Saturday, May 25, 2013

Guerra Interior e Revolução Interior*


Cada Homem, cada Ente Humano vive, dentro de si, uma guerra constante, de cujas silenciosas batalhas diárias se sai vencedor ou derrotado. Esta Guerra Interior só termina, com o triunfo ou a derrota final, no momento em que a Alma, o Espírito Imortal se desprende do corpo já inerte, ainda que existam homens totalmente derrotados desde muito antes de exalar o derradeiro suspiro. São estes os mortos que ainda respiram, os fracos que se deixam levar pela correnteza, os infelizes que, segundo Sêneca, padecem do “pior dos males”, que não é senão o de abandonar “o número dos vivos, antes de morrer” [1].
Aquele que consegue derrotar-se a si mesmo nos árduos combates dessa perene guerra contra o próprio eu obtém para si o maior, o mais nobre e o mais belo dos triunfos, sendo mil vezes mais heroico do que o guerreiro capaz de vencer mil inimigos externos, mas não de triunfar sobre o inimigo que há dentro dele. Do mesmo modo, aquele que se deixa derrotar por si próprio sofre a pior e a mais vil e desonrosa derrota. Isto, aliás, já foi dito em obras como o Baghavad Gita, que reúne preleções atribuídas a Krishna, e o Dhammapada, que, segundo a tradição, teria sido composto por Siddharta Gautama, e foi também afirmado, dentre outros, pelo cretense Clínias de Cnossos, no diálogo As Leis, de Platão, e por Demócrito de Abdera. Este último pondera, com efeito, que “não somente é heróico o vencedor dos inimigos, mas também o triunfador dos próprios desejos” [2] e que “vencer-se a si mesmo é a primeira de todas as vitórias”, ao passo que “ser vencido por si mesmo é a mais torpe e a pior cousa” [3]. Já Clínias, havendo observado, no referido diálogo platônico, que “cada um de nós é seu próprio inimigo” [4], salienta que “a vitória sobre o eu é de todas as vitórias a mais gloriosa e a melhor, e a auto-derrota é de todas as derrotas de pronto a pior e a mais vergonhosa, frases que demonstram que uma guerra contra nós mesmos existe em cada um de nós” [5].
A Revolução Interior proposta por Plínio Salgado se configura numa mudança de atitude do Espírito em face dos problemas que lhe são apresentados, numa transmutação integral de valores que, de acordo com o sentido astronômico e tradicional do termo “Revolução”, implica um retorno do Espírito aos princípios da Tradição. Tal Revolução, a que também podemos denominar Revolução do Espírito, muda a totalidade dos conceitos, dando um novo e superior sentido de vida, e, na frase de Plínio Salgado, se traduz, antes de mais nada, na autoimposição de “normas de nobreza tanto na vida particular como na vida pública” [6]. Decisiva vitória do Homem em sua Guerra Interior, sendo, a partir dela, mil vezes mais fácil se combater o inimigo que há dentro dele próprio, consiste tal Revolução Espiritual na base da reedificação do Homem Integral, do Homem Novo que não é senão o Homem Tradicional, ou, se preferir, o autêntico Homem Nobre, que, a partir dela, passa a influir no ambiente que o cerca, fazendo sua parte na obra da Revolução Cultural, que, uma vez vitoriosa, construirá a Sociedade Integral e o Estado Integral, a Nova Sociedade e o Novo Estado que não são senão a Sociedade Tradicional e o Estado Tradicional.
Isto posto, faz-se mister sublinhar que a verdadeira Revolução Interior, da qual nasce o Homem Novo, é uma Revolução Permanente, implicando, assim como a Guerra Interior, num combate perene do Ente Humano contra si mesmo, ou do Homem Novo contra o Homem Velho, este portando a tendência ao mal e aquele a se iluminar com a “luz que de si mesmo tira e que é a aspiração ao bem” [7]. Deste modo, podemos dizer que, a partir de seu princípio, passa a Revolução Interior a se confundir com a Guerra Interior, embora esta se inicie já ao nascermos, existindo, com maior ou menor intensidade, dentro de cada Ente Humano, enquanto aquela, “obra de educação”, [8] ou de reeducação do Homem, [9] em que devemos “lutar conosco mesmos, batalhar contra o nosso próprio ser”, nos aperfeiçoando “cada vez mais na prática das virtudes”, [10] se dá apenas no coração daqueles que realmente se dedicam ao estudo e à reflexão acerca da realidade e dos problemas do Universo e do Homem.
Conscientes de que o preceito dos tempos que passam não é o lamento sobre o fato de que vivemos num Mundo em ruínas, mas sim a ação, o combate em prol da edificação de uma Nova Civilização Tradicional, de uma Nova Civilização Cristã na verdadeira acepção do termo, e de que esta Nova Civilização somente poderá ser edificada por uma Elite, uma Aristocracia do Espírito, nós outros proclamamos a imperiosa necessidade de nos fazermos, por meio da Guerra e da Revolução Interior, autênticos Homens Nobres, membros daquela Aristocracia Espiritual, dispostos a servir a Deus, à Pátria e à Família e a tudo sacrificar na peleja pelos tradicionais valores consubstanciados nesta trilogia, nobre como nenhuma outra.
 .
Victor Emanuel Vilela Barbuy
 
