará ao nazismo, salientou o papel dos judeus na chamada Revolução Russa de 1917 de forma análoga à que Plínio Salgado usou para ressaltar o papel dos mesmos na denominada "Batalha da Praça da Sé".

Por fim, cumpre frisar que, ao contrário do que afirma o jornalista, o ilustre Professor Goffredo Telles Junior foi, até o último de seus dias, um partidário do Integralismo, movimento que via como uma forma de "socialismo com Deus", tanto que colaborou até o fim com a Casa de Plínio Salgado, instituição de que tenho a honra de ser o 1° Vice-Presidente, e meses antes de partir para a Milícia do Além, se referiu ao Manifesto de Outubro como "o nosso Manifesto".

Victor Emanuel Vilela Barbuy, Presidente da FIB (Frente Integralista Brasileira) e 1° Vice-Presidente da Casa de Plínio Salgado.


Monday, November 02, 2009

A verdadeira Revolução

Por Victor Emanuel Vilela Barbuy


Plínio Salgado, mestre do pensamento tradicionalista, patriótico e nacionalista brasileiro e criador do grande Movimento de Ressurreição Nacional que é o Integralismo, escreve, no prefácio da primeira edição de sua obra Psicologia da Revolução,
que o Homem tem o direito de intervir na marcha da História e quando uma Sociedade está se dissolvendo e um País está na iminência de se desagregar esta intervenção se impõe como um dever [1].

Ora, estando nossa Sociedade inegavelmente à beira da dissolução, consumida pelo materialismo, pelo hedonismo e, enfim, pelo espírito burguês, e estando nosso País, do mesmo modo, a pique de se desagregar, temos o dever inelutável de interferir na marcha da História, restaurando o Primado do Espírito e reconduzindo a Nação às bases morais de sua formação, como sempre defendeu o assinalado pensador e Homem de ação patrício.

A verdadeira Revolução é uma mudança de atitude em face da realidade e dos problemas, que implica na revolta contra a inautenticidade do Mundo Moderno e Contemporâneo e na recondução da Sociedade, nos planos moral e ético, a seu ponto de partida, que está no Mundo da Tradição, o qual não é senão o Mundo regido por princípios que transcendem os sós elementos puramente humanos. Em uma palavra, a Revolução autêntica consiste na recondução da Sociedade à sua Tradição Integral.

Neste mesmo diapasão, pondera Hillaire Belloc, no primeiro capítulo de Danton, que a Revolução é "a reversão para o normal – um repentino e violento retorno às condições que constituem as bases necessárias para a saúde de qualquer comunidade política" [2].

Ainda em tal sentido, preleciona João Ameal que "a verdadeira revolução – a única – só poderá ser aquela que (de acordo com o sentido rigoroso do termo), represente a volta ao ponto de partida, restitua o homem ao seu princípio" [3].

Isto posto, julgamos oportuno transcrever o trecho de nosso artigo a respeito de Julius Evola e o "Tradicionalismo Integral" em que tratamos a respeito do conceito de Revolução:

"Havendo qualificado como revolucionário o pensamento de Evola, julgamos necessário destacar que pelo termo Revolução compreendemos a revolta contra um estado de coisas que traz a ideia de retorno, correspondendo à tradicional concepção astronômica da palavra, segundo a qual esta significa o retorno de um astro ao ponto de partida e o seu moto ordenado em torno de um centro. Este é o sentido que o próprio Evola considera o mais apropriado para tal palavra [4] e é, também, o sentido que preferimos, seguindo o exemplo de João Ameal [5], ilustre pensador tradicionalista e historiador português, e de Plínio Salgado [6], máximo expoente do pensamento tradicionalista no Brasil ao lado de José Pedro Galvão de Sousa, na abalizada opinião de Francisco Elías de Tejada y Spínola [7], mais importante pensador tradicionalista espanhol do século XX" [8].

Tendo consciência de tudo o quanto afirmamos, ressaltamos nossa discordância em face de todos os tradicionalistas que condenam in limine a palavra "Revolução", muitas vezes chegando a demonizá-la, como é o caso de Plínio Correa de Oliveira [9].

Como preleciona Plínio Salgado em magistral artigo publicado em 1935 no jornal A Ofensiva, a "Revolução não é a masorca de soldados amotinados; não é rebelião de camponeses ou proletários; não é movimento armado de burguesias oligárquicas; não é movimento de tropas de governos provinciais; não é golpe de militares; não é a conspirata dos partidos, não é guerra civil generalizada. Revolução é movimento de cultura e de espírito. Transforma-se uma cultura, assume-se nova atitude espiritual, como consequência, abala-se até aos alicerces os velhos costumes, destruindo tudo, para construir de novo, porque destruir apenas não é Revolução" [10] .

Para Plínio Salgado, a Revolução deve ter "as energias sagradas do próprio Espírito da Pátria em rebeldia, em agressividade contra uma civilização que criou a luta de classes, que desorganizou as bases morais das nacionalidades e que nos amarrou, durante cem anos [hoje quase duzentos], como escravos miseráveis, aos pés da mesa onde o capitalismo internacional se banqueteia, surdo ao gemido dos povos" [11].

A verdadeira Revolução não é aquele processo de dessacralização e de destradicionalização da Sociedade iniciado com o denominado Renascimento e a chamada Reforma e reforçado pelas revoluções burguesas de Inglaterra e França e pela revolução "proletária" de 1917, na Rússia, bem como pelos movimentos surgidos após o maio de 1968 em Paris. A verdadeira e necessária Revolução é, sim, a transmutação integral de valores no sentido de destruição dos princípios inautênticos do Mundo Moderno e Contemporâneo e a restauração dos princípios perenes e autênticos da Tradição.

A Revolução sem Tradição não passaria de veleidade estéril, não figurando entre os princípios de nossa Doutrina. Temos firme consciência de que, como sentencia Renan em momento de rara felicidade, "o erro mais deplorável é o de crer que se serve a pátria caluniando aqueles que a fundaram. Todos os séculos de uma nação são as folhas de um mesmo livro. Os verdadeiros homens de progresso são aqueles que têm por ponto de partida um respeito profundo pelo passado" [12].

O objetivo máximo da Revolução é o de resgatar a grandeza do Homem e de conscientizá-lo de que Deus é seu princípio e fim último e de que o verdadeiro sentido da vida humana repousa na busca da santidade. Concordamos, pois, com Plínio Salgado, quando, nas imorredouras páginas de Primeiro, Cristo!, proclama a necessidade imperiosa de "salvação do Mundo pela santificação das almas", afirmando que "não é digno de lutar pelo Cristo quem não erguer a bandeira da própria santificação" [13] .

O homem moderno transformou-se em um desenraizado, não tendo a mínima consciência de onde vem e para onde vai; transformou-se em uma peça de máquina para a qual Deus, a Pátria e a Família estão mortos ou são persistentes resíduos de uma época de ignorância e atraso; transformou-se em um ser inautêntico, crente em superstições tão absurdas quanto a do progresso ilimitado e da liberdade total e incapaz de ouvir a voz da Terra e dos Ancestrais. É este homem que precisa ser resgatado, retransformado em Homem temente a Deus e enraizado em uma Família, uma Pátria, uma Nação, uma Tradição. Em uma palavra, o homem moderno é, como afirma Chesterton, "um viajante que se perdeu na estrada" e que "tem de regressar ao ponto de partida, se quiser se lembrar de onde veio e para onde vai" [14].

Martin Heidegger observa, em entrevista a Der Spiegel, que "tudo o que é essencial e grande surgiu do fato de que o homem tinha uma pátria e estava radicado em uma tradição"
[15]. E, no texto intitulado O caminho do campo, onde evoca, saudoso, passagens da infância e mocidade em Messkirch, Suábia, o filósofo ressalta que o caminho do campo fala somente enquanto os Homens nascidos no ar que os rodeiam forem capazes de escutá-lo. É em vão que o Homem, por meio de planejamentos, busca instaurar uma ordenação no Mundo, se for incapaz de ouvir o chamado do caminho do campo. É perigoso que o homem de nossos tempos já não possa compreender a linguagem de tal caminho, posto que em seus ouvidos retumba o fragor das máquinas, que chega a tomar pela Divina Voz. Assim, o Homem se dispersa, se torna errante. O Simples passa a parecer uniforme e a uniformidade é entediante. O Simples se desvaneceu e sua silenciosa força se esgotou [16].