[1] SÊNECA, Lúcio Aneu. Da tranqüilidade da alma, V. In Idem. Obras (Consolação a minha mãe Hélvia; Da tranqüilidade da alma; Medéia. Estudo introdutivo e tradução de Giulio Davide Leoni. São Paulo: Atena Editôra, 1955, p. 95.
[2] DEMÓCRITO, fragmento 214, segundo a classificação de Diels. In MONDOLFO, Rodolfo. O pensamento antigo. Volume I. Tradução de Lycurgo Gomes da Motta. 3ª ed. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1971, p. 112.
[3] Idem, fragmento 75, segundo a classificação de Mullach. In MONDOLFO, Rodolfo. O pensamento antigo. Volume I, cit., loc. cit.
[4] PLATÃO. As Leis, Livro I, “d”. In Idem. As Leis (incluindo Epinonis). 2ª ed. revista.Tradução, notas e introdução de Edson Bini. Prefácio de Dalmo de Abreu Dallari. Bauru, SP: Edipro, 2010, p. 69.
[5] Idem. As Leis, Livro I, “e”. In Idem. As Leis (incluindo Epinonis), cit., pp. 69-70.
[6] SALGADO, Plínio. Espírito da burguesia. 3ª ed. In Idem. Obras completas. 2ª ed., vol. 15. São Paulo: Editora das Américas, 1957, p. 47.
[7] Idem. O ritmo da História. 3ª ed. In Idem. Obras Completas. 2ª ed., vol. 16. São Paulo: Editora das Américas, 1957, pp. 109-110.
[8] Idem. A Doutrina do Sigma. 2ª ed. Rio de Janeiro: Schmidt-editor, 1937, p. 16.
[9] Idem. Reconstrução do Homem. 2ª ed. Rio de Janeiro: Livraria Clássica Brasileira, s/d, p. 134.
[10] Idem. Discursos. 3ª ed. In Idem. Obras Completas. 2ª ed., vol. 10. São Paulo: Editora das Américas, 1957, p. 433.
 
*Artigo originalmente publicado no boletim Ação!, da Frente Integralista Brasileira (Ano III, nº 9, edição nacional, janeiro-abril de 2013, p. 4), e aqui apresentado em versão revista e ampliada.
 