O número daqueles que ainda conhecem o Simples, o dom da Simplicidade, diminui velozmente. Mas os poucos que ainda o conhecem serão, como sustenta o autor de O ser e o tempo, "em toda a parte, os que permanecem. Graças ao tranquilo poder do caminho do campo, poderão sobreviver um dia às forças gigantescas da energia atômica, que o século e a sutileza do homem engendraram para com ela entravar sua própria obra" [17].

Como afirmamos, o objetivo principal da Revolução é o de devolver ao Homem a sua grandeza. Isto equivale a criar o Homem Novo, o Homem Integral, que, a nosso ver, nada mais seria do que o Homem Tradicional.

Isto posto, cumpre sublinhar que qualquer Ordem Nova será efêmera se não estiver radicada em um Novo Homem. Como diria Plínio Salgado, "de nada valem regimes, reformas constitucionais, medidas legais, planejamentos econômicos, financeiros, administrativos, se não pusermos, na base de tudo, as energias puras da Pátria, representadas pelo Homem Novo" [18]. Em uma palavra, para combater o mal da Sociedade, necessitamos primeiro combater o mal que há em nós mesmos
[19], ou seja, antes de livrar o Mundo da civilização burguesa é mister que nos livremos do burguês que há em cada um de nós, tendo consciência de que o Homem que vence a si mesmo é imensamente mais heróico do que o guerreiro que vence a cem inimigos.

A Revolução Interior, que precede a Revolução das instituições, é uma Revolução antes de tudo moral, que consiste no triunfo do Espírito sobre a tirania da Matéria, razão pela qual também a denominamos Revolução do Espírito.

Como afirmamos há pouco, a Revolução visará, antes de mais nada, a restauração do Homem e se, como aduz João Ameal, o Homem se encontra desfigurado e destruído pelos diversos mitos dos últimos séculos, cumpre, antes de tudo, empreender a reconstrução do Homem [20], título, aliás, de uma das mais fecundas obras de Plínio Salgado [21].

Somente quando o Homem estiver plenamente restaurado é que será possível restaurar, em sua plenitude, a Filosofia Perene da Metafísica, a Doutrina do Direito Natural, ou Clássico, a Economia Cristã e a Sociedade Orgânica, regida por um Estado consciente de que se constitui em um mero instrumento a serviço da Pessoa Humana e do Bem Comum, não podendo violentar àquela ou aos Grupos Naturais componentes da Sociedade Integral. Tudo isto com a firme consciência de que o Estado, a Sociedade, o Trabalho e a Economia devem estar a serviço do Homem e não o contrário, como tem lamentavelmente ocorrido nestes tenebrosos tempos do Império de Calibã.

Encerramos estas tão singelas páginas com uma frase do genial compositor e pensador Richard Wagner, mestre do Romantismo Alemão, que devemos fazer também nossa:

"A minha verdadeira missão é semear a revolução por onde quer que eu passe" [22].


NOTAS:

[1] SALGADO, Plínio. Psicologia da Revolução. 6ª ed. In
SALGADO, Plínio. Obras Completas. 2ª ed., vol.7. São Paulo: Editora das Américas, 1957, p.9.

[2] BELLOC, Hillaire. Danton, a study. Cap. I. Disponível em: http://www.bostonleadershipbuilders.com/belloc/danton/chapter01.htm. Acesso em 22 de outubro de 2009.


[3] AMEAL, João. No limiar da Idade-Nova. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1934, p. 12. [4] EVOLA, Julius. Introduzione. In GUÉNON, René. La crisi del Mondo Moderno. Op. cit., p. 7.

[5] AMEAL, João. No limiar da Idade-Nova. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1934, pp. 12-14.


[6] Vide SALGADO, Plínio. Psicologia da Revolução. 6ª ed. In SALGADO, Plínio. Obras Completas. 2ª ed., vol. VII. São Paulo: Editora das Américas, 1957.

[7] TEJADA, Francisco Elías de. Plínio Salgado na Tradição do Brasil. In Diversos. Plínio Salgado – "In Memoriam", vol. II. São Paulo: Voz do Oeste/Casa de Plínio Salgado, 1985/1986, p. 70.

[8] BARBUY, Victor Emanuel Vilela. Julius Evola e o "Tradicionalismo Integral". Disponível em: http://cristianismopatriotismoenacionalismo.blogspot.com/2009/10/julius-evola-e-o-tradicionalismo.html. Acesso em 23 de outubro de 2009.

[9] Vide OLIVEIRA, Plínio Corrêa de. Revolução e Contra-Revolução. 4ª ed. em português. São Paulo: Artpress, 1998.

[10] SALGADO, Plínio. Revolução Integralista. In SALGADO, Plínio. O pensamento revolucionário de Plínio Salgado (antologia organizada por Augusta Garcia Rocha Dorea). 2ª ed. ampl.
São Paulo: Voz do Oeste, 1988, p. 255.

[11] Idem, p. 256.

[12] RENAN, Ernest. Souvenirs d'enfance et de jeunesse. Paris: Calmann-Lévy, Éditeurs, s/d, p. XXII.

[13] SALGADO, Plínio. Primeiro, Cristo! 4ª ed. In SALGADO, Plínio. Obras completas. 2ª ed., vol VI. São Paulo: Editora das Américas, 1956, pp. 211-212.

[14] CHESTERTON, G. K. The New Jerusalem. Londres: Hodder & Stoughton, 1920, p. I.

[15] HEIDEGGER, Martin. Ormai solo un dio ci si può salvare: Intervista con lo "Spiegel". Trad. italiana de A. Marini. Parma: Guanda, 1987, p. 135.

[16] HEIDEGGER, Martin. O caminho do Campo. Trad. de Ernildo Stein e José Geraldo Nogueira Moutinho. In Cavalo Azul, n. 4, São Paulo, s/d, p. 5. Também disponível em http://caminhodocampo.blogspot.com/2008/03/o-caminho-do-campo-martin-heidegger.html. Último acesso em 23/10/2009.

[17] Idem, loc. cit.

[18] SALGADO, Plínio. Reconstrução do Homem. 2ª ed. Rio de Janeiro: Livraria Clássica Brasileira, s/d, p.184.

[19] SALGADO, Plínio. Primeiro, Cristo! Op. cit., p. 212.

[20] AMEAL, João. Europa e seus fantasmas. Porto: Livraria Tavares Martins, 1945, p. 319.

[21] SALGADO, Plínio. Reconstrução do Homem. Op. cit.

[22]WAGNER, Richard, apud FONSECA, Carlos da. Introdução. In WAGNER, Richard. A arte e a revolução. Trad. portuguesa de José M. Justo. 2ª ed. Lisboa: Edições Antígona, 2000, p. 7.



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Saturday, October 17, 2009

Julius Evola e o “Tradicionalismo Integral”


Por Victor Emanuel Vilela Barbuy



“Existem alguns homens que se encontram, por assim dizer, de pé entre as ruínas e em meio à dissolução”, mas que, de maneira mais ou menos consciente, pertencem a outro Mundo[1], ao Mundo da Tradição, que não é senão o Mundo regido por princípios que transcendem os elementos puramente humanos. Dentre estes Homens singulares, podemos destacar um, filho legítimo da Roma dos Césares e depositário dos princípios de sua Sagrada Tradição, em especial os de Imperium e de Auctoritas. Este Homem não é senão o Barão Giulio Cesare Andrea Evola, mais conhecido como Julius Evola.
Mestre do denominado Tradicionalismo Integral e principal pensador esotérico antimoderno de todos os tempos ao lado de René Guénon, de quem, aliás, se considerava discípulo e cuja obra A crise do Mundo Moderno traduziu para o idioma italiano e prefaciou[2], Evola é sem sombra de dúvida o autor mais influente entre os adeptos da chamada Nova Direita europeia.
No Brasil, entretanto, permanece praticamente desconhecido o autor de Revolta contra o Mundo Moderno, mesmo nos círculos de resistência contra o Império de Calibã, isto é, contra a Idade das Trevas em que está mergulhado o Mundo em geral e o Ocidente em particular. Neste País só foi até hoje publicado, com efeito, um livro de Evola: O mistério do Graal[3]. As demais obras deste heróico Homem contra o Tempo[4] são conhecidas, entre nós, por pouquíssimos privilegiados e por meio sobretudo das edições portuguesas e, mais recentemente, da rede mundial de computadores, onde há páginas em português do nível dos blogues Cadernos evolianos[5] e Grupo de Ur[6], sem mencionar o Boletim Evoliano[7].
Isto posto, cumpre ressaltar que muitos vêm conhecendo o pensamento evoliano por meio de traduções de obras em que há páginas a respeito do grande doutrinador antimoderno, tais como Sol Negro, de Nicholas Goodrick-Clarke[8], e Elogio da Tradição, de Marcello Veneziani[9]. No primeiro de tais livros, em particular, há um interessante e consideravelmente honesto capítulo dedicado a Evola, bem como igualmente interessantes e consideravelmente honestos capítulos dedicados a Savitri Devi, Miguel Serrano e outros pensadores que vêm exercendo influência sobre os círculos do vulgarmente denominado nazismo esotérico.
Faz-se mister sublinhar, ademais, que o autor de Os homens e as ruínas exerceu considerável influência sobre dois dos maiores filósofos brasileiros: Vicente Ferreira da Silva e Heraldo Barbuy, o primeiro pagão como Evola e o segundo um fervoroso católico que soube como nenhum outro aproveitar o que há de válido à luz da Tradição Católica no pensamento do metafísico e doutrinador tradicionalista italiano. Isto sem mencionar a influência que o pensador gibelino exerceu sobre o jornalista e ensaísta Olavo de Carvalho, que em seu livro O jardim das aflições reconhece em Evola o maior escritor esotérico do século XX ao lado de Guénon[10] e que, em sua página pessoal na rede mundial de computadores menciona A Tradição Hermética, uma das obras-primas do autor de A doutrina do despertar, como um dos principais livros que formaram sua visão de mundo[11].
Não é, porém, para tratar da penetração das ideias evolianas no Brasil que redigimos estas linhas, mesmo porque a respeito de tal tema há um excelente artigo da autoria do ilustre professor e pensador tradicionalista gaúcho César Ranquetat Junior[12]. Redigimos estas linhas, sim, para cuidar, ainda que breve e resumidamente, de Julius Evola e de seu revolucionário pensamento.
Havendo qualificado como revolucionário o pensamento de Evola, julgamos necessário destacar que pelo termo Revolução compreendemos a revolta contra um estado de coisas que traz a ideia de retorno, correspondendo à tradicional concepção astronômica da palavra, segundo a qual esta significa o retorno de um astro ao ponto de partida e o seu moto ordenado em torno de um centro. Este é o sentido que o próprio Evola considera o mais apropriado para tal palavra[13] e é, também, o sentido que preferimos, seguindo o exemplo de João Ameal[14], ilustre pensador tradicionalista e historiador português, e de Plínio Salgado[15], máximo expoente do pensamento tradicionalista no Brasil ao lado de José Pedro Galvão de Sousa, na abalizada opinião de Francisco Elías de Tejada y Spínola[16], mais importante pensador tradicionalista espanhol do século XX, que, diga-se de passagem, é autor de um fundamental estudo sobre Evola a partir dos ideais do Tradicionalismo Católico Hispânico[17].
Nascido Giulio Cesare Andrea Evola em Roma no ano de 1898 no seio de uma família siciliana de nobres origens, o futuro autor de Cavalgar o tigre recebeu uma rigorosa educação católica, contra a qual logo se revoltou. Mais tarde, após uma longa fase em que o ódio que nutria contra o Catolicismo só não era maior do que contra o judaísmo, o protestantismo e aquilo a que considerava o “cristianismo das origens”, Evola finalmente reconheceria o caráter tradicional do Catolicismo autêntico.
Ainda bastante jovem, logo depois da fase dos romances de aventuras, Evola – como relata em O caminho do cinábrio, sua autobiografia espiritual – planejou compilar, juntamente com um amigo, uma história da Filosofia. Nesta época era ele atraído por autores como Oscar Wilde e Gabriele D’Annunzio. E é neste tempo, ainda, que, durante as longas horas que passava na biblioteca, tomou contato com a obra de pensadores como Friedrich Nietzsche, Carlo Michelstaedter e Otto Weininger[18], que muito contribuíram para a formação de sua cosmovisão.
Juntamente com os estudos universitários em Engenharia Industrial, que não terminaria por se recusar a discutir a tese de conclusão de curso em virtude do desprezo que nutria por títulos acadêmicos, Evola cultivava vivo interesse pela Literatura vanguardista italiana, que gravitava em torno de intelectuais como Giovanni Papini, Giuseppe Prezzolini e Filippo-Tomaso Marinetti.
Papini, que nesta época ainda não se havia convertido ao Catolicismo, foi fundador, diretor e principal colaborador das revistas Il Leonardo, Voce e Lacerba, que, com sede em Florença e ideais autenticamente revolucionários, agitaram toda a Itália dos primeiros anos do século XX, constituindo, segundo Evola, “forças alérgicas ao clima da pequena Itália burguesa” daqueles tempos e cuja erupção marcou, ainda de acordo com o pensador e Homem de ação antimaterialista, um verdadeiro Sturm und Drang que conheceu a Nação Italiana[19].
Foi nesta época que Evola se aproximou do Futurismo, passando a manter relações pessoais com alguns de seus vultos, tais como Marinetti e o pintor Giacomo Balla[20].
Não demoraria, porém, para que ficassem patentes as profundas diferenças que separavam Evola dos futuristas e do grupo de Papini. Isto se deu por ocasião da I Grande Guerra, quando Evola – que, ao contrário destes, - era antinacionalista, havendo já certamente concebido a ideia, aliás totalmente antitradicional, de pátria eletiva, defendeu que a Itália deveria entrar no conflito ao lado dos Impérios Centrais (Império Alemão e Império Austro-Húngaro), enquanto os outros, bem como D’Annunzio e Mussolini, sustentaram que o país devia lutar ao lado da Tríplice Entente (França, Império Britânico e Império Russo), identificando os Impérios Centrais à tirania e à barbárie.
Alguns simpatizantes burgueses da Kultur germânica, tais como Benedetto Croce, defendiam que a Itália permanecesse neutra, mas o jovem Evola, como vimos, sustentava não a simples neutralidade, mas a entrada do país na guerra ao lado dos Impérios Centrais. Ele admirava a “tradição mais essencial” dos povos germânicos em geral e da Alemanha em particular, que buscava em sua concepção de Estado, nos princípios de ordem e disciplina, na ética prussiana e nas sãs divisões sociais que subsistiam apesar da revolução do terceiro estado e do capitalismo, que não as havia comprometido senão parcialmente[21].
Por esses dias, Evola escreveu um artigo em que sustentou que, ainda que não combatendo ao lado da Alemanha, e sim contra ela, “se devia fazê-lo assumindo seus princípios, e não em nome das ideologias [sic.][22] nacionalistas e irredentistas ou ideologias democráticas, sentimentais e hipócritas da propaganda aliada”. Havendo lido tal artigo, Marinetti disse a Evola que suas ideias estavam mais distantes das dele do que as de um esquimó[23].