Tuesday, April 16, 2013

João de Scantimburgo, in memoriam


 
João de Scantimburgo, in memoriam
 
Faleceu no dia 22 de março deste ano de 2013, aos noventa e sete anos de idade, o jornalista, ensaísta, filósofo, historiador, sociólogo e romancista paulista e brasileiro João de Scantimburgo.
Infelizmente pouco conhecido das novas gerações brasileiras em virtude, antes de tudo, do manto de silêncio com que a dita inteligência nacional criminosamente cobriu seu nome por conta das ideias católicas, tradicionalistas, patrióticas e nacionalistas que sempre defendeu galhardamente, João de Scantimburgo, que era Mestre em Economia e Doutor em Filosofia e Ciências Sociais, foi professor da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e da Universidade Estadual Paulista (UNESP) e diretor dos Diários Associados (Diário de S. Paulo e Diário da Noite) em São Paulo, assim como dos jornais paulistanos Diário do Comércio e Correio Paulistano e da revista Digesto Econômico, também da Capital Paulista, do mesmo modo que da Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, havendo sido também fundador e presidente por anos da hoje extinta TV Excelsior, de São Paulo. Colaborou também em O Estado de S. Paulo, no jornal tradicionalista Reconquista, dirigido por Clovis Lema Garcia, e na Revista Brasileira de Filosofia, de que foi secretário e membro do conselho de redação. Foi, ainda, membro da Academia Brasileira de Letras, da Academia Paulista de Letras, do Instituto Brasileiro de Filosofia, do Centro Dom Vital, da Sociedade Brasileira de Filósofos Católicos, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, do PEN Clube do Brasil, da Società Tomista Internazionale, de Roma, da American Catholic Philosophical Association e da International Society for Metaphysics, ambas de Washington DC, dos Archives Maurice Blondel, de Louvain, Bélgica, da Academia Portuguesa de História e de diversas outras instituições culturais nacionais e estrangeiras.
Nascido no Município de Dois Córregos, no Interior Paulista, em 31 de outubro de 1915, João de Scantimburgo foi criado em Rio Claro, onde estudou as primeiras letras no grupo escolar e, mais tarde, fez o curso secundário no Instituto Joaquim Ribeiro. Concluindo os estudos no ano de 1932, permaneceu em Rio Claro até princípios do ano de 1940, ali dirigindo, entre os meses de setembro de 1939 e janeiro de 1940, o jornal Cidade de Rio Claro.
Foi, ainda, em Rio Claro, Município para o qual legou em testamento sua vasta e preciosa biblioteca, que, na década de 1930, participou Scantimburgo de um grande comício promovido pelo núcleo local da Ação Integralista Brasileira (AIB), ficando bastante empolgado com os discursos de Plínio Salgado e, ainda mais, com aqueles de Miguel Reale, “orador com eloqüência que cativou o grande público ali presente” e cuja pregação naquele “período integralista foi apostolar”, sendo que “a substância de seus discursos era o Brasil” [1]. Mais tarde, Reale e Scantimburgo se tornaram grandes amigos e, a convite de Reale, Scantimburgo integrou, em 1949, ao lado deste e dos filósofos Heraldo Barbuy, Vicente Ferreira da Silva e Luís Washington Vita, o grupo fundador do Instituto Brasileiro de Filosofia e, em 1951, da Revista Brasileira de Filosofia. A despeito das profundas diferenças que separavam, no campo do pensamento, o tomista e monárquico Scantimburgo do neokantiano e republicano Miguel Reale, os laços de amizade e de admiração recíproca que os uniam jamais foram rompidos.
Casado em primeiras núpcias com Cecília Kerr, de quem cedo ficou viúvo, e, em segundas núpcias, com a condessa polonesa Anna Teresa Maria Josefina Tekla Edwige Isabella Lubowiecka, também antes dele falecida, João de Scantimburgo, que não teve filhos, viveu a maior parte de sua longa e profícua vida na Capital Bandeirante, cidade que muito amou.
Temos nós outros quase absoluta certeza de que o autor de Os paulistas e de Tratado Geral do Brasil, católico na mais plena acepção do vocábulo, estará melhor no local para o qual decerto partiu do que nesta espécie de cárcere que é a vida do Homem neste Mundo, segundo os antigos mistérios evocados por Sócrates no Fédon de Platão [2]. Igualmente temos, porém, por outro lado, a total certeza de que a Província de São Paulo e este vasto Império de nome Brasil muito perderam com a morte deste varão de tão excelsas virtudes morais e intelectuais, autêntica encarnação viva do Espírito Bandeirante, estando agora, pois, esta Província e este Império - já assaz empobrecidos pelo falecimento do grande escritor, historiador e jornalista Hernâni Donato, seu confrade na Academia Paulista de Letras, em 22 de novembro de 2012, – muito mais pobres moral e intelectualmente.
Esse Espírito Bandeirante de que João de Scantimburgo foi e é uma encarnação viva não é senão o espírito de hombridade, valentia, tenacidade, arrojo e empreendedorismo que caracteriza o autêntico filho, natural ou adotivo, da Terra Paulista, isto é, o espírito do Eterno Bandeirante, ou, como diria ele, do “perpétuo bandeirante” [3], vivo hoje, como há quase quinhentos anos e como nos dias de Bartolomeu Bueno, Borba Gato, Raposo Tavares, Fernão Dias, Manuel Preto, Domingos Jorge Velho, Carlos Pedroso da Silveira e de todos os outros que, no dizer do ínclito pensador paulista, “encurtaram a vida em sacrifícios, para ampliar as fronteiras da pátria” [4]. Tal espírito não apenas conduziu para os sertões os bandeirantes da Vila Real de São Paulo do Campo de Piratininga, que, com as lâminas de seus alfanjes e as bocas de seus bacamartes, escreveram uma epopeia comparável àquelas de seus antepassados, cavaleiros da Reconquista e nautas das Grandes Navegações, dando a este Império as dimensões continentais que hoje tem, como também inspirou os descendentes, em espírito e sangue ou apenas em espírito, de tais sertanistas a plantar verdes mares de cafezais, a abrir estradas e caminhos de ferro e a edificar cidades, e, mais tarde, a fundar as indústrias que fizeram da Terra Bandeirante a mais industrializada das Américas ao sul do rio Bravo, ou rio Grande, como o chamam os estadunidenses do norte.
Defensor da “majestosa epopéia” das Bandeiras, João de Scantimburgo, que refutou a tese do exclusivismo econômico de tais Bandeiras, sempre salientou o fato de que os heroicos bandeirantes de São Paulo estavam armados de uma grandiosa e nobre missão, que era aquela, por eles cumprida, de dilatar o Império Português e de levar os missionários portadores da Fé para os sertões da América Lusitana [5], isto é, dilatar a Fé e o Império, conforme o dito de Camões, poeta a quem o autor de A agonia da civilização muito admirava, havendo mesmo analisado seu pensamento essencialmente cristão na pequena magna obra Interpretação de Camões à luz de Santo Tomás de Aquino, de 1978.
Paulista de primeira geração pelo nascimento, foi João de Scantimburgo um paulista de quatrocentos anos pelo espírito, não sendo, pois, uma exceção à regra percebida por Gilberto Freyre, nordestino que muito admirou o Espírito Bandeirante, no sentido de que os “porta-estandartes” do Espírito Bandeirante, ou do “bandeirismo”, têm sido encontrados não entre os chamados paulistas-velhos, ou quatrocentões pela lei do sangue, mas sim entre os “adventícios ou paulistas-novos, cujos característicos dinamicamente bandeirantes são antes adquiridos do que herdados pelo sangue” [6].
Entre esses porta-estandartes das autênticas tradições da antiga São Paulo do Campo de Piratininga, “bandeirantes mais por direito de conquista do que por herança de quatro costados”, enumera o autor de Casa-grande e senzala, por exemplo, Washington Luís, Cassiano Ricardo, Menotti Del Picchia, Ribeiro Couto, Alfredo Ellis Junior e Plínio Salgado. Este último era, aliás, na opinião de Freyre, um dos mais eminentes vultos de toda uma grande “geração de paulistas interessados nos seus valores tradicionais mais característicos” e que, se entregando “a estudos sérios e profundos de História ou Sociologia regional”, desenvolveu “esforço inteligente e útil de conservação, restauração e interpretação dos mesmos valores ou do seu aproveitamento como motivos original ou particularmente paulistas de arte, de literatura, de sátira social”, evitando que São Paulo, “por excesso de ‘modernismo’ desdenhoso do passado ou dos valores regionais, se tornasse, sob os arrojos da industrialização”, que o diferenciavam do restante do Brasil, um simples “arremedo de ‘progresso americano’ ou de ‘progresso norte-europeu’” [7].