Algum tempo depois da entrada da Itália no conflito, ao lado da Tríplice Entente, Evola, após haver recebido, em Turim, formação rápida para oficiais, seguiu para a frente de combate, permanecendo inicialmente nas montanhas perto de Asiago.
Ao final da guerra, Evola retornou a Roma. Em 1919, após haver participado da Exposição Nacional Futurista de Milão, rompeu para sempre com Marinetti e o Futurismo, aderindo no ano seguinte ao Dadaísmo, movimento de que logo se tornou o principal expoente em terras italianas. Suas pinturas carregadas de espiritualismo idealísitico foram expostas em Roma, Milão, Lausanne, Berlim e no Salon Dada de Paris, a Meca do Dadaísmo. No opúsculo Arte abstrata, explicou os motivos de seu afastamento do Futurismo, cujos adeptos eram, a seu sentir, incapazes de percorrer coerentemente as vias do Voluntarismo e do Attualismo[24].
Foi por esse tempo, ainda, que Evola colaborou em revistas artísticas como Bleu e Noi, declamou seus revolucionários poemas em locais como o Cabaret Grotte dell’Augusteo, em Roma, e publicou, em Lausanne, o poemeto intitulado La parole obscure du paysage interieur.
Foi nos anos de militância dadaísta que Evola se aprofundou nos estudos filosóficos, em especial do Idealismo, corrente então predominante na Itália e cujos principais expoentes eram Giovanni Gentile e Benedetto Croce, e iniciou os estudos do Yoga, do Tantrismo, do Zen-Budismo, da magia e do ocultismo. Em 1923, ano em que parou de pintar, foi curador de uma tradução italiana do Tao-te-King, de Lao-Tsé.
Em 1926, Evola publicou um estudo a respeito do Tantra intitulado O homem como potência. Um ano antes, publicara a obra Ensaios sobre o idealismo mágico, que juntamente com a Teoria do Indivíduo absoluto e a Fenomenologia do Indivíduo absoluto, publicadas, respectivamente, em 1927 e 1930, embora escritas alguns anos antes, representa a passagem de Evola pela Filosofia do Idealismo.
Em meados da década de 1920, Evola colaborou nas revistas Atanòr e Ignis, dirigidas pelo tradicionalista pitagórico Arturo Reghini, e também nos jornais Il Mondo e Lo Stato democratico. Neste último, dirigido pelo Duque Giovanni Colonna di Cesarò, publicou Evola, em 1925, o trabalho Estado, potência, liberdade, onde criticou tanto o Fascismo quanto a liberal-democracia. Na mesma época colaborou também nas revistas Ultra, de Decio Calvari, presidente da Liga Teosófica Independente de Roma, e L’idealismo realistico, de Vittore Marchi, onde escreveu uma crítica desfavorável a um livro de René Guénon sobre o Vedanta[25]. A resposta de Guénon à crítica de Evola marcou o início da longa e fecunda correspondência entre os dois, que, ressalvadas algumas interrupções, em especial a provocada pela II Grande Guerra, durou até a morte do autor de O reino da quantidade e os sinais dos tempos, no Cairo, em 1951.
O Sheik Abdel Wahid Yasha, mais conhecido pelo nome de René Guénon, com o qual foi batizado na pequena cidade medieval de Blois, no vale do Loire, influenciou muitíssimo o pensamento de Evola, que decerto não haveria escrito a Revolta contra o Mundo Moderno caso não houvesse lido A crise do Mundo Moderno. “O mestre de nossos tempos, o defensor do ‘tradicionalismo integral’, o mais radical de todos os ‘antimodernos’”, na expressão de Evola[26], somente, a nosso sentir, não influenciou mais o autor de O arco e a clava do que Friederich Nietzsche, o genial poeta de Assim falava Zaratustra, maior poema em prosa da Literatura alemã, e profeta do Super-homem, do Eterno Retorno e da Vontade de Potência.
Como observa Francesco Lamendola, Evola recebeu de Guénon, em particular, o conceito de Tradição, compreendida, na opinião do pensador, filósofo e professor italiano, “como um saber de origem não humana que se transmite através de escolas esotéricas tanto orientais quanto ocidentais, com o fim precípuo de guiar a humanidade através do negro Kali Yuga da modernidade, lhe permitindo (ou melhor, permitindo a poucos privilegiados) não perder o verdadeiro significado da vida, que é – agora e sempre – aquele da total afirmação da liberdade interior através das práticas e da doutrina de um individualismo absoluto”[27].
Cumpre ressaltar que tal não é a nossa concepção de Tradição. Para nós, a Tradição é a cadeia sagrada que une os homens ao passado e ao futuro, aos ancestrais e aos descendentes; o patrimônio de valores comuns que herdamos de nossos pais e que devemos legar, aprimorado, a nossos descendentes; a base de todo progresso autêntico, que, ao contrário do que defende Evola, nunca se tornou invisível e secreta e não une poucos a poucos[28], não sendo, com efeito, somente esotérica e invisível, mas a um só tempo exotérica e esotérica, visível e invisível e ligando muitos a muitos. Do mesmo modo, rejeitamos por completo a ideia de liberdade total, bem como o individualismo, ao qual opomos o personalismo e o grupalismo e consideramos que o verdadeiro significado da existência humana repousa na busca da santidade.
Isto posto, cumpre ressaltar que, para Guénon e Evola, a Tradição teria este caráter esotérico, aristocrático e secreto apenas a partir do final da denominada Idade Média e do início da Idade Moderna, quando a Tradição inegavelmente perdeu o caráter universal.
Volvamos, porém, à biografia de Evola. Em 1926-27, deu ele vida, ao lado de Arturo Reghini, Guido De Giorgio e outros, ao chamado Grupo de Ur, passando a publicar os cadernos mensais Ur (1927-28) e Krur (1929), reunidos na coletânea em três volumes intitulada Introdução à magia como ciência do Eu e publicada entre 1955 e 1956. Em 1930, fundou a revista quinzenal La Torre, que chegou ao décimo número, sendo fechada por ordem das autoridades fascistas em virtude de suas visões pouco ortodoxas da Doutrina do Fascio, visões que Evola expressava desde 1928, quando se aproximara do Fascismo, passando a colaborar na revista Critica fascista, de Giuseppe Bottai, onde escreveu artigos anticristãos também publicados em Vita Nuova e Il lavoro d’Italia.
Naquele ano de 1928, Evola publicara também a sua obra mais polêmica e radical: Imperialismo pagão: o fascismo diante do perigo euro-cristão. Em tal obra, o autor, que jamais ingressaria no Partido Nacional Fascista, defende um fascismo novo, um fascismo gibelino, um superfascismo livre dos valores cristãos e dos valores hegelianos e mazzinianos tão ao gosto de seus principais doutrinadores, em especial Giovanni Gentile, e clama pelo ressurgimento do Império e dos Deuses de Roma. Em uma palavra, Evola, dirigindo-se “a cada fascista que seja digno de tal nome, e que verdadeiramente vibre à vontade de regeneração, de dignidade romana, de potência proclamada pelo Duce[29], proclama que “à superstição semítica de nossos pais nós hoje, reevocando Roma, opomos em tudo e por tudo a tradição verdadeira e antiga de nossos avós, a tradição mediterrânea”[30].
No ano de 1933, logo após a ascensão de Adolf Hitler ao poder na Alemanha, veio à luz, em Leipzig, a edição alemã, totalmente revista e ampliada, de Imperialismo pagão, Heidnischer Imperialismus, obra recebida como “uma espécie de evangelho do moderno gibelinismo”, fazendo enorme sucesso nos círculos nacional-socialistas[31].
Em 1934, Evola, que três anos antes publicara a obra A Tradição Hermética e em 1932 lançara Máscara e vulto do espiritualismo contemporâneo, deu a lume sua obra-mestra, a Revolta contra o Mundo Moderno, que, a exemplo de Heraldo Barbuy, classificamos como “monumental”[32], a considerando mesmo uma das principais obras político-filosóficas de todo o século XX e a verdadeira “bíblia” do chamado Tradicionalismo Integral.