Plínio Salgado - que, embora também descendente de paulistas-velhos, incluindo o célebre bandeirante Manuel Preto, já aqui mencionado, e o igualmente ilustre Pero Dias, guardião das chaves da Vila de São Paulo do Campo de Piratininga quando de sua fundação, era predominantemente, pelo sangue, um paulista-novo – se contava, ainda de acordo com o autor de O Mundo que o português criou e de O brasileiro entre outros hispanos, entre os bandeirantes em espírito que se revelaram expressões não somente intelectuais como também políticas de “bandeirismo ortodoxo” [8]. E Plínio Salgado, este “descobridor bandeirante das essências de sua pátria”, no dizer de Francisco Elías de Tejada [9], e admirável cultor das tradições brasileiras e bandeirantes, para quem todos os paulistas autênticos, independentemente do sangue, eram “paulistas de quatrocentos anos” e o prestígio de São Paulo perante as demais províncias brasileiras somente não estaria em perigo caso São Paulo colocasse em relevo, antes de tudo, a sua Tradição, a “tradição do povo bandeirante”, que “vai buscar raízes na capacidade de expansão lusíada e no caráter cristão dos nossos primeiros aglomerados humanos” [10]; Plínio Salgado, enfim, que foi, como o próprio João de Scantimburgo, um lídimo Bandeirante da Fé e do Império, seguramente concordava com o autor de Sobrados e mocambos, posto que já em 1933 proclamava que o Integralismo era a “última expressão do espírito bandeirante” [11].
Para ilustrar o fato de que o Espírito Bandeirante é independente do sangue, evoca o autor de O café e o desenvolvimento do Brasil, na introdução à obra Os paulistas, um caso que lhe foi narrado por Gustavo Barroso, pensador, escritor e historiador a quem muito admirava. Com efeito, na década de 1930, no auge do apostolado integralista, veio o autor de Espírito do século XX e de História Militar do Brasil à Capital Bandeirante, onde realizou uma série de conferências. Recebido por Alfredo Buzaid, seu correligionário, e como tal, companheiro de ideais tradicionalistas, patrióticos e nacionalistas, Barroso saiu com este, em passeio, por São Paulo. Ao passarem pela Avenida Paulista, no Parque Trianon, viu Barroso o imponente monumento a Bartolomeu Bueno, indagando a Buzaid a quem era ele dedicado. Este, filho de imigrantes libaneses, respondeu, então, ao escritor cearense, que aquele monumento era dedicado a “um nosso grande antepassado: Bartolomeu Bueno, o Anhangüera”. “Buzaid estava certo”, conclui Scantimburgo, pois “somos todos paulistas” [12].
Isto posto, é mister sublinhar que os bandeirantes paulistas deixaram inúmeros descendentes por todo o Brasil, dos pampas sulinos às selvas amazônicas e dos sertões nordestinos ao Pantanal, do mesmo modo que é forçoso assinalar que não houve apenas bandeirantes na Capitania de São Vicente, depois Capitania de São Paulo, mas também em outras capitanias da América Portuguesa, sobretudo naquela da Bahia, e que, pelo próprio vulto monumental da epopeia por eles realizada, os bandeirantes de São Paulo do Campo de Piratininga e de outras vilas vicentinas, ou paulistas, são heróis e símbolos não apenas da Terra Paulista, mas de todo o Brasil. Destarte, podemos dizer que o Espírito Bandeirante, em sentido lato, não é exclusivo dos paulistas ou residentes em São Paulo, havendo, pois, em nosso sentir, bandeirantes em espírito em todas as províncias do Brasil.
Foi, aliás, justamente tendo em vista o caráter nacional brasileiro e não apenas paulista do bandeirismo que Plínio Salgado afirmou, como há pouco observamos, que o Integralismo é a “última expressão do espírito bandeirante” [13], e que Gustavo Barroso proclamou que os integralistas são os “novos bandeirantes” [14].
Vivemos num tempo em que “a ciência e a técnica (...) concorrem para atrofiar no homem as raízes do passado, erigindo o presente como um fim último do seu roteiro na Terra”, e em que, “enfraquecida em seus rizomas sobrenaturais, pela dissolução da pessoa no tempo, a sociedade humana atravessa uma fase histórica na qual os valores espirituais são suplantados pelos valores materiais, o infinito vai sendo vencido pelo indefinido, e o amor perde a imagem de reflexo do amor de Deus”; num tempo em que, em decorrência de tal “subversão de valores”, o Ente Humano “não descobre um sítio onde possa repousar tranqüilo, pois o bem espiritual e o bem social estão minados nas suas bases pelo temporalismo milenar”, e em que, por conseguinte, sem encontrar “o apoio da fé, o ser humano volta-se para a superstição, para os mitos nos quais espera achar, não só justiça, como, também, resposta aos seus anseios de paz”, sendo tal superstição e tal mito “um esforço para captar o Absoluto nos limites da natureza”; num tempo, enfim, em que “o progresso contínuo, a soberania da razão, o cientismo, o economismo, o socialismo, a arte subjetiva, a autonomia tecnológica, as ditaduras totalitárias, o liberalismo político” [15], exemplos de tais “superstições alienadoras, insinuadas na consciência do ser humano”, o dominam, ao que parece, de forma irresistível [16].
Nestes tempos sombrios, teve João de Scantimburgo a coragem mental e física de defender Deus, o Primado do Espírito, a imortalidade da alma, a Pátria, a Nação, a Família, a Tradição, a instrumentalidade de todas as atividades e das criações do Homem ao seu Fim Último (Deus), a Sociedade Orgânica e o Estado Orgânico [17]. Este último não é senão o Estado-meio que deve promover o Bem Comum e é totalmente diverso do Estado Totalitário de inspiração hobbesiana ou hegeliana, assim como do “Estado do individualismo, onde a liberdade e a autoridade são pulverizadas no predomínio do quantitativo, na ficção de que a ‘Vontade Geral’ possa determinar o órgão do poder, e que o pacto social é a suprema realidade política” [18].
Scantimburgo, este bravo arauto da restauração do Primado de Deus e do Espírito [19] e figadal inimigo das superstições modernas, falsos deuses que tomaram o lugar do Deus verdadeiro [20], sempre pugnou pela instauração, no Brasil, de uma Monarquia Temperada, ou Regime Misto, que, a exemplo de Santo Tomás de Aquino, reputava a mais excelente dentre as formas de governo. Enquanto não chegarmos a este regime misto, síntese da Monarquia, da Democracia e da Aristocracia, [21] devemos, segundo o autor de Política e Ética e de A filosofia da ação, trabalhar em prol da construção da Democracia Cristã sustentada por Leão XIII na Encíclica Graves de Communi Re, de 1901, [22] democracia esta que nada tem que ver com a liberal-democracia ou a denominada democracia de massas, não sendo senão o regime que tem o objeto de buscar uma vida melhor para aqueles que vivem do labor de suas próprias mãos ou da sua indústria, “a fim de que possam gozar de seus próprios meios de vida, sentindo-se homens, isto é, donos do direito de personalidade que nenhuma força pode arrebatar” [23].
O autor de Eça de Queiroz e a Tradição e de O segredo japonês sempre teve consciência de que, como preleciona Plínio Salgado, a Tradição, que sempre “se renova, se atualiza, se dirige para o futuro”, possuindo caráter dinâmico, sendo uma “marcha para a frente” e tendo estreita ligação com o Progresso, posto que, do mesmo modo que “a Tradição, sem o Progresso, é morta, confunde-se com a História fria”, isto é, com a História sem Tradição, o “Progresso sem Tradição é somente corpo, sem espírito, pelo que se confunde com a materialidade da História”, [24] sendo tanto a Tradição como o Progresso movimentos de transmissão do Passado para o Futuro [25]. Sabia ele, pois, assim como o autor de O ritmo da História, que há “valores essenciais” que, vindos do Passado, “animam de vida o futuro” e que, caso desprezemos esses valores, renunciaremos “a um futuro vivo, para cairmos no fatalismo que nos leva, despersonalizados, a um futuro morto que nem merece o nome de futuro” [26], ou, como diria Arlindo Veiga dos Santos, “o Presente que nega o Passado não terá futuro” [27]. Destarte, o vigoroso paladino da Tradição que foi João de Scantimburgo sempre proclamou que “Nação nenhuma se sustentou historicamente, prolongando-se no tempo e no espaço, sem apoio nessa força de coesão social (...), nos elos que o respeito solda no presente todos os dias, para assegurar a sua duração”, havendo, com efeito, soçobrado “impérios por não terem guardado as suas tradições mais caras, os seus usos e costumes, que, ao longo do tempo, se foram mudando, em acidentes, enquanto deveriam conservar-se na sua essência” [28].
Encerremos aqui esta singela porém sincera homenagem póstuma a este intrépido adail de Deus e da Pátria, magno Bandeirante do Brasil Profundo, Autêntico e Verdadeiro e de suas mais lídimas tradições que reconhecemos em João de Scantimburgo. Que seja sempre lembrado como um dos grandes pensadores brasileiros este tão nobre quanto sábio varão, que, nos tenebrosos tempos que passam, teve a coragem de lutar contra a corrente, opondo ao materialismo o espiritualismo cristão, às filosofias modernas a Filosofia Perene, e ao culto moderno do Progresso indefinido o culto da Tradição, base de todo Progresso autêntico. E que Deus - que é para nós outros, assim como o era para Maurice Blondel e para o autor de O problema do destino humano, o “Único Necessário”, [29] sendo que, na preleção de Santo Tomás de Aquino, que Scantimburgo fazia sua e nós outros fazemos nossa, “todas as coisas tendem para Deus como para seu fim último, para conseguirem a bondade divina”, donde se segue que “o fim último delas é tornarem-se semelhantes a Deus” [30] -, que Deus, enfim, o Sumo Bem, o Supremo Regente dos destinos das nações e dos homens, suscite nas novas gerações brasileiras homens da têmpera de João de Scantimburgo, pelo bem deste grande Império do Ontem e do Amanhã.
 
Victor Emanuel Vilela Barbuy, presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira.
São Paulo, 14 de abril de 2012- LXXX.
  
[1] SCANTIMBURGO, João de. Miguel Reale. In Revista Brasileira de Filosofia, São Paulo, Instituto Brasileiro de Filosofia, vol. LV, fasc. 222, abril-maio-junho de 2006, pp. 361-362. Os trechos aqui citados se encontram à página 361. Texto originalmente publicado no jornal Diário do Comércio a 18 de abril de 2006.
 
[2] PLATÃO. Fédon, 62 B. Tradução de Carlos Alberto Nunes. 3ª ed. Belém: ed.ufpa, 2011, p. 61.
[3] SCANTIMBURGO, João de. Os paulistas (Coleção Paulística, volume XXI). 2ª ed. São Paulo: imprensaoficial, 2006, p. 637.
[4] Idem, p. 620.
[5] Idem, p. 14.
[6] FREYRE, Gilberto. Problemas brasileiros de Antropologia. 3ª ed. Prefácio de Gonçalves Fernandes. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1962, p. 41.
[7] Idem, p. 72.
[8] Idem, p. 42.
[9] TEJADA, Francisco Elías de. Plínio Salgado na Tradição do Brasil. In VÁRIOS. Plínio Salgado, “in memoriam”. Vol. II. São Paulo: Voz do Oeste/Casa de Plínio Salgado, 1985/1986, p. 70.
[10] SALGADO, Plínio. Atualidades brasileiras. 2ª ed. In Idem. Obras Completas. 2ª ed. vol. 16. São Paulo: Editora das Américas, 1957, p. 371.
[11] Idem. O que é o Integralismo. 4ª ed. In Idem. Obras Completas. 2ª ed. vol. 9. São Paulo: Editora das Américas, 1957, p. 42, nota.
[12] SCANTIMBURGO, João de. Os paulistas, cit., p. 14.
[13] SALGADO, Plínio. O que é o Integralismo, cit., loc. cit.
[14] BARROSO, Gustavo. Brasil – colônia de banqueiros. 4ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira S/A, 1935, p. 207.
[15] João de Scantimburgo, lamentavelmente, acabou por rever sua opinião sobre o liberalismo político, passando a fazer a apologia deste, assim como do liberalismo econômico, enquanto, apoiado no Syllabus, de Pio IX, se manteve fiel à condenação do liberalismo religioso (SCANTIMBURGO, João de. História do liberalismo no Brasil. Prefácio de J. O. de Meira Penna. São Paulo: LTr, 1996, p. 23), assim como do liberalismo moral. Em linhas gerais, porém, paradoxalmente, seu pensamento seguiria de forma geral até o fim nas veredas do tomismo e do tradicionalismo político.
[16] SCANTIMBURGO, João de. Discurso de posse na Academia Paulista de Letras.Disponível em: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=678&sid=331. Acesso em 9 de abril de 2013.
[17] Idem. Política e Ética. São Paulo: LTr, 2002, p. 18.
[18] Idem, pp. 17-18.
[19] Idem. O problema do destino humano, segundo Maurice Blondel. Prefácio de Leonardo Van Acker. São Paulo: Convívio, 1979, p. 30.
[20] Idem, p. 22.
[21] Com efeito, assim escreve Santo Tomás de Aquino na Suma Teológica: “A respeito da boa constituição dos chefes de uma cidade ou nação, duas cousas devemos considerar. Uma, que todos tenham parte no governo; assim se conserva a paz do povo e todos amam e guardam um tal governo, como diz Aristóteles. A outra é relativa à espécie do regime ou à constituição dos governos. E tendo estes diversas espécies, como diz o Filósofo, as principais são as seguintes. A monarquia, onde o chefe único governa segundo o exige a virtude; a aristocracia, i. é, o governo dos melhores, na qual alguns poucos governam segundo também o exige a virtude. Ora, o governo melhor constituído, de qualquer cidade ou reino, é aquele onde há um só chefe, que governa segundo a exigência da virtude e é o superior de todos. E, dependentes dele, há outros que governam, também conforme a mesma exigência. Contudo esse governo pertence a todos, quer por poderem os chefes ser escolhidos dentre todos, quer também por serem eleitos por todos. Por onde, essa forma de governo é a melhor, quando combinada: monarquia, por ser só um o chefe; aristocracia, por muitos governarem conforme o exige a virtude; democracia, i. é, governo do povo, por, deste, poderem ser eleitos os chefes e ao mesmo pertencer à eleição deles”. (AQUINO, Santo Tomás de. Suma Teológica. 1ª parte da 2ª parte, q. CV, art. 1º, Sol. Trad. de Alexandre Corrêa. Org. e dir. de Rovílio Costa e Luís Alberto de Boni. Porto Alegre: Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, Livraria Sulina Editora; Caxias do Sul: Universidade de Caxias do Sul, 1980, p.1902).
[22] LEÃO XIII. Encíclica Graves de Communi Re. Disponível (em inglês) em: http://www.vatican.va/holy_father/leo_xiii/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_18011901_graves-de-communi-re_en.html. Acesso em 9 de abril de 2013.
[23] SCANTIMBURGO, João de. Política e Ética, cit., p. 19.
[24] SALGADO, Plínio. O ritmo da História. 3ª ed. In Idem. Obras Completas. 2ª ed. vol. 16. São Paulo: Editora das Américas, 1957, p. 313.
[25] Idem. Atualidades brasileiras, cit., p. 371.
[26] Idem, loc. cit.
[27] SANTOS, Arlindo Veiga dos. Idéias que marcham no silêncio. São Paulo: Pátria-Nova, 1962, p. 76.
[28] SCANTIMBURGO, João de. Eça de Queiroz e a Tradição. São Paulo: Siciliano, 1995, p. 25.
[29] Idem. O problema do destino humano, segundo Maurice Blondel, cit., p. 12.
[30] AQUINO, Santo Tomás de. Suma contra os gentios. Livro III, Capítulo XIX, 1. Tradução de D. Odilão Moura O.S.B. Revisão de Luís A. de Boni. Porto Alegre: EDIPUCRS, Edições EST, 1996, volume II, p. 406;  SCANTIMBURGO, João de. O problema do destino humano, segundo Maurice Blondel, cit., p. 102.