Em Revolta contra o Mundo Moderno, livro em que, ao contrário de em Imperialismo pagão, o anticristianismo não ocupa o papel central, Evola defende, em suma, que a única salvação possível ao Ocidente é “um retorno ao espírito tradicional em uma nova consciência ecumênica europeia”; o “retorno à tradição em sentido lato, universal, unânime, compreendendo todas as formas de vida e de luz; no sentido, outrossim, de um espírito e de uma ordem única que imperam soberanos em cada homem e em cada classe de homens. Não se trata da tradição em sentido aristocrático e secreto, como depósito custodiado por poucos”, pois, neste “sentido subterrâneo”, a Tradição, segundo Evola, sempre existiu e sempre existirá, mas isto não impediu o declínio da Civilização Ocidental[33].
Em 1937 foi publicado O mistério do Graal, obra em que o doutrinador antimoderno e antimaterialista analiza o caráter do mistério do Graal, que é, segundo ele, iniciático e regal, remontando a uma tradição anterior ao Cristianismo.
Em princípios do ano seguinte, Evola viajou para a Romênia, onde conheceu pessoalmente Mircea Eliade, com quem se correspondia desde fins da década de 1920, quando o pensador romeno estudava sânscrito e Filosofia indiana na Universidade de Calcutá e já lia as obras do então jovem filósofo idealista italiano, admirando “sua inteligência e, sobretudo, a densidade e claridade de sua prosa”[34]. Foi também durante esta visita à Romênia que o autor de Revolta contra o Mundo Moderno conheceu Corneliu Zelea Codreanu, fundador e líder máximo da Legião de São Miguel Arcanjo, também conhecida como Guarda de Ferro, de que Eliade era então membro e que, a despeito de sua posição nacionalista e ortodoxa romena confessional, contava com a profunda admiração de Evola, que, com efeito, a admirava mais do que qualquer outro dos diversos movimentos cívico-políticos europeus de caráter tradicionalista, patriótico e nacionalista surgidos no século XX como reação ao materialismo e ao espírito burguês. Mais tarde, Evola escreveu alguns seminais artigos a respeito do grande Homem de pensamento e de ação, que fisicamente parecia, segundo o metafísico italiano, “uma reaparição do mundo ário-itálico”[35] e que, assassinado em 1938, por ordem do Rei Carol II, na prisão de Jilava, juntamente com outros líderes do Movimento Legionário, transformou-se em um dos mais importantes mártires da História da heróica Dácia.
Estudioso das questões étnicas, Evola sustentou um racismo espiritual com o qual não concordamos e que a partir de 1938 se tornou predominante no Fascismo italiano, até então majoritariamente antirracista. Tal racismo está presente em obras como Aspectos do problema hebraico (1936), O mito do sangue (1937), Diretrizes para uma educação racial (1941) e Síntese da doutrina da raça (idem), bem como em diversos artigos publicados na revista La difesa della razza, dirigida por Telesio Interlandi.
Em 1941, Mussolini, - que havia lido a Síntese da doutrina da raça durante uma viagem à Alemanha e que via em Evola um teórico capaz de interpretar como nenhum outro o racismo espiritual que vinha defendendo e que não devia ser confundido com o racismo biológico do nacional-socialismo, convidou o autor para uma conversa com ele no Palazzo Venezia. Foi este o início da amizade que uniu o mais irredutível dos antimodernos e o último dos Césares.
Não sendo aceito como voluntário da frente soviética em virtude de não ser filiado ao Partido Nacional Fascista, Evola se dedicou então a escrever um ensaio sobre a ascese budista publicado em 1943 e intitulado A doutrina do despertar. No mesmo ano viajou para a Alemanha, estando no Quartel-General de Hitler em Rastenburg, Prússia Oriental, em 14 de setembro, quando Mussolini ali chegou após ter sido libertado de seus captores por Otto Skorzeny e seus homens. De volta à Itália, apoiou a República Social Italiana, fundada por Mussolini e também conhecida como República de Salò, apesar de ser antirrepublicano e possuir verdadeiro horror à palavra “social”. Em 1945 se encontrava em Viena, colaborando com as SS na tradução de textos maçônicos, quando foi gravemente ferido durante um bombardeio aliado ocorrido pouco antes da entrada dos soviéticos na antiga capital dos Habsburgos, quase morrendo e ficando paralítico até o fim de seus dias.
De volta à Itália em 1948, publicou, dois anos mais tarde, o opúsculo Orientações, que, dirigido em particular aos jovens do Movimento Social Italiano (MSI), contém todas as ideias posteriormente desenvolvidas em Os homens e as ruínas (1953), Metafísica do sexo (1958) e Cavalgar o tigre (1961), que constituem, em nossa singela opinião, as mais importantes obras do pensador e Homem de ação depois de Revolta contra o Mundo Moderno.
Em 1963, surgiu O caminho do cinábrio, espécie de autobiografia espiritual de Evola, que constitui excelente roteiro de sua obra e de seu pensamento.
Falecido em Roma a 1º de junho de 1974, Evola, cujas cinzas foram depositadas em uma geleira do Monte Rosa, nos Alpes Italianos, se transformou em um símbolo da heróica luta em defesa dos valores autênticos, perenes e superiores da Tradição contra os valores inautênticos, passageiros e inferiores da Civilização Ocidental Contemporânea, que associava à Kali Yuga dos hindus, à Idade do Ferro dos helenos e romanos e à Idade do Lobo dos antigos germanos.
Infelizmente Evola, – a exemplo de Nietzsche, por quem tanto foi influenciado, para o bem e para o mal, - nunca compreendeu o verdadeiro significado do Cristianismo, da Família, da Nação e do nacionalismo e mesmo da Pátria e do patriotismo, havendo chegado a pregar o fim da “superstição da ‘pátria’ e da ‘nação’”, por ele vistas como “larvais e tenazes resíduos do impersonalismo democrático”[36] e defendendo, mais tarde, que é na Ideia e somente na Ideia que se deve reconhecer a verdadeira Pátria[37], que, para o autor de A Tradição Romana, há muito perdeu o caráter original de terra dos pais[38]. Mesmo, porém, com estes e outros erros e falhas, tais como o desconhecimento da verdadeira essência do Direito Natural Tradicional, ou Clássico, Evola merece ser lido, estudado e reconhecido como um dos mais importantes mestres do pensamento tradicional, pois teve o mérito de condenar, com a argúcia e lucidez de poucos, a mediocridade burguesa, a superstição do progresso indefinido, a liberal-democracia, o comunismo, o coletivismo,a dessacralização da Sociedade, o cientificismo, o economicismo, ou, em uma palavra, o Mundo Moderno, a idade obscura, antitradicional por natureza.
Mais, porém, do que pelas críticas ao Mundo Moderno, Julius Evola merece ser lido, estudado e lembrado por sua defesa da restauração da Sociedade Tradicional, por ele definida como a Sociedade “regida por princípios que transcendem aquilo que é tão somente humano e individual”, como a Sociedade “em que cada domínio próprio é formado e ordenado do alto e para o alto”[39]. Merece ser evocado pela defesa da Monarquia Tradicional e de princípios tradicionais como os de honra, lealdade, obediência, fé, hierarquia e autoridade, bem como pela defesa do Estado Orgânico, que define como o Estado “que possui um centro, e este centro é uma ideia que informa a partir de si, de modo eficaz, aos diferentes domínios”, como o Estado que “ignora a excisão e a autonomização do particular e, em virtude de um sistema de participações hierárquicas, cada parte em sua relativa autonomia tem uma funcionalidade e uma íntima conexão com o todo”[40]. Merece, por derradeiro, ser recordado pela defesa da ideia transcendente de Imperium, Imperium que jamais se poderá erigir “sobre a base de fatores econômicos, militares, industriais, e mesmo ideais”[41].
Julius Evola, mestre incontestável do Tradicionalismo Integral e um dos mais geniais pensadores do século XX, foi a um só tempo brahmin e kshatriya, sábio e guerreiro, Homem de pensamento contemplativo e de ação. Tendo a consciência de que nada de grande e belo pode existir fora da Tradição e de que, como preleciona Heidegger, “não é na vida banal, mas na audácia angustiosa do Herói que repousa a grandeza final do existir humano”[42], teve a coragem de permanecer de pé entre as ruínas e de cavalgar o tigre da modernidade, sempre preparado para o momento do cansaço do tigre, que não se pode lançar contra quem o cavalga. Sua mais importante lição é esta: “A criação de um novo Estado e de uma nova civilização será sempre algo efêmero quando estes não tiverem como substrato um novo homem”[43].