Thursday, March 21, 2013

Algumas palavras sobre o Papa Francisco (I)



Por Victor Emanuel Vilela Barbuy
 
Foi com profunda surpresa que nós outros recebemos, na tarde da última quarta-feira, dia 13 de março do ano da Graça do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2013, a inesperada notícia de que o Cardeal D. Jorge Mario Bergoglio, nascido em Buenos Aires no ano de 1936, acabara de ser eleito o novo Papa, adotando o nome de Francisco, em homenagem a São Francisco de Assis. Tal surpresa se deu, evidentemente, em virtude de até então muito pouco conhecermos a respeito do Cardeal Bergoglio, que, aliás, praticamente ninguém apontaria como um papabile antes deste Conclave, ainda que em 2005 tivesse sido ele o principal adversário do Cardeal Joseph Ratzinger no Conclave em que este último fora eleito Papa.

Com base no pouco que sabemos sobre o novo Papa, faremos, nas linhas seguintes, um breve apanhado daquilo que nele vemos de negativo e de positivo, expressando, ademais, aquilo que esperamos que seja realizado em seu Pontificado pelo bem da Igreja e do Mundo.

            Lamentavelmente, sob o nefasto influxo do denominado modernismo religioso, justa e duramente condenado por São Pio X na Encíclica Pascendi Dominici Gregis, dada em Roma no ano de 1907, [1] o Cardeal D. Bergoglio expressou, por diversas vezes, ideias contrárias à Tradição Católica, assim como realizou atos contrários a tal Tradição, o que se explica, aliás, pela deficiente formação teológica que recebeu, quase toda já depois do Concílio Vaticano II. Salientando que a Tradição Católica a que nos referimos é, segundo escreve o mesmo São Pio X, a palavra divina não-escrita, mas comunicada de viva voz por Nosso Senhor Jesus Cristo e pelos Santos Apóstolos, e que, por meio da Igreja, chegou sem alteração, de século em século, até nós outros, [2] julgamos necessário ressaltar que esperamos, de todo o coração, que, na qualidade de Romano Pontífice, não volte ele, pelo bem da Igreja e do Orbe Terrestre, a expressar tais ideias e a realizar tais atos, mas que, ao contrário, se aproxime, cada vez mais, da Tradição. É forçoso reconhecer, contudo, que, infelizmente, pelo que temos visto nos primeiros dias deste Pontificado, nossas esperanças neste sentido têm pouquíssimas chances de se realizar.

            Dentre as virtudes de D. Bergoglio, podemos destacar aquelas da simplicidade e da humildade, que, esperamos, não degenerem em pauperismo e nem em desdém pelas honras e pelos títulos a que tem direito, assim como aquela da coragem, coragem esta que, com efeito, muito já demonstrou ele na luta em prol da Vida e da Família Tradicional e, por conseguinte, contra o aborto, o chamado “casamento gay”, “homoafetivo”, ou “igualitário” e outras bandeiras contrárias à Lei Natural levantadas pelas hordas dos sem-Deus, sem-Pátria e sem-Família. Aliás, que todos nós outros sigamos a máxima proferida em 2005 por este bravo seguidor da regra de Santo Inácio de Loyola: “Defenda o nascituro contra o aborto mesmo que te persigam, te caluniem, montem armadilhas para ti, te levem às barras do tribunal ou te matem” [3].

            Adepto, ao que parece, do autêntico Justicialismo, do Justicialismo de Perón, baseado, antes de tudo, na autêntica Doutrina Social da Igreja, e não do falso Justicialismo dos pseudo-peronistas da “esquerda”, como a social-democrata Kirchner, e da “direita”, como o neoliberal Menem, o Papa Francisco é, felizmente, um adversário irredutível, assim como nós outros, tanto do liberalismo econômico, que sacrifica o Bem Comum a um individualismo sem peias, como do socialismo marxista, sistema no qual um Estado absorvente sacrifica a Pessoa Humana ao seu poder tirânico. Partindo-se do princípio de que a ideologia se constitui num conjunto de princípios e normas práticas de caráter apriorístico e abstrato, engendrado pela mente humana, não resultando da Tradição e da experiência histórica e sendo investido de valor dogmático, podemos dizer que as duas supracitadas ideologias, ambas combatidas pela Igreja desde o seu surgimento, se configuram nas duas ideologias por excelência, do mesmo modo que afirmamos que estas duas grandes e funestas utopias há vários decênios prejudicam seriamente o desenvolvimento das nações, por desviá-las dos princípios ordenadores da Tradição, da Lei e da Ordem Natural e por entregá-las ao despótico domínio da Internacional Dourada ou da Internacional Vermelha, as duas irmãs pretensamente inimigas mas em verdade aliadas e dominadas pela mesma farisaica estirpe de víboras e abutres.

            Assim, aqueles que, nas próprias fileiras católicas, têm acusado de comunista o Papa Francisco I, ou apenas Papa Francisco, como tem sido chamado, em virtude de sua preocupação social e sua posição firmemente contrária ao liberalismo econômico, estão tão equivocados quanto estão os inimigos da Igreja ao repetir, por exemplo, a fábula da “pedofilia endêmica” entre os sacerdotes [4], uma vez que as posições do Sumo Pontífice não são senão aquelas da autêntica Doutrina Social da Igreja, integralmente contrária, evidentemente, aos princípios anticristãos e antitradicionais do liberal-capitalismo. Com efeito, conforme o Papa Pio XII - que nenhum de tais indivíduos ousaria chamar de comunista - salienta, na Exortação Apostólica Menti Nostrae, de 1950, “a Igreja não tem cessado de denunciar as graves consequências” do “sistema econômico conhecido pelo nome de capitalismo”, não apenas havendo apontado “os abusos do capital e do próprio direito de propriedade que o mesmo sistema promove e defende”, mas igualmente “ensinado que o capital e a propriedade devem ser instrumentos da produção em proveito de toda a sociedade e meios de manutenção e de defesa da liberdade e da dignidade da pessoa humana” [5].

            Percebemos nós outros, especialmente pela homilia proferida pelo Papa Francisco durante a Santa Missa que celebrou com os Cardeais no dia seguinte à sua eleição, que o novo Romano Pontífice, assim como o poverello de Assis, é um homem dotado, como há pouco afirmamos, de grande preocupação social, mas que, evidentemente, tem consciência de que os princípios religiosos estão acima daqueles sociais, de modo que não basta praticar a caridade sem professar a fé em Cristo e sem viver conforme os ensinamentos do Evangelho e transmiti-los ao maior número possível de pessoas. Com efeito, a Igreja, segundo ele, deixaria de ser Igreja, tornando-se uma mera “ONG assistencial”, caso não confessasse Jesus Cristo [6].

            Antes de concluir o presente texto, reputamos oportuno assinalar dois fatos, em nosso sentir, assaz positivos, a respeito do Papa Francisco. O primeiro é o fato de que ele foi ele membro da organização justicialista denominada Guardia de Hierro (Guarda de Ferro), grandemente inspirada na gloriosa Garda de Fier (Guarda de Ferro) romena, heroico movimento tradicionalista, patriótico e nacionalista também conhecido como Movimento Legionário e que teve como fundador o magno homem de pensamento e ação que foi o mártir dácio Corneliu Codreanu. O segundo, por sua vez, é o fato de que é ele profundo admirador do grande pensador inglês G. K. Chesterton, principal vulto do pensamento católico e distributivista inglês do século XX ao lado de seu dileto amigo Hilaire Belloc, fazendo parte mesmo do comitê de honra da Sociedade Chestertoniana Argentina.

Encerramos estas linhas ressaltando nosso desejo de que o primeiro Papa jesuíta, assim como o primeiro ocupante do Trono de Pedro nascido nas Américas, no Novo Mundo em que os membros da Companhia de Jesus um dia tantos soldados conquistaram para as hostes de Cristo Rei, cumpra sua “vontade de servir o Evangelho com renovado amor, ajudando a Igreja a tornar-se, cada vez mais, em Cristo e com Cristo, a videira fecunda do Senhor”, respondendo “fielmente à missão de sempre”, que é a de “levar Jesus Cristo ao homem e conduzir o homem para que se encontre com Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida, realmente presente na Igreja e contemporâneo em cada homem” [7].

 [1] SÃO PIO X. Carta Encíclica Pascendi Dominici Gregis. Dispónível em: http://www.vatican.va/holy_father/pius_x/encyclicals/documents/hf_p-x_enc_19070908_pascendi-dominici-gregis_po.html. Acesso em 18 de março de 2013.

[2] Idem. Terceiro Catecismo da Doutrina Cristã: O Catecismo Maior de São Pio X com pequenos acréscimos. Quinta parte, capítulo I, ­§ 5º, 885. Anápolis: Serviço de Animação Eucarística Mariana, 2005, p.211.

[3] BERGOGLIO, SJ, Jorge Mario, apud SCHEIDLER, Eric. Pope Francis: Defend the Unborn From Abortion Even if Persecuted. Disponível em: http://www.lifenews.com/2013/03/14/pope-francis-defend-the-unborn-from-abortion-even-if-persecuted/. Acesso em 18 de março de 2013.

[4] Como observou o advogado e jornalista Carlos Alberto Di Franco, em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, a expressão "pedofilia epidêmica", referindo-se aos sacerdotes católicos, é “claramente equivocada”, não resistindo à “análise objetiva dos fatos”. Com efeito, salienta ele, “o exame sereno, tecnicamente responsável, mostraria, acima de qualquer possibilidade de dúvida, que o número de delitos ocorridos é muitíssimo menor entre padres católicos do que em qualquer outra comunidade”. Com efeito, prossegue, “o conhecido sociólogo italiano Massimo Introvigne mostrou que, num período de várias décadas, apenas cem sacerdotes foram denunciados e condenados na Itália, enquanto 6 mil professores de Educação Física sofriam condenação pelo mesmo delito”. Já na Alemanha houve, desde 1995, 210 mil denúncias de abusos. “Dessas 210 mil, 300 estavam ligadas ao clero, menos de 0,2%”. “Por que” então, pergunta Di Franco, “só nos ocupamos das 300 denúncias contra a Igreja? Mas e as outras 209 mil? Trata-se, como já afirmei, de um escândalo seletivo” (FRANCO, Carlos Alberto Di. Igreja, uma megacobertura. Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,igreja-uma-megacobertura,1009983,0.htm. Acesso em 18 de março de 2013.

[5] PIO XII. Menti Nostrae. Disponível em: http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/apost_exhortations/documents/hf_p-xii_exh_19500923_menti-nostrae_po.html. Acesso em 18 de março de 2013.