NOTAS:


[1] EVOLA, Julius. Cabalgar el tigre. Trad. argentina de Marcos Ghio. Buenos Aires: Ediciones Heracles, 1999, p. 22.
[2] GUÉNON, René. La crisi del Mondo Moderno. Trad. italiana e intr. de Julius Evola. Roma: Edizioni Mediteranee, 2003.
[3] EVOLA, Julius. O mistério do Graal. Trad. de Pier Luigi Cabra. São Paulo: Editora Pensamento, 1972.
[4] A expressão Homem contra o tempo pertence a Savitri Devi, que em sua obra O raio e o sol, discorre sobre os três tipos de Homens existentes segundo ela: Homens no Tempo, Homens acima do Tempo e Homens contra o Tempo. Os primeiros são os agentes por excelência de Kali Yuga, a Idade Obscura, se caracterizando pelo mais absoluto egoísmo e pela violência e ambição sem limites. Os segundos são aqueles sábios espiritualizados e adversos à violência, que, em plena Idade das Trevas, vivem como se estivessem em Satya Yuga, a Idade Dourada. Por fim, os terceiros, os Homens contra o Tempo, são aqueles que empregam a mesma violência dos Homens no Tempo, porém com o propósito de restaurar os elevados valores da Idade de Ouro (DEVI, Savitri. The Lightning and the Sun. 1ª ed. Calcutá: Temple Press, 1958, pp. 36-55).
[5] http://cadernosevolianos.blogspot.com/. Acesso em 23 de setembro de 2009.
[6] http://grupodeur.blogspot.com/. Acesso em 23 de setembro de 2009.
[7] http://www.boletimevoliano.pt.vu/. Acesso em 23 de setembro de 2009.
[8] GOODRICK-CLARKE, Nicholas. Sol Negro: cultos arianos, nazismo esotérico e políticas de identidade. Trad. de Fábio Rezende. São Paulo: Madras, 2004.
[9] VENEZIANI, Marcello. De pai para filho: Elogio da Tradição. Trad. de Orlando Soares Moreira. São Paulo: Edições Loyola, 2005.
[10] Citamos de memória.
[11] CARVALHO, Olavo de. Livros que fizeram a minha cabeça. Disponível em: www.olavodecarvalho.org/textos/livros.htm. Acesso em 23 de setembro de 2009.
[12] RANQUETAT JUNIOR, César. O pensamento de Julius Evola no Brasil. Disponível em: http://www.juliusevola.it/documenti/template.asp?cod=563. Acesso em 23 de setembro de 2009.
[13] EVOLA, Julius. Introduzione. In GUÉNON, René. La crisi del Mondo Moderno. Op. cit., p. 7.
[14] AMEAL, João. No limiar da Idade-Nova. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1934, pp. 12-14.
[15] Vide SALGADO, Plínio. Psicologia da Revolução. 6ª ed. In SALGADO, Plínio. Obras Completas, 2ª ed., vol. 7. São Paulo: Editora das Américas, 1957.
[16] TEJADA, Francisco Elías de. Plínio Salgado na Tradição do Brasil. In Diversos. Plínio Salgado – “In Memoriam”, vol. II. São Paulo: Voz do Oeste/Casa de Plínio Salgado, 1985/1986, p. 70.[17] TEJADA, Francisco Elías de. Julius Evola desde el Tradicionalismo Hispánico. In Ethos, ano I, nº 1, Buenos Aires, 1973.
[18] EVOLA, Julius. El camino del cinabrio. Trad. espanhola. I capítulo. Disponível em: http://juliusevola.blogia.com/2006/100101-el-camino-del-cinabrio-01-.-el-contexto-personal-y-las-primeras-experiencias.php. Acesso em 24 de setembro de 2009.
[19] Idem.
[20] Idem.
[21] Idem.
[22] Para nós, que neste aspecto temos posição contrária à de Evola, o verdadeiro nacionalismo não é uma ideologia, mas uma Doutrina sã e intimamente ligada à Tradição. Concordamos, pois, com Marcello Veneziani, para quem a defesa da Identidade Nacional e da Tradição Nacional, longe de ser “uma negação da ideia de Tradição” (como querem Guénon e Evola), é como que “um defender a tradição e a identidade de um povo da erradicação e do cosmopolitismo, da colonização e da globalização” (VENEZIANI, Marcello. De pai para filho: Elogio da Tradição. Op. cit., p. 130). Do mesmo modo, consideramos o Irredentismo parte nobilíssima da Tradição e da História Italiana.
[23] EVOLA , Julius. El camino del cinabrio, cit.
[24] LAMENDOLA, Francesco. Alcuni aspetti del pensiero filosofico di Julius Evola. Disponível em: http://www.ariannaeditrice.it/articolo.php?id_articolo=13742. Acesso em 24 de setembro de 2009.
[25] Idem.
[26] EVOLA, Julius. René Guénon, un maestro de los tiempos últimos. Trad. argentina de Marcos Ghio. Serie Cuadernos Tradicionales, nº 4, Buenos Aires: Ediciones Heracles, 2001, p. 7.
[27] LAMENDOLA, Francesco. Alcuni aspetti del pensiero filosofico di Julius Evola, cit.
[28] EVOLA, Julius. Heidnischer Imperialismus. II ed. italiana revisada com Imperialismo pagano. Roma: Edizioni Mediteranee, 2004, p. 197.
[29] EVOLA, Julius. Imperialismo pagano: Il fascismo dinnanzi al pericolo euro-cristiano. 4ª ed. corrigida, com dois apêndices e Heidnischer Imperialismus. Roma: Edizioni Mediteranee, 2004,p. 177.
[30] Idem, p. 76.
[31] LAMENDOLA, Francesco. Alcuni aspetti del pensiero filosofico di Julius Evola, cit.
[32] BARBUY, Heraldo. Cristianismo e angústia. In BARBUY, Heraldo. O problema do Ser e outros ensaios. São Paulo: Convívio/EDUSP, 1984, p. 249, nota.
[33] EVOLA, Julius. Rivolta contro Il Mondo Moderno. 2ª ed. revista e ampliada. Milão: Fratelli Bocca Editori, 1951, pp. 453-454.
[34] ELIADE, Mircea. Exile’s Odyssey. Chicago: University of Chicago Press, 1988, p. 152.
[35] EVOLA, Julius. Colloquio col capo delle “Guardie di Ferro”. In Il Regime Fascista, 22/03/1938. Disponível em http://www.centrostudilaruna.it/evolalegionarismoascetico.html. Acesso em 25 de setembro de 2009.
[36] EVOLA, Julius. Imperialismo pagano: Il fascismo dinnanzi al pericolo euro-cristiano. Op. cit., p. 88.
[37] EVOLA, Julius. Los hombres y las ruinas. Trad. argentina de Marcos Ghio. Buenos Aires: Ediciones Heracles, 1994, p, 43.
[38] Idem, p. 42.
[39] EVOLA, Julius. Cabalgar el tigre. Trad. argentina de Marcos Ghio. Buenos Aires: Ediciones Heracles, 1999, p. 21.
[40] EVOLA, Julius. Los hombres y las ruinas. Op. cit., p. 64.
[41] EVOLA, Julius. Imperialismo pagano: Il fascismo dinnanzi al pericolo euro-cristiano. Op. cit, p. 62.
[42] HEIDEGGER, Martin apud BARBUY, Heraldo. Sartre e Heidegger. In BARBUY, Heraldo. O problema do Ser e outros ensaios. Op. cit., p. 211.
[43] EVOLA, Julius. Los hombres y las ruinas. Op. cit., pp. 193-194.

Saturday, October 10, 2009

77 anos do "Manifesto de Outubro"

Palavra do Presidente – 07 de Outubro de 2009-LXXVII

Há setenta e sete anos, no dia 07 de Outubro de 1932, foi lançado, em São Paulo, o chamado Manifesto de Outubro, da lavra de Plínio Salgado, já então um consagrado pensador, escritor, jornalista e político.
O Manifesto de Outubro, cujo lançamento marca o surgimento oficial do Integralismo Brasileiro, espalhou-se por todo o País como um rastilho de pólvora, atraindo para as hostes Integralistas desde os homens simples até os mais eruditos intelectuais, que se irmanaram no mais genuíno Movimento de Ressurgimento e Renovação Nacional de nossa História.
Defendendo a Concepção Integral do Universo e do Homem, a Democracia Orgânica, a Família, a Autonomia Municipal, o Princípio de Autoridade, a Harmonia Social, o Nacionalismo sadio, justo, equilibrado e edificador e a ideia do Estado Ético-Integral, e, ao mesmo tempo, condenando o materialismo em todas as suas faces, o Manifesto de Outubro reúne todos os elementos centrais da Doutrina Integralista.
O Integralismo é um Movimento e não um partido; uma Doutrina e não uma ideologia; não quer o sub-homem do credo marxista nem o Super-Homem do credo nietzscheano, mas o Homem Integral, da mesma forma que não deseja o Estado fraco nem o Estado Totalitário, mas sim o Estado Ético, que não é princípio nem fim, mas apenas um meio, um instrumento a serviço da Pessoa Humana e do Bem Comum.
O objetivo final do Integralismo não é a reforma e muito menos a conservação da ordem atual, mas sim a Revolução que criará uma Ordem Nova, restaurando o Primado do Espírito e reconduzindo o Brasil às bases morais de sua formação. Para tanto, tem plena consciência de que não há Renovação ou Progresso sem Tradição e de que somente o Homem que destruir o burguês que há dentro de si e que estiver firmemente enraizado em uma Tradição e possuir consciência de Pátria e de Nação será uma pedra viva da Nova Sociedade, do Novo Estado, do Novo Império.
A Frente Integralista Brasileira (FIB), mais importante Movimento Integralista e Nacionalista do Brasil de nossos dias, convida a todos, nesta data histórica, para que visitem seu novo portal, onde se discorre a respeito dos ideais e propostas do Integralismo, particularmente resumidos no Manifesto da Guanabara, por nós lançado a 25 de janeiro último, por ocasião do encerramento do III Congresso Nacional Integralista, realizado no Rio de Janeiro.
A Frente Integralista Brasileira convida a todos, ademais, para que se juntem a ela na luta por um Brasil Maior e Melhor; por um Brasil que não seja somente o País do Passado e do Futuro, do Ontem e do Amanhã, mas também do Presente, do Hoje; por um Brasil cujas instituições políticas representem verdadeiramente a Sociedade, constituindo um espelho do País real, do Brasil profundo e autêntico, cuja permanência ou ocaso .só depende de nós; de nós, sim, que temos a coragem, a tenacidade, o heroísmo de permanecer de pé entre as ruínas e de marchar em meio à tempestade, conscientes sempre de que no plano moral a vitória já nos pertence.

Victor Emanuel Vilela Barbuy, Presidente da Frente Integralista Brasileira.São Paulo do Campo de Piratininga, 07 de outubro de 2009-LXXVII

Friday, September 18, 2009

Considerações sobre a entrevista do Prof. Angelo Trento à Folha de S. Paulo

Por Victor Emanuel Vilela Barbuy

A seis de setembro último passado, o jornal Folha de S. Paulo publicou no Caderno Mais!, uma entrevista de Angelo Trento, professor da Universidade de Nápoles, a respeito da penetração da doutrina fascista no Brasil ao tempo em que Mussolini governava a Itália e seu Império.
O que há de incomum e louvável em tal entrevista é o reconhecimento de que – ao contrário do que afirmam nossos “historiadores”, para os quais a Doutrina do Fascio só encontrou seguidores, no Brasil, entre a elite econômica da comunidade italiana – “o fascismo encontrou sem dúvida um vasto consenso entre a coletividade italiana e não apenas entre as classes altas e as camadas médias, mas também entre a pequena burguesia (como na Itália), principalmente comercial, e entre os próprios operários”. Do mesmo modo reconhece o autor – igualmente ao contrário do que afirmam os “historiadores” deste País – que “foi apenas uma minoria [da comunidade italiana] que se empenhou no movimento operário, defendendo posições anárquicas, anarcossindicalistas e socialistas”, e isso ainda antes da década de 1920.
Outro fato interessante que Trento reconhece – ao contrário, uma vez mais dos “historiadores” brasileiros – é o de que Mussolini gozava de “prestígio elevado” “com a opinião pública, as classes dirigentes e os governos estrangeiros”. A isto cumpriria acrescentar o fato, não apontado por Trento, de que o Fascismo foi capaz de atrair, como observa Zeev Sternhell, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, “qualquer uma das vanguardas mais avançadas de seu tempo”, contando com a admiração ou mesmo a militância de intelectuais como Ezra Pound, T.S. Eliot, Wyndham Lewis, Mircea Eliade, Emil Cioran, José Antonio Primo de Rivera, Fernando Pessoa e Hendrik de Man
[1], nomes aos quais podemos acrescentar os de Giovanni Gentile, Luigi Pirandello, Gabriele D’Annuzio, Giovanni Papini, Ugo Spirito, Giorgio Del Vecchio, Giuseppe Prezzolini, Maurice Barrès, Charles Maurras, Louis-Férdinand Céline, Robert Brasillach, Knut Hamsun, D. H. Lawrence, Oswald Mosley, Corneliu Codreanu, Carl Schmitt, Martin Heidegger e tantos outros que seria por demais fastidioso enumerar.
Um erro grave de Trento que deve ser destacado é o de seguir a tese segundo a qual os ideais do Risorgimento e do Fascismo seriam opostos, quando em verdade - como ressalta Giovanni Gentile, principal doutrinador do Fascismo italiano – “o Fascismo é filho do Risorgimento: do Risorgimento heróico, criador de um Estado moderno, que é potência política na medida em que é potência econômica e civilização: um homem novo, vivo, são, inteligente, original”
[2].
“Perder este fio, rompê-lo” – prossegue o ilustre filósofo italiano – “não pode ser e não é de interesse do Fascismo. Cuja revolução é progresso na medida em que é restauração: consolidação das bases para edificar sobre um sólido edifício, alto, na luz. Toda originalidade sem tradição, como toda espontaneidade sem disciplina, é veleidade estéril, não vontade viril. Capricho, não programa. Não é o espírito do Fascismo, mas sua caricatura”
[3].
Isto posto, cumpre ressaltar que, para Gentile, o Risorgimento foi um movimento de cunho tradicionalista, coincidindo com aquela renovação geral que pode ser considerada lato-senso como Romantismo, considerando Vincenzo Gioberti e Antonio Rosmini, dois dos principais vultos do Risorgimento, como os mais importantes pensadores tradicionalistas italianos
[4]. Tal posição é semelhante, aliás, à de Francisco Elías de Tejada y Spínola, um dos mais notáveis pensadores tradicionalistas católicos do século XX, para quem o Risorgimento, “não obstante as maneiras como se realizou”, constitui “parte nobilíssima” da Tradição Italiana[5].
Tal não é, porém, a opinião da maior parte dos tradicionalistas, sejam guelfos ou gibelinos, razão pela qual a posição do Fascismo em face do Risorgimento e, em especial, das ideias de Giuseppe Mazzini, motivou críticas de muitos desses tradicionalistas ao Fascismo. Julius Evola, mestre do denominado Tradicionalismo Integral e maior pensador antimoderno esotérico do século XX ao lado de René Guénon, por exemplo, afirma, em seu livro Imperialismo pagano, que se o fascismo conservava em si elementos mazzinianos, deveria expurgá-los, se purificando
[6].
O maior erro do professor Trento foi, contudo, afirmar irresponsavelmente que a Ação Integralista Brasileira (AIB) foi financiada por Mussolini. Com efeito, sugerimos a ele que leia a esclarecedora obra de Jayme Ferreira da Silva intitulada A verdade sobre o Integralismo, onde é pulverizada acusação semelhante, segundo a qual a AIB seria financiada pelo Banco Alemão Transatlântico do Rio de Janeiro
[7].
A Ação Integralista Brasileira, com efeito, jamais foi financiada por Mussolini e a suposta prova em sentido contrário de que os “historiadores” têm falado, uma nota promissória em que segundo eles há legível assinatura de Plínio Salgado, constitui um acinte à inteligência, posto que a assinatura que há nela nada tem de legível e, acima de tudo, notas promissórias jamais foram recibos de doação, mas sim títulos formais de crédito consistentes em promessas de pagamento a ser efetuado pelo emitente (devedor) ao beneficiário (credor), ou à sua ordem, em data e local determinados
[8].
Faz-se mister sublinhar, por fim, que o Integralismo diverge do Fascismo sobretudo no que diz respeito à concepção do Estado e do Direito, defendendo a Doutrina do Sigma, ao contrário da posição dominante na Doutrina do Fascio, que o Estado é um meio e não um fim e que acima do Direito Positivo há um Direito Natural, fundado no critério moral de justiça e consistente na leitura da Lei Eterna pelo Homem à luz da razão.