[6] FRANCISCO (I). Primeira homilia do Papa Francisco. Disponível em:


[7] Idem. Discurso proferido na audiência aos membros do Colégio Cardinalício. Disponível em: http://www.vatican.va/holy_father/francesco/speeches/2013/march/documents/papa-francesco_20130315_cardinali_po.html. Acesso em 18 de março de 2013.

Thursday, March 07, 2013

Guerra Interior e Revolução Interior


Guerra Interior e Revolução Interior*
Por Victor Emanuel Vilela Barbuy


Cada Homem, cada Ente Humano vive, dentro de si, uma guerra constante, de cujas silenciosas batalhas diárias se sai vencedor ou derrotado. Esta Guerra Interior só termina, com o triunfo ou a derrota final, no momento em que a Alma, o Espírito Imortal se desprende do corpo já inerte, ainda que existam homens totalmente derrotados desde muito antes de exalar o derradeiro suspiro. São estes os mortos que ainda respiram, os fracos que se deixam levar pela correnteza, os infelizes que, segundo Sêneca, padecem do “pior dos males”, que não é senão o de abandonar “o número dos vivos, antes de morrer” [1].

Aquele que consegue derrotar-se a si mesmo nos árduos combates dessa perene guerra contra o próprio eu obtém para si o maior, o mais nobre e o mais belo dos triunfos, sendo mil vezes mais heroico do que o guerreiro capaz de vencer mil inimigos externos, mas não de triunfar sobre o inimigo que há dentro dele. Do mesmo modo, aquele que se deixa derrotar por si próprio sofre a pior e a mais vil e desonrosa derrota. Isto, aliás, já foi dito em obras como o Baghavad Gita, que reúne preleções atribuídas a Krishna, e o Dhammapada, que, segundo a tradição, teria sido composto por Siddharta Gautama, e foi também afirmado, dentre outros, pelo cretense Clínias de Cnossos, no diálogo As Leis, de Platão, e por Demócrito de Abdera. Este último pondera, com efeito, que “não somente é heróico o vencedor dos inimigos, mas também o triunfador dos próprios desejos” [2] e que “vencer-se a si mesmo é a primeira de todas as vitórias”, ao passo que “ser vencido por si mesmo é a mais torpe e a pior cousa” [3]. Já Clínias, havendo observado, no referido diálogo platônico, que “cada um de nós é seu próprio inimigo” [4], salienta que “a vitória sobre o eu é de todas as vitórias a mais gloriosa e a melhor, e a auto-derrota é de todas as derrotas de pronto a pior e a mais vergonhosa, frases que demonstram que uma guerra contra nós mesmos existe em cada um de nós” [5].

A Revolução Interior proposta por Plínio Salgado se configura numa mudança de atitude do Espírito em face dos problemas que lhe são apresentados, numa transmutação integral de valores que, de acordo com o sentido astronômico e tradicional do termo “Revolução”, implica um retorno do Espírito aos princípios – aos únicos verdadeiramente imortais princípios – da Tradição. Tal Revolução, a que também podemos denominar Revolução do Espírito, muda a totalidade dos conceitos, dando um novo e superior sentido de vida, e, na frase de Plínio Salgado, se traduz, antes de mais nada, na autoimposição de “normas de nobreza tanto na vida particular como na vida pública” [6]. Decisiva vitória do Homem em sua Guerra Interior, sendo, a partir dela, mil vezes mais fácil se combater o inimigo que há dentro dele próprio, consiste tal Revolução Espiritual na base da reedificação do Homem Integral, do Homem Novo que não é senão o Homem Tradicional, ou, se preferir, o autêntico Homem Nobre, que, a partir dela, passa a influir no ambiente que o cerca, fazendo sua parte na obra da Revolução Cultural, que, uma vez vitoriosa, construirá a Sociedade Integral e o Estado Integral, a Nova Sociedade e o Novo Estado que não são senão a Sociedade Tradicional e o Estado Tradicional.

Conscientes de que o preceito dos tempos que passam não é o lamento sobre o fato de que vivemos num Mundo em ruínas, mas sim a ação, o combate em prol da edificação de uma Nova Civilização Tradicional, de uma Nova Civilização Cristã na verdadeira acepção do termo, e de que esta Nova Civilização somente poderá ser edificada por uma Elite, uma Aristocracia do Espírito, nós outros proclamamos a imperiosa necessidade de nos fazermos, por meio da Guerra e da Revolução Interior, autênticos Homens Nobres, membros daquela Aristocracia Espiritual, dispostos a servir a Deus, à Pátria e à Família e a tudo sacrificar na peleja pelos tradicionais valores consubstanciados nesta trilogia, nobre como nenhuma outra.

 

[1] SÊNECA, Lúcio Aneu. Da tranqüilidade da alma, V. In Idem. Obras (Consolação a minha mãe Hélvia; Da tranqüilidade da alma; Medéia. Estudo introdutivo e tradução de Giulio Davide Leoni. São Paulo: Atena Editôra, 1955, p. 95.

[2] DEMÓCRITO, fragmento 214, segundo a classificação de Diels. In MONDOLFO, Rodolfo. O pensamento antigo. Volume I. Tradução de Lycurgo Gomes da Motta. 3ª ed. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1971, p. 112.

[3] Idem, fragmento 75, segundo a classificação de Mullach. In MONDOLFO, Rodolfo. O pensamento antigo. Volume I, cit., loc. cit.

[4] PLATÃO. As Leis, Livro I, “d”. In Idem. As Leis (incluindo Epinonis). 2ª ed. revista.Tradução, notas e introdução de Edson Bini. Prefácio de Dalmo de Abreu Dallari. Bauru, SP: Edipro, 2010, p. 69.

[5] Idem. As Leis, Livro I, “e”. In Idem. As Leis (incluindo Epinonis), cit., pp. 69-70.

[6] SALGADO, Plínio. Espírito da burguesia. 3ª ed. In Idem. Obras completas. 2ª ed., vol. XV. São Paulo: Editora das Américas, 1957, p. 47.
 
*Originalmente publicado no boletim "Ação!", da Frente Integralista Brasileira (Ano III, n. 09, janeiro-abril de 2013, p. 4).