NOTAS:


[1] STERNHELL, Zeev. Ni droite ni gauche – L’idéologie fasciste en France. Paris
[2] GENTILE, Giovanni. Risorgimento e Fascismo. In GENTILE, Giovanni. Memorie italiane e problemi della Filosofia e della vita. Florença: G. C. Sansoni-Editore, 1936-XIV, p. 120.
[3] Idem, loc. cit.
[4] GENTILE, Giovanni. La tradizione italiana. In GENTILE, Giovanni. Frammenti di estetica e di filosofia della storia. Florença: Le Lettere, 1992, pp. 112-113.
[5] TEJADA, Francisco Elías de (com Piero Vassallo). Per uma cultura giusnaturalista. Palermo: Thule, 1981, p. 23.
[6] EVOLA, Julius. Imperialismo pagano: Il fascismo dinnanzi al pericolo euro-cristiano. 4ª ed. corrigida, com dois apêndices e Heidnischer Imperialismus. Roma: Edizioni Mediteranee, 2004, p. 96.
[7] SILVA, Jayme Ferreira da. A verdade sobre o Integralismo.2ª ed. São Paulo: Edições GRD, 1996, pp. 47-57.
[8] Sobre as notas promissórias: ACQUAVIVA, Marcus Claudio. Dicionário Jurídico Acquaviva. São Paulo: Editora Rideel, s/d, p. 579; SILVA, de Plácido e. Vocabulário Jurídico. 23ª ed. atual. Por Nagib Slaibi Filho e Gláucia Carvalho. Rio de Janeiro: Editora Forense, 2003, p. 959.

A ordem natural - Heraldo Barbuy

Todo direito se funda no critério moral do justo e do injusto inato na razão humana. O direito natural não foi inventado pela razão, nem fabricado pelos juristas. Não é imanente mas transcendente. Está na razão, anteriormente a todo direito escrito. É uma norma de conduta tão sólida como os princípios da inteligência são uma norma da atividade especulativa e assim como não se pode pensar fora dos princípios da inteligência, assim também não se pode agir fora do princípio pelo qual devemos fazer o bem e evitar o mal. Santo Tomás elaborou uma admirável fundamentação metafísica do direito natural, que é constituído pelos princípios inerentes à natureza racional do homem; e o direito civil só é direito quando traduz o direito natural. Os Estados não são a fonte da moral e do direito e uma lei não é justa pelo simples fato de ter sido promulgada pelo Estado. Os Estados contemporâneos, oriundos do individualismo com suas raízes idealistas e do socialismo, com suas raízes materialistas, podem promulgar e promulgam muitas leis injustas, que ferem os princípios do direito natural. O Estado individualista, e o Estado socialista principalmente, já são em si mesmos violações do direito natural que repele, com a mesma energia, o individualismo e o socialismo.
O direito natural é um conjunto de preceitos transcendentes que devem reger não só o comportamento dos indivíduos, mas também a ação dos Estados. É um limite que se impõe ao poder cada vez maior do Estado, que aniquila, nega, destrói os mais invioláveis direitos naturais da personalidade humana. O Estado contemporâneo, fundando-se no incrível pressuposto de que o indivíduo vive para a espécie e o cidadão para o Estado, se converteu numa sociedade anônima de fabricação de leis em massa e em série, que não têm na menor conta o fato essencial pelo qual o Estado não é fim mas simples meio e a personalidade humana não é simples meio mas verdadeiro fim. Tudo quanto destrói os direitos e as liberdades concretas da personalidade humana atinge frontalmente o direito natural, é uma violação da lei verdadeira, que não passará impunemente porque há de reverter na maior das infelicidades sociais. Só o direito natural é justo. E um Estado só realizará a justiça social quando todas as suas leis escritas se fundarem na razão natural, em diametral oposição com as reformas atuais, que fazem do indivíduo um autômato, da sociedade, um rebanho e da liberdade, um mito. Pode-se legalizar a injustiça e a fraude; pode-se erigir em sistema a espoliação da família pelos impostos de transmissão e as partilhas obrigatórias; pode-se eliminar o direito de propriedade pelos tributos extorsivos; pode-se proletarizar o trabalhador e gravar o rendimento do trabalho com taxas excessivas e contribuições calamitosas; pode-se confundir a educação com a instrução, negando à religião o direito de educar e conferindo ao Estado o a obrigação inoperante de instruir. Pode-se em suma negar o direito natural em todos os seus graus. Mas não se pode com isso abolir um profundo senso de injustiça, nem substituir o direito natural por um direito artificial. O Estado tem a força para garantir a execução de suas leis escritas, justas ou injustas. Mas a ordem natural tem uma sanção muito mais poderosa no fato de que toda a sua violação é punida pela desgraça geral, pela desordem, pela instabilidade, pela revolta e pelo caos.
(In Ecos Universitários (Órgão Oficial do Centro Acadêmico "Sedes Sapientiae". Ano III, nº 13, São Paulo, setembro de 1950, p. 1).

Monday, September 07, 2009

Sete de Setembro

Neste 7 de Setembro celebramos mais um aniversário do grito de D. Pedro I às margens do riacho do Ipiranga, da proclamação de nossa Independência (política), que já existia de fato desde 1808, ano da verdadeira fundação do Império do Brasil pelo grande e injustiçado estadista que foi D. João VI.
Estamos aqui, antes de tudo, para comemorar esta tão relevante data cívica e evocar a memória de D. João VI, D. Pedro I, José Bonifácio e todos os demais próceres da Independência Nacional.
Não estamos aqui, no entanto, apenas para evocar tão ilustres vultos da História Pátria, mas também para proclamar a imperiosa necessidade de realizarmos nossa integral independência econômica em face dos grupos econômico-financeiros internacionais que há decênios vêm obstaculizando nossa marcha rumo à Soberania Integral, desviando o Brasil de sua Missão e Vocação e ameaçando a sua própria existência enquanto Nação.
Estamos aqui, ademais, para proclamar a necessidade, igualmente imperiosa, de acabar com nosso decrépito e mofado modelo de democracia, que nada tem de efetivamente democrático e se inspira totalmente em princípios abstratos de ideologias inautênticas nascidas do Enciclopedismo e do “Iluminismo”, o substituindo por uma Democracia Autêntica, uma Democracia Efetiva, uma Democracia Integral. Esta Democracia, a única verdadeiramente representativa, será caracterizada, antes de tudo, pelo respeito à intangibilidade da Pessoa Humana e dos Grupos Sociais e pelo reconhecimento de seus direitos naturais, que devem ser respeitados pelo Estado.
Neste mesmo diapasão, proclamamos que nossa atual Constituição, igualmente abstrata e inautêntica, além de repleta de preceitos inverificáveis na vida real, não é uma verdadeira Constituição, mas sim um estatuto ideológico composto de importações de teorias jurídicas alheias, devendo ser substituída por uma Constituição autêntica e realista. Tal Constituição deve ser a expressão da Constituição Histórica da Nacionalidade Brasileira, da Constituição não escrita decorrente da formação tradicional de nosso povo, da Tradição Integral, da íntima essência nacional, refletindo o País real, o Brasil profundo e autêntico, Brasil em cujo solo, onde dormem os antepassados, elevamos nossas preces a Deus, trabalhamos pelo pão de cada dia e, enfim, tecemos os fios de nossa existência cotidiana.
Estamos aqui, por fim, para proclamar que o Brasil, pela sua unidade espiritual, histórica e geopolítica, tem todos os característicos de um vasto Império, sendo Império desde 1808 e como tal permanecendo até hoje, a despeito da proclamação da República. Devemos defender, pois, a ideia de Império, ideia que não se pode confundir com o chamado imperialismo econômico, político e militar da idade contemporânea, não se fundando, ao contrário deste, em princípios materiais, mas sim sobre algo de transcendente, constituindo uma síntese fundada no Direito Natural Tradicional, no respeito à Pessoa Humana e aos Grupos Naturais e na defesa da Pátria, da Nação e da Tradição.
É, pois, defendendo a necessidade de independência econômica, de construção de uma Nova Democracia, de promulgação de uma Nova Constituição e de dilatação da ideia de Império que celebramos esta data tão relevante de nossa História.

Victor Emanuel Vilela Barbuy, Presidente da Frente Integralista Brasileira
São Paulo, 7 de Setembro de 2009.